O Caderno Dos Desejos
2 Capítulo 1
1 Semana Antes do Funeral
Meu pai estava de costas. Ele sempre está com um olho no trabalho e outro na família.
— O que o senhor está fazendo? — pergunto olhando por cima de seus ombros.
— Fazendo uma grande descoberta. — sorriu me dando um abraço.
— Toda vez que perguntam o que o senhor faz, eu não sei o que responder.
— Diga que seu pai é um cientista.
— O senhor? — sorriu, nunca vi por este lado.
— Sim! O seu pai está tentando descobrir um jeito para realizar os seus desejos e de seu irmão.
— Pai, não sou mais criança, não precisa continuar com as suas historinhas de quando eu era menor. Não existe a árvore dos desejos. Ou aquela folha.
— Um dia você vai acreditar em mim. — disse convicto.
— Tudo bem pai. Acho que o senhor está chegando na crise da meia idade. — ele riu alto, suas mãos começaram a fazer a festa em minhas costelas e comecei a gargalhar.
— Quem está ficando velho?
— Mamãe. — ele riu ainda mais alto.
— Que bagunça é essa? — disse minha mãe ao entrar pela porta, e já com a mão na cintura.
— Oi Mãe! — digo gargalhando e logo respirando fundo depois que ele me soltou.
— Oi querida. — ele caminhou até ela e a abraçou. — Como foi o trabalho?
— Cansativo. — suspirou. — Algum sucesso com as pesquisas?
— Avancei em grandes partes, falta pouco, muito pouco. — mamãe sorriu e lhe deu um beijo, virei o rosto e ouço eles rirem. — Como se você e o Jaz não se beijassem.
Gargalho alto, eu estou namorando há um mês, em breve completaremos dois, e esse dia será muito feliz.
— Mas é diferente. — digo e ele nega rindo.
— Você já disse pro seu irmão? — perguntou minha mãe abraçando meu pai.
— Ainda não. Quase não nos falamos. — suspiro, agora que Ed está no internato não temos tempo para conversar.
— Ele vai ficar chateado. — disse meu pai pegando suas coisas e levando para o seu laboratório.
— Quando ele vier para cá eu falo.
— Como se isso fosse dar certo. — disse minha mãe indo para o quarto.
Sento no sofá da sala e relaxo. Eu preciso avisar Ed. Não pensei que ele poderia ficar chateado, ou magoado por eu não ter falado nada. Talvez ele não fique.
Charlotte: Oi Jaz, vamos sair hoje? Estive pensando em irmos na sorveteria. *Me deu vontade*
Não demora muito para que o celular vibrasse e a mensagem de Jaz chegasse.
Jaz: Oi oi, claro. Estou passando aí daqui a pouco então.
Charlotte: Ok.
Deixo o celular na mesa ao lado da minha cama, abro o guarda roupa já procurando por uma roupa.
São nesses momentos que meu pai atrapalha tudo, ele tem um sorriso no rosto. Fica observando, ele vai para o guarda roupa e observa.
— Acho que a calça preta e a blusa rosa ficariam legais.
— Sério? — olho as duas peça e sorriu, ficariam legais.
— Sabe, eu pelo menos tenho que mostrar ao seu namorado que minha filha é linda.
— Obrigada pai. Você é maravilhoso. — digo ironicamente e ele me abraça.
— Você me ama que eu sei.
— Vou tomar um banho.
Saio do quarto e vou para o banheiro do corredor, há um tempo que o do meu quarto tem estado estranho. Ok, a água é gelada demais, jogo as roupas no cesto de roupa suja e entro no box. Ligo o chuveiro e espero a água esquentar. Delícia de água quente.
Enrolo um pouco no banho, ouço as batida de leve na porta.
— O príncipe chegou. — disse meu pai do outro lado do cômodo.
— Estou saindo! — quase grito e me apresso no banho.
Saio enrolada na toalha e corro pelo corredor molhando o chão. Mamãe grita para eu me enxugar no banho direito. Ok mãe.
No quarto, minha roupas estão estendidas na cama, papai é um amor de pessoa, ele gosta mesmo de me ajudar em tudo, aposto que se Ed estivesse aqui ele faria o mesmo.
Visto a calça jeans preta e uma blusa regata branca, e calço um vans rosa. Pelo jeito ele mudou de idéia sobre a blusa rosa.
— Tô saindo! — grito ao passar pela porta e me encontro com Jaz em frente a porta.
— Oi. — disse olhando em meus olhos, meu Deus ele é tão fofo.
— Oi.
Sua mão segurou a minha fortemente, então saímos juntos assim, direto para a sorveteria, que ficava perto de casa.
Não éramos um casal que chamava atenção. Jaz para falar a verdade era bem atraente, um pouco maior do que eu, uma pele morena de dar inveja, os olhos castanhos claros e o cabelo ondulado na cor preta. Eu já era o oposto dele. Um pouco baixa o cabelo curto e um tanto masculino, os olhos azuis iguais os de minha mãe, meu cabelo loiro e liso. Não chamo atenção.
Enquanto caminhávamos o meu bolso vibrava constantemente. Paro de andar e pego o celular.
— Oi? — atendo o celular, enquanto Jaz me puxa para continuar a andar.
— Oi. Lotte? É o Ed. — diz a voz do outro lado.
— Ed? Ai meu Deus! — quase grito e Jaz aperta minha mão. — Que saudade de você. Como está por ai?
— Estou com saudades de você também. Por aqui está tudo bem. Como está o pai e a mãe? Ainda não falei com eles.
— Eles estão bem. Papai ainda continua com ideias loucas. Mas ele é assim mesmo.
— Papai não tem salvação. — ele ri do outro lado.
— Lindo, vou ter que desligar. — digo ao chegar na sorveteria. — Estou em um compromisso muito sério.
— Tudo bem. Ligo mais tarde pro pai e pra mãe. Beijos. Te amo sua linda.
— Ok. Amo mais.
Desligo o celular e o guardo no bolso, Jaz tem uma expressão estranha. Aquelas que usamos quando estamos desconfiados.
— Era o meu irmão. Lembra que eu falei dele? — ele assente devagar.
— Mas o nome do seu irmão não é João?
— E é. João Eduardo Guedes. — sorriu e o vejo concordar.
— Uhm. Vamos entrar depressa.
Fui guiada pelas suas mãos. Entramos na sorveteria, não estava muito lotada. Nossa cidade não é tão grande assim, mas não é uma das menores. É quase como... Não tenho palavras para descrever. Mas aqui é muito fácil de se encontrar com alguém do Colégio.
— O que vão querer para um dia quente? — perguntou a garçonete simpática, assim que nos sentamos.
— Dois milk shakes de Ovomaltine. — disse Jaz sorrindo para a garota.
— Ok. Mais alguma coisa? — perguntou após anotar em seu caderninho.
— Só isso mesmo. Obrigado.
— De nada. Quando estiver pronto trarei aqui.
A garota se retirou, e Jaz a encarava. O que eu devo fazer nessas ocasiões? Eu não tenho palavras.
— Jaz? — minha voz saiu tão suave que olhou para trás para ter certeza se eu falei. Sim fui eu.
— Oi? — disse se virando lentamente para mim.
— Então, como está indo o Colégio? — pergunto como se não tivesse mais nada para dizer. E não tinha.
A verdade é que Jaz nunca olhou para outras garotas além de mim, e ele fazer isso de repente é completamente estranho. É como se ele pisasse em meu coração.
— Está indo. Sabe.
— Jaz o que houve? Você está estranho.
— Não é nada de importante. — disse suspirando, o que me levou apenas a uma alternativa.
— Você está com ciúmes do meu irmão? — digo e o vejo arregalar os olhos e seguro o riso. Porque ter ciúmes do Ed seria a mesma coisa que ter ciúmes de uma parede.
— Eu? — soltou uma risada forçada. — Claro que não.
— Você é um péssimo mentiroso. — dou um abraço rápido nele enquanto os nossos pedidos chegam.
— Mas porque você disse isso?
— Meio que... — pigarriei — percebi você fazendo algo que você nunca faz.
— Ah. — ele ficou sem graça. — Desculpa.
— Aqui estão. — disse a garota olhando para nós dois e entregando os pedidos.
— Obrigada.
— Obrigado.
— De nada.
Tomamos o nosso milk shake e conversávamos distraidamente. Eram nesses momentos que todos os tipos de assunto surgiam e a gente conversava até perder a hora. Mas não durou muito tempo por que Jane havia acabado de entrar na sorveteria, e sozinha ela não estava, não mesmo.
— Oi! — disse animada sentando logo a minha frente acompanhada dos nossos fiéis amigos gêmeos. Dylan e Daylan.
— Oi docinho. — disse Dylan sorrindo.
— Oi. Estou surpresa em vê-los aqui. — digo retribuindo o sorriso.
— Não é muito difícil não encontrar alguém por essa cidade. Afinal aqui é um lugar bem... pequeno?
— Quase isso Jane.
Eu e Jane conversávamos enquanto Dylan tentava conversar com Jaz. Mas ele é um pouco reservado, ao contrário de Dylan. Se for parar para pensar Jaz e Daylan são quase parecidos. A diferença é que Daylan não demonstra suas emoções, nesse pedaço Jaz demonstrava bem.
— Como está as paqueras? — sussurrei para Jane e ela riu.
— Aquele cara é um babaca. — suspirou. — Caras mais velhos são tão babacas. Estou um pouco cansada de caras como ele.
— Não achei que Carlos fosse assim.
— Vai por mim Charlotte, ele é.
— Então desta vez a solução é alguém da sua idade? — ela morde os lábios comprimindo um sorriso.
— Talvez.
— Ai meu Deus. Você está apaixonada? — ela ri e assente.
— Eu não tenho certeza. Mas é apenas um talvez. Entendeu? — assenti. Meu Deus, Meu Deus.
— Quem é o felizardo? — ela gargalhou alto chamando atenção dos três rapazes ao nosso lado. — Desculpe, Jane é meio louca.
— Desculpa. — pediu sorrindo.
— Quando Jane ri assim é porque tem rapaz envolvido. — dispara Dylan e Daylan deixa um pequeno sorriso escapar.
— Cala a boca docinho. Você não sabe de nada. — a esse ponto Jane já estava vermelha, Dylan ria, Daylan olhava para a janela e Jaz me encarava.
— Sério. Andar com todos vocês é sempre uma bagunça. — diz Daylan em um tom baixo. Ele sempre estragava a diversão.
— Bom de qualquer forma eu tenho que fazer meus pedidos e sair. Conversamos depois. — se ela lembrar de me falar. Jane se levanta e os gêmeos a acompanham e lá se vão meus queridos amigos patetas.
— Achei que não iriam mais. — sorriu Jaz. — Você fica diferente quando eles estão perto.
— Eles são um pedaço da minha alegria. E quando vocês estão juntos eu fico ainda mais feliz.
— Achei que você iria me pôr para o lado de fora.
— Nunca. — dou um beijo em sua bochecha.
— Vamos. Vou te levar para casa.
Jaz me acompanhou até em casa, a sorte de morarmos nesta cidade é que as lojas ficam perto uma das outras, o que não dificulta nossa vida nem um pouco.
— Está entregue docinho. — riu após me abraçar.
— Essa é a palavra do dia. — ele assente.
— Amo você.
Congelei. Aquelas eram as duas palavras mais importantes, depois da frase: Eu Te Amo. Eu fiquei sem reação. Ele nunca havia dito algo assim. E namoramos apenas 1 mês e pouco. Ainda iremos completar 2 meses, em breve, mas mesmo assim. Acredito que seja um pouco cedo para essas palavras.
O que devo responder? Estamos namorando e isso é óbvio, mas não quer dizer que já o amo, eu gosto dele. E convenhamos, amar e gostar são duas coisas totalmente diferentes. Certo? Certo!
Ele me encarava. Esperando eu dizer algo. O que posso dizer nesse momento?
— Eu também. — o abraço e já entro para dentro de casa.
A casa estava silenciosa. Andei para todos os lados e não tinha ninguém. Nesses momentos papai e mamãe deveriam estar aqui. Que estranho. Não faz tanto tempo que eu saí.
Desço para o porão. Papai costuma ficar lá e trabalhar em seus projetos estranhos. Que eu particularmente não os reconheço cientificamente, mas mamãe apoia, então como filha devo o mesmo.
— Pai? — desço as escadas, e há uma boa quantidade de folhas espalhadas em cima das mesas de trabalho.
— Estou aqui! — ouço-o gritar.
Atravesso o meio do porão e há outra porta. Lá estava ele com seus óculos de plástico e seu jaleco branco, um meio sorriso estampado em sua face branca e vários pedaços de madeira estilhaçadas pelo chão.
— Não vou nem perguntar. — digo observando a bagunça que ficou no chão.
— Nem fale pra sua mãe. Ela disse que eu poderia usar todo o porão a menos que eu o deixasse limpo e organizado. — bufou juntando os pedaços maiores da madeira.
— E o que o senhor está fazendo exatamente?
— Minhas pesquisas sobre uma determinada madeira e a construção de uma folha.
— Ok. O senhor é realmente estranho.
— Aconteceu alguma coisa?
— Ah, não, nadinha. Só achei estranho estar quieto demais lá em cima. Então vim te procurar.
— Então sua mãe deve ter saído.
— Sim.
— Quer companhia?
— Não tudo bem. Vou dar uma olhada em meus cadernos, feriados acabam com minhas boas vontades.
— Entendo. — riu. — Como foi o encontro?
— Foi bom. Jane, Dylan e Daylan acabaram aparecendo por lá depois. Mesmo eu não chamando.
— Eles devem ter um GPS, porque sempre encontram você e o Jaz por aí.
— Vai ver tem mesmo. Vou indo pai. Bom trabalho.
Beijo a cabeça do meu pai e subo as escadas outra vez. Mamãe ainda não chegou. Deve ter ido fazer as compras do mês. Ou da semana. De qualquer forma tenho que ir para o quarto.
E lá vou eu subir outra escada. Sento em minha cama e reviro minha mochila, pego meu caderno e começo a ver se tenho atividades importantes para daqui dois dias, que é quando o feriado vai acabar.
Tem tanta coisa na minha cabeça. Como organizar as tarefas e fazê-las, meu pai jogando seu tempo fora, meu irmão no internato (o que me faz acreditar que gêmeos tem mesmo uma ligação, porque eu sinto a falta daquela peste) e agora Jaz dizendo as palavrinhas nada mágicas.
Eu mereço isso tudo?
Me jogo na cama e durmo. Que se explodam as tarefas.
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