O Caçador de Sonhos
1 O Caçador de Sonhos
O Caçador de Sonhos
O caçador de sonhos vive sentado na lua. Lá de cima ele observa o vasto lago dos sonhos, com sua superfície normalmente plácida. Ás vezes, seus olhos de estrela captam pequenos fragmentos de sonhos, que se refletem na superfície.
À noite o caçador de sonhos prepara, com cuidado, sua vara de pescar. Ele conjura um cabo inquebrável, feito de pura vontade, e nele prende uma linha de bom senso, pois, no lago dos sonhos, esse material fica praticamente invisível. Nela, ele amarra um elaborado e pontudo anzol feito de medo. E, nesse anzol, ele espeta o mais importante: uma isca formada por pura dúvida.
(O caçador de sonhos, na realidade, é um pescador. Mas ele acha que “caçador” é um termo mais romântico, e o romantismo é tudo, quando se quer atrair sonhos.)
Com a habilidade adquirida pela prática, o caçador de sonhos balança o cabo e lança a linha no lago. A partir daí, só lhe resta esperar. Tudo depende do dia.
Tem épocas em que o caçador quase não fisga nenhum sonho. Nos “dias de esperança”, como ele chama, ele tem que esperar a noite toda para que algum sonho morda a isca. Houve um dia de Ano-Novo (ele lembra até hoje) que ele não pegou nenhum. Por outro lado, há dias de abundância. Em tempos de guerra, por exemplo, alguns sonhos praticamente pulam para fora do lago, e seu trabalho torna-se incrivelmente agitado.
Mas, normalmente, ele espera algumas poucas horas, pacientemente observando a superfície, em silêncio, com seus olhos de estrela. Sempre existem aqueles sonhos que, mais enfraquecidos, vêm nadar perto da superfície. E, normalmente, é questão de tempo até que um deles morda a isca.
Repentinamente, ele sente u m puxão. Nesse momento, suas mãos se tornam mais firmes no cabo, e seus olhos de estrela assumem um brilho penetrante. O caçador de sonhos puxa lenta e pacientemente o sonho, que tenta se soltar. Alguns sonhos mal lutam. Outros puxam vigorosamente, esticando a corda até que se dê a impressão de que ela vai partir. Mas ela nunca rompe, e o sonho aos poucos se cansa, espetado continuamente pelo anzol de medo e seguro pela linha de bom senso.
Nesse momento, então, o caçador de sonhos lentamente suspende o sonho do lago, erguendo-o com cuidado. Então, ele puxa o sonho para si. O caçador de sonhos enfia o cabo no solo da lua e, delicadamente, tira o sonho do anzol.
Ele pega o sonho com as duas mãos, firmemente e com cuidado, para não apertá-lo ou deixá-lo cair. O caçador de sonhos examina o sonho aninhado em suas mãos. O que ele vê, depende. Existem tantos tipos de sonhos quanto existem estrelas no céu. Algumas vezes, claro, existem sonhos repetidos, pois certos sonhos são frequentes e quase universais. Paz mundial, por exemplo, é um sonho que ele já fisgou muito. Existem outros mais únicos e simples. Conquistar o amor daquele menino da sala. Ter um filho. Ser presidente. O caçador de sonhos acha todos fascinantes.
Alguns sonhos já estão mortos nesse momento. São os mais fracos, que se acabam no momento em que são tirados do lago. Esses, o caçador de sonhos olha, por alguns momentos, e então guarda cuidadosamente no bolso infinito em seu peito. Ele mantém ali todos os sonhos mortos. De vez em quando ele tira um ao acaso e fica contemplando sua beleza inacabada, para sempre congelada.
Mas outros ainda resistem. Outros ainda estão vivos no momento em que o caçador de sonhos os pega nas mãos. Esses o caçador examina e, lentamente, um mínimo sorriso se forma em seus lábios. Ele, então, inspira profundamente e sopra sobre o sonho.
(O material de que é feito o sopro do caçador de sonhos é um segredo que ninguém ainda desvendou. Mas eu posso dizer que é possível sentir nele um cheiro de coragem, um odor de teimosia, um aroma de vontade e um leve, leve toque de loucura, entre outros cheiros não-identificáveis).
Ele coloca o sonho de volta no lago, causando leves ondulações na superfície. O sonho, normalmente, vai para o fundo do lago e o caçador de sonhos, silenciosamente, se pergunta se aquele será um dos poucos que terá força suficiente para furar o tecido do fundo e passar para o terrível e necessitado mundo da realidade, iluminando-o com sua luz.
E então o caçador de sonhos agarra novamente o cabo, coloca mais uma isca de dúvida no anzol e lança de novo a linha. Ele volta a mirar a superfície do lago com seus olhos de estrela, esperando que outro sonho morda o anzol.
Notas finais
Tomara que você tenha gostado! =D
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