Notas iniciais
Olá. Parece que as coisas não ficaram tão boas assim por aqui...

O Doutor me deixou de novo, assim que me levou para casa. Mas, dessa vez, ele avisou antes. Disse que era temporário, e que estava fazendo isso por que precisava ir atrás do Mestre, e não, não podia me levar com ele. Além disso: “É uma guerra entre mim e ele, não quero que ninguém mais se machuque”. Só pude dizer que tudo bem, que ia esperar por ele, e era bom que voltasse vivo e inteiro pra mim depois.

No dia seguinte, percebi ter esquecido de contar ao Doutor sobre a vidente estranha e o curioso perfume Estrela Azul.

Me acostumar com a vida normal foi bem esquisito. Tudo bem que eu passei minha vida toda daquele jeito, mas depois de sair por aí pelo espaço e tempo... Bom... Tudo parecia diferente agora.

Às eu me pegava olhando pela janela, para o jardim, ou ficando em silêncio tentando ouvir o som da TARDIS. E, conforme os dias foram passando, esses hábitos foram se tornando mais fortes. Eu acordava no meio da noite, jurando que tinha ouvido a TARDIS se materializando no meu quintal, mas não havia nada lá. Nem sinal do Doutor.

Meus pais apenas diziam que eu devia ser paciente. Mas paciência é algo que nunca tive. Alana me chamava para ver TV com ela, ou para fazer alguns doces. Secretamente, estava tentando me distrair. Ela nunca falava sobre o Doutor.

Depois da primeira semana, passei a me perguntar se tinha sido abandonada permanentemente. Talvez o Doutor tenha mentido, e me deixado. Talvez ele tenha ido para sempre e nunca mais ia voltar. Em pouco tempo eu seria apenas outro nome em sua longa lista de ex-acompanhantes.

Tudo bem, eu devia ser menos dramática. Ele disse “temporariamente”. Ia voltar pra mim. Mas até quando? Até quando eu ficaria com ele? Até quando seus acompanhantes podiam ficar? Até morrer? Até enjoar? Até ele cansar? Ou até casar com um idiota?

—Meu Deus, eu nasci pra ser a Rainha do Drama. -Resmunguei, me sentando. Eu não conseguia dormir, minhas paranoias sobre o Doutor pioravam durante a noite.

Peguei meu notebook, abrindo-o e procurando Reign no site que eu usava pra ver séries e filmes. A vida de Mary, Rainha da Escócia, teria que servir para me distrair no momento.

***

Mais uma vez não consegui dormir. Agora isso parecia fazer parte da rotina. Fiquei na cama, olhando a tempestade pela janela. Os trovões faziam o quarto clarear, dando um ar assustador ao ambiente.

Minha cabeça estava à mil. Não conseguia parar de pensar no Doutor, nem em suposições. Eram tantos “talvez”, “e se”, e “ou” que eu estava ficando com dor de cabeça.

—Você sente a minha falta, não é?-Olhei para o lado. A imagem perfeita do Doutor sorriu pra mim, deitado com as mãos cruzadas em cima da barriga.

—Você não está aqui.

—Não. Eu sou um Doutor Imaginário. Pensar onde eu estou ou não, não fará o tempo passar mais rápido.

—Não consigo evitar. -Comecei a roer as unhas. -Você vai voltar?

—Eu prometi que voltaria.

—Poderia me ligar... Ou mandar uma carta... Ou sei lá. Apenas me dê um sinal de que está vivo e bem. Onde você está?

—Eu não sei. Sou apenas sua imaginação, lembra?-Assenti.

—Então me conta uma história. -Me virei de lado.

Meu Doutor Imaginário era extremamente fiel ao Doutor real. O cabelo tinha o mesmo tom de castanho, e se você olhasse bem para o rosto dele, via pequenas sardas abaixo dos olhos.

—Você está se apaixonado por mim?-Perguntou.

—Cala a boca. E me conta uma história, qualquer uma. Só quero ouvir sua voz.

—Tudo bem. Era uma vez uma garota brilhante...

***

Deixei Alana na escola e peguei o caminho de casa lentamente. Não estava com pressa. Meus dias estavam sendo tediosos, como eram antes do Doutor.

Tudo bem que agora eu tinha a companhia do Doutor Imaginário, mas eu o evitava, tentando fingir que ainda tinha um restinho de sanidade.

Comecei a fazer uma lista mental de coisas para fazer quando chegasse em casa. Assistir Reign. Arrumar meu quarto. Terminar de ler Julieta Imortal. Assistir Cult. Pintar minhas unhas.

—Kaliane!

Talvez dormir um pouco. Ou assistir um filme...

—Kaliane!-Parei de andar, confusa, e me virei. Jack correu na minha direção, e parou, cansado. -Garota, onde você está com a cabeça? Estou te chamando faz séculos...

—Desculpe. Eu achei que era... -O Doutor Imaginário. -Esquece. O que foi?

—Preciso falar com você. Podemos sentar ali?

—Claro. -O segui até uma mesinha na praça e nos sentamos frente a frente. -Aconteceu alguma coisa?

—Primeiro de tudo: eu sou o Jack de 2030. Preciso que tenha isso em mente.

—Eu não entendi.

—Viagem no tempo, lembra? Eu vim do futuro. Se você ir até a base da Torchwood agora mesmo, em Cardiff, vai me encontrar lá. No ano de 2030, eu saí de onde estava e voltei no tempo para encontrar você.

—Por que não foi até a “eu de 2030”?

—Intuição. Eu precisava da Kaliane de 2009.

—Por quê? O que aconteceu?

—O Doutor, de 2030, foi capturado por inimigos. Não é o mesmo Doutor que você conhece, ele regenerou.

—Onde está o meu Doutor?

—Eu não sei. Kali, preciso que preste bem a atenção nisso: o Doutor teve a mente apagada. Seus inimigos o convenceram de que ele tem a missão de encontrar e destruir o Doutor.

—Mas ele é...

—Eu sei. Ele é o Doutor. Parece humor negro, não é?-Não consegui responder. -A Torchwood está encontrando e avisando todos os companheiros e ex-companheiros do Doutor. O Caçador da Tempestade pode vir até vocês. Ele está seguindo pistas, indo atrás de qualquer coisa que leve até seu alvo. Kali, você também é um alvo agora.

—O que acontece se... Ele vir atrás de mim?

—Eu não sei. Não sabemos do que ele é capaz, exatamente. Até agora não há registro de ninguém morto ou ferido. Mas ele começou faz pouco tempo. Em hipótese alguma você deve dizer ao Doutor quem ele é. Entendeu?

—Entendi. -Tirou algo do bolso. Parecia um círculo achatado com uma alça metálica. Era pequeno, do tamanho do meu pulso. -O que é isso?

—Uma arma, feita pela agente Ametista. Se o Caçador da Tempestade se aproximar, encoste isso no peito dele. Vai lançar uma onda de choque que vai derrubá-lo na hora. Ele vai ficar inconsciente por cinco horas, que será o suficiente para virmos buscá-lo e prendê-lo.

—Não vai machucá-lo?

—Não permanentemente. É só um choque nos corações.

—Só um choque?

—Kali, isso é importante. Não estamos falando do Doutor. Estamos falando de um inimigo. Ele não vai saber que gosta de você, que é seu amigo e que nunca ia machucá-la. -Me entregou a arma de choque e um telefone. -Quando nocauteá-lo, me ligue imediatamente. Está programado para me ligar no futuro. Então venho com uma equipe, de 2030 para 2009, e levaremos o Doutor. Entendeu tudo?

—Sim. Entendi.

—Ótimo. Agora eu preciso ir. Tenho uma lista grande de pessoas pra visitar hoje. -Ficou de pé, pronto para ir embora, mas parou. -Vai ficar tudo bem. Não temos certeza se o Caçador vai aparecer. Se ficar com medo, pode me ligar. -Assenti, insegura. Sabia que não ia ligar. Só se o Doutor aparecesse mesmo.

—Jack... Por que o chama de Caçador da Tempestade?

—Por que ele está caçando uma. Um dos apelidos do Doutor é Tempestade Iminente. -Começou a se afastar.

—Como ele é?-Se virou. -Como o Doutor... Como o Caçador se parece?

—Aparenta ter uns cinquenta e poucos anos, cabelos grisalhos, sobrancelhas grossas... Essa é a aparência atual dele. Preciso ir agora. Ligue se precisar.

E se foi, antes que eu pudesse contar que de acordo com a garota vidente de Eldamar, o Caçador da Tempestade estava definitivamente vindo atrás de mim.

E ele ia me encontrar. Não importava onde eu me escondesse.

Notas finais
Tadããã! Finalmente o título fez sentido, não é? Eu sou péssima em escolher títulos, mas esse é um que eu gosto. Se fosse "O Caçador da Tempestade Iminente" ficaria muito na cara. E parece que o Caçador vem mesmo atrás da Kali... Ou a vidente estava errada? Mais uma referência à Ametista. Cada vez mais a história dela se aproxima. "O Caçador da Tempestade" está chegando na reta final. E além de tudo, a Kali arrumou um amigo imaginário... Será que alguém aqui vai achar isso familiar? (Nope, não estou falando de Amy Pond...) Então... Até o próximo capítulo, pessoas ♥