A infiltração silenciosa era a especialidade de Mellysa. Ela conhecia os pontos cegos do sistema de Vance Jr., o herdeiro sádico que havia assumido as operações mais cruéis do grupo.

​Enquanto avançavam pelos túneis de ventilação do complexo de segurança máxima, o silêncio era interrompido apenas pelo som das batidas dos corações de ambas, que pareciam bater em uma sincronia perigosa.


​— A sala de servidores centrais fica logo depois da cela da minha irmã — sussurrou Mellysa, ajustando o comunicador. — Hadjha, se Vance Jr. acionar o protocolo de purga, todos os dados sobre a traição da nossa família e a localização da minha irmã serão deletados... junto com o oxigênio do setor.

​— Ele não vai ter tempo — Hadjha respondeu, os olhos gélidos focados na tela do braço mecânico. — Eu já plantei um vírus dormente na rede elétrica. No meu sinal, o complexo fica às escuras.

​Elas desceram silenciosamente no corredor das celas. Mellysa correu para a porta 402. Ao abri-la, encontrou uma menina pequena, encolhida em um canto. O reencontro foi mudo, um abraço desesperado que Hadjha vigiou com o rifle em punho.

​— Tire ela daqui, Mellysa. Agora! — Hadjha ordenou.

​— E você? — Mellysa perguntou, os olhos transbordando medo.

​— Eu vou apagar o rastro dos Lâfrer. E vou garantir que Vance Jr. nunca mais use o nome de ninguém como arma.

​Mellysa hesitou, mas viu a determinação de aço no rosto de Hadjha. Ela assentiu e correu com a irmã em direção à saída de emergência.

​Hadjha chutou a porta da sala de controle. Vance Jr. estava lá, sentado diante de uma parede de monitores, um sorriso de escárnio no rosto. Ele segurava um dispositivo de detonação remota.

​— A Filha do Aço... — ele riu, a voz arrastada. — Você acha que ganhou? Eu tenho provas de cada segredo sujo que seu pai escondeu. Se eu apertar este botão, a Fundação Lâfrer cai antes do amanhecer.

​Hadjha não hesitou. Ela não deu um discurso.

​— O problema de pessoas como você, Vance, é que acham que o poder está na informação. — Hadjha disparou o canhão de pulso, não nele, mas no servidor central. — Mas o poder real está em não ter mais nada a perder.

​As telas explodiram em faíscas. No mesmo instante, Hadjha avançou. O combate foi curto e brutal. Vance Jr. tentou sacar uma arma, mas Hadjha, mesmo com a mão ferida, o imobilizou com a força de seu braço mecânico. Ela o jogou contra o painel em chamas.

​— Isso é pela Mellysa. Isso é pela minha família. E isso é por cada pessoa que você usou como peça de xadrez.

​Com um comando rápido em seu visor, Hadjha executou o "Protocolo Zero". Uma descarga massiva de energia percorreu o sistema, fritando todos os bancos de dados dos Vance que continham chantagens contra os Lâfrer. O legado de medo daquela família foi reduzido a fumaça em segundos.

​Vance Jr. tentou se levantar, mas o teto começou a ceder. Hadjha saiu da sala sem olhar para trás, enquanto as chamas consumiam o último dos Vance e todos os segredos que ele guardava.

​AMANHECER NO SETOR 8

​Hadjha caminhava pela neblina, exausta, o uniforme rasgado e a mão direita pulsando de dor. Ao longe, ela viu a silhueta de Mellysa, sentada em um banco de pedra ao lado da irmã, que dormia enrolada em uma manta.

​Mellysa se levantou ao ver Hadjha. Ela correu em sua direção, parando a poucos centímetros.

​— Acabou? — Mellysa perguntou, a voz embargada.

​— Acabou, Mellysa. Os dados sumiram. Os Vance sumiram. — Hadjha olhou para o horizonte, onde o sol começava a surgir. — E a Dra. Valentine também sumiu para o resto do mundo.

​Mellysa segurou o rosto de Hadjha com as duas mãos, ignorando o sangue e a fuligem.

— O que fazemos agora? Não temos casa, não temos nomes...

​Hadjha finalmente sorriu, um sorriso real e leve.

— Agora, nós escrevemos o nosso próprio contrato. Sem cláusulas de família, sem ordens militares. Apenas nós.

​Mellysa não esperou por mais explicações. Ela puxou Hadjha para um beijo, mas desta vez, não havia desespero ou traição. Havia apenas a liberdade de duas mulheres que incendiaram o mundo para poderem, finalmente, se encontrar nas cinzas.