Eu perdera a conta de quanto tempo me encontrava neste estado de melancolia, no começo foi apenas uma leve tristeza, como a qual nos acomete depois de uma semana nublada e o tão esperado raio de sol não vinga no sábado. O próximo estagio que me lembro foi como se o desanimo tivesse aos poucos firmado certo domínio sobre mim, nesta época lembro que a ideia de passar os dias com pijamas não era algo repugnante, estava mais para confortável, e é claro que podemos conviver muito bem com o conforto, afinal comodidade nunca é algo que nos faz mau.

Depois veio a pior parte, aquela em que a vida parece não ter sentido, os dias são nublados mesmo no verão, nesta época eu já estava absorto, a ideia de inconstância da vida não era estranha, queria e desejava o fim. Foi quando resolvi fazer uma balanço especial da vida, era como se ao invés dos ativos conter bens e nos passivos conter dividas de um lado coloquei as razoes que me fazem continuar meus dias na terra e no outro as que me faziam querer voltar a premissa de que do pó nos viemos e ao pó iremos retornar.

A principio me lembrei que tenho uma casa confortável, mesmo que falte o luxo, ainda sim era o que abrigava convenientemente. Também tinha rendimentos que tranquilizava meus dias e me permitia fazer pequenas apostas quando achava cabível, pequenos caprichos e nada mais.

Claro que era mais fácil falar de bens materiais, assuntos como família, amigos, relacionamentos e até mesmo a carreira eram desgostosos demais para mim, eles ocupavam o segundo polo, eram as razões para a minha deserção da vida.

Nunca estabeleci certa proximidade com os meus familiares, claro que não estou dizendo que não nutro certo amor por eles, mas depois de tanto tempo, de tantas ceias de natal com a companhia apenas de uma garrafa de vinho e a guarnição reservada a data, já me sentia um estranho entre os meus pares. Os anos se passaram com a interminável entrega de convites de casamento, cada vez que recebia um me sentia no dever de mandar os presentes aos afortunados noivos remetentes, mas não me recordava das cerimonias, nunca estava presente, as vezes nem sabia direito de qual parte da família o casal fazia parte.

Quanto aos amigos, bem cada um seguiu com a sua vida, engraçado, a vida nos faz pensar que são eternos, mas não, chega um momento em que os amigos fazem novos amigos e você tem duas opções ou você continua com o ciclo ou você se torna um taciturno eremita, não preciso dizer que a segunda opção se encaixou perfeitamente no meu estilo de vida.

Relacionamento, palavra comprida com um significado complexo, mas que para mim não representa absolutamente nada. Das diversas paixões as quais tive, nenhuma passou da união prazerosa de corpos, nada de almas, só carne, apenas um conjunto de pele, suor e a luxuria crescente entre ambos. O amor nunca me foi dado, acho que nunca tive a permissão de amar, essa graça nunca foi me dada, por mais que tenha procurado, simplesmente não fui arrebatado por esse amor que da a vida um significado, que faz com que queria estar com a mesma pessoa por mais de um mês e o mais curioso morando sobre o mesmo teto.

Devo atribuir todos este fracassos pessoais a mim, no entanto é mais fácil dizer que grande parte das ausências que no fim me custaram a vida, foram provenientes da minha carreira.

A minha exaustiva carreira, a mesma que me afortunou, mas que me fez esquecer da pessoa que eu via no reflexo do espelho. Passei anos trabalhando, conquistando espaço, recebendo promoções, um grande cargo e prestigio, depois de tudo isso percebi que tinha vendido a alma para o diabo, ele me dera tudo o que eu não tinha e em troca dei quem eu era.

No final já sabia da resposta, o lado negativo superava o positivo, agora só me restara o deleite do planejamento do meu fim. O ultimo ato de um ator mediano.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.