O Céu de Calebe
3 Domingo
Lembro bem como começou o meu sonho tenebroso, era uma manhã de Domingo e todos fomos para o centro da cidade. Meu vô era muito conhecido e boa pessoa muito bem vista pelos estrangeiros, mas pelos locais, não.
A vila de Thorpe, o centro dela, era bonito e muito bem colorido. Acho que nunca havia visto tantas cores na minha vida, era como a aurora boreal que pintava nossos céus assim que não haviam nuvens pra cobri-la. Porém, eram de tons mais vermelhos e rubros, meu avô me ensinava segurando minha mão como negociar e como falar a língua deles, ensinou tanto para mim quanto Yamar que sempre queria cheirar as flores que nasciam no Verão-Outono.
— Jihei... — chamou minha mãe. Eu fui atender seu pedido soltando a mão do meu vô, ela procurava uma roupa que combinava com ela, eu sorria achando tudo aquilo engraçado. Não seria Yamar que deveria estar em meu lugar? Julgando qual cor fica melhor em nossa mãe?
— Eu preciso fazer isso mesmo mãe? — perguntei reclamando ao ver o vovô e Yamar acariciando um cavalo negro e forte que um Gayo estava vendendo.
— Só mais esse e você pode ir com seu avô, está bem? — falou ela bagunçando ainda mais meu cabelo. Eu concordei.
Vendo que estava com problemas pra amarrar na cintura eu a ajudei, nessa hora um bando de crianças passavam e de longe ficaram nos observando.
— Mãe. O roxo fica bonito na senhora... — disse passando pra ela o tecido. Ela se admirou no espelho quando pôs o tecido como um manto, ela sorriu satisfeita com a combinação dos tons de sua pele com o violeta.
— Tem razão meu menino... — falou contente. Se virou e beijou minha testa. — Obrigada, pode ir para com seu avô.
Eu assenti e saí pra falar com meu avô sobre a mercadoria, ele mostrava pra Yamar perfumes exóticos e ouvi dizer pra ela enquanto acariciava o cavalo negro.
— Yamar, você poderia ser como Huy. — falou dizendo o nome da senhora que vendia os perfumes, ela sorriu docemente concordando. — Fará perfumes fortes, suaves e doces como ela faz e ser uma grande mercante!
Meu vô pensava que os menores trabalhos eram os mais honrados e por ali, não havia muito trabalho grande demais para ser digno de honra só por dizer, mas ser uma burguesa? Fazer parte da burguesia era quase que perfeito, ainda mais para nós.
— Sério vovô? O senhor acha mesmo?
— Não só ele, mas como eu também Yamar, ser minha aprendiz, assim seja... — falou a Sra. Huy que dava pra minha irmã uma flor, uma rosa vermelha, Yamar olha pra ela esperançosa e ansiosa.
— Eu aceito minha senhora... — falou Yamar com educação junto de uma reverência como agradecimento. Huy sorriu novamente dizendo que era uma graça ver a neta do meu vô.
Nessa hora, um bando de crianças não me cercaram, mas passaram por mim e tamparam a visão de minha irmã e avô. Eu olhei pra eles e vi que era um pouco mais alto, nada mais que dois centímetros, mais do que isso ou menos seria mentira. Elas me olhavam como coelhos curiosos pra ver o que poderia ser aquilo que estava diante deles, eu continuei passando a mão no garanhão que realmente havia gostado da carícia.
— Quem é você? — perguntou um menino, menor do que eu, mas com cara de raposa quando vai aprontar alguma. Mas ainda era ingênuo na época, então me poupem, dessa vez.
— Sou Jihei. — estendi a mão para cumprimentá-lo, mas ele sorriu com desdém. Hoje posso dizer que ele parecia um mimado filhinho de um nobre que estava de passagem por ali.
— Eu nunca apertaria a mão de um estrangeiro sujo como você... — falou e as outras crianças riram e me chamando de sujo, o que era engraçado já que, naquele momento estava mais limpo do que elas.
— Bom, não tem porque apertá-la, não é? — falei sorrindo envergonhado, era a primeira vez que diziam que eu era "sujo".
— Eu sou Túlio, filho do Sir Mildren, um dos cavaleiros do rei.
— Legal. — disse apenas, aquilo não entendia a importância de ser um cavaleiro do rei, meus pais eram os melhores caçadores e arqueiros da geração deles, com isso eu me orgulho. Por que acharia interessante algo que nunca ouvi falar e que nem sabia o que era?
— "Legal"? Só isso? — ele me encarou perplexo. — Você deveria se curvar diante de mim. — ele parecia mandar fazer aquilo, o que pra mim soou ridículo.
— Por que faria isso? — perguntei, afinal era estranho, nós apenas curvávamos para chefes e tratávamos como respeito sua família, mas se um cavaleiro era como se fosse um caçador ou um guerreiro, por que me curvar senão faziam parte da família real?
— Tolo! Você não terá nenhum amigo assim!
— Pra fazer amigos eu preciso me curvar como se eu te temesse? — perguntei perplexo agora, aquilo era horrível, amigos tem que se tratar como iguais, certo?
— Sim! No seu caso sim, afinal, vocês são uma raça inferior a nossa. Vocês são a escória de nosso amado país. — falou, eu não sabia do significado de "escória", mas entendia que eram como os corvos ou como os lobos no meio de ovelhas.
Eu tentei ignorar aquelas palavras, mas as crianças começaram a vir pra cima de mim e Túlio me empurrava até que eu caí num monte de lama, enquanto isso me chamavam de "sujo", "doente", "raça ruim" e "anormal". Diziam que quem era normal não vivia no frio do inverno andando descalço, da mesma forma que diziam que minha raça são os doentes de que o mundo deles tem que cuidar. Me senti ridículo, humilhado e inútil. Quando todos os meninos saíram eu me levantei tentando me limpar até que vi uma garota parada na minha frente, eu tirava a lama do meu cabelo e vi que ela segurava um tecido grosso nas mãos, uma toalha de cor negra. Meus olhos vazios a encaravam e vi ela tentando encontrar palavras para aquilo.
— Se quiser me xingar também... — falei desmotivado e sem emoção. A menina começou a derramar uma lágrima negando com a cabeça.
— É que, isso é errado... — disse pensativa me encarando, deveria ter sete pela aparência e o jeito tímido e delicado de dizer aquelas palavras, veio até mim e me deu a tolha, era macia e quente, provavelmente deixou no sol.
— Pode ficar com ela — disse pra mim. Eu limpei meu rosto e quando ia agradecer ela havia ido embora junto do grupo de crianças.
— Jihei! — ouvi me chamar e parei na sua frente pra ouvir o que ele tinha a me dizer. Ele me encarou de cima a baixo horrorizado com minha aparência, ele pegou nos meus ombros e pegou a toalha de minhas mãos me observando, eu estava quieto e, obviamente, com tanta amargura que deixei umas lágrimas marcarem meu rosto sujo. — Meus céus! O que houve com você?
— Tropecei enquanto acariciava o cavalo e caí no monte de lama, ele é muito forte vovô. — falei sorrindo com os ombros tremendo pra segurar o choro que ia vindo pela minha garganta. Não podia contar, porque senão ele contaria pra mamãe que ficaria triste e decepcionada com aquilo tudo, sendo que, o sonho de ter um "recomeço" se despedaçaria.
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