O Buraco da Fechadura

1 Capítulo Único - Olhando pelo trinco


Bisbilhotando a festa do pijama da irmã mai velha, Victor descobria o motivo do imensa gratidão masculina pelos buracos das fechaduras. Ele, que sempre teve um queda por Sara, melhor amiga de sua irmã, agora realizava um sonho:

– Que linda camisola...

Victor, de recuperação, devia estar estudando. Pelo menos foi o que a mãe disse antes de sair para o teatro:

– Bruna, faça com que o descarado do seu irmão passe a noite com a cara nos livros. Mamãe tem que se divertir pra esquecer o gasto com a recu.

Logo após o aviso da mãe, veio a ameaça da irmã:

– Já que você não é civilizado, peguei a chave do seu quarto com a mamãe. Se você aprontar alguma, eu juro, garoto: nunca vai esquecer essa festa. Você não tem noção de como eu posso ser vingativa.

"Ha-ha", pensou. "Vingança. Até parece. Além do mais, eu tô estudando... Anatomia".

De dentro do quarto, uma fala o fez voltar ao presente:

– Bru, bota um som aí. Um funk, de preferência. — Era Sara.

– Desde quando você gosta de funk? — Bruna. Uma careta.

– Desde o momento que Guilherme me disse que eu fico uma graça dançando. Filma aí.

Guilherme era um idiota por quem todas as garotas faziam tudo. Tudo mesmo.

"Sara, sua idiota, não faça isso", ele pensou. "Se ele gostasse mesmo de você, estaria aqui, olhando pela fechadura".

Mas a música começou. Se Victor era um ser pensante, resolveu mudar de espécie. E se espremeu contra a porta. Na hora que ele abriu o ziper da calça, algo aconteceu.

A campainha soou.

– A pizza, galera — Bruna falou, por cima da música.

A música parou. Victor não sabia se corria ou fechava o ziper. As garotas foram na direção da porta.

Correr era melhor.

E ele tropeçou na própria calça, que estava abaixada.

A porta se abriu. Caras de surpresa. Depois, risos. Victor tinha que se explicar.

– Bruna, eu...

– Sara, eu acredito que isso foi culpa sua. Parece que meu irmãozinho estava... concentrado na sua coreografia.

Elas riram. Sara sorriu. Victor levantou e evitou olhar nos olhos das garotas.

– Acho melhor eu...

– Também acho, Victor. Vão buscar a pizza. Vou ensinar meu irmãozinho umas regrinhas.

Ela pegou ele pelo braço e o levou para o quarto, jogando-o na cama.

– Na próxima vez, eu faço você passar mais vergonha.

Ela atravessou o quarto e saiu. Sara continuava no corredor, sorrindo.

Victor ouviu o trinco girar.

– Ah, cara...

Socou a porta. Várias vezes.

Ligou o computador. No word, digitou:

"Sara — Parte XXXVI

Lições:

1.Nunca confie em fechaduras

2.Tenha medo das ameaças de Bruna

3.Sara não combina com funk. Ela até dança bem sexy, mas não é ela. Ela é mais e melhor que isso."

– Seu ziper ainda tá aberto, Vic.

Lenhou. Sara.

Ele correu o mouse, mas ela o impediu de fechar o word.

– O ziper, Vic.

A mão dela estava sobre a dele, no mouse. Ele olhou nos olhos dela e assentiu, fechando o ziper.

Ela riu e sentou na ponta da cadeira dele, para ler o resto do arquivo. Depois de alguns minutos, ela chegou ao final.

– Feche os olhos, Vic.

Ele fechou, com vergonha. Ouviu as teclas sendo apertadas.

– Pode abrir.

Ele olhou para a tela:

4. Não esquecer de fechar o ziper.

– Essa é boa, Vic?

– Demais.

– Tem mais uma, bem no finalzinho.

Ele olhou. Leu e sorriu.

5 minutos mais tarde, depois da pizza, as garotas subiram. Ao verem a porta do quarto de Victor aberto. Bruna procurou a chave no bolso do casaco e lembrou: Sara havia pedido o casaco emprestado. Entraram em silêncio e encontraram os dois estudando, de mãos dadas. Uma delas apontou para o computador, surpresa. As outras leram e foram embora para o outro quarto. Bruna sorriu e fechou a porta, lentamente.

No word, estava escrito:

5. Continue assim. Vai que Sara te dá um chance! No final, ela vai perceber que você merece.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!