O Bruxo da Capitania São Vicenzze
5 Meses antes
Rose sentia cãibra fantasma na perna de metal. Cada balançar da carruagem era uma chacoalhada no corpo da mulher.
Maldita dor que não me larga um segundo.
A mercenária enrolou-se no xale. Pela janela, via-se apenas neblina e matagal. Ela decidiu repassar o telegrama que a havia convocado.
Cara Roselyn Viggs,
Sou o barão Chuma Ogana, arrendatário de duzentos hectares, dono da mina de carvão Lucrecia e proprietário de trezentos e dezenove mutuns.
Uma das minhas propriedades foi infectada por uma terrível praga, um inimigo do próprio deus, um bruxo. Os sintomas das vítimas de feitiçaria são os seguintes: a pessoa começa a ver demônios e criaturas das profundezas e, por fim, a vítima entra em pânico e corre para a floresta. Ela agride todos em seu caminho, até mesmo parentes próximos. Algumas pessoas puderam ser recuperadas depois da fuga, essas estavam desmaiadas e não apresentaram comportamento estranho. O rastro das demais leva a um beco sem saída. Dias depois de seu desaparecimento, os ossos das vítimas surgem em algum lugar do pasto, cercados por cinzas e um círculo demoníaco.
Você foi recomendada pela excelentíssima capitã-donatária, Jaquize Vieira. Segundo ela, é a melhor caçadora de bruxos da capitania São Vicenzze. Portanto, com o objetivo de melhor servir vossa majestade, o rei Henrik III, exijo que elimine esse mal das minhas terras. Caso obtenha sucesso, será recompensada com sessenta moedas de ouro.
Atenciosamente,
Barão Chuma Ogana
Exijo. Ela bufou.
A mercenária orgulhava-se de ser livre. Não tolerava tratamentos desrespeitosos de ninguém, muito menos de homens. Mas aquele caso a interessara. O bruxo que destruiu sua vida era um carniceiro, controlava sangue e ossos. Talvez ali a mulher encontrasse uma pista, ou, com sorte, o próprio diabo.
A carruagem desacelerou até parar. Rose se deparou com uma mansão de madeira no estilo vitumano. Devia ter sido oneroso trazer aquelas janelas de vidro da capital. Foi recebida por uma mulher gorda de pele escura, lábios grossos e cabelo volumoso contido apenas por uma fita. O vestido rosa estava impecável e joias podiam ser observadas nas mãos e orelhas.
A mercenária fez uma reverência.
— Seja bem-vinda, Roselyn Viggs. Sou Pachuna Ogana, filha do barão e responsável por esse engenho.
Alguns homens com coleiras no pescoço cercavam a senhorinha.
Esses escravagistas deviam ter sido eliminados junto com o império vitumano. Na metrópole, o mutunato era proibido. Aqui, nossa capitã donatária não para de engolir o esperma do barão, fica impossível assinar qualquer lei.
— Querida, sinto muito. Igor, pegue as malas da nossa convidada. Acompanhe-me, amada, irei mostrar-lhe seus aposentos — disse Pachuna. — Temo ser eu a dar as notícias. Mas o bruxo, mencionado na carta, foi capturado ontem pela manhã. Iremos purifica-lo esta tarde.
Rose suspirou.
Enquanto as malas eram retiradas da carruagem, um ser aproximou-se. Era esguio, alto e a pele estava bem bronzeada. A ausência de camisa evidenciava um corpo talhado pelo trabalho na roça, suas orelhas estavam carcomidas, como se ele tivesse sido atacado por um animal selvagem, talvez um cachorro.
— Liu? O que faz aqui?
— Guiar melcenália.
— Não Liu, já disse e não vou repetir. Seu lugar é na lavoura. Agora vá!
Ele abaixou a cabeça e retornou por onde veio.
— Perdoe o idiota. Ele foi encontrado na beira da estrada, ferido e doente, deve ser algum órfão. O pobrezinho tinha perdido até a capacidade de falar.
Rose franziu o cenho. O mutunato não se importava com raças. Os vituns o praticavam até com seu próprio povo. Era um absurdo uma prática que beira a escravidão correr impune na capitania.
— Bom, vou conduzi-la ao seu quarto, você deve estar ansiosa por um banho. Irá comparecer na purificação do bruxo?
— Vou.
— Que bom. — Ela aplaudiu.
***
O sabonete possuía um aroma mesclado de curupi, irizema e vorudâ; escorria macio na pele da mercenária. Havia um tônico cor de mel para os cabelos, tinha aroma de jujupin e causava um comichão quando encostava no nariz. A banheira quente, em contraste ao dia frio, cobria a mulher como um bálsamo merecido.
As roupas foram outra cortesia generosa. Variavam de vestidos da corte com laços, segundo a moda Vitum, até algo mais obscuro, como as calças sem divisórias da capitania Ethus. A mercenária decidiu por botas de cano alto, uma calça de viagem bege e um corpete azul escuro.
O tronco de madeira estava armado na frente da capela. Os mutuns vestiam suas melhores roupas para observar a ação divina sobre o ímpio. Pachuna estava abaixo de um guarda-sol e acenou com vigor quando viu a mercenária. As pessoas encaravam Rose com expressões de intriga e medo. Ela preferia assim, facilitava o trabalho. Sua prótese mecânica apitava que nem chaleira velha.
O suposto bruxo possuía olhos verdes e barba longa em trança, um nórdico. Provavelmente veio enganado pela propaganda dos vituns.
Esses imigrantes vivem horrores no mar do kraken para descobrir que a capitania é um inferno pior que a viagem.
— Sabe como o padre descobriu o culpado, Rose? Rose, que apelido bonitinho, posso te chamar assim, não posso? — perguntou a filha do barão.
— Pode.
— Ele pediu para todas as pessoas beijarem a bíblia três vezes e afirmarem que Deus era o único salvador. Esse homem recusou-se, portanto, o bruxo foi encontrado.
A mercenária assentiu e observou a face do nórdico. Ele devia ter sido um orgulhoso guerreiro. O que o motivou a abandonar sua pátria? Ela sentiu um calafrio quando lembrou as histórias que ouvira sobre o Norte. Se uma pessoa desse tamanho ficou assustada, seria prudente tratar as fábulas com seriedade.
Rose abriu caminho até o tronco, enquanto o nórdico gritava obscenidades. Com um movimento de faca, ela soltou uma mão do prisioneiro. Homens tentaram impedi-la, mas foram detidos pela Pachuna.
A mercenária derramou um pó verde nas mãos do prisioneiro, em seguida pegou uma das tochas acesas e ameaçou colocar fogo na pira. Ele olhava o pó com espanto.
— O que é isso, sua puta?
— Salve-se.
Ela largou a tocha.
O homem ficou sem reação até ver as chamas lamberam seus pés. Ele soltou o reagente e começou a gritar de dor. O padre observava a cena indignado, afinal, ainda faltavam muitas palavras antes da execução.
— Apaguem o fogo, este homem é inocente.
Rose fez uma pausa dramática e encarou a multidão, sabia que a plateia era dela.
— Bruxo, já descobri seu segredo. Não adianta escapar, vou encurralá-lo esta noite — gritou.
Em seguida, virou-se em direção à mansão e andou até seus aposentos.
***
Um aroma de café antecedeu batidas na porta. Era daqueles fortes, torrados de forma artesanal e com uma consistência possível apenas em zonas afastadas dos centros urbanos.
Rose estava sobre uma cadeira de balanço.
— Entre — ela disse.
— Minha senhola, trouxe café para esquentar sua talde — disse Liu, o homem com a orelha carcomida.
— Obrigada, Liu, mas gostaria que você bebesse o café primeiro.
Ele hesitou, pareceu nervoso.
— Mas eu trouxe pra senhola, minha senhola.
Rose sacou o bacamarte e o apontou para o serviçal.
— Eu insisto.
Ele mostrou os dentes.
— Como descobriu?
— Há meses o assassino matava pessoas. É muita coincidência ele ser pego no dia da minha chegada. Julguei que isso era um sinal de desespero. O que disse na fogueira foi um blefe. Achei que após aquilo, ou a pessoa tentaria me matar, ou fugiria. Quando você apareceu, joguei verde. Parece que colhi maduro.
Liu rosnou feito um cachorro.
— Mas agora que o mistério está resolvido, é fácil imaginar o que acontecia. É um narcótico, não é? Você drogava as vítimas, as rastreava e as devorava. Os elendils são imbatíveis nessas florestas, era fácil apagar os rastros após o sequestro. O ritual foi usado apenas para confundir as pessoas.
— Temos o hábito de devolar nossos inimigos carnívoros. Na tlibo era um ato ritualístico, mas os humanos vieram, loubaram nossas esposas e nos separaram. Decidi continuar com a plática.
— A escravidão de elendils foi proibida há trinta anos. Além disso, soube que vocês morriam em cativeiro, não era lucrativo.
— A escravidão continua, mulher tola. Nossa saceldotisa sentiu um bruxo ao sul, próximo ao rio Vussin. Ele usa os exús para saber quando nossas esposas darão cria. Escraviza filho, escraviza mãe. Enquanto ela ver o klinil gordo e saudável, vai tlabalhar para homem. Deixar homem fazer o que quiser com ela.
— Sua acusação é séria, Liu. Irei investigar Riordam, tem minha palavra. No entanto, as pessoas inocentes deste engenho não tinham relação nenhuma com seus problemas. Também não posso deixar que escape para a floresta. Portanto, diga suas últimas palavras e vamos acabar logo com isso.
Houve um momento de silêncio.
Ele tentou correr.
Ela disparou.
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