O Brilho da Honra

6 Um homem autêntico


Notas iniciais
Hello, people bonito do meu kokoro... eis que aporta aqui o sexto capítulo de "O Brilho da Honra", finalmente maiorzinho que os anteriores, acredito que a tendência daqui para frente seja de capítulos maiores, pois a trama vai começar a esquentar... quero agradecer a você que está acompanhando, seja "fantasmando", favoritando ou comentando (para minha alegria e ânimo ^^)... vamos nessa? Obs.: Como houve um equívoco geográfico (em Joanesburgo NÃO tem praia), mudei a cidade onde se situa a história para a Cidade do Cabo, em prol do roteiro. Boa leitura!

Mais uma vez, ele caminhava por tortuosas trilhas nevadas, o frio sem atingi-lo graças a seu poderoso cosmo dourado, que reagia a outro cosmo.

Conhecido... não.

Familiar.

Mais que isso... amado.

Sorriu, prosseguindo na direção daquela emanação, o vento fazendo tremular a manta com a qual pretendia permanecer incógnito.

Não importava que estivesse em Asgard. Era estranho, claro. Incompreensível. Havia perecido no Submundo, junto de seus companheiros de lutas e de seu saudoso amante, mais uma vez ressurreto, a fim de destruir o Muro das Lamentações. O mero reencontro com o namorado, morto há quatro anos e trazido recentemente à vida como espectro de Hades e novamente morto, fizera valer a pena aquele sacrifício. Mil vezes teria morrido para ter a ventura de falar com ele, de estar ao lado dele, de ver aquele lindo sorriso.

Não se ressentia de ter morrido.

Apenas se intrigava pelo fato de ressurgir em Asgard. Pelo menos era o que soldados que tiveram a infeliz ideia de atacá-lo, assim caindo nas garras de um escorpião sedento por respostas, disseram.

Isso agora não tinha a menor importância.

Que os deuses fizessem o céu desabar.

Ele iria encontrar seu grande e único amor. Uma vez mais.

Depois da morte do amante na Batalha das Doze Casas, tornara-se casto como nem mesmo Shaka lograra ser em eras pré Ikki de Fênix (sim, o homem mais próximo de Deus passou a se relacionar com um dos pirralhos de Bronze, que absurdo). Não optara pela morte unicamente por lealdade à Deusa que jurara proteger.

Mas a vida... fora esse dever... não possuía sentido algum desde então.

Agora... veria aquele que um dia lhe conferira sentido. Mais uma vez.

Certo. Fora ferido por ele. Duas vezes! Por duas vezes fora enganado. Havia sido por causas justas! Isso, no entanto, não fazia com que doesse menos.

Pois que não fora merecedor da confiança daquele a quem entregara a própria alma.

Certo. Estava tudo bem.

Iria vê-lo novamente.

Era tudo que importava.

Com o coração aos pulos, distinguiu um vulto por entre a névoa.

Usava a mesma proteção, um capuz a cobrir-lhe o rosto.

Em vão.

Sabia exatamente quem era. Sorriu, sem disfarçar a animação em encontrá-lo.

— Então havia mesmo um Santo de Ouro por aqui. O que aquele fracote disse era verdade – falou, satisfeito, indo em direção à figura. Neste momento, uma rajada mais intensa de vento fez voar a manta que ocultava o Santo de Aquário.

Lindo como sempre.

Imponente como sempre.

E como sempre, o semblante sério e fechado.

Nada de diferente. Nada que despertasse suspeitas.

Passou por ele, que continuou parado no mesmo lugar.

— Vamos, Camus. Soube que a base deles fica logo em frente. Vamos arrancar a verdade dos Guerreiros Deuses – conclamou, certo de que também o amado queria saber o que acontecia.

Foi quando sentiu a base da manta pesar. Gelar. Surpreso, porém rápido, desfez-se dela antes que também congelasse. Saltou para uma distância segura, entendendo imediatamente o que ocorria.

Camus... seu amado Camus... O ATACARA!

— O que há com você?!? – inquiriu, revoltado.

Finalmente o francês voltou-se para ele.

Nada em seu rosto denotava qualquer sentimento... qualquer um.

— Ainda não entendeu, é? – ouviu uma voz proferir. Olhou para o alto, de onde viera a pergunta. Viu um jovem de compleição média, trajando uma armadura vermelha. Segurava em uma das mãos uma grande espada de formato peculiar. Tinha cabelos ruivos e seus olhos magentas destilavam não espírito de luta, e sim desprezo.

— Eu sou o Guerreiro Deus Surtr de Eikthyrnir. E o Cavaleiro de Ouro Camus é nosso aliado, ele luta do nosso lado – anunciou o ruivo.

— Guerreiro Deus, você disse? – surpreendeu-se. E para o Santo à sua frente – Camus! Quer dizer que você traiu Atena? Mas por quê?!?

O francês continuou fitando-o sem expressão alguma. Por Zeus! Teria sido enfeitiçado? Sofrido algum tipo de lavagem cerebral? Camus era frio, sim… mas NUNCA lhe havia dirigido um olhar daquele.

Tão vazio.

Desinteressado.

Como se ele já não tivesse importância alguma para o aquariano.

Como se ele fosse um NADA.

— Não há necessidade de você saber – e o recém chegado brandiu a espada subitamente envolta em intenso fogo – Você será fritado pelas minhas chamas!!!

Disparou contra ele um golpe de fogo.

Mas por quê?

Por que era atacado, sem mais nem menos? Por que Camus estava do lado de quem o atacava? Aliás... por que CAMUS O ATACARA, em primeiro lugar?

Todos esses questionamentos revolviam-se em sua mente, paralisando-o sem que percebesse. A estupefação deixou-o momentaneamente sem ação.

Ele, que dominava a velocidade da luz...

... ficou ali à mercê daquele ataque.

— PÓ DE DIAMANTE!!! – Camus bradou, lançando contra ele seus poderosos cristais de gelo.

A rajada gelada atingiu-o pouco antes das chamas famintas do Guerreiro Deus, envolvendo-o e levando-o a uma dor absurda. Foi alçado no ar, seu grito ecoando nas montanhas nevadas. Caiu precipício abaixo, desaparecendo em meio à escuridão do abismo...

Muitas horas depois, ele despertava, por sobre uma superfície dura e fria. Gemeu, incomodado.

— Acordou? – ouviu a voz do Santo de Virgem. Ergueu-se com presteza.

— Shaka?

— Calma, Milo, sou eu.

— A-Aioria? – balbuciou, confuso, olhando ao redor: não estava mais no interior de uma gruta escura, e sim num elegante quarto, finamente decorado em tons pastéis.

— Ouvi você gritar e... – o amigo sentou-se na cama, aparentando preocupação — ... de novo, né.

— É, de novo – passou a mão pelo rosto suado – Que merda... foi tão real!

— Deve ter sido pelos acontecimentos da noite. Precisa relaxar, Milo...

A mão subiu pela testa e agarrou-se nos cabelos revoltos.

— Eu não aguento mais isso! Por que... por que isso tem que ficar me perseguindo? – bufou, quase em desespero. O leonino pôs a mão em seu ombro, empático.

— Porque tem algo aí dentro de você a ser resolvido. E você SABE o que é.

— Hah! – o escorpiano desvencilhou-se, levantando da cama num segundo – Não tem nada dentro de mim pra ser resolvido, Oria.

— Ficar negando isso não te ajuda a resolver, sabia?

— Resolver o quê? Me diz, o quê? – indagou um tanto ríspido, abrindo os braços.

— CAMUS, Milo, Camus!

A expressão de Milo metamorfoseou-se em uma cheia de desdém.

— Camus agora tem o amiguinho dele de volta – disse.

Neste momento, ouviram a campainha.

— Já pediu o café?

— Não – estranhou Aioria.

— Deixa que eu abro – ofereceu-se Milo, já que estava mais perto da porta do quarto. Dirigiu-se para a sala, vestindo apenas uma calça de moletom cinza claro. Atendeu.

— Saga?

— Bom dia, Milo. Posso entrar?

— Claro – respondeu, dando passagem ao mais velho, cujo semblante estava fechado, quase sisudo.

Aioria chegou à sala e saudou o geminiano, curioso com aquela visita tão cedo. E por que ele parecia tão sério?

-Espero que esteja satisfeito, Milo: por sua causa, Camus não dormiu quase nada à noite. Teve uma crise nervosa, passou mal de tanta tensão que...

— Ei, um momento aí! – o menor interrompeu-o, estupefato – veio me acusar porque SEU amigo ficou nervosinho?

— Saga, do que tá falando, cara? – Aioria interveio, não gostando nada do tom acusatório.

— Camus ficou muito abalado por algo que Milo fez a ele, depois de terem encontrado os Guerreiros Deuses na recepção – mal olhou para o “cunhado”, apenas encarava o escorpiano com raiva – Não sei como você o ofendeu, ou se fez algo pior, mas deveria ter levado em consideração que além de ele não ter nada a ver com a participação de Asgard na Conferência, precisava estar com a cabeça tranquila para o papel que vai desempenhar hoje.

Milo ficou de boca aberta, atônito.

— Então quer dizer que eu tinha a OBRIGAÇÃO de comer o rabo do Camus só pra “cabecinha dele ficar tranquila” e ele “desempenhar bem o papel de hoje”? – vociferou, indignado.

Horrorizado, Gêmeos crispou os punhos. Ao vê-lo avançar para Milo, Aioria se interpôs:

— Eeeei, parem, vocês NÃO vão brigar, por Zeus!!!

Os dois gregos se fitaram gravemente, nem um traço de temor no olhar furioso do menor.

— Não me lembro de Atena ter me dado a ordem de usar meu corpo a fim de que seu amigo cumpra satisfatoriamente a missão dele – ironizou, dando-lhes as costas. Entrou no quarto, logo saindo, vestindo uma bermuda preta e uma camiseta regata branca.

— Aonde vai, Milo? – quis saber o leonino.

— Dar um mergulho no mar pra esfriar a cabeça. Não me espere pro café.

E saiu. Saga permaneceu onde estava.

— O que ele quis dizer com aquilo?

— Saga, sabe exatamente por que Camus ficou mal? Porque ele tentou beijar Milo duas vezes. E foi rejeitado. Da segunda vez, chegou a imprensar o cara aí nessa porta.

— E-eu não sabia! Achei que Milo tivesse ofendido ele... ou...

— Camus nem te contou a história toda e você veio acusar o Milo – ralhou o mais novo.

— Eu... eu...

— Foi injusto com ele. Espero que reconheça isso – falou Aioria, indo para a varanda. O geminiano o seguiu, envergonhado pelo que acabara de fazer.

Postaram-se na bancada de mármore, apoiando ali os cotovelos. Diante deles, as montanhas pareciam emergir do brilhante mar turquesa.

— Saga, o Milo também não teve uma boa noite de sono. Aliás, ele não anda tendo nenhuma. Tem pesadelos com o que o Camus fez a ele... acorda em verdadeira angústia. Você o acusou de deixar Camus abalado quando é o Milo que tá abalado e sofrendo por isso.

— Eu não sabia – repetiu, constrangido – fui um idiota completo.

— É, você foi mesmo – Leão não aliviou. Continuou em tom triste – Você só vê o lado do Camus. Já tentou ver o lado do Milo, por acaso?

— Claro! Deve ser muito duro, ter sido atacado pela pessoa que ele ama...

— Não é só isso. Sabe... você pode até achar que entende. Mas nem você e nem eu podemos entender. Imagine... ver nos olhos de quem amamos uma intenção assassina? Direcionada não a um inimigo, mas a NÓS!

— Eu nunca acreditei que Camus tivesse REALMENTE tencionado matar Milo.

— Será, Saga? Não foi o próprio Camus que disse ao Milo que já que haviam morrido no Submundo, não importava mais quem morresse, da vez em que se enfrentaram em frente à base onde havia se entocado com Surtr e Sigmund?

Aquilo doía até mesmo em Aioria... quanto mais no melhor amigo! Ou talvez justamente por isso.

-Ver a pessoa que você ama rogar que a morte te devore mais uma vez... vê-la estender a mão contra você...

Aquelas palavras remeteram ao que seu amado Aioros por certo sentira, 17 anos atrás. Um peso apoderou-se de seu espírito.

— Milo viu o homem que tanto amou se juntar a outro que queria destruí-lo. Viu Camus entregar a vida, as convicções a OUTRO homem... mesmo que significasse LUTAR CONTRA ele! Porra, Saga. Isso é forte demais.

— Eu sei.

— E embora tenha sido o pior pelo que passou, Milo já havia sofrido duas decepções anteriores com Camus.

— Mas aquilo não tem comparação – rebateu o geminiano.

— Quem vai convencer Milo disso? A questão é uma só: ele NÃO quer se decepcionar uma QUARTA vez.

— Então eles continuarão sofrendo. Por que é evidente para mim que os dois se amam.

— Saga, fizemos nossa parte. Não podemos nem forçar Milo a aceitar Camus de volta nem forçar Camus a ser mais convincente em suas tentativas de reconciliação – elucidou o leonino, aspirando a brisa marinha.

— Tem razão, Aioria. Cuidemos de nossa missão. Não há muito mais que podemos fazer quanto a eles.

— Bom, então vamos ao café da manhã? É “por minha conta”, cunhado – brincou o mais jovem. Saga balançou a cabeça afirmativamente, sorrindo de leve.

Longe dali, um dos objetos das conversas deles dava longas braçadas nas águas profundas da praia de Saint Paul , vazia tanto pelo horário (ainda não eram nem sete da manhã) quanto pela fama de abrigar tubarões. Um Santo de Atena, contudo, não tinha por que temer tubarões. Assim, ele nadou tranquilamente, se exercitando e, simultaneamente, relaxando após aquele aborrecimento desnecessário trazido por Saga.

Absurdo ter sido acusado daquela maneira! Quem o geminiano pensava que era?

“OK, ele é tido como um dos mais fortes de nós. Alguns dizem que É o mais forte. Depois do Dohko é o mais velho, e junto com ele e Aioros, o mais experiente. Foi Patriarca do Santuário, ainda que mediante um golpe... é, tudo bem, ele é fodão. Mas me acusou injustamente!”, refletia, terminando por parar para ficar boiando, mirando o céu azul.

“Injustamente? Se eu de fato FIZ Camus ficar mal… mas o que Saga queria? Eu que não ia beijar Camus depois de ele ter aceitado aquele beijo do Surtr, NÃO MESMO!” divagava, observando as poucas nuvens brancas. Bandos de gaivotas executaram seus voos, antes de algumas mergulharem em busca de alimento. O grego suspirou, revendo em sua mente as cenas da noite anterior: os belos olhos suplicantes do francês na praia, tão carregados de sentimento... o toque de suas mãos tão gélidas e ainda assim afetuosas... a sôfrega aproximação enquanto ele era imobilizado, tanto pelo aquariano quanto pelo próprio torpor, ao ver aproximando de si aqueles lábios saudosos... lembrava como eram doces... inebriantes...

Ficou longos minutos imerso no mar de suas lembranças até que reviu Surtr se aproximar de Camus, e em pousar em sua face aquele suposto beijo fraternal...

Fraternal, pois sim.

Imediatamente franziu as sobrancelhas, irritado. Voltou a nadar, até que decidiu retornar ao hotel. Às 11 horas teriam que partir rumo ao Centro de Convenções.

Tinha tempo para uma bebida.

Voltou ao Cape Town International Palace após vestir a camiseta que deixara na areia junto com seus chinelos pretos.

Acessou a área das piscinas pelas escadas, após percorrer um jardim muito bem cuidado, com árvores típicas de vegetação subtropical. Foi até o bar de frente para a maior delas, que produzia pequenas ondas artificiais. Aioria provavelmente iria criticá-lo por beber tão cedo... melhor fazê-lo ali. Já havia tido sua cota de críticas por aquele dia!

Como era de se supor, o bar estava vazio. Não seria diferente às 7:38 da manhã. Sentou-se num dos bancos de couro marrom e pediu uma cerveja local. Não estava com paciência para drinks mirabolantes, tampouco queria destilados.

“Melhor café da manhã prum dia que começou bosta...”

— Escorpião?

“Corrigindo: prum dia que CONTINUARÁ bosta”, refletiu, reconhecendo a odiosa voz de Surtr. Este surgiu ao seu lado, apenas de sunga preta. Tinha os cabelos e o corpo molhados pelo banho de piscina.

— Bom dia – olhou Milo de cima a baixo, como a mostrar que reparava que também o grego estava molhado – eu não o vi nesta piscina. Estava em outra?

Certo. Como se lhe devesse satisfações. Deu uma golada generosa na bebida.

— Bom dia Surtr – cumprimentou, sem se virar – eu não estava em nenhuma das piscinas. Estava na praia.

— Na praia? Com uma área de lazer magnífica como esta, você preferiu nadar naquele mar escuro e revolto?

— Sofisticação não me enche os olhos, eu prefiro o que a natureza nos oferece – respondeu, indiferente.

— Heh, você é mesmo um homem bem autêntico, não?

Para não dar uma resposta atravessada, Milo preferiu ocupar a boca com o gargalo.

— E Camus? Não quis acompanhá-lo à praia? Será que se encontra indisposto ou algo do tipo?

— Algo do tipo – devolveu Milo, desinteressado. OK, então era isso. O maldito realmente decidira espezinhá-lo. Pois bem, poderia ser conhecido como impulsivo e cabeça quente, mas de jeito nenhum cairinha no joguinho daquele cretino.

Até porque não tinha mais nada a ver com Camus, tinha?

— Tomando cerveja a uma hora dessas, hã? – observou, tomando assento ao lado do Cavaleiro – Sempre achei que os Santos de Atena fossem reticentes em relação a tais hábitos.

— Por quê? Algum problema com isso?

O ruivo sorriu de forma que até parecia natural. Para um desavisado, talvez.

— De forma alguma! Nós, povo de Asgard, estamos acostumados a tomar a nossa Akvavit tão logo iniciemos as atividades ainda nas primeiras horas do dia. Já ouviu falar da Akvavit?

— Não.

— É uma bebida obtida a partir da destilação de batatas, e redestilada com cominho, funcho, anis, coentro, cravo...

— Parece horrível.

— Não é, não – riu o ruivo, divertido com a honestidade do grego – Sua importância pode ser sentida no significado do nome, “água da vida”. É forte como vodca, porém mais acariciante aos sentidos... esquenta-nos e nos traz ânimo. Dizem que tem mais de 400 anos.

— Fascinante – falou Milo, sem um pingo de entusiasmo.

— Então, se me permite, acompanho você nessa degustação matinal.

— Vou tomar só esta aqui e vou subir – apressou-se em dizer o grego, lutando para não demonstrar irritação.

— Ora, Escorpião, que desfeita... achei que pelo acordo entre Atena e Odin não fôssemos mais inimigos. Se você se levantar agora, vou considerar uma desfeita...

— Eu tô pouco me fodendo pro que você vai considerar.

— Hahahahahahahaha – riu com vontade, enquanto chamava o bartender com um aceno de mão – Sabe, Milo, você é muito franco mesmo... e, ao contrário do Camus, não dissimula nada as emoções. Não é à toa que ele se apaixonou por você.

Um frio correu a espinha do Cavaleiro ao ouvir aquilo. Acabou aceitando a outra garrafa que o funcionário trouxera.

“Certo, vamos ver até onde esse infeliz quer chegar”, pensou, brindando com ele.

— Você é o contraponto de Camus.

— Parece que acha que me conhece muito bem, Surtr.

— Não seria difícil. Você se mostra muito fácil.

— Oh, sim? – ergueu uma sobrancelha.

— Ontem à noite, por exemplo... você até tentou disfarçar, porém ficou evidente que algo está errado entre você e Camus. Por acaso não estão mais juntos?

Milo estremeceu levemente.

-Achei pudessem ter reatado o relacionamento que tinham após retornarem ao Santuário.

— E quem te disse que eu e ele tínhamos um relacionamento?

— O PRÓPRIO CAMUS.

Tomando novo gole, o escorpiano sentiu o coração saltar no peito.

— Ele sempre me disse que te amava...

— Eu gostaria imenso de saber o que você tem a ver com isso – retrucou o grego, com um sorriso sarcástico.

— Muita coisa. É do meu melhor amigo de que estamos falando – tomou dois goles – Quero saber se ele está feliz.

Mais hóspedes começavam a chegar à piscina maior. Risadas ecoavam em total dissonância com o que ia na alma do Escorpião.

— Ele não me pareceu feliz – declarou o ruivo, quase terminando a garrafa de long neck.

— Se é tão amigo dele, por que não lhe pergunta diretamente tudo que quer saber?

— Eu posso?

— Não me parece que você precisa de autorização minha para tomar suas atitudes em relação ao Camus.

Sorrindo largamente, Surtr parecia nitidamente pérfido aos olhos de seu interlocutor, ainda que pretendesse ser sedutor.

— Fala do “beijo de boa noite”?

Sobre a coxa esquerda, a mão do grego fechou com tal força que as unhas se enterraram na palma.

Enquanto isso, em um dos quartos do apartamento 605, Camus espreguiçava-se ao despertar. Olhou confuso para o relógio na cabeceira de mogno maciço. Passavam das oito da manhã! Por que dormira tanto? Saga deveria ter desligado o despertador, ajustado para as sete horas. Na certa, quis que o amigo descansasse após passar por tantos estresses à noite. O geminiano às vezes se mostrava bem protetor, tanto pela idade mais avançada em relação a ele quanto por tudo por que passaram juntos no momento mais sombrio de suas vidas.

Levantou-se do leito amarfanhado, sem sentir a presença do outro no apartamento. Talvez tivesse ido aproveitar as poucas horas livres de que dispunham até irem para o Centro de Convenções. Ele deveria fazer o mesmo. Dar uma volta na praia, talvez. Ou andar pelo parque ambiental, ou ainda ir às piscinas do resort...

... não tinha, no entanto, vontade alguma. De fazer nada.

Traçou mentalmente seus passos naquela manhã: uma boa ducha fria, um café bem forte com ovos mexidos, mais uma revisão do texto com o qual se apresentaria mais tarde na Cúpula.

Seriam três horas bem ocupadas.

Sem pensar em outras coisas.

Aproximou-se da janela, a fim de abrir um pouco as cortinas marfim. A luz do sol incidiu em seus olhos desavisados, fazendo-o franzir um pouco a testa. Admirou o céu majestoso, desprovido de nuvens. A vista de uma das janelas dava para o mar. Camus, porém, por ironia do destino, postou-se diante da que era mais próxima de sua cama, justamente a que dava vista para o complexo de piscinas. Seu olhar passeou pela impressionante área de lazer, até se deter no bar em frente à piscina maior, dotada de sistema de ondas artificiais.

Mesmo para uma visão perfeita como a dele não seria tão fácil identificar quem estava no balcão àquela distância.

Contudo...aqueles longos cabelos anelados, com aquela cor única, entre azul marinho e roxo... aqueles cabelos médios lisos e vermelhos como o fogo, roçando ombros nus...

Não havia dúvidas!

“Milo e Surtr... estão bebendo juntos?!?”

A cena assombrou-o de tal maneira que se perguntou se ainda não estava dormindo e sonhando.

Algo não estava certo. Não conseguia distinguir-lhes as expressões, mas sabia que não se trataria de nenhuma conversa amistosa.

“Que devo fazer? Será que devo ir até lá? Ou isso poderia piorar tudo? Mas... nem sei se de fato está acontecendo algum problema ali... e se estiver realmente tudo bem?”, analisou.

Reprovou a própria ingenuidade.

A expressão “tudo bem” JAMAIS coexistiria com os nomes Milo e Surtr na mesma sentença.

“Se ao menos Saga estivesse aqui! Ele saberia o que eu deveria fazer...”, refletiu, desamparado. Em seguida, afastou-se abruptamente da janela. Ora, ele não era nenhuma criança! Não precisava de que ninguém o orientasse como proceder. Urgia sim, que se concentrasse em seu dever. Seguiria a programação mental há pouco planejada.

Começou a se despir, entrando na suíte espaçosa.

“Quer saber? Não me importa nenhum dos dois. Que se afoguem!”, pensou, por fim, ansiando por acreditar nos próprios pensamentos.

No bar em frente à imensa piscina verde água, o grego fitou o asgardiano com fingido desprezo.

— Isso não me diz respeito – afirmou Milo.

— Hum, isso comprova que NÃO estão mais juntos.

— E com certeza isso NÃO te surpreende.

— Ao contrário. Me surpreende, e MUITO.

Ante aquela fala, o escorpiano que se surpreendeu. O ruivo prosseguiu:

-Ele nunca deixou de te amar. Nem por um segundo.

— Nem quando me atacou de surpresa, e depois com o “Pó de Diamante”? – ironizou, esvaziando a segunda garrafa.

Surtr deixou escapar uma risada baixa.

— Ora, como se uma técnica tão básica como o “Pó de Diamante” pudesse oferecer algum risco para o poderoso Escorpião. Se fosse o Execução Aurora, aí sim poderíamos...

— É, ele deixou pra usar o Execução Aurora quando eu estava ferido – interrompeu, amargo – Não importa o nome do maldito golpe. Ele me atacou, é tudo.

— Suponho que Camus tenha explicado as razões dele.

Pousando a garrafa no balcão com rispidez, o grego emitiu um riso rouco.

— Sabe, eu não sei por que estou aqui falando com você – e virou-se para ele, continuando num tom agressivo – É o Camus que você quer? FIQUE À VONTADE! Não estou mais com ele!!! – disparou, colérico. Algumas pessoas chegaram a olhar em sua direção.

— Está me entregando o homem que você ama? Depois de eu dizer que ele te ama? Você não é apenas um homem curioso, Escorpião... é bem generoso.

Milo fuzilou-o com o olhar. Surtr teve a impressão de ter visto nuances rubras nas íris azuis claras.

— Posse te mostrar minha generosidade lhe dando TODAS as Agulhas Escarlates ao invés de uma ou duas... – e naquele murmúrio podia-se filtrar todo o ódio que sufocava no peito.

— Está tudo bem por aqui? – a voz grave de Saga se fez ouvir por trás deles.

Os dois jovens miraram o recém chegado um tanto surpresos. Sorrindo ainda, o ruivo engoliu o resto da cerveja sob o olhar sério do geminiano.

— Bom dia, Saga. Como pode ver, sim, está tudo bem. Até logo – despediu-se, deixando o assento do bar. E virou-se para o escorpiano – Foi uma interessante conversa, Milo. Nos vemos mais tarde.

A passos elegantes e sem passar despercebido por alguns banhistas, retirou-se para onde se encontravam seus pertences.

— O que pensa que está fazendo, Milo? Bebendo a uma hora destas, sabendo que daqui a pouco tem que comparecer à Cúpula!

— Caso não saiba, “PAPAI”, isto pra mim não é nada – replicou o mais novo, com enfado – eu processo venenos e substâncias tóxicas muito mais rápido que qualquer um. Poderia estar tomando uma garrafa de vodca que ainda assim cumpriria minha função de “guarda-costas” dos dois “gênios dourados” com a mesmíssima eficiência.

— Mesmo assim não é adequado. Como Santo de Atena, tem uma imagem a zelar...

— Eu tenho? – zombou, aceitando a terceira garrafa – Curioso você falar isso, afinal, em sua concepção, eu sou um monstro que pôs em risco a sanidade do nosso grande palestrante de hoje!

Saga ressentiu-se do justo revide. Milo continuou a beber, apoiando os cotovelos no balcão.

— Eu cometi um erro. Fui injusto com você. Peço desculpas pelo meu julgamento errôneo.

— “Julgamento errôneo” – riu o escorpiano – para de falar bonito pra disfarçar o que você fez. Esteve prestes a METER A MÃO na minha cara!

— Isso não é...

Não era?

E se não fosse a intervenção de Aioria?

Sentiu-se mal ao admitir que avançara em Milo de forma... hostil.

— Camus não tinha me contado tudo que aconteceu. Ele não conseguiria em meio àquela crise nervosa. Ao vê-lo mal daquele jeito, achei que você tivesse feito algo de ruim contra ele.

A expressão jocosa de Milo foi se desfazendo aos poucos.

— Crise nervosa... “mal daquele jeito”... ele ficou tão abalado assim? – inquiriu.

Notando aquela mudança, o mais velho sentou-se ao lado do rapaz. Pediu um suco de laranja.

— Eu nunca o havia visto daquela maneira – revelou. Não perdeu a reação estampada no rosto do escorpiano; aquilo o atingira, fato.

— Então... bem, mas... mas ele... como ele está, Saga? Eu não tive a intenção de afetá-lo assim... de fazer mal a ele! E agora, como ele vai...

— Não se preocupe, ele está melhor. Passou uma noite difícil, mas eu o deixei dormir até mais tarde para se restabelecer.

Milo encarava seu interlocutor como a rastrear a verdade.

— E... será que ele tá bem mesmo? – inquiriu, timidamente.

— Nenhum de vocês está, isso é visível para mim – respondeu Saga, num tom amistoso.

— Eu não poderia deixar que ... que ele...

— Será que foi a melhor decisão, Milo?

— Foi a única que eu poderia ter tomado naquele momento – confessou.

— Entendo – o geminiano terminou de tomar o suco, e levantou do banco – Vem, melhor você tomar um café reforçado. Eu te acompanho.

— Pensei que já tivesse tomado café com Aioria.

— E tomei. Mas posso experimentar os bolos que deixei de comer na hora – sorriu.

— Tu é mesmo um saco sem fundo, hein? Qual o segredo pra comer tanto e não engordar? – riu o escorpiano, pondo-se a caminhar ao lado do mais alto.

— Muito treino nas arenas e muito... hum... muito...

— OK, por essa sua cara vermelha acrescento às suas ações para manter a boa forma “muito treino na cama” hahahahaha

— MILO! Mantenha a discrição, por favor... e nunca, NUNCA diga uma coisa dessas perto do Aioria!

— Então longe dele posso dizer, né? – brincou, piscando um olho.

O geminiano riu a não poder mais, o que era bem raro...

Por entre as cortinas da janela do 605 um par de olhos índigos acompanhava a cena.

“Milo...”, murmurou o francês. E retornou para seu discurso. Que na verdade prometia ser bem mais que um simples discurso.

Seria a verdade.

A mensagem de Atena através de seu cérebro.

A verdade indo de encontro à hipocrisia vigente, que alimentava a máquina da ganância e da brutalidade... e que estava presente ALI, entre os que se arvoravam salvadores daquela sofrida terra.

Não seria nada fácil.

Talvez... nem mesmo seguro.

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Notas finais
Ao reproduzir as falas de "Soul of Gold" ( o primeiro encontro entre Milo, Camus e Surtr, que o escorpiano revê em seu sonho no início deste capítulo ) considerei o que entendi em japonês, só para explicar caso alguém perceba alguma diferença do diálogo aqui descrito em relação ao que aparece nas legendas. A diferença é muito pouca, aliás. A intenção era dar raiva do Surtr... mas confesso que me peguei rindo dessa conversa entre ele e o Milo no bar da piscina, hehehehe... vai provocando o escorpiãozinho, vaaaai... Obrigada por lerem! Até o próximo capítulo... tenham todos um excelente final de semana! E me digam o que acharam, ok? ^^ beijinhos!