O Brilho da Honra

17 Rupturas e Alianças


Notas iniciais
Olá a todos! Quero agradecer imensamente aos votos pela minha recuperação da doença que me arrasou no último mês, encontro-me bem melhor, obrigada a todos que torceram e apoiaram :)))) Como não poderia deixar de ser, agradeço também a atenção que têm dado a esta fic, seja lendo "fantasmamente", favoritando, e, principalmente, comentando, eu adoro interagir com cada um de vocês, podem acreditar ♥ O capítulo de hoje ficou maior do que eu gostaria - conforme disse uma vez, não gosto de passar muito de 6000 palavras - contudo não havia como seccioná-lo. Espero que não fique cansativo para vocês, caros leitores (alguns eu sei que gostam, hehehe...) >>>>> AVISO : LEMON

Sentia-se tragado de uma forma inédita. De repente todo seu corpo formigava, sob intenso calor. Seus membros tremeram e seu ventre fremiu ansioso. Ainda que tivesse consciência de que era ardorosamente beijado pelo recepcionista, a intensidade das sensações pareciam bloquear qualquer espécie de reação. Sem perceber, cerrou os olhos, suspirando com inconsciente abandono. Derrick se curvou mais sobre ele, estreitando aquele contato, sua língua invadindo mais, sua boca aspirando mais, sugando mais, devorando sem trégua a boca do estrangeiro que não tinha sequer como reagir. Mais lágrimas desceram pelas faces coradas de Surtr, e ele chegou a gemer dentro da boca dominadora do sul africano. Os dedos deste interceptaram as gotas mornas , acariciando aquela pele congestionada.

Súbito, o asgardiano empurrou o rapaz, como que se dando conta, enfim, do que ocorria.

— O que... O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO? – vociferou, furioso.

— Senhor Surtr...

— Saia JÁ daqui antes que eu chame a POLÍCIA!

O jovem apenas fitou-o, sem nenhuma sombra de temor nos olhos escuros.

— Como... como se atreveu a... – falava, quase engolindo palavras, quase sufocando. Malgrado a agressividade de seu tom, permanecia encolhido no sofá, descomposto como nunca.

— Eu não pude resistir a tanta paixão, senhor Surt. Eu nunca vi uma pessoa sofrer tanto por amor. Não sabia que alguém era capaz de ficar assim por causa de sentimentos – esclareceu com uma naturalidade quase ofensiva.

— Você!... – o ruivo balançava a cabeça, quase em choque – Eu poderia MATAR você, sabia? Você não tem A MENOR IDEIA de quem eu SOU! Do que posso fazer!!!

— O senhor não vai me matar. Precisa de mim para vigiar seu Camus.

— Seu miserável, QUALQUER MACACO como você pode fazer isso!! Eu só não te mato para não ter problemas nessa maldita Conferência... – rosnava, esfregando as costas da mão nos lábios dormentes. Arrepiou-se ao perceber os olhos de Derrick fixos neles... de forma totalmente INVASIVA. Sentiu o coração disparar dolorosamente.

— Esse Camus não merece o seu amor, senhor Surtr. E definitivamente não merece que sofra assim por ele – disse o jovem, tranquilo.

Como se nada tivesse acontecido.

— Isso NÃO é da sua conta, SAIA JÁ DAQUI, antes que eu chame a segurança! Faço você ser despedido! – ameaçou o asgardiano, colérico.

Derrick sorriu, simulando inocência.

— Não se preocupe. Eu continuarei meu trabalho para o senhor.

— SUMA DAQUI! – gritou, cedendo ao descontrole, finalmente.

— Vejo que o senhor está bem melhor. Posso voltar ao meu posto – anunciou, ajeitando a roupa, displicente – Entrarei em contato caso veja o seu Cavaleiro.

Bufando como um animal, o ruivo não conseguiu mais nada proferir. Ficou observando o negro se afastar. Ao ouvir o som da porta se fechando, atirou-se às almofadas de veludo. Seu rosto queimava. Seu CORPO queimava. O que fora aquilo? Grunhiu alto contra uma delas. Que agarrava com força, depositando ali seu pranto, agora de ódio.

De Camus. De Milo. Do recepcionista abusado. De si mesmo.

Principalmente de si mesmo.

O QUE FORA AQUILO?

Levou uma das mãos até os lábios trêmulos.

Ainda quentes. Ainda dormentes.

Seu peito se expandia ante a frenética taquicardia.

O que fora aquilo?

E… pior…

O que era aquilo que sentia...

O que era aquilo entre suas pernas?!?

Afastou-as, incomodado com a pressão ali.

Não era possível!

— Só posso estar ficando louco... – murmurou, agora mais assustado do que irritado. De repente, uma pungente tristeza se abateu sobre ele.

Virou de bruços. Sem querer, deitou sobre a mão enfaixada. Gemeu, dolorido. Segurou-a, aflito. Chorou mais um pouco, até que o sono venceu o desespero e Surtr dormiu. Um sono pesado, escuro e sem sonhos até o dia seguinte.

*************

Ao contrário do dia anterior, o sol manteve-se escondido por trás das nuvens cinzentas naquela manhã de domingo. Ainda assim, Frodi e Sigmund optaram por caminhar na praia após o desjejum. A bem dizer, a temperatura amena que fazia, cerca de 16 graus, para eles era até quente. E queriam aproveitar o último dia de folga antes de uma semana inteira de compromissos que os aguardava.

O sábado havia sido agradabilíssimo, primeiro com seus novos amigos, e depois, a sós... pouco a pouco estavam se entendendo, e após um auspicioso jantar regado a um vinho sul-africano de excelente safra, chegaram mesmo a se beijar. Ambos ficaram muito satisfeitos, ainda que por vezes se cogitavam se não era a solidão, conjugada com a oportunidade, que construíra tal situação. Não obstante, estava tudo leve e prazeroso, e isso era o bastante para que tais conjecturas se diluíssem nas jovens mentes. Sigmund comentou, distraidamente:

— É engraçado que eu nunca tenha reparado em como você é bonito. Aioria é um cara legal e atraente também, mas sinceramente, não sei como Lyfia pôde preferi-lo a você.

— A beleza não é o único fator a gerar o amor ou mesmo a paixão, Sig. Pode até ser o primeiro, mas nem de longe é o permanente ou decisivo – explicou.

— Acho que entendo. Bom, eu realmente nunca gostei de ninguém neste sentido, até... até...

— Saga – completou o outro, sereno.

— Vejo agora que era apenas uma cisma.

— Já consegue ver isso?

O loiro encarou-o, um tanto indignado.

— Mas é claro! Eu não estaria com você aqui se ainda nutrisse sentimentos para com ele – argumentou.

— Você esquece rápido então – riu Frodi – isso me dá medo. Será que vai me esquecer rápido assim?

Sigmund cruzou os braços e virou-se para o mar escuro, parecendo aborrecido:

— Não diga bobagens.

Cingindo-o pela cintura delgada, o jovem de cabelos azuis o beijou no pescoço, semeando arrepios no mais novo.

— Estou brincando. Estamos ambos descobrindo isto tudo – sussurrou, abraçando-o.

A mão alva do loiro segurou o antebraço que o envolvia.

— E eu quero dizer que estou gostando muito, Frodi...

Este virou-o para si e depositou-lhe nos lábios um suave beijo carinhoso, tal demonstração íntima possibilitada pela praia deserta.

— Tem tempo que não me sinto bem assim – disse o loiro, levemente ruborizado.

— Se depender de mim, esta será a regra daqui por diante, Sig.

Sorriram um para o outro e se estreitaram mais uma vez, querendo prolongar tanto quanto podiam aqueles doces momentos.

*************

— Resumindo, eu posso ir, né? – Milo cortou a longa explanação do médico que o verificara uma última vez antes de liberá-lo.

— Sim, senhor Kostopoulos. Eu só insisto em que o senhor não se esforce muito fisicamente por pelo menos uns três dias ainda.

Camus lançou um olhar maroto para o escorpiano, que revirou os olhos, murmurando “tarde demais...”.

— Perdão?

— Nada, não, doutor! Mas me diz, e quanto a ele – apontou o namorado – ele deve retornar aqui para retirar os pontos, né.

— Exatamente, senhor Chermont – virou-se para o francês, que mostrou-se atento – Eu lamento pela necessidade de uma reparação estética...

— Isso não será necessário – retrucou o aquariano.

— Mas que teimosia! Não sabia que você era tão resistente a médicos, Camus!

— Não é questão de resistência...

— Senhor Chermont, o senhor pode recorrer à intervenção onde vive, fica a seu critério. Mas peço que esteja aqui em nove dias para tirar os pontos.

Ele assentiu, afirmativamente.

Em seguida, o casal ganhou o corredor e dirigiu-se para o elevador.

— Estou morrendo de fome, Camus! Esse café do hospital só me abriu o apetite.

— Quando chegarmos ao hotel tomamos um desjejum reforçado, ainda são nove da manhã. Confesso que eu também estou com fome.

O grego sorriu, feliz. Já se imaginava fazendo a refeição na varanda do apartamento, na companhia do amado, quem sabe emendando as delícias culinárias com OUTROS tipos de delícias. Como a adivinhar-lhe o teor dos pensamentos que produziram aquele sorriso, o francês disparou:

— Você ouviu o que o médico disse. Nada de esforços físicos por três dias.

— Besteira. Você viu esta noite que estou em plena forma... – rebateu, malicioso.

— Eu cuido de você por hoje.

Milo, que quase nunca corava, ficou rubro como um tomate.

— EI! Como assim??? Eu posso muito bem “dar no couro”, ouviu bem?

— Pode fazer isso em outra posição.

— Caaamus...

A porta do elevador se abriu; repararam um certo alvoroço ao avançarem rumo à saída. Pessoas com microfones, câmera, máquinas fotográficas, os cercaram assim que chegaram ao exterior.

— Mas que porra é essa? – assustou-se o escorpiano.

— Senhores, uma palavra para a Cape Channel, por favor! – falou uma mulher brandindo o microfone na direção deles.

— Como foi a articulação do resgate na boate Sound System? – inquiriu um repórter bem afobado.

— Como os senhores obtiveram as aptidões que demonstraram? Treino apenas ou algum tipo de magia? – gritou um, atrás de alguns outros.

— Os senhores realmente não se feriram com gravidade? – indagou uma moça cuja voz fina quase agrediu os tímpanos de quem estava ali.

Milo e Camus se entreolharam, confusos com aquele assédio. Não se prepararam para nada daquilo, de forma que estacaram, sem ação. Não queriam empurrar aquelas pessoas. Felizmente, seguranças acorreram até eles e garantiram que eles pudessem chegar até um táxi estacionado em frente à escadaria. Quando iam entrar, Camus sentiu um puxão em sua camiseta. Virou-se, sobressaltado. Um senhor negro, de cabelos bastos e completamente grisalhos sorria para ele.

— Ei, vovô, deixa o rapaz em paz! – ordenou um segurança.

— Eu só quero agradecer pelo que fizeram... Mestre do Gelo – disse o homem, já sendo seguro pelo braço. Camus temeu pela idade avançada dele.

— Está tudo bem, não precisa puxá-lo assim – falou o aquariano. Milo observava a cena, curioso.

— Vocês, guerreiros de Atena, são notáveis... eu agradeço em nome do meu povo – fez uma mesura respeitosa diante dos Santos.

— Beleza, agora a gente precisa ir – o escorpiano entrou no carro, apressadamente. O ancião, no entanto, ainda segurou a mão de Camus, que se espantou com isso.

— O senhor ainda será maior do que já é, Mestre do Gelo. Em suas mãos... vidas se renovarão... por suas mãos... uma nação se erguerá... – declarou, em voz baixa.

— O... o quê?

— Entra logo, Camus, em nome de Atena! Antes que aqueles repórteres venham pra cá! – impacientou-se o grego, dando as coordenadas ao taxista.

— Vamos, velhote, já chega, sai daqui – ordenou um dos seguranças. Ele obedeceu, sempre encarando Aquário, enquanto se afastava dali. Percebendo-o atônito, o enorme negro disse:

— Não liga pra ele, rapaz. De vez em quando aparecem esses velhos metidos a profeta por aqui na cidade. Deve ter ficado impressionado com o que vocês fizeram.

— Hum... entendo. Obrigado.

O aquariano entrou no veículo, que partiu rumo ao resort.

— Putz, que gente doida... – Milo bocejou; precisava MESMO de comida de verdade – agora tô com medo de ter esses jornalistas lá no hotel, vai ser um saco!

— Não deve ter, não, a vigilância lá possivelmente é mais rígida do que num lugar público como o hospital – Camus respondeu, ainda pensando nas estranhas palavras do desconhecido.

De alguma forma estranha, elas tomaram seu íntimo e um frio pressentimento o tocou.

Ainda que tivessem vindo de um reles desequilibrado, como afirmara o vigia...

— Ei, que foi? – o grego percebeu-lhe o semblante intrigado.

— Hã? Nada.

Viu que Milo não havia ouvido o que o ancião falara.

Tanto melhor.

*************

Camus tinha razão até certo ponto, pois nas imediações do resort havia sim furgões e equipes de reportagem. Contudo, eram impedidos de entrarem na propriedade. O táxi levou-os até a entrada do hotel, então eles não tiveram qualquer problema.

— Então nós fomos filmados realizando o salvamento dos frequentadores da boate, Camus?

— Exatamente. Claro que você e Aioria não tinham como reparar nisso, estavam focados em ajudar aquelas pessoas.

— Isso é estranho! Surreal, eu diria. Acha que Atena vai se desagradar desse tipo de exposição?

— Bom, a existência de Seu Santuário na Grécia não é um segredo de Estado, embora a Deusa sempre prime pela discrição de nossas ações.

Desceram do carro após pagar a corrida e entraram no belo hall, ainda falando sobre o assunto.

— Não é como se pudéssemos ter escolhido o que e como fazer – ressaltou o grego, franzindo as sobrancelhas azuladas.

— Claro que não.

— E você viu alguma dessas reportagens, Camus? – Milo quis saber, subitamente ansioso.

O aquariano engoliu em seco.

— Hã... vi, sim.

O namorado vibrou:

—Caramba, eu tô doido pra ver!

“Que Atena me ajude”, pensou o francês, receoso.

Passaram pela recepção conversando, sem notar que eram alvos do olhar atento de Derrick. Ele apertou os olhos muito negros ao ver o leve sorriso de Camus.

Tão pacífico.

Tão tranquilo.

Tão diferente de como estava o ruivo.

Pensou com certa raiva em como quem provocara semelhante sofrimento no estrangeiro pudesse se encontrar daquela maneira tão despreocupada.

Não entendia bem o motivo, mas incomodava ver o prepotente mandante de suas "espionagens" ferido daquele modo perturbador. E mais ainda, incomodava-o ver a paz do tal Camus.

Achou que seria tão justo se ele PAGASSE por aquilo!

O que dava direito a alguém de causar tal dor a um semelhante?Ainda mais quando se diz “amigo”?

Mais uma prova de que essa era somente mais um vocábulo vazio de significado neste mundo.

Como tantos outros.

Afastou-se um pouco dos outros dois recepcionistas, que não eram mais Mark e Selma, já que haviam largado o serviço às 8 da manhã; ele ainda estava ali por estar “dobrando” até meio dia. Pegou o telefone e ligou para o flat de Surtr. Temeu que ele ainda estivesse dormindo, ou passando mal... contudo, prometera informá-lo sobre os passos do “tal Camus”.

O toque longínquo na percepção bagunçada de Surtr só foi percebido porque ele já começara a despertar minutos antes. Pegou o fone, sentindo dificuldades para falar:

—Sim...

— Bom dia, senhor Surtr, como se sente?

— O que você quer? — indagou, ríspido.

— Fazer o trabalho pelo qual me contratou, senhor – respondeu, em uma calma que irritou ainda mais o ruivo – liguei para informar acerca da chegada do seu... amigo.

O asgardiano sentou-se no sofá, tenso.

— Ele chegou? Quando?

— Neste exato instante. Deve estar tomando o elevador agora.

— E diga-me... ele... ele estava acompanhado pelo cara de cabelos compridos azuis, não estava?

— Estava sim, senhor.

— A essa hora... – um peso de desilusão se fez sentir.

“Passaram a noite juntos no hospital e juntos estão chegando ao hotel... às 10 horas da manhã!”, pensou, decepcionado.

— Eles pareciam... bem?

— Se pareciam “bem”? Bom, seu amigo está com um braço enfaixado, e o outro está com...

— Não, não – o Guerreiro Deus interrompeu-o, balançando a cabeça – me refiro a... eles pareciam estar SE DANDO BEM? Pareciam próximos ou... ou distantes?

— Ah, sim. A meu ver, pareciam estar se dando muito bem.

— “Muito bem”?

— É... bom, conversavam assim, de forma amistosa... sorrindo um para o outro. Pareciam bem próximos, eu diria.

O ruivo entreabriu a boca, sem saber o que dizer.

Não havia dúvidas.

Os dois haviam feito as pazes.

E sabe-se lá o QUE MAIS haviam feito.

“Camus o salvou. Olhava para ele com tanto amor, segurava ele com tanto cuidado. Ficou como acompanhante dele no quarto do hospital, e lá passou a noite, chegando aqui somente a esta hora...”, raciocinava, o amargo sabor do ciúme invadindo-lhe a boca seca.

O amargo sabor da derrota.

Estava tudo perdido.

— Senhor Surtr? – Derrick chamou-o, percebendo aquele longo silêncio.

— Certo, obrigado. Me confirme o quarto de Camus.

— É o 605.

— Ele está hospedado com Saga, não é?

— Correto, senhor Surtr, está com o senhor Saga Agatocles.

— Hum.

— O senhor vai até lá? – um acento de preocupação fora perceptível naquela pergunta. Surtr, porém, não se furtou a ser grosseiro:

— Isso não te diz respeito.

— Tenho medo de que o senhor possa se aborrecer. Passou muito mal esta noite.

O asgardiano chegou a sorrir, estupefato:

— Mas como você é atrevido, hein, moleque? Sua obrigação é apenas observar os passos de Camus, não se meter em minhas ações, lembre-se disso!

— Como quiser, senhor.

— Hunf – antes que batesse o telefone na cara do recepcionista, ouviu-o chamar seu nome:

— Senhor Surtr?

— O que é agora, garoto? – reclamou, impaciente.

— Se precisar de mim... para qualquer coisa... é só me chamar.

O ruivo riu, debochado. Pôs a mão na cintura, assumindo uma posição arrogante como se estivesse de frente para o jovem a quem quis rebaixar:

— Não se sinta TANTO por estar me prestando um serviço. Você é um reles serviçal e NÃO passa disso. Atente para o seu lugar – advertiu em tom ácido – Não é porque se aproveitou do meu estado que subiu algum degrau de importância neste mundo, entendeu?

E bateu o fone com força na base.

— Cretino folgado – resmungou, indignado.

Decidiu tomar um bom banho antes de qualquer providência.

Camus estava ferido. Nada mais natural que visitar um amigo se recuperando de um machucado, não?

Sim, precisava vê-lo.

Precisava falar com ele.

Sondar a situação.

Não estava tudo perdido, como pensara há pouco. Não.

Poderia ser menos do que ele imaginava...

Milo era um Santo de Ouro como o francês. Natural que fizessem as pazes a fim de prosseguirem aqueles dias de missão. Não necessariamente haveria de ser algo com fundo amoroso. O escorpiano estivera tão irredutível quanto ao ex-namorado!

Entretanto, não poderia ir naquele exato momento. Ficaria suspeito... Camus acabara de chegar e eis que ele, Surtr, brota no apartamento? Não, daria um tempo... um bom banho... talvez uma volta pela praia... respirar um ar puro... uma boa refeição... e então...

Pensava nisso tudo, contudo sua vontade era continuar onde estava, encolhido, retraído.

Tinha que lutar.

Por ele. Por Camus.

Algumas horas se passaram. Obviamente ele não conseguiu ir até a praia, preferindo meramente observá-la de sua varanda, servindo-se do vento fresco que contribuía para deixá-lo melhor a cada hora que passava. Havia almoçado – e deixado a maior parte da comida intacta – e tomado um dos analgésicos deixados pelo recepcionista. Graças a isso, sua mão não mais doía, e ele estava quase em paz.

Isso era bom.

Era assim que queria ir até Camus. Tinha que mostrar-se equilibrado. Bem ao contrário daquele tresloucado grego a quem o amigo acreditava amar.

Não pensava muito no beijo da noite anterior. Ele não era nenhum garotinho inocente e conhecia muito bem os mecanismos que levam a certas ações. Mostrou-se frágil, culpa dele, e o rapaz, que cuidava dele, interpretou mal aquele momento. Tinha-lhe raiva sim, não excessiva, porém. Sabia-se atraente, e embriagado como estava, atraíra aquele despautério. De mais a mais, o jovem estava trabalhando bem, e de fato, o ajudara duas vezes. Não se desfaria de tal aliado por causa de algo tão sem importância.

Só achava curioso como seu corpo havia reagido àquilo.

Não analisara direito, desde então... mas era fato que ficara vivamente excitado...

Balançou a cabeça, revoltado consigo mesmo. Por que não ficaria? Pensava fixamente em Camus àquela hora. E estimulado daquela forma...

O curioso é que em suas poucas – admitia, eram poucas – experiências amorosas (carnais tão somente, para ser sincero... ) ele sempre ficara “por cima”. Com o sul-africano sentiu algo diferente... como se fosse ser subjugado... dominado... se não tivesse parado o inconveniente!...

Inútil ficar pensando nisso.

Estava fraco, ferido, frágil. Vulnerável. Nada mais. Não tornaria a acontecer.

Respirou fundo. Levantou-se e dirigiu-se até a sala. Mirou-se no espelho do corredor uma última vez antes de sair. Vestira uma calça de brim verde clara e uma camiseta preta que moldava-lhe o peitoral magro porém definido. Calçou um par de sapatos de couro marrom. Ajeitou os cabelos recém lavados que secara levemente com o secador do hotel. Caíam-lhe sedosos e perfumados pelos ombros. As olheiras haviam melhorado bastante após o descanso e, apesar de um pouco pálido, em nada lembrava o farrapo humano com que se deparara ao espelho do banheiro pela manhã.

Deixou o flat e partiu rumo ao apartamento 605. Passava das 14 horas.

Parou em frente à porta de mogno escuro. Passou a língua pelos lábios contraídos e, tomando ar, tocou a campainha. Ouviu passos. Aprumou-se mais, ansioso. Qual não foi sua surpresa quando foi atendido não por Camus ou Saga mas por Milo!

— Surtr? – disse o escorpiano, ao abrir a porta.

— M-Milo?

Não conseguiu disfarçar o espanto. Teria Derrick informado errado o apartamento? Ora, aquele...

— Me desculpe, Milo, eu me enganei de quarto, estava indo ao quarto de Saga e Camus.

— Você não se enganou – sorriu o grego – é aqui mesmo. Só que agora não é mais Saga quem está com Camus, e sim... EU.

— .... – o asgardiano apenas o fitou, sem ação.

— Não sabia que conhecia nossos apartamentos.

— Frodi e Sigmund me informaram – mentiu.

— Ah, sim.

— Então... Saga mudou de quarto...

— Exatamente – confirmou, alargando maldosamente o sorriso – Mudou para que EU pudesse ficar aqui com Camus... com o MEU namorado.

O ruivo fez um esforço sobrehumano para disfarçar sua devastação.

— Compreendo. Vejo que fizeram as pazes – disse, simulando neutralidade.

— É isso aí.

— Fico feliz por vocês.

— Sabe que não acredito nem um pouco nisso? – Milo cruzou os braços e encostou-se ao umbral. Não se importou em encará-lo como em um desafio.

— Não sei por quê. Se é o que meu amigo queria, e se ele está feliz com isso...

— Ah, você não IMAGINA como ele está feliz.

Tremores de raiva correram pelo corpo do asgardiano. Foi difícil disfarçá-los.

— Bom, eu vim falar com ele – anunciou, tentando parecer indiferente àquela declaração.

— Isso não será possível no momento. Ele está no banho agora.

— Eu não poderia entrar e esperá-lo?

— Não. Não poderia.

O ruivo apertou os olhos; aquele impertinente, que até então se mostrara bem diplomático, agora estava tripudiando abertamente dele!

— Compreendo. Eu volto em uma outra hora.

— Não. Você NÃO vai voltar. Vai nos deixar em paz neste domingo, está me entendendo? – o Santo agora não sorria. Fechou a porta devagar atrás de si, ficando bem de frente para o asgardiano, que tinha exatamente a sua altura, 1,85m.

— Não seja infantil, Escorpião. Não pretendo me meter no seu divertimento. Apenas quero saber como MEU amigo está, depois de ele ter se ferido salvando o SEU rabo – alfinetou, encarando-o perigosamente.

— Você enche essa boca para falar a palavra “amigo” quando tudo que fez foi prendê-lo em seu jogo de culpa, não é verdade?

— Do que... do que está falando?

Milo aproximou-se mais dele; sem perceber, Surtr deu um passo para trás.

— Camus me contou tudo o que aconteceu em Asgard, Surtr. Posso te garantir que só não te parto a cara agora mesmo em razões de diplomacia com Asgard e para com nossa missão em conjunto. Você se diz amigo de Camus, quando tudo que fez foi manipulá-lo através de uma promessa feita por ele após um erro cometido na infância. Não o perdoou coisa nenhuma. Aprisionou ele visando seu bel prazer, isso sim.

— ELE fez a promessa – rosnou – Não o obriguei a nada! Nunca o obriguei a nada!

— Não era preciso, uma vez que você se serviu da honra e da dignidade dele. E principalmente... da culpa. Não tenho palavras para definir sua covardia.

Surtr contraiu os punhos.

— E como definir a sua? Impedindo-me de vê-lo dessa forma... tem medo de que eu o roube de você?

— Faria isso? – riu o escorpiano, atrevido.

— Você mesmo me deu ele, uma vez, lembra? Ou se esqueceu disso?

Fechando o sorriso, Milo pareceu subitamente prestes a realizar a ação que queria evitar. Foi quando a porta se abriu atrás dele.

— O que está acontecendo aqui? – questionou Camus, usando o roupão branco do hotel, os cabelos molhados escuros corredios pelas costas.

Em silêncio, Milo e Surtr se olharam, como a buscar o que responder.

— Surtr. Como está? – o cumprimento do francês era cordato, porém impessoal.

— Estou bem. Eu vim saber de você. Soube... – e voltou a encarar Milo, como a jogar-lhe na cara – soube que foi ferido durante UM RESGATE na boate atacada por terroristas.

— Foi apenas um arranhão. Obrigado por se preocupar.

— Camus... será que... que poderíamos conversar? – tentou o asgardiano. Já estava ali mesmo.

— Pode falar.

— Eu preferia que fosse a sós.

— Não há nada a ser dito para mim de que Milo não possa tomar conhecimento – disparou, frio.

O ruivo abriu a boca, estupefato com tal tratamento.

— Camus. Eu não faço objeção – disse o escorpiano, colocando a mão em seu ombro – Se quiser falar com ele a sós, eu...

— Não. Eu não quero – e cravou os olhos anis nos magentas já úmidos – Pelo menos hoje. É um dia de descanso. Talvez em outra ocasião.

Até Milo ficou surpreso com aquela atitude.

Surtr sorriu nervosamente antes de responder:

— Certo, não atrapalharei mais vocês. Aproveitem bem seu... “dia de descanso” – e seu olhar pousou em uma marca roxa na base do pescoço de Camus, exposta pelo roupão um pouco aberto na altura do peito.

— Obrigado. Você também – despediu-se o francês, sem dar importância alguma ao tom magoado do outro.

— Passar bem, Surtr – falou Milo, entrando sem mais dar-lhe relevância.

Fecharam a porta ainda com ele ali, parado, como que cravado no chão, trêmulo e sem reação.

Demorou bem uns dois ou três minutos para que Surtr finalmente saísse dali, querendo mesmo sair do mundo, da vida.

Perdera Camus.

Perdera-o para sempre.

*************

— Mas é muito cara-de-pau! – resmungava Milo, dando voltas pela sala.

— Esqueça isso e vá tomar seu banho, Milo...

— Eu não acredito que ele teve a CORAGEM de aparecer aqui! E ainda ficou de graça, dizendo que você se machucou por minha causa! Claro, sei que foi por minha causa, sim, mas... arrgh, se não fosse nossa aliança com Asgard, eu fazia esse maldito de PENEIRA!

Camus suspirou, deixando-se cair sobre o sofá marfim.

— Que tal seguirmos em frente com o plano de relaxarmos este domingo? – sugeriu, aparentando cansaço com aquilo tudo.

O escorpiano curvou-se sobre ele, estalando um beijo no canto dos lábios do amante, decidido a não estressá-lo.

— OK. Você escolhe um filme pra gente então. Quero ficar grudadinho em você a tarde toda.

— Então para de falar e vai logo.

Milo riu e retirou-se para o banheiro. Após chegarem ao hotel, prontamente Saga se ofereceu para deixar o quarto que ocupava com Camus. Tomaram o desejado café da manhã e fizeram a troca. Tão logo se instalou, agarrou seu aquariano e mais uma vez fez amor com ele, desta vez numa cama não hospitalar... após horas de preguiça e arrulhos românticos, decidiram se banhar. E foi bem quando o aquariano o fazia que o asgardiano surgira. Camus ligou a TV, levando a mão à boca ao ver que passavam continuamente reportagens sobre o atentado na boate, o que era óbvio, dada a gravidade do ato. No entanto, perturbava-o a insistência em veicularem imagens dos Santos de Ouro em ação.

— Até quando vão ficar insistindo nisso... – murmurou ante as legendas “Anjos de Ouro” e “Herói de Gelo”.

Teria sido aquilo a razão das enigmáticas palavras do homem perto do táxi, no hospital? Para o segurança, ele havia se impressionado com as cenas do jovem desferindo as rajadas de gelo, apagando o fogo, dominando o incêndio externo. Apenas isso.

Entretanto, como explicar que aquilo permanecesse em seu interior, como uma expectativa... um aviso...

— O que está vendo? – indagou Milo, de volta à sala, também usando o roupão do hotel.

Sobressaltando-se, Camus brandiu o controle remoto para mudar de canal.

— Nada! Eu já ia...

— NÃO, deixa aí! Estão passando reportagem sobre a gente? – riu, animado – até agora não consegui ver! Tinha me esquecido de procurar.

— Milo... não íamos ver o filme? – fez o aquariano, preocupado. O grego arrancou o controle da mão dele, aumentando o volume.

— Mas por que você deixou tão baixo?

— .....

O grego sentou ao lado do namorado, sem notar-lhe o incômodo. Logo reparou nas cenas.

— Hahahaha, olha, é o Aioria! Realmente, é como dizem as câmeras engordam! Ele parece um leão gordo!

— Isso não é divertido, Milo...

— Se eu parecer gordo, não vai ser nada divertido mesmo.

Imagens de Leão conduzindo pessoas pelo túnel formado pelo cosmo que deslocava o fogo passavam acompanhadas da legenda “Anjos de Ouro”.

— Mas que nome brega – riu ele – Ah, olha eu ali, lááá atrás. Porra, pareço gordo?

Camus nada disse. Cruzou os braços, torcendo para AQUELAS outras cenas não passarem, pelo menos, não com Milo ali.

Então Camus apareceu na tela; emergia da multidão, sem poder ser contido, e tão logo em frente à boate em chamas, disparou seu poder congelante, em forma de brilhantes rajadas.

— Uau, que aparição – comentou o escorpiano.

— Como se isso fosse novidade para você.

— Vendo assim é diferente. Puxa, olha só, você tá lindo... sexy... – observou, reparando a expressão obstinada, os cabelos ao vento, a decisão em cada movimento certeiro, a dança dos cristais de gelo ao redor de seu corpo esbelto e flexível.

— Como eu e Aioria estávamos dentro daquele turbilhão nem aparecemos tanto assim como você.

— Milo, não quer pegar algo para comermos? – foi a tentativa do aquariano para que ele saísse dali antes que se visse resgatado.

— Já está com fome, amor?

— Sim – mentiu.

— Você não era comilão assim, amor. OK, eu vou... ei, como é? “Herói do Gelo”? – e gargalhou, apontando para a legenda da imagem em que Camus aparecia – Ah, não, NÃO, essa ganhou da nossa, HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

— Você acha mesmo? – fez o francês, com um bico de desagrado.

— Camus, isso é MUITO BREGA!

— Não tenho nada a ver com isso.

— Eu sei! Caramba... o pessoal do Santuário vai te zoar por TODA A ETERNIDADE, pode esperar!

— Hunf.

— HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA...ei, que é aquilo ali?

“Pronto...”, pensou o aquariano, fechando os olhos.

Finalmente, as cenas que se seguiram mostravam Camus saindo do interior do prédio com Milo nos braços, completamente inconsciente. Vinha carregando-o no colo, olhando para ele com profunda preocupação, e ouvia-se mesmo aplausos e gritos.

— Mas... mas SOU EU! – balbuciou o grego, de boca muito aberta.

— Claro que é você.

— Você me tirou de lá assim? Como uma princesa desmaiada??? Não acredito nisso, Camus! Por que não me carregou de outra maneira? – questionava, alterado.

— O importante é que eu te tirei, não?

— MAS TINHA QUE SER ASSIM?

Camus fingiu não se importar.

— Por Atena... – suspirou o escorpiano, desanimado – o pessoal do Santuário vai ME zoar por TODA ETERNIDADE.

— Não seja ridículo, Milo, você tinha levado um tiro na cabeça.

— E por isso você me carrega como uma noiva em lua de mel diante de milhões de pessoas?

— Eu NÃO sabia que milhões de pessoas veriam isso.

— Vou me encerrar no Cabo Sunion!

— Por favor, Milo...

— Mas antes vou fazer você pagar, Camus!

— Essa é boa, eu te salvo e você quer me fazer PAGAR?

O grego atirou-se sobre ele; o francês esquivou-se, numa tentativa de se desvencilhar daquele maluco.

— Fica quietinho pra eu me vingar de você – ordenou Milo, abrindo o roupão do amado e tentando passar a mão nas partes íntimas do francês.

— Nada disso, eu avisei que na próxima EU iria cuidar de você – refutou o outro, fechando as pernas.

— Quem disse que eu ia permitir?

— Quem disse que eu precisaria da sua permissão?

— UAAAU... senhor geleira... está me saindo um tanto pervertido...

— Você não viu nada – sorriu, quase maldoso.

— E vai me mostrar?

— Pode apostar… — respondeu, agarrando Milo pelos pulsos e virando-o de bruços no sofá, inesperadamente.

— CAMUS!

O aquariano colou seus lábios ardentes no pescoço livre dos longos fios molhados, causando arrepios no amante. Sugou-lhe a delicada pele, mostrando um pouco do que viria a seguir.

— Aahh... C-Camus...

A mão do aquariano ganhou passagem por baixo do tecido felpudo, fincando-se firme nas nádegas rijas do namorado, que aspirou o ar com dificuldade meramente com aquele toque.

— Eu avisei, Milo.

— Hum... e-ei... isso não é justo... – e uma mão insinuou-se entre suas coxas grossas, fazendo-o suspirar – quer dizer que além de me salvar como a uma donzela diante de milhões, agora vai me tomar como se eu fosse uma?

— Você está bem longe de ser uma donzela, Milo – o aquariano sussurrou-lhe ao ouvido, colando seus lábios ali.

— Hummn...

A partir daquele momento, não mais se importaram com as imagens da TV, tampouco com mais coisa alguma...

*************

Bem que Derrick teria gostado que a prometida folga fosse naquele dia e não na terça, como prometera seu gerente.

Tendo sido liberado apenas meio dia, chegou à casa por volta das 13 horas e dormiu apenas das 14:00 às 18:00, precisando levantar para mais uma noite de trabalho.

Após um bom jantar e um banho morno, encontrou novo ânimo. Tomou alguns suplementos e saiu.

Caía uma chuvinha fina, insistente.

Chegou ao hotel às 19:16. Com medo da chuva atrasá-lo no trajeto, saíra cedo demais.

Por uns breves segundos, pensou em ligar para Surtr. Tinha algum tempo antes da jornada iniciar, às 20:00. Como estaria o ruivo? Provavelmente nada bem, pois que “seu querido Camus” parecia em bons termos com o outro Cavaleiro. Porém seria invasão demais. Na certa, seria duramente rechaçado se tentasse algum contato.

Dirigiu-se ao banheiro para trocar de roupa. Então, sem que ele mesmo se entendesse, deu meia volta, enfiando a roupa no armário. Saiu do vestiário, a passos resolutos.

“Que se dane”, pensava, enquanto rumava para o elevador.

Que fosse xingado.

Que fosse ameaçado.

Iria ver como o ruivo estava.

Foi até o apartamento 401. Derrick não sabia muito bem o que era o medo: as agruras de sua vida, vencidas uma a uma como em uma corrida de obstáculos, fizeram-no desaprender a temer em demasia as coisas. E foi assim que postou diante da porta do flat ocupado pelo estrangeiro. Entretanto...

“A porta... está aberta?”, surpreendeu-se. De fato, estava apenas mal encostada. Estranhando muito aquilo, ousou empurrá-la de leve.

— Senhor Surtr? – chamou, baixo, olhando para dentro do cômodo. Não o viu no sofá, tampouco na sala. Estaria no quarto? Talvez tivesse saído e não tivesse se preocupado em fechar a porta... neste caso, seria bem arriscado entrar. Entrar no flat com Surtr lá e receber uma retumbante bronca era uma situação. Entrar no flat com ninguém lá era outra, bastante grave. Isso sim poderia fazer o ruivo denunciá-lo.

— Senhor Surtr? O senhor está aqui? – indagou, adentrando mais o local. Reparou a porta da varanda aberta, as persianas batendo com o vento.

“Será que está ali?”, e foi até lá. Viu o homem sentado no chão, na chuva esparsa, como um boneco sem vida, o olhar fito no nada, sua expressão refletindo nada.

— Senhor Surtr!

Abaixou-se diante dele, assustado. Estaria desmaiado ou...

— Senhor Surtr, o que faz aqui na chuva?! Por Deus, o senhor vai se resfriar!

Não obteve resposta, sequer a mínima reação. O ruivo permaneceu imóvel, os lábios descorados e úmidos entreabertos, o olhar desprovido de brilho. Sentado, recostado à parede, tinha as mãos caídas ao longo do corpo.

Um boneco sem vida.

Derrick sentiu o coração pungir como nunca antes em sua jovem vida.

Vira cadáveres amontoados em sua vila quando criança.

Vira corpos mutilados por minas deixadas para trás, despojos de guerras não vencidas por ninguém.

Vira seres esquálidos, acotovelando-se por rações nada misericordiosas.

Nada... nada causara o que reverberava em seu peito.

A visão daquele homem desfeito pelo que chamavam de amor...

Aquilo era amor?

Ele não entendia.

Só não queria que ELE sofresse!

— Senhor Surtr... – balbuciou, levando a mão até a face gelada.

Ante aquele toque, as íris magentas moveram-se na direção do recém chegado. Lentamente. Apenas pararam nele. Nenhuma outra parte do seu corpo mexeu, salvo os lábios que tremiam.

— Senhor Surtr!... – repetiu o jovem, presa de um forte instinto protetor.

— V-você... – murmurou o ruivo.

— Sim... sou eu...

— P-por... por quê...

Derrick não respondeu. Apesar de mais novo, era cinco centímetros mais alto que Surtr, e de compleição bem mais forte, de modo que não foi nada difícil erguê-lo nos braços e tirá-lo dali. O asgardiano, ao contrário do que o rapaz esperou, não o rechaçou. Antes, enlaçou-o pelo pescoço, agarrando-se a ele, em uma entrega até então inédita.

O sul-africano levou-o até o quarto e depositou-o gentilmente na cama. Surtr ficou simplesmente deitado, desfeito, os braços abertos, a expressão perdida.

Que Derrick achou incrivelmente bela.

Balançou a cabeça.

— Vou buscar uma toalha – anunciou, antes que não pudesse se conter.

— Não – disse Surtr, erguendo meio corpo e agarrando-lhe o braço. Derrick olhou-o, surpreso.

— Faça-me... faça-me esquecer! – pediu o ruivo, deixando uma lágrima pender.

Nada mais lhe importava.

— Esquecer?...

— Faça-me... faça-me...es...esque... – não pôde mais falar, explodindo em um soluço dorido, angustiado. Agarrou-se àquele braço musculoso, como se fosse uma tábua de salvação.

— Senhor Surtr!...

Tomou-lhe os lábios com fúria desmedida. Queria tê-lo feito com delicadeza, transmitir-lhe paz...

Não conseguiria.

Devorou-lhe a boca, que aceitou-o, enlanguescida, mole, receptiva. Pressionou seu corpo contra o dele quando afundou-o de volta no leito. Surtr ergueu mais o rosto, oferecendo-se totalmente àquele esquecimento... suas mãos percorriam os braços fortes do jovem acima de si, deliciado com sua textura e rigidez. Derrick ergueu a camiseta molhada do ruivo, retirando-a por fim, e ganhando a visão daquela alva e imaculada pele. Não resistiu a lamber cada parte dela, provocando gemidos nada contidos do asgardiano:

— Aaahh...aah...

O sul-africano deixou a língua enroscar naqueles mamilos róseos e túrgidos, enquanto acariciava-lhe os quadris estreitos. Percebeu que o ruivo os erguia, num claro sinal de ansiedade e tensão sexual. Mordiscou a delicada carne, arrancando um gemido mais alto. Subiu e ganhou seu longo pescoço, sugando-o em alguns pontos, sem se importar se o marcaria ou não.

Não haveria como voltar atrás.

E... não parecia que Surtr tampouco se importasse com aquilo, no momento.

Sabia que tinha dado tudo errado entre ele e o homem que amava.

Mas isso, definitivamente, não importava para Derrick.

Surtr dera-lhe uma ordem.

Que o fizesse esquecer.

E, ainda que fosse por aqueles breves instantes... ele o faria.

Beijou-o uma vez mais, inebriado com a doçura de lábios dos quais sempre saíam palavras duras. Nunca provara lábios como aqueles. E por vezes, Surtr parecia perder o fôlego, abrindo-os mais, para tão somente Derrick chupá-los com deleite desmedido. Aquilo deixou o asgardiano em chamas. Inconscientemente, abriu as pernas, ante as insistentes fisgadas entre elas. O jovem negro acoplou-se mais ali, esfregando sua crescente masculinidade com provocante lentidão. Surtr suspirou ante o contato com tão impressionante volume. Em sua orelha colou-se a boca de Derrick, que mais sussurrou, gravemente:

— Vou fazê-lo esquecer, senhor Surtr... vou fazê-lo gozar até perder os sentidos... até esquecer este dia ruim...

— Oooh... – gemeu o ruivo, enlouquecido de expectativa.

A qual aumentou ainda mais quando os longos dedos de Derrick permearam o cós de sua calça... sua barriga retraiu-se com os delicados toques na cintura, no abdômen delineado. A vestimenta foi retirada aos poucos, seu mero correr pelas pernas do asgardiano incendiando-o...

O sul-africano deteve-se, de pé. Contemplou aquela nudez como quem chega à Terra Prometida. Nem em seus devaneios imaginava ver o arrogante ruivo à sua disposição daquele jeito.

Ele era tão magro... parecia tão mais frágil do que sugerira... ainda que poucos músculos se evidenciassem, no geral era quase franzino, o que deveria ser potencializado por sua altura. Praticamente imberbe, os poucos pelos avermelhados por cima de seu sexo já desperto chamaram-lhe a atenção. Surtr respirava quase desordenadamente.

Estava excitado, era inegável.

E tinha seus insólitos olhos magentas paralisados nos olhos da cor do céu noturno.

— O senhor é lindo, senhor Surtr. É ainda mais lindo do que eu imaginava.

— Você me acha lindo? — o estrangeiro exalava incredulidade.

Sem responder, o rapaz tirou a camiseta azul clara, deixando-a cair no chão, mesmo destino de sua calça preta. Surtr apenas o olhava, hipnotizado. E por sobre seu corpo ali ofertado sobrepôs-se o vigoroso corpo do recepcionista.

— Eu não acho. O senhor É lindo.

— Eu... – os dedos de Surtr traçavam caminhos no peito trabalhado do outro – eu...

— Shhhh – Tomou aquela mão e chupou com langor cada um dos dedos do ruivo, que reagiu àquilo:

— Aahh! – chegou a cerrar os olhos.

Após provocá-lo ali, como a demonstrar previamente a potência de sua sucção, deixou sua boca percorrer o peitoral, a barriga e o ventre do ruivo, tirando dele inúmeros suspiros descontrolados. Apenas respirou por sobre seu falo e viu-o pulsar vivamente, já direcionando para onde queria estar... espalmou as mãos nas coxas do estrangeiro, fazendo os polegares circularem numa carícia provocante e promissora.

— N-não me diga que... que... – gaguejou Surtr, sem entender sequer por que o fazia — ... OOH!

Sentiu a discreta mordida na parte interna de sua coxa e se tremeu todo. Derrick chupou, fazendo pressão e marcando-o.

— AAAh! S-seu!... Merda!

— O senhor é tão delicioso, senhor Surtr, não posso resistir.

— Humm... f-faz logo... me... me engole, seu maldito...

O jovem riu baixinho.

— Tenha paciência, senhor Surtr...

— Ora, seu... huum!!! – arqueou o corpo ante a longa lambida que percorreu seu pênis agora duro como rocha.

O que era aquilo?

Simultaneamente, suas bolas eram delicadamente massageadas pelas mãos do recepcionista. A língua ia da base até a haste, ininterruptamente, provocadora, como em mera degustação... o ruivo virava a cabeça de um lado para o outro, temeroso de não conseguir se aguentar.

Então sua glande foi agraciada pela invasão daquela língua hábil e incansável. Quase gritou no processo.

Não.

Talvez tenha MESMO gritado.

Já não sabia.

Perdera a noção de sons, de tempo, de onde estava.

O sul-africano chupava-lhe o pênis com maestria assombrosa, perturbadora até, o melhor sexo oral de toda uma vida, ao qual ele queria se abrir até se desconjuntar, só para se sentir mais e mais dentro daquela boca que parecia tragá-lo não apenas para o mar do esquecimento mas do mais bestial prazer que o cerceava. Derrick tinha que contê-lo pelos quadris, tamanha a ânsia que o fazia arremeter-se contra ele. Banhou-lhe o sexo sempre sugando, sempre conduzindo ali correntes elétricas irresistíveis, correntes que certamente despedaçariam a sanidade de Surtr, que já gemia enlouquecidamente. E alto.

Bem alto.

Aproveitando-se daquele frenesi, Derrick dirigiu um dedo até o meio das nádegas já bem abertas do asgardiano. Insinuou-se vagarosamente ali, sempre estimulando-o frontalmente com sua potente boca. Tão alucinado estava que Surtr mal percebeu qualquer desconforto, malgrado fosse sua primeira vez daquela forma. Suas partes baixas formigavam de tal maneira que era quase uma anestesia. Sua entrada foi cuidadosamente acariciada primeiro por fora, depois por dentro, com movimentos intercalados. Somente após a inserção de um segundo dedo ele praguejou, já quase convulso.

— AAAAH!!!

— É sua primeira vez assim, não é, senhor Surtr?

— É... é... eu... não sei se... ahhh... não sei se...

— Confie em mim. Vou cuidar bem do senhor – prometeu, com voz doce, sempre girando os dedos em seu interior cálido, alargando o canal extremamente estreito e virgem.

— Aaah!!! – lágrimas vieram aos olhos do ruivo, e ele mordeu os lábios no afã de não tornar aqueles gemidos em sonoros gritos.

Não iria adiantar por muito tempo.

Pois que após longos minutos algo MUITO ESTRANHO aconteceu.

Os dedos de Derrick tocaram em algum ponto... em algum lugar... que desligou todas as amarras de Surtr. Que foi a ignição de uma sensação inédita em sua vida. Ele parecia à beira de um colapso, sentindo-se eletrocutar em intervalos bem marcados.

— O que... o que É ISSO? O que v-você... f-fez?... – indagou, com medo do que sentia.

Derrick retirou seus dedos de dentro do ânus de Surtr, que grunhiu em protesto.

— N-não... c-continue... – nem ele acreditava no que dizia!

O jovem pôs um dedo nos lábios do mais velho, balançando a cabeça com condescendência.

— Não, senhor Surtr. Seu primeiro orgasmo comigo será com meu pau bem fundo dentro do seu corpo – sentenciou, lambendo o lóbulo da orelha do ruivo, a esta altura totalmente alucinado.

E como se ele fosse feito de papel, e não um renomado Guerreiro Deus, Derrick ergueu-o, e fê-lo sentar sobre seu imenso membro; só de sentir a impressionante extensão e grossura, o asgardiano apavorou-se.

Não poderia...!

— Vou entrar, senhor Surtr...

— N-não, você não... não pode!!!

— Claro que posso... respire fundo...

— E-eu... aaahh...

Derrick posicionou seu membro na entrada já preparada e iniciou lentamente a invasão. Genuíno pavor misturava-se à estrondosa excitação de Surtr. Nunca fizera aquilo... nunca QUISERA fazer aquilo! Não obstante, não era mais senhor de seu raciocínio. Apenas curvava-se ao instinto sequioso que urgia de suas entranhas.

— Aaah!!

— Confie em mim... – Sirham sussurrou-lhe ao ouvido, terminando por beijar-lhe incessantemente o maxilar.

— Hunng... – surpreendentemente, o ruivo pareceu desistir de empreender qualquer resistência. Chegara a uma encruzilhada, sabia-o.

Confiando ou não... tinha que prosseguir. Seu corpo agora assim o exigia.

Ainda que tivesse sido bem estimulado, não pôde suprimir os gemidos de dor ao ser penetrado por semelhante mastro. Dir-se-ia que um tição em brasa o empalava! Com muita paciência, Derrick ondulava os quadris, indo de encontro ao corpo de frente para ele, sentado sobre sua virilha. Chocava-se ininterruptamente contra aquele interior apertado e flamejante, cerrando os dentes de prazer, controlando-se para não machucar o amante em demasia. Surtr ergueu o rosto e aspirou o ar com sofreguidão, as lágrimas descendo abundantes entre a dor e o deleite que já se fazia presente...agarrou o jovem, emitindo ruídos estimulantes. Derrick segurou-o com afinco, estocando-o mais e mais. Aquele canal virgem prendia-o a ponto de fazê-lo gemer enleado. Não se lembrava de ter se sentindo daquela forma.

— AAAH! – gritou o ruivo, ao receber as ministrações em seu reto de maneira mais vigorosa e cadenciada. O misterioso ponto era novamente pressionado com força pelo pênis que o preenchia por completo. Teve medo de explodir.

Os movimentos do sul-africano socavam freneticamente a próstata do asgardiano, que urrava, desesperado. A base do pescoço de Surtr foi atacada pela boca ávida do rapaz, e ele se entregou ainda mais, seus gemidos em um crescente que acompanhava a progressão de seu prazer.

— Senhor Surtr... o senhor é tão delicioso... – Derrick gemia em sua orelha vermelha.

— Uhhng!! Aahh... ahhh...

Surtr teve suas terminações nervosas em curto circuito pouco antes de sua semente emergir abundantemente entre seus corpos acoplados, sendo sacudido pelo mais poderoso orgasmo que experimentara em sua vida. Gritou, agarrando-se mais ao jovem, as lágrimas descendo livremente como o profuso gozo de seu pênis pulsátil. Sentindo os músculos virgens contraindo-se ao redor de seu inflado órgão, Derrick também gozou, inundando o interior palpitante de Surtr com seu sêmen abundante e quente. Surtr ainda sentia as contrações quando aquele calor úmido o invadiu, gemendo longamente, certo de que ira sucumbir.

Mas o sul-africano o amparou com firmeza, dando-lhe a sustentação que tão cedo ele teria de volta.

Ficaram um bom tempo aproveitando cada sensação residual daquele ápice único, mágico e inédito para os dois.

Derrick retirou-se dele, com extrema delicadeza, um rastro leitoso ainda ligando-os. Encostou-se na cabeceira da cama, abraçando o ruivo de forma protetora.

— Só para constar... foi a primeira vez na minha vida em que fiz isso sem usar preservativo...

— Hum – o asgardiano não conseguia sequer falar.

Seu estado letárgico preocupou um pouco o recepcionista. Contudo, este se tranquilizou ao sentir uma discreta carícia em seu rígido bíceps. Beijou a fronte suada do ruivo. Longos minutos de quietude se passaram. O mundo não parecia sequer existir.

— Preciso ir, senhor Surtr – murmurou Derrick, vendo que começava a passar de seu horário de trabalho.

— Quanto... quanto te devo? – Surtr perguntou, quase num sussurro, de tão exausto.

O mais novo mirou-o, como se não estivesse compreendendo.

— Perdão?

— Quanto devo lhe pagar?

— Não fiz isso por dinheiro.

— Não?

Erguendo-se, o recepcionista fitou-o, muito sério.

— Não. Aliás, não aceitarei mais qualquer dinheiro do senhor. Nunca mais.

Surtr nada respondeu. O outro afastou-se, indo pegar as roupas descartadas pelo chão acarpetado. Vestiu-se sob o olhar nublado porém atento do homem desfeito na cama. Debruçou-se sobre ele, falando em sua boca:

—Só tenho a dizer que esse Camus é o cara mais idiota deste mundo por não reconhecer seu valor, senhor Surtr. Eu gostaria muito que ele pagasse por tê-lo feito sofrer. Muito mesmo.

— Então me ajude...

— Hum?

Lascivamente, o ruivo passou seus lábios sobre os do negro, antes de concluir:

— Me ajude a fazê-lo pagar, Derrick. Aliás... quero que os DOIS paguem pelo que me fizeram.

O jovem sorriu, extremamente satisfeito.

— Estou a seu total dispor, senhor Surtr. Pode contar comigo. Para TUDO.

*************

Notas finais
"VOCÊ EXPLICITOU O LEMON DO SURTR E DO DERRICK MAS NÃO O DO MILO COM CAMUS!!!" >:( Permitam-me explicar: já tivemos dois lemons do casal 20. Achei que pudesse ficar repetitivo um terceiro, em tão pouco tempo. Como não sou muito afeita em retratar relações onde Camus é seme (questão de gosto mesmo), preferi deixar sugerido então que, desta vez, quem iria "comandar" a situação seria o francês, já que houve pedidos que fosse mostrada essa alternância no relacionamento deles (a qual eu já informei existir) E não queria colocar dois lemons num só capítulo. Acho excessivo, cansativo. Como a limonada que encerra o capítulo já estava prevista na história para este momento, deixemos detalhamentos dos nossos heróis mais para frente, OK? Bem... eis que uma nova aliança é formada entre o asgardiano e o sul-africano, agora abertamente em uma ameaça aos dois Santos que se reconciliaram... o que Surtr tem em mente, e como Derrick vai ajudá-lo? E quanto ao ancião cujas palavras impressionaram Camus... seria realmente um mero louco? As coisas vão esquentar ainda mais daqui em diante, e não apenas entre os lençóis :v Muito obrigada por prestigiarem. Forte abraço, e até o próximo capítulo ;)