O Brilho da Honra

1 Relações congeladas


Notas iniciais
Olá! Trago para vocês a minha nova fanfiction, "O Brilho da Honra". Mais uma vez centrada no casal Milo e Camus, ocorre após os eventos em Asgard mostrados na série "Soul of Gold". Por isso, embora perceba que a maioria prefira os personagens respectivamente loiro e ruivo, mais uma vez mantive as características do anime clássico, que por sua vez se repetiu na trama de Loki - ainda que com traços inferiores, então considerem o clássico, por Atena! Rsrsrs. Devem perceber que modifiquei a grafia do nome da deusa, a fim de diferenciar este universo do de "Grilhões". Diferentemente de minha outra fic, esta propõe uma temática mais realista e em consonância com o nosso mundo. Não será uma saga tão extensa, dramática e complexa como "Grilhões", e sim mais séria, crua, com vislumbres de questões políticas e sociais que assolam a humanidade, notadamente a África, palco da história que começa agora. Espero que gostem. Assim como a primeira, está sendo feita com muito carinho e dedicação. Boa leitura!

A noite caía suavemente por sobre o Santuário de Atena na Grécia. As altas montanhas que permeavam o horizonte agora convergiam-se em silhuetas em meio à bruma que a tudo cerceava. Despontavam no límpido firmamento as primeiras estrelas.

Num dos aposentos do 8° dos 12 Templos guardados pelos Santos de Ouro, a mais alta patente dos guerreiros da Deusa das Batalhas, dois desses Cavaleiros repousavam, serenamente, após algumas horas de amor intenso.

O Santo de Aquário, totalmente nu, abrigava-se sob o amplexo protetor de seu amante, Milo de Escorpião. Este, sentindo o levemente menor se remexer um pouco em seus braços, despertou, ainda um tanto desnorteado. O frio que emanava da carne que enlaçava fez com que se lembrasse antes mesmo de abrir os olhos; foi rememorando…

Por volta das 16:30, ele e Camus haviam deixado juntos a arena, dando por encerrados os árduos treinos daquele dia. Ao adentrarem o Templo de Escorpião, fitaram-se por uns instantes. O francês fez menção em seguir seu caminho rumo a Aquário, mas a mão do grego tomou-lhe o pulso, abruptamente. Como resposta, apenas um olhar interrogativo... que foi respondido por um beijo tão súbito quanto desesperado. E que por ele foi apaixonadamente correspondido.

Nem eles saberiam explicar como conseguiram chegar ao banheiro atracando-se daquela maneira!

Amaram-se durante o banho, o som dos gemidos nada abafados pelo do chuveiro. Ainda nus e molhado, foram para o quarto de Milo e continuaram a sessão de sexo ardente, encharcando tudo de todas as formas.

Milo considerou o outro, ainda adormecido, com extremo carinho. Acariciou seu rosto que, malgrado as feições finas conservava misteriosamente uma masculinidade austera. Os longos cabelos azuis petróleo emaranhavam-se um pouco devido à umidade, porém conservavam-se macios, brilhosos... e o cheiro que daquele corpo se desprendia não encontraria rival nem mesmo nos magníficos jardins de Afrodite.

Beijou-o de leve na fronte, para não acordá-lo. Em vão.

Íris num profundo tom de anil surgiram diante das íris claras como o céu de verão.

— Milo... desculpe. Acabei dormindo...

— Está tudo bem. Minha casa é sua casa.

— Também... depois de um dia inteiro de treino encarar dois interstícios amorosos logo com o fogoso Escorpião... – bocejou sem concluir. O outro riu e o apertou mais, até que o aquariano gemesse baixinho.

— Geme assim de novo e não respondo por mim, Camus. Te levo ao terceiro orgasmo... – sussurrou Milo, já sentindo a boca secar de desejo.

— Mas... ai! Me apertando assim... d-dói...!

— Que mentiroso você é. Quer é me seduzir com esses gemidinhos... – lambeu o pescoço do francês, que sorriu, provocante – o poderoso Aquário sentindo dor de ser apertado ASSIM?

— Aah! Mi-Milo... pare! Uhn!

— Eu avisei...

Levo as mãos até entre as pernas do amado, confirmando:

— Se fazendo de difícil e duro deste jeito depois de gozar duas vezes... depois eu é que sou o fogoso...

Sorrindo, Camus passou os braços por trás do pescoço do escorpiano.

— Cale a boca, Milo... – atacou-lhe a boca com voracidade, acendendo-se e acendendo o parceiro de uma forma irresistível...

Súbito, uma presença.

Ambos pararam imediatamente o que faziam e entreolharam-se.

— Sentiu isso, né?

— Sim, um cosmo… mas não de um Santo de Atena – o aquariano franziu as sobrancelhas, erguendo meio corpo.

— Um inimigo? – questionou-se o grego, já se pondo de pé.

— ......

— Não. Espere. Eu JÁ senti esse cosmo antes. Não é bem como o nosso...

Camus voltou-se para ele, a aflição estampada em sua bela face. Então deixou o leito aquecido e dirigiu-se para a porta. Milo balançou a cabeça, igualmente aflito ante uma incômoda constatação:

— Não. Não pode ser!

— Milo... eu vou...

— Camus, NÃO VÁ! Você NÃO pode ir até lá fora!

— ...e-eu... eu preciso...

— Camus, NÃO!

Mirando-o com compaixão, o francês hesitou apenas alguns segundos, antes de dizer:

— ...você SABE que devo.

— VOCÊ NÃO DEVE NADA A ELE!

Sem mais nada dizer, Camus girou sobre os calcanhares e sumiu das vistas de Milo que, angustiado, foi atrás dele.

Encontrou-o na saída do Templo, nu, os cabelos úmidos descendo pelas costas lisas, com a mão estendida na direção daquele que a tomou, segurando-a à maneira de um cavalheiro segurar a mão de uma dama.

Estacando ali sem se importar com a própria nudez, Milo crispou os punhos e rosnou, tremendo de ódio:

— SURTR!...

— Há quanto tempo, Escorpião – saudou o asgardiano, um sorriso trocista no rosto alvo e bonito – Folgo em vê-lo com saúde. E... que saúde, devo dizer.

— Que faz aqui? Ter recebido uma segunda vida pelas graças de Odin não te dá o direito de vir até aqui nos perturbar!

— Pelo que vejo, meu caro, você é o único perturbado aqui – retrucou o ruivo, calmamente.

De fato, Aquário parecia alheio ao desconforto do amante. Lançou para ele um último olhar, repleto de comiseração, e virou-se para o Guerreiro Deus, que agora o guiava pelo pátio.

— Camus! Você NÃO pode ir com ele! – clamou, indignado.

Os dois caminhavam adiante, sem se importarem com os apelos daquele que ficava para trás.

— Camus! Você prefere me trair e ficar com ele então? É assim? CAMUS!

Precipitou-se para os jovens que misturavam-se à névoa da noite fria. Percebeu que não mais os encontrava.

Não.

NÃO.

HAVIAM DE ESTAR ALI!

Correu pela alameda, em busca de seu grande e, mais uma vez, perdido amor.

— Camus! – gritou, embora fosse inútil – CAMUS!!!

— MILO!!

— Hã?! – parou de repente, sentindo uma mão em seu ombro a sacudi-lo.

— Milo! Acorda, cara, tá tendo um pesadelo!

— A... Aioria...!

Ergueu-se dos travesseiros. Esfregou os olhos úmidos, aturdido. Seu coração acelerado incomodava-o.

— Que... que horas são? – perguntou, confuso.

— Seis da manhã.

— Desculpe, eu te acordei... e só íamos acordar daqui a uma hora...

— Relaxa. É bom que damos uma corridinha pela praia antes do café. Topa? – propôs o leonino, piscando um olho.

Obviamente tentava animar o amigo.

Como sempre fizera. E como fazia principalmente nos últimos dez meses.

— Beleza, vamos sim – Milo tentou sorrir. Só que ante aquela patética tentativa, o amigo resolveu interpelá-lo:

— Sonhando com ele de novo, né...

— É. Uma maldição, cara. Saco – resmungou, tirando a franja desgrenhada da testa.

Suspirando, Aioria sentou-se na cama e impediu-o de levantar:

— Milo. Daqui a algumas horas vocês...

— Eu sei, EU SEI. Não se preocupa, tá? Eu tô legal.

— Legal o caralho, Milo, olha pra você.

— Bom, isso é o de menos. Missão é missão e nós estamos em uma. Isso é o que importa – ergueu-se resoluto do leito. Dirigiu-se até a suíte. Apenas encostou um pouco a porta para fazer suas necessidades. Aioria aproximou-se dela uo suficiente para ser ouvido. Era muito cedo e se o falasse de onde estava elevaria muito a voz.

— Como vai fazer quando estiver cara a cara com ele, quando formos para o evento, Milo?

— Não é como se não tivéssemos nos encontrado antes desta Conferência, bichano. Eu e ele cansamos de nos cruzar durante os treinos nas arenas, e nas reuniões do Santuário, desde que Odin nos reviveu.

— Sim, e em todas as vezes você o tratou com frieza ou com indiferença.

Após o barulho da descarga veio a resposta:

— Não será diferente desta vez.

— Milo... até quando?

— Até sempre, Aioria. Até SEMPRE – e o som do chuveiro encerrou aquele colóquio. O leonino tinha consciência de que também era um, mas não pôde deixar de resmungar enquanto cruzava os braços:

— Cabeça-dura.

*************

Nuances violáceas pronunciavam-se no céu, anunciando um dia ensolarado. Postado junto à janela do luxuoso quarto que ocupava no Cape Town Internacional Palace Hotel, Camus perdia-se mais em seus pensamentos do que na bela paisagem praiana. Pôs as mãos nos bolsos da calça de moleton preto.

— Já de pé tão cedo? Podia ter dormido até sete horas... teremos um dia bem cheio.

— Oh. Bom dia, Saga. Eu o acordei, não? Sinto muito.

O geminiano adentrou mais o vasto aposento, indo até ele.

— Devo dizer que sim. Ao perceber que você havia acordado, achei que fosse mais tarde do que realmente é e me alarmei – riu discretamente – Mas não tem problema. Será bom para eu repassar o texto antes do meu pronunciamento na abertura do evento.

— Você é mesmo um perfeccionista – comentou o francês, sorrindo de leve.

— Olha quem fala – brincou o grego. Mas ao notar a melancolia presente naquele sorriso fez-se sério – Estava pensando “nele”, não?

Camus absteve-se de responder, o que configurava um “sim” para o outro.

— Está com receio de encontrá-lo daqui a pouco? – indagou, agora ao seu lado.

— Eu não diria receio... – suspirou desanimado – Não sei por que Atena mandou a mim e a ele para a mesma missão. Não é segredo para ninguém o que aconteceu entre nós.

— Não creio que deva contestar uma decisão da Deusa, Camus – apesar do teor da fala, esta fora feita sem qualquer tom de reprimenda – de mais a mais, você é um dos principais assessores da Fundação agora, e o maior poliglota dentre nós. Não ficaria de fora da escolha Dela.

— Tenho certeza de que apenas a sua presença, como o porta-voz direto de Atena, seria suficiente, Saga – insistiu, deixando a janela e dirigindo-se para o closet branco. Retirou alguns cabides que continham roupas sociais.

O ex-Patriarca voltou-se para ele.

— Você tem tanta reserva assim de estar onde ELE está? A ponto de querer escapar do que lhe é atribuído? – perguntou, gesticulando.

— Sabe muito bem que não falo por mim.

— Camus...

— Você é testemunha ocular do que eu fiz, Saga – sem perceber, imprimiu certa irritação naquela réplica. Aproximando-se do amigo, o grego abrandou a voz.

— Sim, eu sei o que você fez. Eu VI. Mas ficar se culpando eternamente não fará com que se reaproxime dele.

— Milo me odeia, Saga – declarou por fim, já cansado daquela conversa.

— Sabe que isso não é verdade.

— Não é verdade? – a fala saiu em meio a um riso baixo de sarcasmo – Não é o que os últimos dez meses demonstram.

Realmente, desde que retornaram de Asgard para o Santuário, há dez meses, as relações entre Aquário e Escorpião congelaram-se de vez.

Após as ferozes batalhas na Terra do Gelo Eterno, como um justo agradecimento, o Grande Odin concedeu vida nova aos guerreiros que pereceram pela causa: tanto os Santos de Atena, que derrotaram Loki, quanto seus Guerreiros Deuses, igualmente nobres e justos, porém manipulados pelo maligno Deus. Os Cavaleiros de Ouro reassumiram seus postos no Santuário da Grécia e tudo começou a retornar ao normal, ou, em alguns casos, melhorar de situação. Amigos continuaram amigos, amigos tornaram-se amantes (caso de Máscara da Morte e Afrodite), amantes continuaram amantes (caso de Mu e Aldebaran), inimigos tornaram-se amigos (caso de Shura e Aioros), inimigos tornaram-se amantes (caso de Saga e Aioros) e... excepcionalmente, havia o caso de Milo e Camus, outrora amantes... agora separados pelas imperiosas forças do destino; para o escorpiano, pelas incompreensíveis ações do aquariano. O grego odiava o tal Surtr com todas as forças, contudo, o miserável fora apenas a gota d’água que fizera transbordar de vez as comportas de sua paciência. Camus estava consciente disto. E não o condenava.

Por isso, suas tentativas de reconciliação foram abandonadas dois meses após a volta à Terra Santa. No primeiro mês, ele creditou a rejeição de Milo à teimosia do mesmo e à proximidade de então com os fatídicos acontecimentos em Asgard. Respeitou, com abnegação, o afastamento do ex-namorado, confiante nos poderes terapêuticos do tempo... e na urgência da saudade.

Entretanto, ao completar dois meses, e continuar vendo infrutíferos seus esforços, começou a se angustiar de verdade. Passou a assumir uma postura mais ofensiva: propôs conversas, sugeria encontros, pedia chances, invariavelmente negadas, para se explicar novamente. O escorpiano ou as negava ou concordava em ouvi-las, mas o fazia com a fria indiferença de quem não será demovido de sua decisão, nem por nada, nem por ninguém.

Camus, enfim, se convenceu.

Não haveria mais “eles”.

Estava tudo acabado. DEFINITIVAMENTE acabado.

Pôs-se a rememorar os últimos meses...

Encontravam-se nas arenas e se cumprimentavam, tão somente. Se não houvesse um parceiro disponível para o treinamento além do francês, Milo ia dar uma volta ou ver os novatos treinando, ou ainda , assistir aos embates que seus amigos travavam. Qualquer coisa seria melhor do que ficar a sós com Aquário. E mais ainda, treinar com ele. Tal proximidade era inadmissível para Milo.

O aquariano assistia-o deixar o campo, fazendo uma mesura conformada, ao que o outro respondia por pura polidez. Sentia-se como se tivesse uma doença contagiosa e repulsiva. Retirando-se Escorpião, Aquário abaixava a cabeça, derrotado sem nenhuma luta... com o passar do tempo as lágrimas deixaram de vir e ficou apenas o amargo sabor da perda. Com o passar do tempo parou não apenas de tentar como também de sonhar. De sonhar em ter seu Milo de volta, como no passado: bom, doce, terno, divertido, amoroso… quente… em todos os sentidos…

Agora só havia o Milo duro, frio, cordato. Diplomático, distante e indiferente...

ELE moldara esse Milo, sabia-o.

Não tinha o menor direito de reclamar.

Mas então por que isso não fazia com que doesse menos?

Sofria... e sofria AINDA MAIS por isso.

— Ainda acredito que vocês possam se entender – a declaração de Saga arrancou-o dos devaneios – olhe para mim: eu me acertei com Oros. E o que houve entre nós dois foi bem mais pesado do que o que aconteceu entre vocês dois.

Só então o aquariano percebeu que permanecera ali, de pé, com dois cabides de roupas nas mãos, enquanto o outro já se servia do café que pedira à camareira. Havia uma sala contígua que separava os dois quartos do elegante apartamento, e ali fora disposta a farta refeição, sobre uma imensa mesa de jacarandá. Saga pegara uma xícara de café puro e voltara aos aposentos do amigo, a fim de continuarem aquele assunto, há muito evitado pelo francês.

— Certo, Saga, você mandou matar Aioros. No entanto não estava agindo conscientemente. NÃO ERA VOCÊ. Já eu... – arremessou as roupas para a cama, sem se importar se iriam amassar ou não – estava em meu juízo perfeito! Isso distancia sobremaneira nossas ações.

Esfregou a palma da mão no rosto antes de continuar:

— Eu lutei com ele A SÉRIO. Deixei que Surtr o atacasse. Por DUAS VEZES. E na segunda, ele não apenas o fez com ferocidade como empregou um método sujo, uma... armadilha. Que poderia tê-lo matado...

— Você NÃO sabia que seu amigo faria aquilo!

— Mas fez porque EU permiti aquela situação. E se não fosse por você... – calou-se, revoltado consigo mesmo. Há meses que não fazia outra coisa a não ser se odiar!

Saga virou o café. Precisava de mais. Suspirou e disse:

-Vocês dois estarão no mesmo lugar por duas semanas. Se não fizerem as pazes aqui... creio que não farão mais...

— Mas eu tentei, Saga!

— ...porque melhor chance que esta não haverá, Camus.

Um nó na garganta bloqueou mais uma resposta que o aquariano tencionou dar ao mais velho. Este levantou-se da cama e caminhou para a porta.

— O café está na mesa. Venha, você precisa de uma boa refeição, e depois de uma chuveirada para aclarar essas ideias.

— Estou aqui unicamente pelo meu dever, cumprirei minha função e só – sentenciou secamente.

Gêmeos lançou um olhar ambíguo ao amigo. Deu de ombros.

— Se há uma coisa que pode ser afirmada sobre nossas vidas, meu caro, é que a imprevisibilidade nos acompanha – dito isto, foi para onde o lauto desjejum o esperava.

Finalmente só, Camus deixou-se cair pesadamente sobre o colchão, apoiando a cabeça nas mãos, enquanto um único anseio o acometia:

Milo...”, pensou, desolado, “como eu queria...!”

*************

Notas finais
Por mais razões que fóruns pudessem dar às ações de Camus em "Soul of Gold", e por mais que o final tenha dado a impressão de que no fim eles se entenderam... aqui na história ficaram, sim, ressentimentos. "Soul of Gold" é um spin-off, no entanto dele se origina o ápice do congelamento das relações dos amantes aqui descrito... mas quando foi mesmo que o desmoronamento se iniciou? E como será cumprir tal missão numa tão importante Cúpula em meio a tantos conflitos internos?Espero que tenham apreciado este primeiro capítulo. Aos que embarcarão nesta aventura, até o próximo capítulo!