O Brilho da Honra
1 Relações congeladas
Notas iniciais
A noite caía suavemente por sobre o Santuário de Atena na Grécia. As altas montanhas que permeavam o horizonte agora convergiam-se em silhuetas em meio à bruma que a tudo cerceava. Despontavam no límpido firmamento as primeiras estrelas.
Num dos aposentos do 8° dos 12 Templos guardados pelos Santos de Ouro, a mais alta patente dos guerreiros da Deusa das Batalhas, dois desses Cavaleiros repousavam, serenamente, após algumas horas de amor intenso.
O Santo de Aquário, totalmente nu, abrigava-se sob o amplexo protetor de seu amante, Milo de Escorpião. Este, sentindo o levemente menor se remexer um pouco em seus braços, despertou, ainda um tanto desnorteado. O frio que emanava da carne que enlaçava fez com que se lembrasse antes mesmo de abrir os olhos; foi rememorando…
Por volta das 16:30, ele e Camus haviam deixado juntos a arena, dando por encerrados os árduos treinos daquele dia. Ao adentrarem o Templo de Escorpião, fitaram-se por uns instantes. O francês fez menção em seguir seu caminho rumo a Aquário, mas a mão do grego tomou-lhe o pulso, abruptamente. Como resposta, apenas um olhar interrogativo... que foi respondido por um beijo tão súbito quanto desesperado. E que por ele foi apaixonadamente correspondido.
Nem eles saberiam explicar como conseguiram chegar ao banheiro atracando-se daquela maneira!
Amaram-se durante o banho, o som dos gemidos nada abafados pelo do chuveiro. Ainda nus e molhado, foram para o quarto de Milo e continuaram a sessão de sexo ardente, encharcando tudo de todas as formas.
Milo considerou o outro, ainda adormecido, com extremo carinho. Acariciou seu rosto que, malgrado as feições finas conservava misteriosamente uma masculinidade austera. Os longos cabelos azuis petróleo emaranhavam-se um pouco devido à umidade, porém conservavam-se macios, brilhosos... e o cheiro que daquele corpo se desprendia não encontraria rival nem mesmo nos magníficos jardins de Afrodite.
Beijou-o de leve na fronte, para não acordá-lo. Em vão.
Íris num profundo tom de anil surgiram diante das íris claras como o céu de verão.
— Milo... desculpe. Acabei dormindo...
— Está tudo bem. Minha casa é sua casa.
— Também... depois de um dia inteiro de treino encarar dois interstícios amorosos logo com o fogoso Escorpião... – bocejou sem concluir. O outro riu e o apertou mais, até que o aquariano gemesse baixinho.
— Geme assim de novo e não respondo por mim, Camus. Te levo ao terceiro orgasmo... – sussurrou Milo, já sentindo a boca secar de desejo.
— Mas... ai! Me apertando assim... d-dói...!
— Que mentiroso você é. Quer é me seduzir com esses gemidinhos... – lambeu o pescoço do francês, que sorriu, provocante – o poderoso Aquário sentindo dor de ser apertado ASSIM?
— Aah! Mi-Milo... pare! Uhn!
— Eu avisei...
Levo as mãos até entre as pernas do amado, confirmando:
— Se fazendo de difícil e duro deste jeito depois de gozar duas vezes... depois eu é que sou o fogoso...
Sorrindo, Camus passou os braços por trás do pescoço do escorpiano.
— Cale a boca, Milo... – atacou-lhe a boca com voracidade, acendendo-se e acendendo o parceiro de uma forma irresistível...
Súbito, uma presença.
Ambos pararam imediatamente o que faziam e entreolharam-se.
— Sentiu isso, né?
— Sim, um cosmo… mas não de um Santo de Atena – o aquariano franziu as sobrancelhas, erguendo meio corpo.
— Um inimigo? – questionou-se o grego, já se pondo de pé.
— ......
— Não. Espere. Eu JÁ senti esse cosmo antes. Não é bem como o nosso...
Camus voltou-se para ele, a aflição estampada em sua bela face. Então deixou o leito aquecido e dirigiu-se para a porta. Milo balançou a cabeça, igualmente aflito ante uma incômoda constatação:
— Não. Não pode ser!
— Milo... eu vou...
— Camus, NÃO VÁ! Você NÃO pode ir até lá fora!
— ...e-eu... eu preciso...
— Camus, NÃO!
Mirando-o com compaixão, o francês hesitou apenas alguns segundos, antes de dizer:
— ...você SABE que devo.
— VOCÊ NÃO DEVE NADA A ELE!
Sem mais nada dizer, Camus girou sobre os calcanhares e sumiu das vistas de Milo que, angustiado, foi atrás dele.
Encontrou-o na saída do Templo, nu, os cabelos úmidos descendo pelas costas lisas, com a mão estendida na direção daquele que a tomou, segurando-a à maneira de um cavalheiro segurar a mão de uma dama.
Estacando ali sem se importar com a própria nudez, Milo crispou os punhos e rosnou, tremendo de ódio:
— SURTR!...
— Há quanto tempo, Escorpião – saudou o asgardiano, um sorriso trocista no rosto alvo e bonito – Folgo em vê-lo com saúde. E... que saúde, devo dizer.
— Que faz aqui? Ter recebido uma segunda vida pelas graças de Odin não te dá o direito de vir até aqui nos perturbar!
— Pelo que vejo, meu caro, você é o único perturbado aqui – retrucou o ruivo, calmamente.
De fato, Aquário parecia alheio ao desconforto do amante. Lançou para ele um último olhar, repleto de comiseração, e virou-se para o Guerreiro Deus, que agora o guiava pelo pátio.
— Camus! Você NÃO pode ir com ele! – clamou, indignado.
Os dois caminhavam adiante, sem se importarem com os apelos daquele que ficava para trás.
— Camus! Você prefere me trair e ficar com ele então? É assim? CAMUS!
Precipitou-se para os jovens que misturavam-se à névoa da noite fria. Percebeu que não mais os encontrava.
Não.
NÃO.
HAVIAM DE ESTAR ALI!
Correu pela alameda, em busca de seu grande e, mais uma vez, perdido amor.
— Camus! – gritou, embora fosse inútil – CAMUS!!!
— MILO!!
— Hã?! – parou de repente, sentindo uma mão em seu ombro a sacudi-lo.
— Milo! Acorda, cara, tá tendo um pesadelo!
— A... Aioria...!
Ergueu-se dos travesseiros. Esfregou os olhos úmidos, aturdido. Seu coração acelerado incomodava-o.
— Que... que horas são? – perguntou, confuso.
— Seis da manhã.
— Desculpe, eu te acordei... e só íamos acordar daqui a uma hora...
— Relaxa. É bom que damos uma corridinha pela praia antes do café. Topa? – propôs o leonino, piscando um olho.
Obviamente tentava animar o amigo.
Como sempre fizera. E como fazia principalmente nos últimos dez meses.
— Beleza, vamos sim – Milo tentou sorrir. Só que ante aquela patética tentativa, o amigo resolveu interpelá-lo:
— Sonhando com ele de novo, né...
— É. Uma maldição, cara. Saco – resmungou, tirando a franja desgrenhada da testa.
Suspirando, Aioria sentou-se na cama e impediu-o de levantar:
— Milo. Daqui a algumas horas vocês...
— Eu sei, EU SEI. Não se preocupa, tá? Eu tô legal.
— Legal o caralho, Milo, olha pra você.
— Bom, isso é o de menos. Missão é missão e nós estamos em uma. Isso é o que importa – ergueu-se resoluto do leito. Dirigiu-se até a suíte. Apenas encostou um pouco a porta para fazer suas necessidades. Aioria aproximou-se dela uo suficiente para ser ouvido. Era muito cedo e se o falasse de onde estava elevaria muito a voz.
— Como vai fazer quando estiver cara a cara com ele, quando formos para o evento, Milo?
— Não é como se não tivéssemos nos encontrado antes desta Conferência, bichano. Eu e ele cansamos de nos cruzar durante os treinos nas arenas, e nas reuniões do Santuário, desde que Odin nos reviveu.
— Sim, e em todas as vezes você o tratou com frieza ou com indiferença.
Após o barulho da descarga veio a resposta:
— Não será diferente desta vez.
— Milo... até quando?
— Até sempre, Aioria. Até SEMPRE – e o som do chuveiro encerrou aquele colóquio. O leonino tinha consciência de que também era um, mas não pôde deixar de resmungar enquanto cruzava os braços:
— Cabeça-dura.
*************
Nuances violáceas pronunciavam-se no céu, anunciando um dia ensolarado. Postado junto à janela do luxuoso quarto que ocupava no Cape Town Internacional Palace Hotel, Camus perdia-se mais em seus pensamentos do que na bela paisagem praiana. Pôs as mãos nos bolsos da calça de moleton preto.
— Já de pé tão cedo? Podia ter dormido até sete horas... teremos um dia bem cheio.
— Oh. Bom dia, Saga. Eu o acordei, não? Sinto muito.
O geminiano adentrou mais o vasto aposento, indo até ele.
— Devo dizer que sim. Ao perceber que você havia acordado, achei que fosse mais tarde do que realmente é e me alarmei – riu discretamente – Mas não tem problema. Será bom para eu repassar o texto antes do meu pronunciamento na abertura do evento.
— Você é mesmo um perfeccionista – comentou o francês, sorrindo de leve.
— Olha quem fala – brincou o grego. Mas ao notar a melancolia presente naquele sorriso fez-se sério – Estava pensando “nele”, não?
Camus absteve-se de responder, o que configurava um “sim” para o outro.
— Está com receio de encontrá-lo daqui a pouco? – indagou, agora ao seu lado.
— Eu não diria receio... – suspirou desanimado – Não sei por que Atena mandou a mim e a ele para a mesma missão. Não é segredo para ninguém o que aconteceu entre nós.
— Não creio que deva contestar uma decisão da Deusa, Camus – apesar do teor da fala, esta fora feita sem qualquer tom de reprimenda – de mais a mais, você é um dos principais assessores da Fundação agora, e o maior poliglota dentre nós. Não ficaria de fora da escolha Dela.
— Tenho certeza de que apenas a sua presença, como o porta-voz direto de Atena, seria suficiente, Saga – insistiu, deixando a janela e dirigindo-se para o closet branco. Retirou alguns cabides que continham roupas sociais.
O ex-Patriarca voltou-se para ele.
— Você tem tanta reserva assim de estar onde ELE está? A ponto de querer escapar do que lhe é atribuído? – perguntou, gesticulando.
— Sabe muito bem que não falo por mim.
— Camus...
— Você é testemunha ocular do que eu fiz, Saga – sem perceber, imprimiu certa irritação naquela réplica. Aproximando-se do amigo, o grego abrandou a voz.
— Sim, eu sei o que você fez. Eu VI. Mas ficar se culpando eternamente não fará com que se reaproxime dele.
— Milo me odeia, Saga – declarou por fim, já cansado daquela conversa.
— Sabe que isso não é verdade.
— Não é verdade? – a fala saiu em meio a um riso baixo de sarcasmo – Não é o que os últimos dez meses demonstram.
Realmente, desde que retornaram de Asgard para o Santuário, há dez meses, as relações entre Aquário e Escorpião congelaram-se de vez.
Após as ferozes batalhas na Terra do Gelo Eterno, como um justo agradecimento, o Grande Odin concedeu vida nova aos guerreiros que pereceram pela causa: tanto os Santos de Atena, que derrotaram Loki, quanto seus Guerreiros Deuses, igualmente nobres e justos, porém manipulados pelo maligno Deus. Os Cavaleiros de Ouro reassumiram seus postos no Santuário da Grécia e tudo começou a retornar ao normal, ou, em alguns casos, melhorar de situação. Amigos continuaram amigos, amigos tornaram-se amantes (caso de Máscara da Morte e Afrodite), amantes continuaram amantes (caso de Mu e Aldebaran), inimigos tornaram-se amigos (caso de Shura e Aioros), inimigos tornaram-se amantes (caso de Saga e Aioros) e... excepcionalmente, havia o caso de Milo e Camus, outrora amantes... agora separados pelas imperiosas forças do destino; para o escorpiano, pelas incompreensíveis ações do aquariano. O grego odiava o tal Surtr com todas as forças, contudo, o miserável fora apenas a gota d’água que fizera transbordar de vez as comportas de sua paciência. Camus estava consciente disto. E não o condenava.
Por isso, suas tentativas de reconciliação foram abandonadas dois meses após a volta à Terra Santa. No primeiro mês, ele creditou a rejeição de Milo à teimosia do mesmo e à proximidade de então com os fatídicos acontecimentos em Asgard. Respeitou, com abnegação, o afastamento do ex-namorado, confiante nos poderes terapêuticos do tempo... e na urgência da saudade.
Entretanto, ao completar dois meses, e continuar vendo infrutíferos seus esforços, começou a se angustiar de verdade. Passou a assumir uma postura mais ofensiva: propôs conversas, sugeria encontros, pedia chances, invariavelmente negadas, para se explicar novamente. O escorpiano ou as negava ou concordava em ouvi-las, mas o fazia com a fria indiferença de quem não será demovido de sua decisão, nem por nada, nem por ninguém.
Camus, enfim, se convenceu.
Não haveria mais “eles”.
Estava tudo acabado. DEFINITIVAMENTE acabado.
Pôs-se a rememorar os últimos meses...
Encontravam-se nas arenas e se cumprimentavam, tão somente. Se não houvesse um parceiro disponível para o treinamento além do francês, Milo ia dar uma volta ou ver os novatos treinando, ou ainda , assistir aos embates que seus amigos travavam. Qualquer coisa seria melhor do que ficar a sós com Aquário. E mais ainda, treinar com ele. Tal proximidade era inadmissível para Milo.
O aquariano assistia-o deixar o campo, fazendo uma mesura conformada, ao que o outro respondia por pura polidez. Sentia-se como se tivesse uma doença contagiosa e repulsiva. Retirando-se Escorpião, Aquário abaixava a cabeça, derrotado sem nenhuma luta... com o passar do tempo as lágrimas deixaram de vir e ficou apenas o amargo sabor da perda. Com o passar do tempo parou não apenas de tentar como também de sonhar. De sonhar em ter seu Milo de volta, como no passado: bom, doce, terno, divertido, amoroso… quente… em todos os sentidos…
Agora só havia o Milo duro, frio, cordato. Diplomático, distante e indiferente...
ELE moldara esse Milo, sabia-o.
Não tinha o menor direito de reclamar.
Mas então por que isso não fazia com que doesse menos?
Sofria... e sofria AINDA MAIS por isso.
— Ainda acredito que vocês possam se entender – a declaração de Saga arrancou-o dos devaneios – olhe para mim: eu me acertei com Oros. E o que houve entre nós dois foi bem mais pesado do que o que aconteceu entre vocês dois.
Só então o aquariano percebeu que permanecera ali, de pé, com dois cabides de roupas nas mãos, enquanto o outro já se servia do café que pedira à camareira. Havia uma sala contígua que separava os dois quartos do elegante apartamento, e ali fora disposta a farta refeição, sobre uma imensa mesa de jacarandá. Saga pegara uma xícara de café puro e voltara aos aposentos do amigo, a fim de continuarem aquele assunto, há muito evitado pelo francês.
— Certo, Saga, você mandou matar Aioros. No entanto não estava agindo conscientemente. NÃO ERA VOCÊ. Já eu... – arremessou as roupas para a cama, sem se importar se iriam amassar ou não – estava em meu juízo perfeito! Isso distancia sobremaneira nossas ações.
Esfregou a palma da mão no rosto antes de continuar:
— Eu lutei com ele A SÉRIO. Deixei que Surtr o atacasse. Por DUAS VEZES. E na segunda, ele não apenas o fez com ferocidade como empregou um método sujo, uma... armadilha. Que poderia tê-lo matado...
— Você NÃO sabia que seu amigo faria aquilo!
— Mas fez porque EU permiti aquela situação. E se não fosse por você... – calou-se, revoltado consigo mesmo. Há meses que não fazia outra coisa a não ser se odiar!
Saga virou o café. Precisava de mais. Suspirou e disse:
-Vocês dois estarão no mesmo lugar por duas semanas. Se não fizerem as pazes aqui... creio que não farão mais...
— Mas eu tentei, Saga!
— ...porque melhor chance que esta não haverá, Camus.
Um nó na garganta bloqueou mais uma resposta que o aquariano tencionou dar ao mais velho. Este levantou-se da cama e caminhou para a porta.
— O café está na mesa. Venha, você precisa de uma boa refeição, e depois de uma chuveirada para aclarar essas ideias.
— Estou aqui unicamente pelo meu dever, cumprirei minha função e só – sentenciou secamente.
Gêmeos lançou um olhar ambíguo ao amigo. Deu de ombros.
— Se há uma coisa que pode ser afirmada sobre nossas vidas, meu caro, é que a imprevisibilidade nos acompanha – dito isto, foi para onde o lauto desjejum o esperava.
Finalmente só, Camus deixou-se cair pesadamente sobre o colchão, apoiando a cabeça nas mãos, enquanto um único anseio o acometia:
“Milo...”, pensou, desolado, “como eu queria...!”
*************
Fale com o autor