O Brilho da Honra
2 Cansaço e Solidão
Notas iniciais
Por volta das 11:30 da manhã as autoridades hospedadas no Cape Town International Palace Hotel começaram a embarcar nos ônibus executivos estacionados diante do resort. Partiriam rumo ao Centro de Convenções South Star, a cerca de uma hora de viagem dali. A Cúpula seria realizada numa zona central e cosmopolita, bem diferente da localidade paradisíaca na qual se situava o hotel.
Os Santos de Gêmeos e de Aquário já se posicionavam em frente à porta, atrás de alguns conferencistas, quando ouviram Aioria chamar, alegremente:
— Camus! Saga! E aí, dormiram bem?
Eles se voltaram para o leonino, acompanhado por Milo. Camus prontamente abaixou o olhar.
— Bom dia, Aioria. Eu dormi bem, sim, obrigado, e você? – respondeu o geminiano, amável.
— Como uma pedra, cara. E você, Camus?
— Sim, dormi bem, Aioria. Obrigado por perguntar – ergueu o olhar e direcionou-o para o outro jovem à sua frente – Bom dia, Milo.
— Bom dia, Camus, bom dia, Saga – cumprimentou, neutro, o escorpiano, como os demais trajando terno. De cor preta, caía-lhe muitíssimo bem... o francês, porém, notou a gravata vermelha mal colocada... em outros tempos ajeitaria para ele. Milo nunca soube se virar muito bem com aquele tipo de roupa. Ainda assim estava lindo, pensou; o ex-namorado (termo doloroso!) trazia os longos cabelos azuis escuros, levemente arroxeados, presos num rabo-de-cavalo baixo, deixando livres duas mechas cacheadas que emolduravam graciosamente seu belo rosto. Sentindo o coração disparar, o aquariano praticamente fitou o chão: começou a fingir que ajeitava o punho do paletó.
Aproveitando-se daquilo, Milo observou-o rapidamente, a pulsação acelerada ao vê-lo tão atraente: o francês estava impecável, o terno chumbo escuro perfeitamente alinhado, os cabelos lisos soltos, no entanto devidamente arrumados de forma a ficarem para trás, sem as costumeiras mechas a caírem-lhe pelo peito. Nunca havia o visto com aquele penteado, e ao ver Saga usando o mesmo estilo, pôs-se a imaginar que talvez o geminiano o tivesse ajudado.
Sim, estavam ocupando o MESMO apartamento duplo.
E eles eram tão parecidos... tão próximos... não eram assim no passado, contudo, depois da Guerra Santa e toda aquela história de espectros...
... tornaram-se bem próximos.
Suas faces queimaram só de imaginar Saga tocando os cabelos de Camus, penteando-os, jogando-os para trás, correndo por entre os fios sedosos seus dedos longos... em praticamente uma carícia...
— Vamos, nossa vez – Aioria tomou-o pelo cotovelo, pois que paralisara do nada. Embarcaram no luxuoso ônibus. Os outros dois haviam subido na frente deles.
— Aioria, me deixa ficar na janela.
— Ih, parece criança – riu o amigo. Ao chegarem aos lugares reservados, entendeu o pedido: Camus havia feito o mesmo, do outro lado do corredor, e praticamente grudara a cara na janela. Milo não fez diferente. Assim nenhum dos dois se olharia.
“Mas que palhaços”, pensou Aioria, sentando-se ao lado do escorpiano, que só faltava se fundir ao vidro.
— Quer relaxar, Milo?
— Eu tô relaxado, ué.
— Pra que grudar a fuça na janela assim?
— Fala baixo – rosnou – quero ver a vista, ora.
— Sei...
Passaram-se vinte minutos de viagem e assim os dois ex-amantes permaneceram, mal se dirigindo aos seus companheiros de assento. Leão e Gêmeos entreolharam-se por uns instantes. Um sorriso malicioso nasceu nos lábios de Saga. Aioria sorriu de volta, entendendo o recado. Virou-se para Milo:
-Saga precisa falar alguma coisa comigo. Troca de lugar com ele.
— O quê? Não inventa, ô pulguento – murmurou, mal humorado.
— É sério, Milo. Ele deve ter alguma orientação da Deusa pra me passar. Precisa me falar agora, e sem que ninguém ouça – disse-lhe ao pé do ouvido.
— Tu acha que nasci ontem? Que plano mais infantil esse de vocês. Eu abro esta janela e me jogo daqui mas NÃO sento ali.
— Infantil é você, seu babaca, a gente tá numa missão. Se o porta-voz de Atena quer falar a sós comigo, eu tenho que...
— Vocês que usem os cosmos para se comunicarem. Eu NÃO saio daqui.
— Tá bom – disse Aioria, fazendo menção de levantar – então EU saio.
— O quê? – fez o escorpiano, apavorado.
— Vou trocar de lugar com Camus então, ele é mais prestativo que você – e virou-se para o outro lado do corredor, chamando baixo – Camus...
Os dedos de Milo quase se afundaram no braço do amigo.
— NÃO – sussurrou, entre dentes – Eu vou. Ele vai ficar achando que eu me recusei a tê-lo sentado ao meu lado.
O leonino sorriu.
— E isso te preocupa?
— Não. É só que ele vai achar que eu me importo. E eu NÃO me importo – respondeu com desprezo.
Um desprezo BEM forçado, Aioria percebeu. Disfarçou o riso ao dar passagem para o amigo.
Saga assentiu e levantou-se, para surpresa de Camus, que viu sentar ao seu lado o homem que tanto amava... e que por ele agora era odiado.
— Com licença – falou o escorpiano, acomodando-se na poltrona de veludo creme.
Um tímido aceno de cabeça foi a reposta. Milo prontamente sacou seu celular, cruzou as pernas e procurou ficar o mais natural possível. O aquariano voltou a ficar virado para a janela, fingindo admirar a soberba orla marítima.
Dez minutos se passaram e nenhuma palavra foi proferida entre eles. Milo olhou de soslaio para o outro lado: Aioria e Saga de fato conversavam baixinho. Em seguida considerou o francês com o canto dos olhos. Achou por bem dizer-lhe algo, em prol da naturalidade que queria simular.
— Bem bonita a paisagem, né?
Disfarçando como pôde o tremor na voz, o outro concordou:
— É sim. Bem bonita – ousou acrescentar, com medo de o assunto morrer — E... você já foi à praia, não é?
— Fui lá correr, de manhã cedo, com Aioria... como sabe?
“Correr na praia de manhã cedo com Aioria”, as palavras ecoaram na mente de Camus, fazendo-o pesado, amargo.
Milo e Aioria. Sempre tão próximos. Eram tão parecidos! Joviais, enérgicos, extrovertidos...
...tão próximos.
Hospedados no mesmo apartamento duplo.
Oh, sim, tinha que respondê-lo!
— Hã... é que tem uns... grãozinhos de areia no seu cabelo.
— Quê? Sério? – preocupou-se o Escorpião. Sempre vaidoso, não atinava chegar em tão solene evento com areia no cabelo!
— Que merda – praguejou, mexendo nos cachos – e eu ainda balancei, escovei, penteei tanto e...
— Se quiser, eu tiro.
Milo estremeceu ante aquele oferecimento, feito numa voz tão baixa quanto doce.
Não.
Não queria estar ali.
Não queria sequer estar ao seu lado.
Quanto mais ser TOCADO por ele!
— Não precisa. Obrigado – respondeu, polidamente.
— Tudo bem.
Ante a negativa do grego, o aquariano se retraiu mais ainda. Voltou a mirar a paisagem, a garganta ardendo.
Foi então que sentiu... sutil... leve... mas estava ali.
Um acento de Kenzo pour Homme.
O perfume que ele, Camus, lhe dera no último aniversário! Um presente que levara para ofertá-lo na festa surpresa organizada por Aioria e Máscara da Morte. Enchera-se de coragem para ir, estimulado por Saga e Mu... como aparecer, depois do que fizera? E ainda lhe dar um presente? Este foi aceito com a fria indiferença com a qual vinha convivendo nos últimos meses. Milo sequer abrira o embrulho na sua frente.
Na certa, teria mesmo jogado fora o pequeno cartão que o acompanhava.
Por muito tempo, achou que o perfume tivesse tido o mesmo destino. Porém... ali estava ele.
Notas de almíscar branco, pimenta e flor de lótus na pele perfeita e bronzeada do amado.
De algum modo absurdo, aquilo deu-lhe coragem:
— Não parece que dormiu bem. Está com olheiras.
— Engano seu. Dormi muito bem – rebateu o grego, calmamente, sem tirar os olhos da tela do celular.
Recebendo aquela resposta atravessada como um tapa, o francês decidiu se fechar de novo. Foi então que...
— E você, Camus? Dormiu bem? Parece um pouco pálido.
— Hum… sim, dormi bem. Só... perdi o sono muito cedo.
— Deve ser por isso.
— É. Deve ser.
A curta distância, os outros Cavaleiros acompanhavam aquele frio colóquio, disfarçadamente.
— Essa deve ser a conversa mais longa que aqueles dois estão tendo em sete ou oito meses – comentou Aioria ao ouvido de Saga.
— Realmente... ambos estão muito machucados.
— “Ambos”? Qualé, Saga, o Milo é que foi o machucado na história. O Camus pisou na bola feio com ele.
— Sim, mas ele já se explicou inúmeras vezes, pelo que me disse.
— Grandes merdas – retrucou o leonino, desdenhosamente – “Se explicar” depois de ter fodido com o cara daquele jeito?
— Aioria... – o geminiano ia pedir que o companheiro maneirasse o linguajar. Conteve-se, receoso de fazer o papel do “cunhado chato”.
— Eu só continuo torcendo por eles porque SEI que o Milo ama o bastardo. Mas eu mesmo tô com um puta ódio dele – confessou, mirando-os de rabo de olho; conservavam-se silenciosos agora.
— Eu diria para você não alimentar tais sentimentos por Camus, mas sei que você assim o faz por ser leal ao seu amigo.
O olhar de Aioria escureceu e sua voz adquiriu tom de amargura:
— Milo sempre foi um cara pra cima. Não tinha tempo ruim pra ele. Ele era pura luz, sabe. Um cara leve, divertido, louco... Camus destruiu ele, Saga. Não pede pra eu não ter raiva do cara que destruiu meu melhor amigo.
— Parte da “destruição” do seu amigo foi ocasionada pela intransigência dele mesmo.
Um riso abafado e impaciente escapou dos lábios contraídos do mais novo.
— Heh, agora Milo causou a própria destruição?!?
— Fala mais baixo – exortou, temeroso que os outros ouvissem-nos – Não disse que ele CAUSOU. Disse que PARTE dela foi ocasionada pela teimosia dele. Milo sequer ouve o que Camus tem a dizer. Não permite que Camus tente consertar as coisas.
— Consertar o quê? A traição? A tentativa de assassinato? E não vou nem mencionar o que o “Mestre da Água e do Gelo” fez a Shura, ou você acha que isso também não revoltou o Milo? Porra. O Camus sacaneou todo mundo por causa do tal... hah... “amiguinho” dele.
— Aioria...
— Ah, me poupe, Saga. Desculpe, não quero brigar com você, ainda mais por causa disso.
O geminiano riu baixinho. Ante o olhar aborrecido do outro, apressou-se em explicar:
— Desculpe. É que... apesar do Oros ser mais calmo que você, sua expressão de raiva ficou idêntica à dele, hehehe.
Tal expressão foi substituída por uma mais descontraída.
— Não vai dar em cima de mim, querendo que eu o substitua não, hein? Tu é meu cunhado e eu tenho a Marin.
Saga deixou escapar uma risada.
— Quando é que eu teria olhos para outra pessoa além do meu Oros, ainda mais depois de ter ficado tanto tempo sem ele!...
Apoiando o queixo com a mão, Aioria considerou-o, admirativo.
— Cê ama mesmo meu irmão, né?
— Muito – respondeu, sorrindo ternamente – amo tanto que dói.
— Eu fico feliz por isso, Saga... de verdade.
— Fica mesmo?
— Claro! Meu irmão te adora... e ver você falando assim dele... seus olhos brilham, sabe?
Saga fitou-o com certa gravidade.
— E eu fico feliz por ouvir isso de sua boca. Sempre fico imaginado que... que talvez você ainda tenha algum ressentimento por mim... por eu ter...
— Sabe por que não tenho, Saga? Porque o próprio Oros me convenceu a não ter.
— Oros...ele…?
— Exato. Ele me contou exatamente tudo que aconteceu naquela época, reforçou o que todos sabemos que houve com você. E tendo ele próprio te perdoado, por que é que eu não iria te perdoar?
— Mas por vezes, mesmo após o perdão, podem ficar ressentimentos. Veja o Milo... ele perdoou o Camus, no entanto, ainda...
— É porque não houve perdão real – Aioria o cortou, tristemente – Pra mim, se há mágoa, não houve perdão.
— Milo tem bom coração. Creio que entendeu as razões de Camus. Só que...
— ... só que elas feriram ele. Feriram demais – completou o leonino.
Assentindo, Saga lançou um olhar rápido sobre aqueles de quem falavam. Completamente quietos.
— Eu gostaria muito que se acertassem. Depois de tudo, eu e Oros ficamos juntos. E aqueles dois teimosos se amam, assim como eu e seu irmão nos amamos. É injusto que tão grande amor seja derrotado pelo orgulho e pelo medo.
— Medo – o menor repetiu aquela palavra, como que nela refletindo pela primeira vez – nunca pensei nisso. Sempre achei que fosse tudo questão de orgulho... mas... faz sentido...
— Pois se é justamente o medo que gera o orgulho.
— Você tem razão. Mas eu tenho falado com Milo. E pelo jeito, você com Camus. Ainda assim...
Do outro lado, Milo observou, por breves segundos, Aioria e Saga. Como conversavam! Dois idiotas. Poderia muito bem ouvir, se assim o quisesse, bastava aguçar seus sentidos... porém não o fazia por questão de honra. Não era nenhum alcoviteiro. Na certa, os safados, sabendo disso, não se faziam de rogados. Ele tinha sua honra... e talvez a maior dentre os Santos de Honra.
SABIA que falavam dele.
Involuntariamente, olhou para a janela, reparando o mar verdejante que se distribuía pelas montanhas. O céu muito azul e claro pontilhado de escassas migalhas nuvens. E... encostado ao vidro... o homem que um dia fora seu. Foi então que reparou.
Camus dormia.
Desviou o olhar. Contudo, foi como um íma... a oportunidade de mirar aquele rosto há tanto ignorado.
Umedeceu os lábios, nervoso. Jogou os cabelos de lado e pôs-se a observá-lo, por baixo da cortina de fios arroxeados.
Recostado à janela, o francês adormecera. E parecia dormir profundamente: provavelmente não havia dormido bem à noite coisa nenhuma... então mentira quando...
“Que me importa isso?”, pensou, revoltado consigo mesmo por se preocupar com aquilo. Deu um sorriso escarninho. “Com a consciência pesada, claro que o sono dele não deve ser dos melhores.”
Se bem que o dele também não era. E NÃO, não tinha a consciência pesada por nada, tinha?
Por que teria?
Voltou a mexer no celular; sem perceber, seus olhos não passavam mais por sites de notícias e de música, e sim por um rosto pálido, no qual se distinguiam discretas olheiras. O nariz afilado, as longas e imóveis pestanas, os lábios finos entreabertos, a expressão de abandono num misto de cansaço e solidão. Inconscientemente, agora o olhava fixa e diretamente. Em outra época tiraria a basta franja que caía-lhe por sobre a fronte. Porém, nos tempos atuais... um manto de tristeza cobriu-o enquanto contemplava aquele que um dia tanto amou.
Amou?
“Amei? Já posso ‘falar’ no passado? Eu AMEI Camus? Não amo mais?”
-Uhn… — suspirou o aquariano, remexendo-se de leve. Com o coração disparado, Milo virou para o outro lado, com receio de que o ex-namorado percebesse que era observado. Passados alguns minutos, notou que o outro não acordara, e permitiu-se retornar ao que fazia antes.
Ele parecia tão cansado.
“E daí?”
Ele parecia ter emagrecido.
“E daí?”
Ele parecia tão sozinho.
“E daí?”
E com tudo isso... continuava lindo.
Tão lindo.
Uma dor pungente trespassou seu peito. Deu-se conta de que a paisagem mudara; arranha-céus agora cortavam o firmamento. Prédios modernos diziam-lhe que estavam perto do destino. O verde foi escasseando, e pouco depois, o ônibus foi desacelerando. Entrou no estacionamento do Pavilhão anexo ao imenso Centro de Convenções South Star. Haviam chegado.
Teria que acordar o francês. Aflito, chegou a pensar em simplesmente levantar e deixá-lo ali. Os demais que o acordassem.
Tolice.
Estava em missão.
Ele e Aioria estavam assessorando Saga e Camus.
Sim, parecia uma piada de mau gosto, mas era essa a obrigação primordial dele e do leonino.
Tinha que cumprir seu dever... munindo-se de coragem, pôs levemente a mão sobre a mão do francês, sobreposta à que repousava na coxa. Antes de fazer qualquer movimento no afã de despertá-lo, apenas sentiu aquela pele gelada com as pontas dos dedos. Esta mera ação causou-lhe tal arrepio que ele fechou os olhos enleado, entregue àquela sensação.
— Camus – um chamado quase inaudível – acorde. Já chegamos.
Por que o chamara tão baixo? Medo de assustá-lo? Desejo de prolongar aquele contato, ainda que tão tênue?
Seus dedos traçaram, suavemente, caminhos por sobre aquela mão que tantas vezes teve entre as suas… tantas vezes beijou… ele praticamente a acariciava… e ao tomar consciência daquilo, engoliu em seco e elevou um pouco a voz:
— Camus.
Num leve sobressalto, o aquariano acordou.
— Hã... chegamos – o grego repetiu, tornando o rosto para a frente.
— Oh. Obrigado... acho que estava mais cansado do que eu imaginava – comentou um tanto constrangido.
Assentindo com a cabeça, o escorpiano levantou-se do assento, pretendendo sair dali o quanto antes. Saga e Aioria observaram-nos, consternados... pela expressão de Milo, perceberam o fracasso daquela maquinação. Entreolharam-se, chateados. Levantaram-se também para deixar o interior do veículo. Seguiram pelo corredor, ajeitando-se.
Não obstante, antes de se levantar para seguir os demais, Camus fitou a própria mão, sentindo ainda o calor dos dedos do ex-amante em sua pele fria. Levou-a aos próprios lábios, e cerrando levemente os olhos úmidos, aspirou sofregamente o eflúvio residual de seu grande e perdido amor.
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