Notas iniciais
Olá a todos! Obrigada pelo apoio que vêm dando a esta fic. Agradeço de coração aos que estão acompanhando, lendo, ainda que escondidinhos, aos que estão favoritando, e, principalmente, àqueles que gentilmente dispensam um pouco de seu valioso tempo para deixar um comentário, o que muito me alegra e estimula :3 Lembrando que os pensamentos dos personagens são grafados em itálico. Boa leitura!

Cerca de 30 minutos após a chegada das comitivas ao Pavilhão, os participantes tomaram seus assentos reservados nas centenas de bancos revestidos de couro. No centro da estrutura semicircular, o símbolo da Organização das Nações Unidas em branco sobre fundo escuro.

Todos em seus lugares deu-se a abertura oficial do evento, com um pronunciamento do presidente da ONU. Este saudou os presentes, e pôs-se a elucidar, de maneira um tanto eloquente, o objetivo da Conferência pela Paz na África: debater, discutir, e apresentar propostas visando a diminuição da violência, notadamente a infantil, em áreas de conflitos civis. A miséria em que tais regiões se encontravam eram o combustível para a manutenção de governos corruptos e grupos terroristas e separatistas, pois dela se serviam para aprisionar e dominar ainda mais o povo, usando-o de acordo com seus interesses escusos.

Os Cavaleiros de Ouro ouviam com atenção, em seus corações agradecendo a oportunidade de enfim poderem fazer algo pela causa, invariavelmente ignorada ou mesmo menosprezada por outros países. Atena se mostrara empática com o mundo em que reencarnara, e se dispusera a contribuir: enviara Saga como seu porta-voz direto, a fim de representar o Santuário da Grécia, levando àqueles homens e mulheres a mensagem da Deusa, bem como suas considerações acerca daqueles tão antigos e ainda presente dilemas. A Camus reservou a missão de receber propostas de acordos e debatê-las com os proponentes. Dir-se-ia que Saga atuaria como um relações-públicas, e Camus como um negociante. Uma vez que ambos estariam ocupados com tais atribuições, Dohko, o novo Patriarca, designara dois Santos de Ouro para acompanhar Gêmeos e Aquário: Leão e Escorpião. De forma simples e direta... seriam os seguranças dos dois. Aioria riu bastante disso a princípio; Milo, porém, não viu graça nenhuma... não lhe agradava a ideia de passar duas semanas perto de Camus daquele jeito... ainda bem que na hora de se hospedar em um dos apartamentos reservados para os participantes, conseguira ficar com Aioria. Além de ser seu melhor amigo, mesmo que fosse com Saga não se sentiria à vontade: o geminiano dava razão ao aquariano, já percebera, e por mais que gostasse dele, não aceitaria qualquer pitaco seu.

Após aplausos entusiasmados, fez-se uma pequena pausa antes do esperado discurso do presidente dos Estados Unidos. Saga e Camus estavam sentados do lado em que estavam os conferencistas, chefes de estado e diplomatas das 180 nações participantes. Do outro lado, estavam os mais variados participantes, alguns dos quais também discursariam nos outros dias. Entre estes, encontravam-se Milo e Aioria. O escorpiano não tirava o olho de Saga e Camus nesse ínterim. O geminiano falava alguma coisa ao ouvido do aquariano, tão perto que parecia que iria beijá-lo a qualquer momento. Suas bocas quase se encontraram quando o francês foi responder, igualmente ao pé do ouvido! Jurou haver algo suspeito naquele olhar que trocaram... parecia tão íntimo, tão cúmplice... eles pareciam pertencer a um mundo à parte do dele...

O que que eu tô pensando! Eles tão no meio de uma Conferência da ONU, caramba. Devem estar repassando o que Saga vai falar”, pensou, sentindo-se ridículo por ter pensamentos tão mundanos em meio a uma missão dada por Atena. Desviou o olhar, mas não os pensamentos... aquela cumplicidade entre eles o incomodava, mais do que deveria. Mais do que gostaria.

Enfim, o presidente norte-americano postou-se diante das dezenas de microfones, e após sorrir em meio a flashes, iniciou a comunicação. Falou da responsabilidade do país mais poderoso do mundo na prevenção e no combate efetivo às mazelas daquele sofrido continente. Seu pronunciamento durou quase uma hora. Quando terminou, o presidente da África do Sul dirigiu-se ao púlpito nuclear, e seguiu-se mais uma longa hora de discurso, o qual Milo tinha quase certeza de ser extremamente similar ao anterior. O mesmo se deu com o presidente da Rússia, sabia-o pelos fones de tradução simultânea (além da língua pátria, Milo entendia inglês e um pouco de francês, Camus ensinava-o, quando eram namorados). Por mais que não quisesse isso, começava a se entediar... se ao menos os pronunciamentos fossem um pouco diferentes entre si...

Mais aplausos. Viu o geminiano se levantar. Saga posicionou-se no centro, diante dos microfones. Com muita naturalidade, o belo grego procedeu ao seu discurso, em um inglês excelente, quase sem sotaque:

— Senhores presidentes, senhor secretário-geral, caros delegados, senhoras e senhores. É com grande prazer que venho a esta Conferência em nome da Deusa da Sabedoria e das Batalhas, Atena, reencarnada nesta era na pessoa da senhora Saori Kido, neta do falecido senhor Mitsumasa Kido, idealizador da Fundação Graad, com sede no Japão, e conveniado ao Santuário da Grécia, no qual encontra-se, atualmente, a Deusa. Sou um dos Cavaleiros de Ouro de Nossa Senhora, Saga de Gêmeos, e trago-lhes além das considerações de Atena, suas propostas de auxílio à causa pela qual hoje aqui nos reunimos. Após aniquilar recentes ameaças à paz mundial, configuradas notadamente pela Guerra Santa, da qual saímos vitoriosos, a Deusa resolveu que era hora de voltar-se para as questões que assolam as mais diversas partes de nosso mundo, não podendo furtar-se às reais responsabilidades atribuídas àqueles que se arvoram mantenedores da humanidade. Reconhece-se o lugar da África na questão da política mundial em termos de geopolítica, de geoestratégia e de geoeconomia, numa só palavra na problemática das relações internacionais. Malgrado tal reconhecimento, urge que lutemos, juntos, contra as questões que permanecem como entraves à plena ascensão deste continente para o lugar que merece no cenário internacional, tanto no tocante à economia quanto no tocante às adequadas condições de vida, condições estas que, sabemos, não são alcançadas por milhões de pessoas, a começar por crianças e adolescentes, vítimas majoritárias de tragédias facilmente evitadas uma vez que nos unamos em prol desse ideal...

“Não me surpreenderia se ele e Camus ficassem juntos. Veja como ele é genial. Domina mais a plateia que os próprios presidentes”, pensou Milo, reparando nos olhares embevecidos, aos quais a presença magnética e bela de Saga hipnotizava. Como se expressava bem! Carisma, inteligência, presença e beleza estonteante.

Não, não se surpreenderia NADA se o aquariano enfim decidisse ficar com ele. OK, o geminiano estava com Aioros, e pareciam estar muito bem juntos. Porém, Sagitário estava longe, o francês era lindo e estava só há muito tempo... bom, pelo menos não soubera dele com ninguém nos últimos dez meses, nem mesmo um casinho efêmero que fosse...

Além do que, eram bem parecidos, como aquela cumplicidade poderia comprovar. Ambos reservados, frios e cerebrais.

E passando duas semanas no mesmo apartamento.

Camus, por sua vez, deixou a atenção voar por um breve instante e correr os olhos pelo público. Estacionou-os na figura do escorpiano, que prestava atenção no palestrante. Admirou-o até que seus olhares se encontraram num segundo e ele mudou a direção do olhar.

Depois da brilhante apresentação de Gêmeos, os pronunciamentos prosseguiram e avançaram pela tarde. Como se tratava da abertura da Cúpula, foram tão somente apresentações e reflexões sobre a situação que os reuniam ali. Debates e discussões teriam lugar a partir do dia seguinte.

Por volta das sete horas da noite, deu-se por encerrado o evento. Os participantes foram conduzidos ao Pavilhão anexo, onde seria oferecido um jantar celebrando o início da Conferência. Centenas de mesas ricamente ornadas dispunham-se pelo ambiente, decorado com arranjos florais da região; colunas douradas distribuíam-se por sobre o lustroso piso de mármore branca, e nas paredes, inúmeras obras de arte de artistas dos mais variados países africanos. A exemplo do transporte, e do salão de onde vieram, os lugares estavam rigorosamente reservados, de forma que os conferencistas e os demais presentes sentaram-se com seus compatriotas. Assim, chegando à mesa indicada, retangular, Milo sentou-se ao lado de Aioria, e, à frente deles, Saga e Camus.

Não demorou muito, o jantar começou a ser servido, bem como bebidas. Após tantas horas de discursos, um verdadeiro elixir. Os jovens aceitaram taças de vinho tinto, com exceção de Camus, que preferiu champanhe.

“Mas é um besta mesmo”, pensou Milo, sorvendo sua bebida rapidamente. Observou que Camus fizera opção de prato vegetariano, a exemplo de Saga. Aquilo o irritou, sem que ele nem ao menos entendesse o porquê. Quase comentou “você sempre adorou peixe”; felizmente, refreou a língua. Pois bem, iria saborear aquele baby beef de Kobe com aspargos salteados bem diante daquele besta certinho...

Por sua vez, Camus, embora se considerasse um tolo por aquilo, viu-se aquecido por ter Milo sentado diante de si. Há quanto tempo não experimentava aquilo! Lembrava-se das vezes em que foram jantar fora, e que se encontravam naquela posição; o escorpiano o provocava, tirando o sapato e, por baixo da mesa coberta, roçava o pé na perna do francês. A seguir ia subindo, subindo...Camus começava a respirar acelerado. Um sorriso malicioso desenhava-se no rosto sedutor do grego, o que piorava a situação do aquariano. Então o pé de Milo estacionava bem entre suas pernas, causando-lhe um frêmito assustado porém prazeroso. O escorpiano passava lentamente a língua pelos lábios, fitando-o, perverso; massageava o sexo do amante de forma lenta e clandestina, divertindo-se com o rubor do aquariano sem ar.

— Mais champanhe, senhor?

— Oh, sim, obrigado – respondeu o francês, sentindo-se quente.

Continuaram bebendo após a refeição, conversando.

— Saga, devo dizer que o seu discurso foi o único que prestou. Pelo menos, foi o único no qual percebi autenticidade – o escorpiano comentou, cortando o medalhão macio.

— Ora, obrigado, Milo. Tem certeza de que não ficou com sono? – indagou o mais velho, sorrindo com aquela declaração.

— Inacreditavelmente não. Você tem um grande domínio de público, isso é inegável.

— Verdade, Saga, foi ótimo. Atena está muitíssimo bem representada por você. Meu irmão ficaria orgulhoso – ajuntou Aioria, sorridente.

— Obrigado, amigos. Se assim o faço, é porque conto com o apoio de vocês – o geminiano respondeu, satisfeito com o clima agradável entre eles.

Uma tradicional música instrumental ecoava pela solenidade.

— E amanhã é a sua vez, né, Camus?

— É sim, Aioria...

— Tá nervoso? Você é ainda mais tímido que o Saga.

— Não sou tímido – riu o geminiano, aceitando outra taça de vinho.

— Bom, reservado talvez – atinou o leonino, fazendo o mesmo. No que foi seguido pelo outro grego.

Refletindo um pouco, o francês respondeu de modo sereno:

— Não. Não estou preocupado.

Deixando escapar um risinho, Milo disse:

— E quando é que o Camus se preocupa com alguma coisa, Aioria?

Os três sentiram a animosidade no ar. O aquariano mordeu o lábio por dentro antes de responder ao irmão de Aioros, ignorando o comentário cáustico do ex-namorado.

— Eu me preparei bastante, Aioria. Pesquisei, planejei, escrevi, li e reli o que vou falar. E farei uma nova revisão antes da apresentação.

— Assim pensa uma mente fria, meu amigo – ironizou o escorpiano, batendo no ombro de Aioria – planeja tudo... não é como a nossa. Desconhecemos essa maneira calculista de ser.

Aioria deu um chute na canela de Milo por baixo da mesa. Franziu as sobrancelhas, num claro sinal de desaprovação.

— Se me dão licença... vou ao banheiro – anunciou o aquariano, inexpressivo.

Levantou-se e deixou os dois amigos fuzilando com seus olhares o ex-amante.

— Milo! Por que tá agindo assim? Estávamos conversando na maior paz – ralhou o leonino, sinceramente injuriado.

— Tá falando de quê, bichano?

— Ele fala da sua maneira de falar do Camus. Precisava ser tão sarcástico? – foi a vez de Saga bronquear com o jovem.

— Sarcástico? “Verdadeiro” agora mudou de nome? Eu falei alguma inverdade? – rebateu tranquilamente, pegando outra taça de vinho.

— Isso foi desnecessário, cara – murmurou Aioria. Muito embora estivesse ele mesmo chateado com o francês, não aprovou a conduta do amigo. Aquilo só o prejudicava mais, a seu ver!

— Você deveria pedir desculpas a ele – opinou.

Milo riu.

— Tá de sacanagem, né? – virou a bebida, sem se importar com as miradas de reprovação dos dois.

— Tô não.

— Não sabia que era tão fraco pra bebida, Leãozinho. Quatro taças e já tá viajando aí...

— Porra, Milo...

— Aioria. Não – Saga o cortou, balançando a cabeça – isso não tem valor algum.

Os mais novos olharam para o ex-Patriarca, que prosseguiu:

— Nós só devemos nos desculpar com alguém se o arrependimento pelo que fizemos for sincero. Caso contrário, não tem serventia.

— Isso aí – concordou jocosamente o escorpiano, terminando a quinta taça de vinho – e como não disse nada de errado, não me arrependo. E se não me arrependo... não tenho que pedir perdão, oras. Certo, Saga?

O mais velho assentiu, desanimado.

Realmente... aquilo parecia muito longe de terminar.

No banheiro, Camus esfregava as têmporas, parado de frente à pia, tentando resistir à vontade de chorar.

Ele merecia aquilo.

Não tinha raiva de Milo.

Tinha era raiva dele mesmo!

Cerrou os punhos sobre o mármore negro. Viu seu reflexo como um ser odiado. Teve ganas de socar a própria imagem. Para não fazê-lo – que estrago seria àquele patrimônio! – lavou o rosto, procurando acalmar-se e descongestionar os olhos, já queimando pelas lágrimas presas.

Ao ouvir passos, apressou-se em se enxugar, torcendo para que o vermelhidão do nariz diminuísse. Dois homens entraram no banheiro. Falavam em russo, logo, Camus entendeu perfeitamente o que diziam:

— Mesmo que tenham tido contratempos na viagem, é inadmissível que tenham se atrasado dessa maneira.

— Mas Pavel, é de um pouso forçado que estamos falando. Problemas no avião não são exatamente responsabilidades deles. Pior seria se tivesse tido um acidente. E depois ainda teve a tempestade de neve em Vladivostok.

— Sim, mas não estar na cerimônia de abertura pode manchar a imagem de Asgard. O país já tem a fama de não se importar com o resto do mundo...

“Asgard?”

Um tremor atordoante se apossou de Camus ao ouvir aquele nome. Lavou as mãos outra vez, para escutar mais.

— Tenho certeza de que todos entenderão. Ora, de mais a mais, o que teve de significativo neste primeiro dia de Cúpula? – indagou um dos homens, entrando num dos toaletes. O outro, fazendo o mesmo, riu ao responder:

— O vinho e o champanhe!

Gargalharam efusivamente. O aquariano teve que se segurar na pia.

Asgard... Asgard iria participar da Conferência!

— E quem será que a Soberana Hilda mandou para cá? – ouviu um deles perguntar.

“Sair. Preciso sair daqui. Não devo ouvir...”

Sentiu uma pontada na cabeça.

Ouviu uma descarga. O barulho não foi o suficiente para abafar a resposta.

A resposta que tanto temia.

— Ora, quem mais se não os Guerreiros Deuses? São de inteira confiança dela.

— Achei que seria o senhor Andreas.

Outra descarga. Os dois saíram. Camus agora fingia ajeitar o cabelo.

— Seria o mais certo, já que é o assessor direto dela. Mas como a senhorita Hilda ainda se encontra enferma, e é ele quem está cuidando dela, enviou em seu lugar três dos Guerreiros Deuses: Frodi, Sigmund e Surtr.

O coração de Camus parecia que iria implodir no peito.

Surtr!

Não. Não podia ser verdade. Justo quando ele... ele e Milo...

...Milo...

— Ei rapaz, você está bem? – um dos russos perguntou a Camus, em inglês.

— Parece estar se sentindo mal. Quer que chamemos alguém? – ajuntou, no mesmo idioma, o companheiro.

Tentando se recompor, o francês ergueu a mão numa negativa. Como não queria que soubessem que ele havia entendido a conversa, respondeu em inglês:

— Não é preciso, senhores. Foi apenas um mal passageiro...

— Tem certeza? Parece que você vai cair a qualquer momento – insistiu o mais velho.

O aquariano balançou a cabeça, sorrindo debilmente:

— Tenho sim. Vou lavar o rosto mais uma vez. Muito obrigado pela preocupação.

— Disponha... melhoras – respondeu, e, antes de deixar o banheiro, murmurou para o outro, em russo – deve ter bebido demais. Esses jovens não têm controle.

— Se ele fosse russo não teria esse problema – devolveu o mais novo.

E ambos riram, divertidos. A Camus, porém, só restou apoiar as mãos na pia, presa de intensa vertigem ao pensar:

“Surtr... Surtr está vindo para cá!...”

*************

Notas finais
É... se as coisas já não estavam fáceis pro lado do gelinho, vem aí mais sarna pra se coçar... urgh, odeio ele, gente. Milo, toca aqui. O tempo vai fechar... E os ciúmes de Milo, as viagens mentais dele sobre Saga e Camus? Ainda tem isso... T.T Obrigada por lerem, espero vocês no próximo capítulo. Beijo grande :x