O Brilho da Honra

12 Anjos de ouro


Notas iniciais
Oi, gentchiiiiiiii Vamos logo ao capítulo 12, sem mais delongas. Quero dizer que estou muito feliz pelo apoio lindo que estão dando à fic, muito obrigada mesmo, seus comentários são meu combustível, sempre repito isso. E se você ainda não comentou, venha, junte-se aos bons :v Boa leitura!!! :)

Camus permaneceu de pé, estático. Não ouviu mais o crepitar... Milo havia apagado o fogo do terceiro andar ao subir para salvar aquele casal. Mas teria escutado direito?

Milo… havia levado um tiro na cabeça?!?

Mesmo um Cavaleiro... desprevenido... um tiro na cabeça... ele estava distraído salvando pessoas. Assim como se ferira salvando ele na manhã do dia anterior...

“Ele tá morto.”

De fato, não conseguira se comunicar com ele pelo cosmo. Nem Aioria conseguira.

“Milo...”

Voltou-se para cima e gritou:

— MILOOOO!!!!

*************

HORAS ANTES

— É aqui, senhores – anunciou o taxista, parando em frente à boate Sound Season. Milo e Aioria desceram do carro após pagarem a corrida, deixando a devida gorjeta. O leonino deu um assobio admirativo diante da fila.

— Quanta gente! Parece que nunca iremos entrar... cabe esse povo todo lá dentro? – questionou, coçando a cabeça.

— Deve caber, não viu no site? Três andares, bar em cada um deles, mezaninos, sala de jogos, lounge, dark room...

— É bem maior do que aquelas a que já fomos em Atenas, hein.

— Verdade...

A fachada prateada com os dizeres em neon chegava a refletir a iluminação da rua, repleta de pessoas. Enquanto os amigos esperavam para entrar, tomavam uma cerveja local comprada de um vendedor na calçada. Milo aproveitou para terminar de contar o ocorrido no piano bar do hotel, pois tinha começado o relato ainda dentro do táxi.

— Eu não entendo, Milo. Cê gosta do cara mas não quer voltar pra ele. Isso não faz o menor sentido pra mim, me desculpe.

— Mas se eu já não expliquei mil vezes meus motivos, caramba!

— Essa é a questão. Eu acho que só VOCÊ se explicou adequadamente.

— O que quer dizer, Oria?

O leonino revirou os olhos como se juntasse paciência para se fazer entender:

— Veja bem, eu não tô defendendo o Camus... longe de mim! Ele foi um puta de um sacana contigo mesmo em Asgard...

— Pois então!

— ...mas o porquê de ele ter feito o que fez... nunca ficou totalmente explicado. Porque você não deixou, aliás.

— Você deve estar com amnésia, cara. Não lembra da historinha “eu matei a irmã do meu amigo, agora minha vida pertence a ele, lutarei por ele, blá-blá-blá-blá”?

— Lembro, porra. O que eu tô dizendo é... Camus te amava. Te ama ainda, você sabe... por que essa história do passado fez ele passar por cima desse sentimento? Tem algo aí que não se encaixa, meu amigo...

— Quer saber? Vamos deixar isso pra lá, olha, nossa vez de entrar – disse o escorpiano, fingindo animação.

A boate era impressionantemente suntuosa. O site não exagerara na descrição nem sobre suas instalações nem sobre sua frequência: via-se que os frequentadores eram turistas e das classes mais abastadas. Distribuíam-se pelos amplos ambientes dançando, bebendo, conversando, flertando.

Percebendo um grupo de belas garotas que prontamente já passaram encarando eles, Milo inquiriu:

— Marin não vê problema em você frequentar lugares assim sem estar com ela?

— Bem... na verdade, não falei que vinha...

— Seu SAFADO! Saindo escondido? – o escorpiano ria a valer. O leonino apressou-se em explicar:

— Não é nada disso! E-eu só achei melhor dizer a ela que vim... DEPOIS de vir...

— Que canalha – brincou o amigo, apoiando-se no bar espelhado. Não se preocuparam em sair do primeiro pavimento pois a música que tocava ali era rock, o estilo preferido dos dois, ao passo que no segundo andar tocava pop e no terceiro, eletrônico.

— Ei! Não é como se eu fosse fazer algo errado, OK? Eu só não queria estresses desnecessários ao telefone. Se eu tivesse falado que vinha a uma casa noturna... nunca teria saído do quarto.

O barman trouxe a carta de bebidas; Aioria balançou a mão, pedindo a mesma cerveja sul-africana que bebia do lado de fora: “Uma Castle”. Milo pediu o mesmo, e em seguida voltou-se para o companheiro, rindo:

— Uau, eu não sabia que a Marin era tão linha-dura assim...

— Linha-dura? Pergunta só pro Seiya... o coitado é um sobrevivente! – o leonino fez uma careta que arrancou mais uma risada do outro, que arrematou após pegar a garrafa de long neck:

— ... quer dizer, ela realmente parece uma garota muito séria... mas não a imaginava tão ciumenta.

— Vem tudo no pacote – suspirou Aioria.

— Não sei como você aguenta.

— Aguento porque a amo – elucidou, sorridente – e NÃO diga que não sabe o que é isso.

Milo sorveu um segundo gole sem responder.

Sim, ele sabia o que era aquilo.

No entanto...

A imagem de Camus mirando-o, surpreso, ao ter a gola agarrada por ele... seu olhar profundo, quase incrédulo... sentiu-se mal. Ele não iria agredi-lo, iria? Nunca! Aquela fala, porém, atiçou sua ira como quem deita álcool em chamas crepitantes.

“O Milo que conheci e amei não era tão covarde.”

Covarde?

Ele NÃO era covarde!

Querer evitar o sofrimento era ser covarde?

Claro que não.

Contudo... estava ele sendo realmente bem sucedido em evitar o sofrimento?

Se estava... o que era aquela sensação de aperto permanente no peito ao lembrar de tais cenas? Dos olhos suplicantes na praia, da boca úmida e entreaberta que se aproximava, do corpo quente que se achegava ao seu, quando o teve nos braços naquela mesmo dia? Suas mãos em seu peito, seu lindo e aflito rosto voltado para ele num chamado mudo?

Sua mente voltou à noite anterior... a brisa marinha... seus lábios tão perto... as mãos em seu rosto, o desejo em sucumbir... e se tivesse se rendido?

— Terra chamando Miloooo...

— Heh. Tava só pensando.

— Cuidado que isso pode ser perigoso pra quem não tá acostumado, hein?

— Engraçadinho.

— OK. Então no que tava pensando?

Ele hesitou um pouco. Bebeu da cerveja, seu olhar baixou, melancolicamente.

— Você acha que o Camus gosta do Surtr?

— Porra, Milo... vou NEM te responder isso.

— Não, é sério! Eu acho que o cabeça de abóbora estragada tá mesmo a fim do Camus, então como eles são – fez sinal de aspas com os dedos, jocoso – “amigos de infância” e eu não quis voltar pro picolé, de repente ele resolveu... sei lá, tipo...

— MILO – chamou Aioria, gravemente. Quando obteve a atenção abençoada pelo silêncio do amigo, prosseguiu – Não, ele NÃO gosta do Surtr. Não da maneira que você tá imaginando. Olha, talvez o Camus não goste mais do Surtr nem como amigo agora.

— Hunf, se fosse assim, por que ia deixar o tomate azedo sempre grudado nele?

— Porque ao contrário de CERTAS PESSOAS que conheço, o Camus é um cara muito educado e diplomático. Ele não vai dar um chega pra lá num amigo de infância que o procura por causa de ALGUÉM que tá rejeitando ele e nem lhe dá uma chance...

O escorpiano pegou outra cerveja. Resmungou:

—Caralho, cê tá do lado de quem afinal, Oria?

— Claro que do seu, imbecil. Mas porra, tu já foi longe demais com essa teimosia, Milo. Já passou de questão de orgulho. Cara, tu agarrou o pescoço do Camus...

— Não foi o pescoço – tentou se defender, constrangido – foi a gola...

— Não vem com essa. Você perdeu a razão.

— Ele me chamou de covarde!!! – exasperou-se, acuado tanto por Aioria quanto pela própria consciência.

— E agindo assim você desfez tal impressão, né? – ironizou o leonino, acabando com a garrafa.

Incomodado com aquelas palavras justamente por sabê-las pertinentes, Milo calou-se. Olhou em torno; as pessoas dançando, rindo, conversando, ficou vendo toda aquela vida pulsando ao seu redor e no entanto não sentia vida alguma em si mesmo. Bebeu com mais vontade, como a tentar desvencilhar-se daquele estado de espírito que o assolava.

— Está em suas mãos mudar isso, Milo. Você tá sabotando sua própria felicidade.

— Eu sei – admitiu, suspirando um tanto desolado.

— Bom, já que estamos aqui – Aioria fez-se animador – vamos nos divertir então. Você já fez a merda, depois conserta. Não vai adiantar ficar com essa cara de bunda aí agora.

“Fácil falar, depois que jogou tudo isso nesta minha ‘cara de bunda’”, pensou o escorpiano, já completamente desanimado para a noitada.

Deram uma volta pelo lugar, chamando certa atenção por onde passavam. Ambos estavam bastante atraentes, o que lhes valeu olhares cobiçosos e até algumas abordagens mais diretas. Em determinado momento, estavam no mezanino de frente à pista, quando Aioria questionou:

— Que eu rejeite as cantadas é óbvio, sou fiel à Marin... mas por que você não aceita nenhuma? Já vieram umas mulheres bem bonitas pra cima de você...

— O hétero aqui é você, seu bestão.

— Bem, já chegaram uns caras também, né.

O escorpiano deu um profundo suspiro, mirando o nada, e respondeu:

— Eu não fico por ficar.

— Ah, tá. Pensei que fosse por causa de um certo Cavaleiro de Gelo...

— Não começa, ô pulguento!

De repente um estrondo foi ouvido. A princípio pensaram tratar-se de algum efeito do som, mas logo se distinguiu um clarão aterrorizante na pista, antes escura...

— Que porra...? – fizeram os dois Santos, atentando para os gritos. Puderam ouvir nova explosão, não tão perto como a que acabaram de escutar. Pedaços do teto começaram a ruir.

— Seja lá o que for, tá acontecendo no andar de cima também – observou Aioria, já pulando do mezanino, e sendo seguido por Milo. A confusão era generalizada. O incêndio que julgaram até então ser decorrente de algum curto circuito começava a se alastrar ferozmente.

Os dois amigos prontamente começaram a ajudar as pessoas, observando com horror que outras já ardiam como tochas.

— Homens bomba?... – considerou o escorpiano, pasmado.

Súbito, uma voz feérica anunciou ao alto-falante:

— Vocês são a semente daqueles que se nutriram de nosso sangue por séculos. Encontrarão seu fim hoje, aqui, em nome dos povos de que se alimentaram!!!

Berros apavorados desataram, compondo a sinfonia do terror estabelecido. Não havia dúvidas: um ataque terrorista!

—O maldito tá na cabine do DJ! Milo, vai lá, e nas dos outros andares também, vou começar ajudando as pessoas!

— Entendido – nem bem terminou de responder e o tenebroso som de tiros foi ouvido. Pior que isso: uma rajada de metralhadora! Não apenas homens-bombas que causaram o incêndio voraz: os terroristas estavam ATIRANDO naqueles jovens!

Não seria possível descrever a sequência de ações realizadas pelos dois Cavaleiros de Ouro, pois se serviam de sua velocidade para, simultaneamente, abater os criminosos e salvar o maior número possível de vidas. Coordenaram suas estratégias através do cosmo, praticamente aparecendo em todos os lugares ao mesmo tempo. Conseguiram deixar fora de ação os dois homens que se encontravam em cada andar atirando nos indefesos frequentadores. Assim, salvaram centenas deles, malgrado tivessem perdido os primeiros alvejados, cujo número passaria de 30.

Mais uma forte explosão. Agora a boate estava tomada pelas chamas. Recolhendo as pessoas de todos pavimentos sob a proteção do cosmo dourado – eles literalmente andavam por entre o fogo – concentrando-as no primeiro pavimento, Milo e Aioria juntaram cerca de 300 pessoas, umas espremidas contra as outras , no âmago de um verdadeiro vórtice, que isolava a todos com segurança. Acenando a cabeça em concordância a algo esquematizado em pensamento, Milo sustentou o “abrigo”, enquanto Leão mirou a parede:

— CÁPSULA DO PODER!!!

Concentrando o golpe de forma a não comprometer tão seriamente a estrutura do prédio, abriu um enorme buraco pelo qual poderiam passar os frequentadores. A barreira protegeu-os dos destroços que voaram com o impacto.

— Fiquem atrás de mim – gritou o leonino, e sua ordem alcançou-os mais espiritualmente do que sonoramente – meu parceiro estará atrás de vocês, protegendo-os também.

— Por favor, mantenham a calma, está tudo sob controle – bradou Escorpião, uma vez que, embora muitos colaborassem ou por incrível autodomínio ou por um estado de choque paralisante, muitos outros ficavam afobados e em pânico, obviamente sem entender o que acontecia. Ele estava tendo dificuldades de se desvencilhar de alguns que o agarravam, como a buscar salvação imediata.

Avançaram por entre as chamas, vislumbrando já o lado de fora, e isso deu-lhes esperanças. Malgrado nada daquilo parecesse possível e real, o instinto de sobrevivência falou mais alto que quaisquer conjecturas, e a maior parte dos jovens fez conforme o orientado. Eles estavam no meio do fogo e NÃO se queimavam! Aqueles anjos certamente iriam salvá-los! Anjos, deuses ou super-heróis?

Aioria passou e ganhou o exterior, trazendo consigo dezenas e dezenas, que, protegidas pelo deslocamento do fogo produzido pelos dois Santos, puderam correr em disparada, deixando o perigo para trás. Foi quando uma jovem agarrou o braço de Milo, aos prantos:

— A minha amiga!!! A minha amiga NÃO tá aqui! – gritou – Acho que ela ainda tá lá em cima! No terceiro andar!

— Tenha calma, eu retirei quem estava lá, ela deve estar misturada à multidão – respondeu ele.

Ela balançou a cabeça, em negativa obstinada:

— Não, não... e-ela foi pra darkroom com um cara... mas ele d-disse que conhecia um compartimento secreto que pouca gente conhecia... que fi-ficava escondido... de todo mundo... eles devem estar presos lá!

Os dois Santos se entreolharam de longe. Como todas pessoas possuem um microcosmo, essa foi a maneira de encontrarem muitas delas, escondidas ou sob escombros, em meio àquele inferno. Não acreditavam que alguém pudesse ter passado despercebido.

— Que acha, Milo? Esteve no terceiro andar.

O jovem sentiu pena da moça ao revelar:

— Quando cheguei lá nessa darkroom, toda a sala queimava. Foi o primeiro lugar que atacaram, possivelmente antes das explosões. Eu... eu não senti cosmo algum lá.

— Então todos morreram... – concluiu Leão.

A garota insistiu, desesperada:

—Por favor!!! O senhor é um anjo, por favor! – chorava muito – ela é minha melhor amiga!!!

Considerando-a em choque, Aioria ia responder quando Milo disse à jovem:

— Talvez sua amiga esteja aqui com os demais. Mas vou verificar, certo?

— Oh… mu… muito obrigada…! – agradeceu a moça, em meio às abundantes lágrimas. Tomou a mão dele – o senhor é mesmo um anjo, não é?

Ele assentiu, mais para se livrar dela. Salvar pessoas era seu dever, não via nada de angelical ou especial nisso.

— Eu cuido da saída dos que estão aqui, Milo – falou o leonino, coordenando a escapada dos sobreviventes.

— OK. Eu volto logo.

— Toma cuidado – nem mesmo Aioria sabia por que havia dito aquilo. Não era tarefa ameaçadora para o companheiro.

O amigo sorriu.

— Relaxa, Leãozinho. Bom trabalho aí!

E ele mergulhou nas chamas, sempre protegido por seu brilhante cosmo. Chegou rapidamente ao terceiro andar, tendo aproveitado para verificar nos outros se não havia ficado ninguém para trás. Novos focos de incêndio haviam surgido, mesmo após eles dois terem exterminado vários durante o salvamento. A pista de dança do último andar era um breu só, e havia muita fumaça. A darkroom, que ficava a alguns degraus acima, numa reentrância, ainda ardia. Ao chegar perto dela, Milo sentiu... um... não, dois cosmos! Aliás... TRÊS.

— Por Atena! – surpreendeu-se. Como não havia sentido, mesmo que ambos estivessem bem escondidos? Não havia, porém, tempo para ficar se recriminado: ergueu as mãos, produzindo uma intensa corrente bifurcada que literalmente dividiu as chamas. Vislumbrou dois vultos agachados num canto, atrás de pedaços do teto e da parede, no fundo da sala.

— Fiquem calmos, vou tirá-los daí – avisou.

Direcionou seu poder para o fogo, extinguindo-o por completo. Um homem e uma mulher o contemplavam, aterrorizados. Foi até eles.

— Vocês estão feridos?

— C-como…co…como… — balbuciavam, entre aterrorizados e admirados. Viu que estavam apenas em estado de choque. Ajudou-os a se erguerem – Levantem-se, venham. Mas o que de fato houve aqui, vocês viram?

— N-não, nós... nós...estávamos... – gaguejou o rapaz, coberto de poeira e fuligem – den-dentro do... escondidos ali... ele não nos viu... mas matou todo mundo... ele já entrou a-atiran...atirando... ouvimos tudo, tudo!

— Depois... botou fogo a-aqui e... e...

— Certo – Milo sentiu um profundo pesar por aquelas perdas. Ainda que tivessem salvado a grande maioria daquelas vidas... perder uma que fosse era doloroso.

Olhou ao redor. Sentia uma outra presença na casa. Iria procurá-lo. Estava perto.

Fez com que o seguissem e deixaram o recinto devastado. Foi quando um homem ferido surgiu, de dentro do banheiro, ao lado da darkroom, apontando na direção deles uma enorme arma militar de mira laser. Milo se pôs ainda mais na frente dos jovens e disparou de uma só vez três Agulhas Escarlates no terrorista. Este tombou morto, em meio a um mar de sangue. O escorpiano, entretanto, deu uma vacilada. Sentiu algo escorrendo por sua testa, por seu rosto. A mulher e seu acompanhante deram um grito agudo. Ainda levou a mão para se livrar daquele incômodo pastoso, e ao tentar focar a fim de verificar o que era, sentiu a visão turva. Mesmo sem ver direito, sabia do que se tratava.

Sangue.

Sangue que descia tal qual uma cascata.

— M-merda... – praguejou, consciente do que ocorrera.

Levara um tiro. Na cabeça.

Artilharia pesada, a curta distância.

— Oh, meu Deus!!! – ganiam os dois, sem entender como ele ainda estava em pé.

— E-está tudo bem... e-eu... vamos... – incrivelmente ainda sorriu para os jovens, a fim de transmitir-lhes segurança. Mas bastou dar dois passos para cerrar os olhos e ir ao chão.

— AAAHHH! E-ele... ele... ele morreeeu! – berrou a garota, cedendo à histeria.

— O cara... acertou ele bem na ca... cabeça... – murmurou o rapaz, apavorado, amparando a companheira.

Observaram por uns instantes o desconhecido caído, os longos cabelos espalhados pelo piso escuro, o rosto de lado sobre a poça de seu sangue que fluía ininterruptamente. Então o instinto de sobrevivência alertou-os para que saíssem dali. Não havia nada que pudessem fazer mesmo... tinham que prosseguir.

Puseram-se a descer as escadas, trêmulos e em prantos. No entanto, tão logo passaram pelo terceiro andar e ganharam o outro nível da escadaria, viram que ainda havia fogo alto em seu caminho.

Não havia como passarem, não sem a ajuda daquele... daquele “anjo” que os salvara! Quase sufocaram de desespero e pela fumaça espessa. Agarrando-se um ao outro, escorregaram pela parede, sob espasmos de terror, as vias respiratórias já queimando a ponto de não conseguirem mais gritar. O que saíam não passavam de grunhidos quase animalescos. Eis que distinguiram, não apenas sonoramente, mas... de alguma forma absurda... em suas ALMAS...

— Tem alguém aqui?

Uma voz grave, porém aveludada, surgindo poderosamente em meio àquele pesadelo.

Tomaram o pouco fôlego que lhes restavam e berraram:

—Socorro!!! Estamos aqui na escada! Nos ajude!!!

— AAAhhh! Aqui em cima! O... o fogo!

Deus Todo Poderoso! Seria alguém como o homem que os salvara? Apesar disso, ninguém apareceu. Eles tossiam violentamente, mas conseguiram gritar, ao mesmo tempo, tentando uma vez mais:

— SOCORROOO!!

— Já estou chegando – ouviram “a voz” dizer, e sufocados pelas lágrimas não mais puderam gritar. Preparavam-se para fazê-lo, quando tiveram a impressão de ouvir um som DIFERENTE.

O nefasto crepitar não mais foi ouvido, e absurdamente eles sentiram mesmo um certo FRIO... como era possível?? Uma densa névoa gelada subiu até o casal, aturdido. Diante deles, um vulto iluminado: era um imponente homem de cabelos longos e azulados, esvoaçantes... como os daquele que por eles morrera. Não podia ser um humano comum. Segurava o braço direito, aparentemente ferido...

— Estão feridos? – indagou, chegando a eles.

Balançaram as cabeças em negativa. Encontravam-se obviamente em choque. O recém chegado fez com que se erguessem.

— O incêndio já foi controlado, vocês podem descer. Apenas tomem o cuidado de pisar nos cantos da escada. E passem um de cada vez. Não se afobem – orientou o desconhecido, tentando passar confiança aos jovens, que choravam e gemiam.

— Oh... oh... Deus... obri...

— O...obrigado...

— Antes me digam: estavam numa sala chamada darkroom? Apareceu um homem de cabelos compridos para salvar alguém, vocês viram ele? – perguntou aos dois que enfiam conseguiram se mover.

A mulher soluçou alto; o rapaz a segurou, encarando-o com os olhos arregalados.

— Digam logo, por favor!

— Ele... foi ele que nos salvou... nos salvou do fogo... – balbuciou a garota – mas... mas!...

— ONDE ELE ESTÁ?

— Lá... lá em ci...cima – gaguejou o rapaz – mas ele... ele tá morto...

O estranho apenas os fitou como quem ouve a maior sandice do mundo.

— Como assim, morto? Aquele homem NÃO morreria num incêndio.

— Não no incêndio... ele apagou o fogo... com um vento... só de erguer as mãos!!

O homem amparou a mulher e completou por ela, que estava à beira de um ataque:

— Quando ele nos tirava de lá e nos protegia... surgiu um cara... ele... ele atirou no rapaz que nos salvou...

— Isso não faz sentido.

— O homem surgiu do banheiro... ele deu um tiro no seu amigo... um TIRO NA CABEÇA.

— E esse homem, onde está?

— Morreu também... antes de cair, seu amigo “atirou” nele de volta, só não vimos com o quê...

Parecendo lutar contra um estremecimento, o novo salvador largou os dois jovens e ordenou:

— Desçam agora, vão! Não há mais perigo.

Vendo que ele iria subir, a mulher ainda tentou:

— Moço, não vai mais lá! A gente viu, ele LEVOU UM TIRO NA...

— Para, Jessica. Vamos – o jovem a cortou. Virou-se para o desconhecido, já de costas para eles e disse, com voz alquebrada – Eu sinto muito por seu amigo... obrigado...

E desceram, deixando ali o que parecia ser uma estátua.

*************

Camus permaneceu de pé, estático. Não ouviu mais o crepitar... Milo havia apagado o fogo do terceiro andar ao subir para salvar aquele casal. Mas teria escutado direito?

Milo… havia levado um tiro na cabeça?!?

Mesmo um Cavaleiro... desprevenido... um tiro na cabeça... ele estava distraído salvando pessoas. Assim como se ferira salvando ele na manhã do dia anterior...

“Ele tá morto.”

De fato, não conseguira se comunicar com ele pelo cosmo. Nem Aioria conseguira.

“Milo...”

Voltou-se para cima e gritou:

— MILOOOO!!!!

Subindo rapidamente, chegava àquela parte, um pouco acima do terceiro andar, separada por uma pequena escada na diagonal, localizada numa reentrância: a darkroom e um banheiro. O reconhecimento da pessoa caída ali foi o mais horrível instante de sua trágica vida.

Seus olhos muito abertos estacionaram na figura inerte do ex-namorado.

Imóvel.

Ensanguentado.

“- Quando ele nos tirava de lá e nos protegia... surgiu um cara... ele... ele atirou no rapaz que nos salvou...”

Inconscientemente buscou o tal “cara”. Viu-o à direita da escada, caído de bruços, seu vil corpo esburacado pelas Agulhas Escarlates.

Tal qual lhe informara o casal.

Então... então Milo...

Atirou-se desesperado sobre o amado.

— MILO! Milo, fale comigo! Milo!!! – implorava, terrificado. Entretanto, ao invés de ser agraciado com a visão daquelas íris da cor do céu, apenas continuava a ter diante de si as pálpebras cerradas daquele a quem mais amou em toda vida.

Procurou se controlar: tomou o pulso do grego e abaixou-se, a fim de ficar bem próximo ao seu rosto, por sobre a boca entreaberta. Seu coração saltou ainda mais vigorosamente ante aquela constatação:

MILO ESTAVA VIVO.

— Milo... eu sabia! – murmurou, segurando as lágrimas. Não era hora para elas.

Era hora de agir.

O escorpiano estava vivo, porém ferido... inconsciente... quais seriam as extensões dos danos? A quantidade de sangue do jovem sem sentidos, bem como a emoção experimentada pelo francês, não permitiriam avaliá-las. Ele tinha que ser socorrido, imediatamente.

Camus ergueu Milo do chão, cuidadosamente ajeitando-o em seus braços, sem se importar com a dor absurda que sentia em um deles.

— Venha, meu amor. Vamos sair daqui – sussurrou sobre a fronte ensanguentada do ex-namorado, a quem tanto amava. Pôs-se a descer pelas escadas, atravessando a névoa das chamas por ele apagadas.

Segundos depois, ganhou a saída. A cena do incrível homem manipulador do ar frio saindo da escuridão esfumaçada, trazendo no colo um jovem inconsciente e coberto de sangue, foi amplamente registrada por fotógrafos e cinegrafistas. O povo, maravilhado, aplaudiu, filmou, gritou, tirou fotos, vibrou. Os policiais tiveram dificuldades em conter os curiosos e repórteres, que queriam ir até eles. O Santo de Leão acorreu, angustiado:

—MILO!!!

— Ele está vivo, Aioria – avisou o aquariano, desejando tranquilizá-lo.

— Mas o que houve com... – o leonino, ainda que aliviado com aquela declaração, assustou-se com a quantidade de sangue no rosto, pescoço e roupas do amigo desmaiado.

Os paramédicos foram até os três, levando a maca e demais aparelhos para o socorro. Camus depositou no leito móvel a sua preciosa carga. Tão logo o fez, puseram sobre o rosto do escorpiano uma máscara de oxigênio, e o imobilizaram cuidadosamente. Enquanto faziam isso, o francês concluiu sua resposta a Aioria:

— Ele foi baleado por um dos terroristas.

— Na... na cabeça? Não... Por Zeus… — o rapaz de cabelos acobreados levou a mão à boca. E reparando a manga rasgada de Camus – Espera... você também tá ferido?

O aquariano considerou maquinalmente seu sangue, misturado com o de Milo, que agora era levado para o interior de uma ambulância.

— Isto não é nada – rebateu, friamente, buscando cobrir a ferida com a mão.

— Como NADA? Teu braço tá ABERTO DE CIMA A BAIXO, Camus!

— Qual dos senhores vai com ele na ambulância? – a médica interpôs-se ali.

Eles se entreolharam.

— Só pode ir um de nós? – tentou o grego, enxugando o suor da testa.

— Só um dos senhores.

Virou-se para o francês, que conservava-se mudo, com o olhar fixo na ambulância.

— Camus, você vai com ele.

Abaixando a cabeça, o aquariano argumentou, inexpressivo:

— Não tem por que eu ir, Aioria. Não sou mais nada dele.

— Mas...!

— VOCÊ sim, é amigo dele. Vá você.

— Camus... acontece que...

A médica interrompeu aquele embate encarando o francês.

— É melhor que seja o senhor a vir – observou ela, séria – afinal, também precisará de atendimento médico. “Aproveita a viagem”.

Aioria segurou-o pelos ombros e conduziu-o até o veículo, antes que ele se recusasse novamente:

— Você ouviu a doutora, vai logo, cara!

— ...!!

Entrou na unidade móvel, que dispunha de três assentos ao lado do leito ocupado pelo escorpiano, que recebia os primeiros atendimentos, notadamente para estancar a hemorragia. Sentou-se no primeiro banco, mais perto da cabeceira de Milo, e ao seu lado os lugares foram ocupados pela médica e um enfermeiro. A porta foi fechada por fora e o carro pôs-se em movimento. Percebeu que o grego se moveu um pouco e sentiu seu coração disparar. Não resistiu a chamá-lo, baixinho, aproximando-se mais:

—Milo…?

Diante de si surgiram os belos olhos claros com os quais tantas vezes se deparara ao amanhecer.

— C-Camus...? – balbuciou. Tentou olhar ao redor, sem sucesso.

O aquariano mordeu o lábio inferior, e ousou tocar a mão do ex-amante.

— Estou aqui – sussurrou, a voz levemente embargada.

— Camus... onde... A-Aioria...A...

— Ele está bem, não se preocupe. Não fale mais nada – pediu o francês, sendo enfim impedido de ficar tão perto.

— Por favor, senhor, não fique muito em cima dele – pediu o enfermeiro, verificando os olhos do grego. Ao ter seu rosto movido para o lado, Milo pôde ver o braço lacerado do ex-namorado.

— Você... você tá... ferido?... – inquiriu, com dificuldade. Agora sentia uma dor surpreendente, e chegou a gemer, para agonia de Camus, que respondeu:

— Um arranhão de nada – sorriu nervosamente – por favor, descanse.

— Mas... m-mas... você... ahnn...

— Rodney – chamou a médica, vendo que o paciente principiava a sentir dor e se agitar. O enfermeiro preparou uma injeção e aplicou-a rapidamente na veia do grego.

Foi preciso uma segunda dose, o porquê os profissionais não poderiam entender. Camus engoliu em seco, vendo seus cílios tremularem mais após aquilo. Ouviu-o dizer, num fio de voz:

—Ca…Camus…eu…

E a consciência o abandonou novamente.

Camus tomou entre os seus os dedos agora frouxos do ex-amante.

Ainda amado.

“Milo... você está bem... fique bem...”, clamava em pensamento, sentindo muito mais que a dor no braço, o ardor das lágrimas que ameaçavam deixar suas pálpebras em breve.

‘*************

Notas finais
Siiiim, Miluxo está vivo! Mas... será grave? E será que esses dois FINALMENTE vão se entender? E afinal, por que ocorreu esse terrível ataque (baseado em um REAL, aliás)? Muito obrigada por lerem... até o próximo capítulo :)