O Brilho da Honra
18 Ameaça no coração da África: Brilho da Honra
Notas iniciais
— Por todos os picos nevados de Asgard, ONDE ESTÁ SURTR?
Aparentando extrema irritação, Frodi questionava, olhando fixamente para a entrada do hotel, na espera de que a qualquer momento o ruivo aparecesse para embarcar no ônibus. Quase todas os participantes da Cúpula já o haviam feito. Do lado de fora, os Santos de Ouro e dois dos Guerreiros Deuses, além de alguns outros retardatários que chegavam.
— Ele deve estar chegando, Frodi, por que não entramos logo? – perguntou Sigmund, com cuidado.
— Eu quero ter CERTEZA de que não precisarei interfonar para o quarto dele. Com certeza passou mais uma noite ENCHENDO A CARA, por isso até agora não desceu! — volveu, impaciente.
Milo e Camus se entreolharam brevemente.
— Amigos, se não se importam... – começou Saga, adiantando-se.
— Claro, entrem, entrem – disse Frodi, sem graça – Não faz sentido vocês ficarem aqui conosco esperando.
O geminiano e o “cunhado” embarcaram.
— Se quiser, eu vou até o apartamento dele – o loiro se ofereceu, solícito.
Foi só ele propor isso e o motorista tocou a buzina uma vez, avisando que tinha que partir.
— Deixa pra lá, Sig, vamos entrar.
— Ele deve ir depois, não se preocupe.
— Espero.
Depois que os asgardianos entraram, foi a vez de Aquário e Escorpião. Estes sabiam que de alguma forma aquela ausência tinha a ver com ELES.
Acomodaram-se todos e o veículo deu a sua partida, já atrasado dez minutos justamente por causa de Surtr.
— Será que o cabeça de abóbora cortou os pulsos por nossa causa? – perguntou o escorpiano, ironicamente.
— Para com isso, Milo – Camus pediu, sério.
— Que é, tá preocupado com ele?
— E se eu estivesse?
O grego cruzou os braços, aborrecido.
— Eu iria ficar muito puto e achar que você tá me culpando por alguma coisa.
— Não seja bobo, Milo, não é com Surtr em si que estou preocupado. Frodi vai fazer o pronunciamento dele hoje, Surtr deveria estar presente para assessorá-lo. Ele foi enviado com Sigmund, então considerou-se a presença dos dois necessária para tal – a resposta foi dada de maneira fleumática.
— Bom... você ouviu o Sig, o imbecil deve ir depois.
— Isso vai ficar muito mal para Asgard.
— Ah, que se foda...
— Milo! Não esqueça de que agora somos aliados de Asgard. E eu pensei que você se pudesse se preocupar com Frodi e Sigmund.
— Ah, sim, eles são legais – coçou a cabeça, constrangido – Verdade... não quero que eles fiquem em maus lençóis. Ainda mais por causa daquele babaca.
O francês suspirou e encostou a cabeça no estofado.
— Você tem que reconhecer que eu fui muito controlado com o cretino. Minhas mãos estavam coçando para arrebentar aquela cara de besta dele, e você sabe que ELE BEM MERECIA, mas levei nossa aliança em consideração – falou Milo, sondando a expressão enigmática do namorado.
— Não estou te culpando por nada, não se preocupe.
— Mas... e se eu desse um soquinho nele, SÓ UM... – sorriu, maroto, ao indagar.
— Poderíamos incorrer num grave problema diplomático com Asgard.
— Eu sei, foi só uma pergunta retórica – mentiu o escorpiano, fazendo um muxoxo.
— Se bem que EU dei um tapa nele...
— VOCÊ? QUANDO ISSO?
— Fala baixo! – e recostou-se mais uma vez, olhando-o de rabo de olho, sorrindo de leve – Frodi e Sigmund foram testemunhas de que ele mereceu, bem como Saga.
— Peraí, você deu um TAPA no Surtr bem na frente deles três?!? Quando isso, por quê, onde?...
O grego não cabia em si de curiosidade. O aquariano explicou:
—Foi quando você e Aioria estavam na boate. Vimos a notícia do ataque terrorista, pela TV do piano bar do hotel... e... Surtr disse que se você e Aioria morressem lá seria bom para que o Santuário se livrasse de Santos fracos... algo do tipo.
Milo ficou boquiaberto.
— Ele falou isso? – perguntou, cheio de raiva – Mas que… que filho da puta! Quando eu acho que não tem como piorar a ideia que eu tenho desse escroto... que ele deseje isso pra mim, beleza, ele me odeia, mas o que o Aioria tem a ver com isso?
— Pois é.
— E por isso você bateu nele? – pegou a mão do francês, sorrindo, sem disfarçar o orgulho.
— Foi apenas um tapa.
— Ora... taí algo que adoraria ter visto...
Seus dedos acariciaram de forma provocativa a palma fria do amado.
— Quando ele disse isso... eu senti que tudo acabou ali, sabe? – revelou Camus, aproveitando com prazer aquela carícia, ainda que não o demonstrasse.
— Camus, tudo acabou muito antes. Desde que ele quis te manipular usando aquela história de promessa sua. Aquilo nunca foi amizade.
— Foi sim – retrucou, pensativo – em certa época, foi amizade sim, porém depois...
— Tudo degringolou porque ele se apaixonou por você. Pra mim, ele te via mais do que como a um amigo muito antes do que você imagina. Ele é dissimulado, Camus. E você... é frio e tem esse jeitão distante, mas é um cara bom. Honrado. Ele se serviu muito bem disso. Sempre. Tentaria ontem, também.
— Você disse que não fazia objeção a que eu falasse com ele a sós. Não temia por isso?
— Não. Primeiro, porque eu confio em você. Segundo, se quisesse resolver algo com ele, eu não teria direito de te proibir.
O francês fitou o namorado, impressionado com aquelas palavras e com sua feição serena. Encheu-se de admiração pelo amante e fechou sua mão na dele.
— Obrigado... Milo – murmurou, enternecido.
— Por que está me agradecendo?
— Porque sim. Apenas aceite.
— OK – riu o grego, levando a mão do aquariano até os lábios e depositando ali um rápido beijo. Nem houve tempo de um envergonhado Camus impedi-lo...
*************
Pela segunda vez naquela manhã, Surtr abriu vagarosamente os olhos de cor fúcsia.
Não.
Não tinha como se levantar.
Mal tinha como se mexer.
Tudo que sentia no momento era DOR. E desta vez não causada por ressaca. Envergonhava-se um pouco da razão DAQUELA dor. Mas era mais que meramente a dor fina e insistente LÁ.
Todo seu corpo doía horrivelmente, parecia que até os fios rubros latejavam de dor. Sentia-se moído. Da primeira vez em que acordou, com o despertador, erguer-se foi possivelmente o mais difícil feito de sua vida. Ele, contudo, precisava ir ao banheiro... uma dor avassaladora em seu partes nunca antes... “afetadas” daquela forma.
Limpou-se, sabendo que deveria tomar um banho e se arrumar para ir à Conferência. No entanto, apenas se arrastou de volta para a cama e ali se atirou, amaldiçoando-se pelo ato. Gemeu alto de dor, perguntando-se como faria para sair. Lágrimas vieram a seus olhos. Estava em um estado lastimável...
Por que concordara com aquela loucura? Nunca fora passivo em nenhuma de suas relações anteriores... nunca! Isso jamais lhe passara pela cabeça. E ali estava ele, destruído. Por ter concordado em fazer sexo com um desconhecido. Surpreendentemente bem dotado, ainda por cima. Que tipo de homem era ele?
Súbito, deu-se conta, ainda mais constrangido, de que... não, ele NÃO HAVIA CONCORDADO.
Ele havia PEDIDO aquilo.
Levou a mão à cabeça, como que decepcionado consigo mesmo.
A mão, contudo, foi escorregando-lhe pelo rosto, até parar na boca, aberta, enquanto ele pensava… em como na verdade havia GOSTADO daquilo.
Muito.
Permitiu-se um sorriso.
Sim, fora delicioso, na verdade.
Nunca havia sentido semelhante prazer.
Só de lembrar sentiu uma inconveniente fisgada em seu membro.
— Tsc, não é hora pra isso – resmungou – estou quebrado...
Que inferno, há dois dias que tudo que ele sentia era dor, dor, dor!
Mas o prazer... bem, tinha que admitir.
“Foi incrível”, pensou, alisando os lábios ainda inchados pelos beijos arrebatadores, as íris brilhando de luxúria.
Olhou o relógio, desinteressado. Virou-se para o lado, incomodado com aquelas dores insistentes. Encontrava-se fatigado, ainda por cima. Física e emocionalmente. Camus havia lhe desprezado solenemente. Camus se reconciliara com o odioso Escorpião. Camus se desfizera da amizade por aquele... por aquilo que julgava ser “amor”.
Roubara seu coração ainda em tenra idade.
Roubara a vida de sua irmã.
Roubara sua esperança.
Por último, roubara sua dignidade, ao humilhá-lo daquela forma.
Destroçado sentimentalmente e dolorido fisicamente... que lhe importavam as mazelas daquele continente maldito para o qual fora enviado? Que lhe importavam aquela Conferência estúpida, seus compatriotas estúpidos e insensíveis?
— Que se fodam – murmurou, fechando os olhos e acomodando-se nos macios travesseiros, decidido a permanecer ali mesmo.
E voltou quase que imediatamente ao mundo do sono. Pelo menos lá não havia dor, rejeição, desprezo... e nem desejos carnais recém despertos que não condiziam com suas convicções.
*************
As imediações do Centro de Convenções estavam fortemente policiadas, de modo que manifestantes não mais puderam se aproximar do local do evento como haviam conseguido na sexta-feira. Mesmo assim, centenas, talvez milhares de pessoas, aglomeravam-se em protestos a longa distância.
Os conferencistas desembarcaram sem maiores sustos, sob um esquema de vigilância bem mais rigoroso.
Deu-se o início das sessões da segunda-feira, e todos tiveram a nítida impressão de que a semana seria longa. Havia muito o que se fazer, o que se discutir, o que se acordar.
Por volta das 14:00, fizeram a pausa para o almoço. Os Cavaleiros de Ouro e os Guerreiros Deuses presentes fizeram a refeição juntos, porém não conversaram muito pois o clima estava pesado e tenso ali: Frodi se apresentaria em nome de Asgard em algumas horas e Surtr ainda não aparecera. Não bastasse seu leve nervosismo, ainda tinha aquela irresponsabilidade com que lidar. Saga se ofereceu para acompanhá-lo ao púlpito, papel que caberia ao ruivo ausente. Recusando gentilmente, Frodi garantiu que estava tudo bem. Sigmund iria com ele.
— Então estarei atento de meu lugar mesmo, podem deixar – disse o geminiano, referindo-se à segurança dos dois.
— Nós também – atinou Milo, tentando animar o asgardiano. Este assentiu em agradecimento.
Reiniciada a Cúpula, após as apresentações do Primeiro Ministro italiano e do presidente da Nigéria, foi a vez de Frodi se dirigir aos microfones. Trajava um terno preto, camisa cinza clara e gravata azul marinho, da mesma cor que seus cabelos, presos elegantemente em uma trança feita por Sigmund.
— Caros amigos conferencistas, senhores líderes, permitam que me apresente: sou Frodi de Gullinbursti, um dos Guerreiros Deuses, assim chamados por terem sido escolhidos diretamente por Lorde Odin, senhor da terra de onde venho, Asgard, para protegerem a nação do inverno eterno e seus representantes que por ela zelam, atualmente a Senhora Hilda de Polaris e o Senhor Andreas Lise ( * ). Até bem pouco tempo, nos encontrávamos isolados deste mundo, mediante as rigorosas condições sob as quais vivemos, no extremo norte da Europa. No passado, fomos lar dos deuses nórdicos; hoje, nossa nação inicia uma nova etapa, em que almeja integrar-se mais ao mundo em que vivemos, o que justifica a participação de meu país nesta honrosa Cúpula. Outrora inimigos, em virtude de maquinações que a nossas vontades escaparam, os Cavaleiros de Ouro, igualmente aqui presentes, firmaram conosco um proveitoso acordo de amizade. Hoje, Asgard e o Santuário de Atena na Grécia são aliados em prol de um bem maior, que é a paz na Terra, o que certamente buscaremos juntos, com todas nossas forças...
O asgardiano procedeu ao discurso, mascarando com maestria o nervosismo que naturalmente acometeria um jovem de sua idade à frente de tão importante ocasião. Mesmo em Asgard, foram poucas as vezes em que ele se viu tendo semelhante dever, e com toda certeza, em todas elas não havia tanta gente, e nem tampouco se verificou tamanha abrangência. Mantinha-se sereno, seu porte esbelto e seguro angariando tanto atenção quanto admiração. Sua voz tinha um timbre muito melodioso, talvez pelo sotaque exótico que permeava aquele inglês bastante correto.
— Ele fala bem, hein – cochichou Aioria para Milo.
— Não tão bem quanto o Saga ou o Camus, mas sim, fala bem.
— Você tá aqui pra ser “segurança” deles, não “fã” deles.
— Vai à merda, Oria!
— Mas tive medo de que ele não se concentrasse legal... ele parecia bem puto com o deslize do Surtr.
— Parece que o esporte daquele lá é deixar os outros putos – disse Milo, entre dentes.
— Milo, por que será que o Surtr não apareceu?
— Eu sei lá.
— Você não tem nada a ver com isso, né?
— EU?
— Shhh, vocês dois – ralhou Saga, percebendo aqueles cochichos. Os mais novos, como não poderia deixar de ser, disfarçaram por alguns minutos com silêncio, e voltaram a se falar, com o escorpiano chegando mais perto do ouvido de Aioria:
— Na verdade, o calhorda brotou lá no nosso apartamento...
— O quê? Sério? O que ele foi fazer lá?
— No que ele é mestre? Em perturbar…
— Então vocês discutiram?
— Por que acha isso?
— Porque eu te conheço.
— Bom, o que houve foi que... ai!! – gemeu Milo, ainda que sussurrando. Virou-se para o lado e se deparou com a expressão zangada do namorado, que o havia beliscado – QUE FOI ISSO?
— Foi pra você parar. Daqui a pouco está beijando a orelha do Aioria.
— NÃO É NADA DISSO...
— Querem parar? – Saga ordenou mais uma vez. Os três se encolheram.
— ... é desejo de nossos governantes que Asgard participe mais ativamente dos esforços conjuntos em prol do continente africano, o que se encontra em situação de maior vulnerabilidade no cenário internacional. Nossas propostas norteiam-se pelos princípios da cooperação, investimento e acolhimento.
Um breve burburinho correu pela plateia. Frodi continuou:
— Asgard é um país de condições notoriamente adversas, porém próspero e pacífico. Nosso povo desfruta de assistência ímpar por parte de nossos soberanos. Sendo assim, pelo princípio do acolhimento, declaro a intenção dos representantes de nosso pai Odin em oferecer asilo político aos perseguidos africanos em situação vulnerável, bem como resguardo a refugiados de áreas em conflito. O senhor Andreas e a senhora Hilda disponibilizam esse abrigo a 10.000 pessoas, pelo menos inicialmente.
— Uau, que máximo, hein – surpreendeu-se Milo.
— Isso é demais mesmo! Caramba, Asgard mandou bem, hein – Aioria concordou, alegremente.
— Que maravilha... – disse Saga, balançando a cabeça em aprovação – Asgard realmente quer fazer a diferença no mundo daqui para frente, pelo visto.
— Verdade, isso é muito bom – Camus assentiu, satisfeito pelo que ouvia.
Continuaram ouvindo o asgardiano:
—Ainda segundo o princípio da cooperação, Asgard se compromete a enviar apoio humano às missões estabelecidas pelas Organizações das Nações Unidas, seja no tocante ao envio de tropas, seja no envio de especialistas que muito poderão contribuir no suporte biomédico e científico. Quanto ao apoio armífero, Asgard anuncia a disponibilidade de 3000 soldados, a servirem nas causas humanitárias instituídas pela ONU e por ONGs africanas. Quanto ao apoio científico, gostaria de anunciar a vinda de nosso maior cientista, o doutor Fafner de Nidhögg, que possui extensa experiência tanto na área médica quanto farmacêutica. Suas descobertas possibilitaram avanços notáveis em nosso país, que têm refletido tanto na qualidade de vida de nossa população quanto no aumento da expectativa de vida da mesma...
— Tá de sacanagem que vão mandar aquele crápula pra cá! – Milo não pôde se conter.
Malgrado um arrepio lhe tivesse corrido a espinha, em razão de desagradabilíssimas lembranças, Camus preferiu se mostrar neutro:
— Foi como eu lhe disse. Após receber mais uma chance de viver pelas mãos de Odin, ele se regenerou.
— E é como eu lhe disse também, se eu o vir na minha frente, não quero NEM SABER se ele ficou mais santo que o Shaka!
— Pare com isso, Milo. É passado.
— Meu ódio NÃO é passado.
— Nem temos certeza de que será pra cá que ele virá.
— Se eu souber pra onde o desgraçado vai, faço uma “visita” a ele.
— Não poderia agredir alguém que Asgard enviou para auxiliar nas missões da ONU.
— VEREMOS.
Camus suspirou, torcendo para que estivessem já BEM longe dali quando Fafner chegasse em terras africanas.
— Eu ainda espero o dia em que vou pôr as mãos no seu amiguinho ruivo também – resmungou.
“ 'Amiguinho'... amigo... será que ainda somos amigos?”, questionou-se o francês, refletindo sobre as palavras do namorado... e sobre as palavras e ações do próprio Surtr... tanto em Asgard quanto nos últimos dias.
Não queria parecer traidor ou ingrato... contudo, não conseguia sentir que havia, de fato, algum sentimento de amizade, tanto nele quanto em Surtr. Não mais.
Sequer prestou atenção no restante do pronunciamento de Frodi, “despertando” de seus pensamentos somente por causa das palmas que reverberaram no grande salão. Também ele aplaudiu, sentindo-se um tanto hipócrita, já que sequer ouvira pelo menos os quinze minutos finais.
Sigmund, por sua vez, tinha dificuldade em disfarçar o sorriso de orgulho. Por fim desistiu de fazê-lo, e ao retornar ao seu lugar, Frodi foi agraciado por aquela visão que considerou um verdadeiro prêmio.
— Por Odin, você foi ótimo. Meus parabéns – disse o loiro, aproveitando-se do breve momento em que o silêncio dava lugar a um certo falatório, quando da mudança de preletores.
— Você fez parte disso, Sig. Não teria conseguido sem seu apoio.
O outro assentiu, ruborizando levemente. A vontade de agarrá-lo assaltou o mais velho, e ele sorriu internamente, percebendo o quanto cada vez se encantava mais e mais com o compatriota.
— Pena que Surtr não estava aqui para ver sua brilhante atuação. Quem sabe isso não o inspirava a melhorar como... como a função dele exige, não é?
A opinião de Sigmund apagou o sorriso de Frodi. Virou-se para frente, para que o amante não achasse que se aborrecera com ele. Não obstante, o loiro percebeu o mal estar instaurado.
— O que foi? Eu disse algo errado? – perguntou, preocupado.
— Sig, o Surtr cometeu uma falta muito grave não vindo conosco. Isso equivale a um abandono de posto em uma missão. Não estamos guerreando com armas e poderes, mas estamos representando nossa terra.
— Sim, eu sei. Depois temos que averiguar porque ele não deixou o flat. Talvez tenha passado mal e...
— Não, isso não é desculpa, ele sequer nos avisou sobre qualquer imprevisto. Ele ABANDONOU a missão, Sig. Sabe que terei que reportar isso a Asgard, não?
— Eu... eu imagino que sim – reconheceu, pesaroso – isso vai trazer problemas a ele, não vai?
— ELE produz seus próprios problemas – retrucou Frodi, atento ao desconforto do companheiro.
— Está fazendo isso desde o início... desde que...
— Camus.
— Mas Aquário não tem culpa de ele virar um louco obcecado!
Frodi balançou a cabeça:
— Não, claro que não, eu nunca acharia isso.
Uma mulher de seus cinquenta anos, usando um turbante vinho na cabeça, óculos de aros grossos, brincos e colares de contas e pedras coloridas a contrastar com o sóbrio e comprido vestido verde escuro, assumiu o centro do púlpito. Após realizados testes com os microfones, Urbi Kuarashí, presidente de Angola, começou seu pronunciamento. Uma das raras mulheres à frente de uma nação africana, havia recebido o prêmio Nobel da Paz no ano anterior ( ** ). Sendo governante do país que era o terceiro maior produtor de diamantes da África, e o sétimo do mundo ( *** ), a exploração diamantífera como mantenedora da violência no continente foi o tema por ela abordado. Assunto espinhoso e delicado, pensou logo Camus, olhando ao redor e vendo várias mulheres ostentando as valiosas gemas. Kuarashí não fora premiada pelo Nobel à toa. Costumava incomodar líderes de países vizinhos por suas alianças com organizações estrangeiras humanitárias e suas ideias progressistas, muito embora, apesar disso tudo, não fosse uma unanimidade entre seu próprio povo.
— ...metade das jazidas do planeta encontram-se na África. As pedras são encontradas nos leitos dos rios ou soterradas em barrancos. Crateras imensas, com até 30 metros de profundidade, são abertas para recolher o cascalho. A exploração de diamantes na África está na fase da tecnologia. As máquinas substituem os homens. Não é mais como no tempo dos diamantes de sangue, de Serra Leoa, quando muitas vidas foram perdidas no trabalho escravo, em busca das pedras preciosas. Muitas disso se deve aos acordos internacionais, que passaram a recusar diamantes clandestinos, e à opinião pública mundial, que passou a repudiar que fosse a dor e as lágrimas de nosso povo a gerar tais gemas. Esta é a ideia corrente, confortável de nossa contemporaneidade.
Entretanto, meus amigos, sabemos que isso não é uma unanimidade, nem mesmo em meu país, quanto mais em nosso vastíssimo continente, cujos extensos domínios ainda abarcam regiões mergulhadas na escuridão trazida pela ganância e corrupção dos senhores de diamantes.
Em determinados lugares, os diamantes são originários de áreas controladas por forças ou facções de oposição aos governos legítimos e reconhecidos, e são utilizados para financiar a ação militar em oposição aos governos. Muito do dinheiro proveniente do tráfico de diamantes é utilizado para sustentar as operações e ou as intervenções armadas, incluídas aí as ações terroristas. Um montante substancial dos lucros é encaminhado para as contas bancárias dos criminosos transnacionais, para corromper funcionários do governo, forças rebeldes e uma série de outros atuantes.
— Camus, o que é “transnacional”? – perguntou Milo, em voz baixa.
— É uma atividade comum a mais de uma nação, ou seja, ultrapassa os limites daquele país.
— Ahn.
— Pense em “multinacional”, pode ajudar.
— Entendi.
Voltaram a ouvir a palestrante:
— ...os diamantes são uma mercadoria ideal para grupos terroristas pois é fácil de trocá-los por dinheiro, e são difíceis de serem detectados por organizações responsáveis pela aplicação da lei...
— Até porque deve rolar propina “a rodo”, hein – murmurou Aioria.
— Exatamente – Saga concordou, sem tirar os olhos da angolana.
— No momento – ela prosseguiu, mirando em todas direções — eu diria que a maior ameaça, não menosprezando as demais porém temendo o espectro de ação desta, é a crescente ação da Unidade Revolucionária Brilho da Honra ( **** ), que já abrange quatro nações centrais de nosso continente, e cuja influência se vê vertiginosamente crescente.
Houve um breve falatório entre os presentes.
— A senhora não quer dizer “três nações”? – o líder da sessão tomou a liberdade em questionar.
— Eu diria “três nações” até ontem, senhor presidente. Shangali caiu nas mãos da Unidade.
O volume das exclamações aumentou substancialmente.
— A senhora quer dizer...
— Exatamente, senhor presidente. Na madrugada de hoje, também o governo de Shangali, que faz divisa com Angdar, um dos países já em poder dos rebeldes, foi derrubado. A Unidade comanda agora quatro, senhores, quatro nações de nosso continente!
Houve alguns segundos de desordem no recinto. Restabelecido o silêncio, Urbi continuou a falar:
— Soubemos através da família do cônsul de Angola em Shangali. Ele, assim como quase todos na repartição... foram trucidados na noite de ontem.
— Que coisa horrível – disse Milo, revoltado.
O silêncio intensificou-se, mediante a ansiedade pelo que a mulher iria elucidar.
— Depois de Angola, dos cinco maiores produtores de diamante da África, quatro encontram-se fazendo divisas entre si na zona central de nosso continente, em uma posição estratégica agora bastante preocupante. São eles: Angdar, Shangali, Mugambi e Kango (*****).
Há 17 anos, combatentes de Angdar e mercenários do Kango uniram suas forças e fundaram um grupo de oposição aos governos das duas nações. Batizaram o núcleo rebelde de “Unidade Revolucionária Brilho da Honra”, alegando ter como missão resgatar a honra perdida do povo massacrado por governos corruptos e exploradores através do poder advindo do brilho dos diamantes, diamantes estes que eles já vinham traficando há pelo menos três décadas, e assim, acumulando o capital necessário para suas ações. A Unidade provocou torturas, massacres, mutilações e outras atrocidades como um meio de minar a confiança nos dois governos. Após uma década de intensos conflitos, lograram derrubar os governantes legítimos e unificaram-se. Assim nasceu o protótipo de um novo país, reconhecido apenas por eles, e não pela Comunidade Internacional, tampouco por nós da Comunidade Africana, a República Democrática de Shamallah. Shamallah é uma infame afronta aos Direitos Humanos, afronta essa que nenhuma ação de fora foi capaz de combater, quanto mais extinguir.
“Será que houve real interesse? Os maiores prejudicados certamente foram apenas seus povos paupérrimos e desassistidos” , pensou Saga, permitindo que seu pensamento chegasse aos companheiros através do cosmo.
“Eu estava pensando a mesma coisa aqui”, respondeu Camus.
— Dentro de um ano, a Unidade Revolucionária Brilho da Honra tomou o controle das principais minas de diamante dos dois países dominados. Seus líderes enriqueceram soberbamente e trocaram parte dos diamantes por armas e equipamentos de guerra. Não apenas dizimaram etnias inteiras, como também membros do governos de cada nação. As tentativas externas de intervenção foram brutalmente rechaçadas pelo que os déspotas chamam de “país”. Desde então, percebeu-se que a violência e a anarquia na região ameaçaria a estabilidade dos demais países ao seu entorno. Três anos depois, essa previsão se confirmou, com a notícia do golpe de estado em Mugambi, patrocinada por aliança entre a oposição do governo com a Unidade.
Nos últimos 10 anos, Shamallah tornou-se “terra de ninguém”, pelo menos, de ninguém de fora. É uma região de difícil acesso, tanto por questões já mencionadas, quanto por questões geográficas. Servem-se da proteção de montanhas e florestas densas e inóspitas em seu imenso território, que utilizam como verdadeiras armadilhas, uma vez que centenas de tropas por ali se distribuem a fim de impedir avanço de missões estrangeiras. Todas as tentativas de enviar emissários da ONU foram recebidas com hostilidade; se alguma missão conseguia se estabelecer por lá, em pouco tempo seus integrantes eram expulsos. O mesmo se deu com as organizações Cruz Vermelha e Médicos sem Fronteiras. Isso até chegarem ao extremo do qual tivemos conhecimento há sete meses: várias pessoas ligadas à área da saúde também forma mortas em ataques promovidos por radicais e várias clínicas de vacinação foram encerradas devido a agressões e mortes.
“Isso é demais!”, revoltou-se Aioria, cerrando os punhos “Quer dizer... sabíamos que coisas assim aconteciam pelo mundo, desde sempre, mas... mas...”
“Mas ouvir é sempre diferente. Traz um sentido de realidade de que o nosso mero ‘saber’ não dá conta”, teorizou Camus, desgostoso.
— A tomada do quarto país encontra-se ligada nada mais nada menos que o atentado sofrido pela boate sul africana Sound System, na última sexta-feira. Há informações de que a Unidade estaria por trás do ataque, e que deve assumir ainda esta semana – revelou a presidente, com voz pesada.
Os Santos se entreolharam.
— Aproveitando o ensejo, gostaria de parabenizar os valorosos Cavaleiros de Ouro de Atena aqui presentes...
— Oh, não... – murmurou Camus, afundando-se no assento.
— Que vergonha... – acompanhou-o Aioria.
— VOCÊS tão com vergonha? – rosnou Milo.
— ... que tão bravamente salvaram tantas pessoas daquele terrível atentado, eu, em nome de todo o povo africano, e de todos aqui presentes, quero dizer “muito obrigado” pelo que fizeram. Queiram se levantar para que todos os vejam e possam aplaudi-los – pediu a líder de Angola, sorrindo para os rapazes.
— Tá de sacanagem... – o leonino pôs a mão no rosto.
— Me afogaria no Mar Ártico agora... – suspirou o aquariano.
— Saga, me manda JÁ PRA UMA “OUTRA DIMENSÃO”!
— PAREM COM ISSO OS TRÊS e levantem-se logo! – ordenou o geminiano, entre dentes, disfarçando em seguida com um sorriso falso para quem estava por perto.
Muito contrafeitos, os três jovens se puseram de pé, de forma que pudessem ser vistos pelo público. Foram aplaudidos com entusiasmo por um longo tempo, cada qual desejando sumir dali. Milo então... só ficava imaginando que cada um dos presentes que o havia visto carregado por Camus pudesse estar zombando internamente dele. Aproveitando o estrondo das palmas, ele ameaçou, estampando no rosto quase vermelho o seu melhor sorriso:
— Anote o que estou dizendo, Camus, você NÃO PERDE POR ESPERAR...
— Hã? Por que está me dizendo isso? – tornou, confuso.
Aioria ficou rindo, já adivinhando que Milo àquela altura estava a par de que sua imagem, em uma atuação “nada ativa”, havia rodado meio mundo. Saga balançou a cabeça, quase revirando os olhos.
Depois que eles se sentaram, o semblante de Urbi voltou a ficar carregado, ainda que ela aparentasse ser uma mulher de fibra.
— E agora, Shangali foi absorvida pelos três países unidos sob o epíteto de Shamallah. Precisamos incluir em nossa pauta propostas de medidas para ajudar aquele povo sofrido, para que a justiça e a liberdade vençam no final, e que a democracia seja um fato, e não um mero nome a formar uma nação fantasia e cruel.
Mais aplausos, desta vez sinalizando o fim do pronunciamento da presidente. Ela se retirou do púlpito, cumprimentando algumas pessoas até chegar ao seu lugar. Nesse meio tempo, em que dava para falar um pouco antes de o próximo palestrante se pronunciar, os quatro amigos entabularam uma conversa, vozes baixas, corações inflamados:
— Deve haver muitos outros lugares pelo mundo assim, não é? – questionou Milo, consternado.
— Infelizmente sim, Milo – Saga respondeu, sentido pela tristeza dos amigos.
O leonino comentou:
—Sempre cuidamos de outros tipos de ameaças... sempre lutamos em outras guerras... e ainda assim, nossa Terra... nosso povo... nossos iguais...
— Nossas lutas anteriores também foram válidas, Aioria – cortou-o Camus, um tanto seco.
— Eu sei, não me entenda mal. É que parece algo tão mais fácil de derrotar, de combater. Mas ao mesmo tempo...
— Sim. Eu entendo o que quer dizer. Estamos vislumbrando o pior inimigo do homem: ele mesmo – refletiu o francês, mirando seus companheiros.
Eles se calaram, pensando na pertinência assustadora daquelas palavras.
— Estamos aqui para ajudá-los. Não se abalem tanto. Neste primeiro momento, estaremos na Cúpula intermediando o Santuário. Estou certo de que Atena vai auxiliar adequadamente esta terra – Saga tentou animá-los. Mesmo assim, Milo falou, um tanto impaciente:
— Eu creio nisso, Saga. Mas a vontade que dá é ir até lá e fazer logo alguma coisa, sabe. Poderíamos resolver tudo isso em minutos e...
— Poderíamos fazer isso em todos os cantos do mundo, e por que não o fazemos, Milo? Porque seguimos ORDENS, não se esqueça. A Deusa saberá nos dizer a hora certa de agir.
O escorpiano quase pensou “ESPERO”, mas conseguiu espantar o pensamento. Vai que Saga ouvia!...
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Os pronunciamentos se seguiram até o término da sessão daquele dia, por volta das 19 horas. Os participantes voltaram para onde estavam hospedados, ora em comitivas, ora em ônibus da organização.
Quando chegou ao hotel com os companheiros, Camus lembrou-se de que o resort dispunha de um salão de cabeleireiros. Decidiu ir até lá; estava incomodado já há algum tempo com o comprimento de seus cabelos, que estavam chegando na metade das coxas! Não os havia cortado desde... desde sua primeira morte, há quatro anos.
Sempre se sentia estranho pensando nisso.
Milo resmungou bastante, e só sossegou quando o aquariano garantiu que continuaria mantendo os cabelos compridos. Só não exageradamente como estavam. Os outros riram. Despedindo-se, Saga e Aioria combinaram de se encontrarem com eles na hora do jantar. Frodi, coçando o queixo, decidiu fazer como o colega Cavaleiro. Sigmund o apoiou, dizendo “sei que vai continuar bonito”. Milo e Camus ouviram aquilo e se entreolharam. Ora, então aqueles dois...
“Viu só, o Sigmund apoiou a decisão do Frodi. Gosta dele do jeito que ele estiver, de cabelo longo ou curto. Não é como você, Milo”, o francês provocou o namorado, através do cosmo para que os asgardianos não ouvissem.
“Eu te amaria até careca, seu idiota! Mas é que eu gosto tanto do seu cabelo... e de agarrar ele enquanto meto bem gostoso nessa sua bundinha linda...”
“Droga, Milo”, o francês prontamente fechou o sorriso e olhou para o lado, tentando esconder o intenso rubor que tomou-lhe as faces, “estou brincando com você.”
“Pois eu não tô brincando”, sorriu, malicioso, “Mas sério, amor, pode cortar até curtinho, agarro outros lugares enquanto meu pau bem duro estiver estocando com BASTANTE força o seu...”
“PARE COM ISSO, por favor”
“Hehehehehe”
— Camus? Está tudo bem com você? – indagou Sigmund, os quatro em frente ao salão de cabeleireiros. Percebera o Santo ficar com o rosto bem vermelho e a expressão um tanto aflita.
— Ah, sim, estou sim, obrigado, Sigmund! – falou, em seguida dirigiu um olhar zangado ao grego, que tapava um risinho com a mão.
Frodi adiantou-se:
— Bom, vamos entrar?
— Vamos sim – assentiu o francês, tentando se recompor.
Camus cortou bastante seus cabelos e eles ainda continuaram compridos, conforme prometera: um pouco abaixo da cintura. Milo choramingou, mas logo parou para recolher algumas mechas mais compridas que se espalhavam pelo chão luzidio. O aquariano bronqueou com ele em grego:
—Por Atena, Milo, que pensa que está fazendo? Por que está pegando isso?
— Quero guardar de recordação, oras.
— Que vergonha...
A cabeleireira riu divertida vendo o escorpiano tentando enfiar as melenas azul petróleo nos bolsos do terno. Claro que não cabiam. Ela pediu que ele esperasse um pouco e tirou uma caixa de uma gaveta do balcão à frente deles.
— Tome, senhor, pode guardar “suas relíquias” aqui.
— Oh, obrigado mesmo, senhorita, muito gentil de sua parte – agradeceu o grego, voltando a falar em inglês, sorrindo lindamente e, claro, encantando a jovem, que só faltou babar diante daquele homem tão belo quanto simpático.
— Hunf – fez o aquariano, erguendo uma sobrancelha ante tal cena.
Nesse meio tempo, Frodi já havia deixado a cadeira, pois tinha menos cabelo que Camus para tirar; além de modificar um pouco o corte, modernizando-o, o comprimento estava agora na metade das costas, parecendo mais leve e solto. Sigmund aprovou bastante o novo penteado do parceiro.
— Ficou ótimo, Camus – disse Frodi para o Santo.
— Obrigado, seu corte também o favoreceu, Frodi.
Combinaram de jantar juntos em uma hora no restaurante principal, juntamente com Saga e Aioria.
— Hum... cês vão chamar o... Surtr também? – perguntou o escorpiano, ressabiado.
— Não sei se adiantará chamá-lo, ele nunca quer nos acompanhar – respondeu o loiro, dando de ombros.
— De qualquer maneira, eu vou AGORA MESMO falar com ele – Frodi falou, com ar zangado.
— Frodi, por que a gente não sobe, toma banho, descansa, janta com nossos amigos... e depois falamos com Surtr? Tenho certeza de que você vai se aborrecer.
— Desculpe me meter, mas penso que Sigmund está certo – opinou Camus.
— Está certo. Bem, até mais, amigos.
— Até mais – despediram-se os Cavaleiros, tomando o elevador da ala norte.
Quando entraram no apartamento, os dois trocaram um beijo carinhoso, guardado durante todo o extenuante dia. Caíram sentados no sofá, provando o sabor um do outro, aprofundando aquele beijo que durou até o ar abandoná-los.
— Enquanto eu vou tomando banho, vai escolhendo sua roupa, já que você demora séculos para fazer isso – sugeriu o aquariano, separando-se dele, um pouco ofegante.
— Eu não demoro tanto assim, você que enfia a primeira roupa que vê pela frente nesse seu corpinho gostoso – defendeu-se o grego, desfazendo o nó da gravata violeta. Havia desabotoado o paletó no salão, ao contrário do outro, que continuava impecável com seu terno risca de giz.
Levantando-se do sofá, após dar um rápido beijo no namorado, o francês afastava-se quando ouviu o lamento do escorpiano:
— Ah, essa não!...
— O que foi? – Camus virou-se para ele; já estava no corredor, a caminho do banheiro. Viu o namorado com a mão na boca, com ar preocupado.
— Essa não...
— Que foi, Milo, fala logo! — insistiu, apreensivo.
— Agora que você cortou o cabelo... puta merda... dá pra ver a sua bunda...
O francês piscou algumas vezes e suspirou ante aquela resposta.
— Ora, Milo, e eu aqui pensando que fosse coisa séria...
— Mas é CLARO que é coisa séria! Agora TODOS vão ver essa sua bundinha linda, redonda, durinha...
— Que tolice, seu cabelo está na mesma altura que o meu agora.
— Não mude de assunto, estou falando da SUA bunda, não da minha! – retrucou, avançando para ele.
— Milo, me solte... preciso tomar banho...
— Eu também – sussurrou ao ouvido do amado, enquanto o agarrava, procurando as nádegas do amante com as mãos ávidas – podemos resolver isso juntos... e resolvemos OUTRAS coisas.
— Huum... – fez Camus, dentro dos lábios que tomavam os seus novamente – Milo...
Uma das mãos saiu de trás de si e veio se insinuar dentro da calça de risca de giz, fazendo-o gemer em antecipação.
— Mi... Milo...
— Hum? – o grego não abandonou o pescoço que beijava com ardor, tampouco a intimidade que já massageava.
— A... a gente só não pode demorar... temos que estar no restaurante em uma hora... e Saga quer que d-depois a gente se reúna no apartamento dele para conversarmos...
O escorpiano sorriu, vitorioso. Em outra época, aquele francês frio e sistemático poderia mesmo recusar tais atividades naquelas circunstâncias. Agora ali estava ele, concordando, ruborizando, já abandonando-se em seus braços.
— Não se preocupe, meu amor – sussurrou, com voz quente e macia, retirando a gravata do amado, que por sua vez, tirava-lhe o paletó já desabotoado.
Chegaram ao banheiro, a temperatura corporal de ambos já elevadíssima. Preferiram ignorar o sedutor apelo de um banho de banheira, pois além de ter de esperar que enchesse, se conheciam muito bem... tão cedo sairiam dali.
Assim, já nus e extremamente excitados, se enfiaram no box de blindex sextavado, preparados para transformarem aquele banho num momento íntimo de comunhão e prazer.
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