Eu tinha apenas quatro anos quando disse a todos "Bernon vai morrer. Bernon vai morrer se não cuidarem do bode".

Bernon era um senhor baixinho, marido de Ilse, uma de nossas vizinhas. Ele e alguns rapazes cuidavam dos animais do vilarejo e muitos comentavam sobre o Bode Grande, um animal agressivo que tinha chifres um pouco maiores do que os outros de sua espécie. Mas ninguém levou a sério quando eu disse para terem cuidado.

Em uma certa tarde, a corda que o prendia não estava bem firme e o animal de soltou. Antes que alguém pudesse intervir, Bernon foi atacado pelo bode, cujos chifres atravessaram o corpo de homem. Ele morreu, diante dos olhos de muitas pessoas.

A primeira coisa que acontece quando alguém está sangrando é correrem para verificar se a pessoa está bem, geralmente. Mas quase imediatamente, há também uma onda de caos que se espalha.

Haviam gritos e vozes e pessoas soluçando. O bode fugiu. Chacoalhavam o cadáver de Bernon, tentando acordá-lo, enquanto alguém repetia "Bernon está morto. Ele está morto" sem cessar.

"Por que não amarraram esse bicho direito?" gritou alguém.

Os homens começaram a jogar a culpa uns para os outros e eu fiquei imóvel, observando, até que Adolph olhou em minha direção. "Você. Você sabia que isso acontecer. Você soltou a corda?"

Assustada, dei um passo para trás. É claro que não havia soltado a corda, eu não estava sequer perto de onde o bode estivera. Balancei a cabeça negativamente e mais olhares se voltaram em minha direção. "Isso é culpa sua", alguém disse.

Será que era mesmo? Não, não devia ser. Eu sonhei que Bernor morria, e tentei avisá-los, mas ninguém me ouviu. Ninguém nunca me ouvia.

Aquele dia ficaria na memória do vilarejo. Todos o restante da minha vida a partir daí, era composta por pessoas me olhando feio e dizendo para suas crianças não se aproximarem de mim. Os sonhos não pararam, é claro. Mas eu não falei sobre isso com mais ninguém.

Eu acordei de um sonho que na verdade era mais como uma memória. Éramos criança, eu estava solitária como sempre e algumas crianças do vilarejo riam e falavam coisas ruins sobre mim de longe. Anna olhou feio para eles e se aproximou. Ela sorriu, e com o sol batendo em seus longos cabelos loiros a menina quase parecia um anjo. A partir daí nos tornamos inseparáveis. Eu amava Anna, ela era minha melhor amiga. Mas eu também sentia uma gratidão enorme por ela ter feito o que fez.

Me levantei, torci o nariz para a pouca comida que tínhamos em casa e saí, deixando que os raios de sol tocassem a minha pele. Sol. Maravilhoso sol da manhã. Tudo brilhava coberto pela neve sob os raios de luz. O vilarejo não era muito grande, havia a floresta a minha esquerda e montanhas altas lá no horizonte. Era tão bonito. Meu lar era tão bonito.

Peguei minha capa e saí. O capuz eu havia ganhado de minha avó oito anos antes, era de um tecido vermelho escuro e bem quente. Minha avó era uma das melhores pessoas que eu já havia conhecido, a única que me pegava no colo e me embalava quando eu dizia ter medo dos meus sonhos, sussurrando "não tenha medo, mein kind". Sua morte havia me impactado mais do que a qualquer um, por isso, eu usava a capa com capuz vermelho: era a única coisa que me restava dela.

Há poucas pessoas do lado de fora a essa hora, já que os lenhadores saíram para cortar lenha e os ferreiros ainda estão abrindo seus estabelecimentos. Não há nada morto, felizmente.

Quando Anna acorda, a manhã deixa de ser silenciosa.

Ela abre a porta de sua casa e sorri ao me ver. Sai furtivamente, mas assim que seus pés tocam o chão, ela deixa toda a sutileza de lado.

"Você não vai acreditar" ela diz. "Mamãe ficou furiosa comigo ontem" a garota passou a mão por seus cabelos lisos, ajeitando-os com seus dedos. A roupa que Anna usava era um vestido azul claro um pouco desbotado com alguns detalhes em tecido branco. O azul do vestido destacava a cor de seus olhos, era o favorito da garota. Sob seu ombro havia uma capa longa com capuz semelhante a minha, mas a sua era marrom.

"O que você fez dessa vez?" Perguntei com um sorriso.

"Eu tentei cozinhar da forma como você falou. Amolecendo a carne primeiro."

"E ficou ruim?"

"Ficou maravilhoso!" Anna disse com entusiasmo. "É por isso que a mamãe ficou furiosa, todos elogiaram."

Eu ri. A porta da casa de Anna abriu novamente e meu coração quase parou ao ver Willard. Seu cabelo claro estava bagunçado e a barba por fazer, mas um sorriso iluminava seu rosto. "Ah, a cozinheira", ele disse.

A loira colocou as mãos na cintura. "Diga isso mais alto se quiser dormir com as cabras hoje", falou.

O rapaz riu e bagunçou o cabelo de Annastasia ao passar por ela. Ele olhou em minha direção.

"Bom dia, Emilie. Foi sua mãe quem ensinou Anna a cozinhar?"

"Não! Foi apropria Milie aqui quem me deu a receita", disse Anna passando um braço em torno do meu ombro.

"Eu só falei pra amolecer a carne antes do resto. Não é nada demais", me encolhi, diante da atenção. Podia sentir meu rosto queimar.

"Graças a você tivemos uma refeição ótima." O sorriso de Willard se alargou ainda mais, seus olhos brilhando. "A má notícia é que provavelmente a tia Helga provavelmente vai querer estrangular você também."

O rapaz se despediu com uma risada, indo em direção a seus afazeres do dia. Eu não conseguia deixar de sorrir diante da atenção que havia recebido. Anna me soltou e se virou para a direção oposta, falando sobre como Willard era irritante, mas que iria perdoá-lo já que ele havia elogiado sua comida. Eu a acompanhei por alguns passos, um pouco distraída.

Então, uma brisa fria pareceu passar por mim, e me arrepiei. Anna seguiu andando e falando, mas por um momento, algo não parecia certo. Puxando o tecido de minha capa com mais força, olhei para trás. Grandes olhos nos observavam por entre as árvores.

Notas finais
Espero que estejam gostando da história, pois eu estou amando escrevê-la! Sempre digo que até mais ou menos esse ponto, a história é escrita para contextualizar o leitor: Mostrar quem são os personagens, onde vivem, como se relacionam com as pessoas a sua volta e quais os problemas que enfrentam. É a partir de agora que as coisas vão ficando mais interessantes, e as relações entre alguns personagens podem mudar. Deixe seu comentário ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.