Quando chegamos no vilarejo, Anna tremia. Estávamos ofegantes por ter corrido, mas eu sabia que não era só por isso. Annastasia era decidida e corajosa, ela passava a imagem de uma garota forte e que não tinha medo de nada, o que era considerado um incômodo para alguns (sua mãe dizia que nenhum homem iria querer se casar com uma garota tão atrevida quanto ela), mas atrativo para outros (ela era linda, e os garotos do vilarejo pareciam gostar da forma como ela respondia a provocações). Apesar disso, eu a conhecia o suficiente para saber que Anna também era delicada e sensível. Parecia ser uma característica que a garota só se permitia mostrar quando estávamos a sós, e eu me sentia grata por ela confiar em mim a esse ponto.

Não era surpresa que alguns animais da vila aparecessem mortos vez ou outra nas redondezas, afinal, era a lei da natureza: O maior come o menor, e assim por diante. Mas a notícia da morte do cavalo causou um certo alvoroço no vilarejo, tanto por ser um animal grande, quanto pela forma como ele foi morto. Começou-se a especular sobre qual teria sido a criatura a causar aquele estrago e as teorias mais aceitáveis é que poderia ter sido um lobo, ou talvez um bando deles. De qualquer forma, uma atmosfera de medo surgiu entre os moradores, entrando nas casas de forma sutil, se espalhando como uma doença no ar. O conselho do vilarejo decretou que era melhor nos mantermos afastados da floresta, o que culminou em Anna e eu sendo proibidas de nos afastarmos muito de casa. Tecnicamente estávamos de castigo, eu acho. Não posso dizer que era de todo ruim, pois pelo menos eu podia ver Willard mais vezes.

Willard era o primo mais velho de Anna que morava na casa dela desde os oito anos, quando seus pais faleceram. Na época eu tinha seis anos e lembro que, apesar de Anna ter achado a situação um pouco incômoda ("Mais uma pessoa com quem dividir espaço", ela dissera), eu tinha gostado dele. No início, o menino de cabelos cor de mel era bem quieto, não falava muito com ninguém, mas com o tempo ele se aproximou um pouco de nós e de Lisa, a irmã mais nova de Anna. Willard era gentil e paciente conosco. Quando começou a ajudar o tio em serviços mais pesados e deixou de participar tanto nas brincadeiras, o garoto se tornou mais alto, mais bonito. Nos falávamos menos, mas eu sempre o observava de longe, até seus olhos encontrarem os meus e eu abaixar a cabeça rapidamente, com o coração acelerado.

Mas eu não falava com Anna sobre isso.

Esse era o único segredo que eu guardava da minha melhor amiga. Talvez por ser primo dela, talvez por que os pais de Annastasia consideravam casar os dois já há algum tempo. Não sei ao certo o motivo de eu fazer isso, mas ter um segredo que fosse apenas meu me fazia sentir uma estranha emoção na boca do estômago.

Naquela manhã, quando a neve começou a cair, corri para encontrar Anna. Nós brincamos e pulamos e sentimos o sabor dos primeiros flocos na ponta da língua. Lisa se juntou a nós. Seus cabelos claros presos em duas tranças chacoalhavam quando ela pulava alegremente, no florescer de seus 13 anos.

Mais tarde minha mãe nos convidou para entrar. Eu, Anna e Lisa nos aconchegamos embaixo de uma manta, bebendo o caldo que ela havia acabado de preparar. O líquido quente descia pela garganta, esquentando-me de dentro para fora, e a sensação era tão boa que pensei que aquele momento deveria durar para sempre.

Quando minhas amigas foram embora e me deitei para dormir, tive o mais estranho dos sonhos.

Havia um lobo. Seu pelo era claro, em tons de bege, branco e cinza. Eu estava em uma floresta escura e o lobo rosnava em minha direção, ameaçadoramente. Dei um passo para trás, assustada, mas notei que havia algo atrás de mim. Uma... Coisa? Uma criatura estava agachada. Parecia uma pessoa, mas muito magra e com membros alongados. Sua pele era cinzenta e escura, as mãos tinham dedos longos e sujos em forma de garra. Eu não conseguia enxergar o rosto muito bem, assim os olhos pareciam ser apenas buracos negros, mas a boca aberta ensangüentada era cheia de dentes tortos pontiagudos e presas grandes afiadas. Aquela era a coisa mais horrível que eu já havia visto em toda minha vida.

Dei um passo incerto para longe da criatura, com o coração martelando no peito. O que quer que fosse aquilo, não era amigável, mas ainda havia o lobo no lado oposto, rosnando cada vez mais. Eu estava cercada. Não sabia qual dos dois atacaria primeiro.

Quando o lobo pulou em minha direção, acordei com um grito.

O quarto estava escuro, a chama da lareira havia apagado. Eu suava frio, minha respiração estava irregular e meu coração batia muito rápido, mas decidi levantar para reacender o fogo. Não é como se eu fosse conseguir dormir novamente, de qualquer forma.

Caminhei enrolada em uma manta até a lareira. Ao pegar o espeto, minha mão tremia. Respirei fundo e cutuquei as cinzas, na esperança de encontrar alguma fagulha. Coloquei alguns gravetos na brasa, para alimentá-la, e após alguma insistência o fogo surgiu, tímido. Suspirei satisfeita e mais calma. Ao fechar os olhos, a cena horrível do meu sonho surgia diante dos meus olhos, mas talvez se preparasse um chá eu conseguisse dormir novamente.

Coloquei um pouco de água para esquentar e fui pegar um recipiente para pôr o chá quando percebi um som. Todos os meus músculos ficaram tensos. Algo parecia estar do lado de fora da casa, roçando nas paredes, um som suave, como se fosse... pêlos. O que quer que estivesse lá fora, soava como algo grande e peludo.

Seria um lobo? Não podia ser. Lobos raramente apareciam por essas regiões e evitavam se aproximar do vilarejo, mas ainda assim... Poderia ser.

Enquanto ouvia, atenta e com medo, a tigela que eu segurava caiu de minha mão, ecoando ao atingir a madeira do chão. Prendi a respiração e esperei o mais silenciosamente possível. Um segundo, dois, três... Então o animal do lado de fora bufou e pude escutar o som de patas se distanciando.

Fique um bom tempo parada, sem saber se era seguro me mover, até que finalmente me permiti deslizar até o chão. Fiquei sentada com os braços em torno dos joelhos até amanhecer.

O dia seguinte começou caótico.

Pouco após meus pais acordarem, ouvimos vozes altas e gritinhos lá fora. Senti um arrepio me descer pela espinha, relembrando a noite anterior. Empurrei nossa porta de madeira, indo na frente para ver o que era, e minha família veio atrás.

Havia mais a frente um aglomerado anormal, especialmente pelo horário, próximo ao centro do vilarejo. Já tensa, me pus a correr naquela direção para ver o que era. Anna estava entre aquelas pessoas e assim que cheguei, parei ao seu lado, nossos braços se tocando. Uma de minhas mãos instintivamente buscou a mão de minha amiga, que entrelaçou os dedos nos meus com firmeza.

As pessoas presentes formavam um semicírculo em torno de uma cena grotesca, mas que para mim já não era mais tão chocante: Dois dos cavalos do vilarejo estavam mortos em posições esquisitas, com os mesmos olhos sem vida abertos em uma expressão de horror que eu havia visto na floresta alguns dias antes. A garganta de ambos estava estraçalhada, o maxilar de um havia sido arrancado e a barriga do outro foi aberta, espalhando suas vísceras.

Alguém próximo a nós vomitou. Todos estavam assustados e horrorizados, mais do que nunca. Quando eu e Anna descobrimos o cadáver do cavalo foi perturbador, mas poucas pessoas realmente o viram. Agora era diferente. Dois cavalos assassinados cruelmente no meio do vilarejo era um aviso claro: Devíamos ter medo.

E estava funcionando.

Lembrei da noite, apenas algumas horas antes, quando eu não consegui dormir. Havia algo lá. Havia algo grande e peludo e ameaçador, mas... Eu não ouvi nada depois. Aquilo que estava do lado de fora de minha casa poderia muito bem ter matado os cavalos, mas se o fez, fez isso antes de eu acordar.

Notas finais
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