Notas iniciais
"Sabe aquela brincadeira que se desenha uma parte de um bicho, dobra a parte desenhada e passa pro próximo desenhar sem ver todo o desenho anterior, até terminar a folha, e no fim ver o bicho que dá? =PLembrei dessa brincadeira, e modifiquei um pouco. u-uPra se fazer com escrita.""Então, vamos tentar. *-*"

A recente chuva deixara poças imensas pelo jardim, que refletiam o céu imenso. Olhei as nuvens e imaginei o que seriam os vultos voando. Me esforcei para identificá-los, mas foi inútil. Eram velozes demais. Deslumbrado, corri em meio as poças, numa tentativa de segui-los por terra. Escorreguei e cai. Cada vez mais, os vultos se afastavam e se aproximavam do horizonte. Tentei levantar, para voltar a correr, mas o meu tornozelo estava preso em algo. Pedaços desgastados de tecido enrolavam-se ao meu tornozelo. Ao desvencilhar-me, achei algo curioso. Num canto escuro, à sombra de um pequeno arbusto, algo pequeno reluzia. Aquela luz misteriosa prendeu instantaneamente a minha atenção. Instintivamente movi minha mão em sua direção. Ao pegá-lo, considerei-o fascinante. Era fino e frágil, tinha a impressão de que se desfaria ao mero movimento brusco. Assim, eu o admirava com todo o cuidado que o meu deslumbre me permitia. Era como uma pequena escultura achatada. Possuía, talhado em si, a figura sublime de um dragão, tão perfeita como se fosse feita por mãos de fadas. E apesar de sua forma tão especial e incomum, reconheci o objeto místico como um bilhete. É injusto reduzir tal forma à definição de "lacre", a figura do dragão era uma verdadeira obra de arte. Já podia sentir a magia envolta no bilhete fluir por minhas mãos. Mas embora eu o reconhecesse, e valorizasse tão magnifica escultura, minhas habilidades não poderiam abrir tão elaborado bilhete.

Por um breve momento, a minha hipnose pelo bilhete foi quebrada por um estrondo. Olhei ao longe e percebi que os vultos vinham em minha direção tão velozes como quando os perdi de vista. Assustado, comecei a correr, tão longe quanto minhas pernas pudessem aguentar. Coloquei o bilhete no bolso de meu casaco, no maior cuidado para que não o quebrasse. Que ironia, estava fugindo dos vultos que tanto tentei alcançar. Só que eu não sou mais a mesma pessoa que era há um momento atrás, pois agora eu tinha algo a proteger. Uma mensagem a que eu estaria disposto a me arriscar para desvendá-la. Pois, de fato, a curiosidade é minha motivação. Então, a medida que os vultos chegavam mais perto, eu virava bruscamente para os lados a fim de distanciá-los. Contudo, era certo de que eu não poderia fazer isso para sempre, então eu tentei pensar em algum jeito de despistá-los de vez. Já sentindo o desespero em todo meu ser, num ínfimo canto de minha mente surgiu uma recata lembrança. Olhei os vultos, agora identificáveis como harpias, e então num rápido movimento puxei meu amuleto preso ao pescoço por um cordão enfeitiçado.

O amuleto e o cordão são as últimas recordações que eu tenho de minha mãe. Para me proteger das harpias, ela sacrificou toda sua energia vital para encantar este amuleto, juntamente com o cordão. Segurei-o e repeti duas, três vezes... "emboroçar". E então parei, virei-me bruscamente, ergui o amuleto e pude vê-las voando para longe, como se eu estivesse continuando a correr, e não ali, parado. "Emboroçar" foi a última palavra de minha mãe. Uma palavra mágica, tão antiga que fora perdida no tempo, sendo desenterrada agora para me salvar. Um feitiço ilusório poderoso, que além de iludir os inimigos, permite ao conjurador se tornar invisível. Entretanto, é um feitiço amaldiçoado. Toda magia tem sua consequência. Quanto mais poderosa, maior o preço a ser pago. Senti minha cabeça latejar, e tudo começou a escurecer. Eu desmaiara.

Abri meus olhos lentamente, ainda atordoado e tonto. Estava envolvido pela completa escuridão. Sentia pequenas patas andando em mim, e quando por fim pude olhar com clareza, notei que eram fadas. Não pude contar ao todo quantas eram, mas pareciam procurar o bilhete que, por instinto, peguei antes que elas o fizessem. Seus minúsculos e suplicantes olhos me fitavam, demonstrando uma certa expectativa. Eu sabia que queriam o bilhete, mas eu arrisquei a minha vida por ele, então não estava disposto a abrir mão dele tão facilmente. Suas frágeis asas tilintavam ao balançarem, brilhando sutilmente ao se aproximar uma de outra. Uma delas, a menor de todas, se aproximou de mim de tal forma que, assustado, empurrei-me com força para trás, batendo de costas na parede.

Observei aquela pequena criatura se aproximar cada vez mais. Quanto mais ela se aproximava, mais eu pressionava o bilhete no meu bolso. Um pequeno tilintar provinha da pequena fada, um mínimo som, como se ela estivesse falando. "Se afaste", proclamei, temeroso. Apesar de estremecer, a fada continuou vindo em minha direção. Ela tomaria o bilhete de mim, a menos que eu fizesse algo para detê-la. Meu primeiro ato fora o instinto que se possui a um inseto, espantá-lo com um abanar de mão. Mas então, antes de sequer tocá-la, um brilho, semelhante ao de sua asa, parou minha mão, me imobilizando momentaneamente. Apenas minha mão estava imobilizada, contudo, fiquei tão surpreso com isso que entrei em choque. Ela poderia me paralizar e tomar o que é meu e eu não poderia fazer nada para impedi-la. Foi quando, sem me tocar no que isso poderia acarretar, pensei em "emboroçar", fortemente, cinco, seis, sete vezes. O efeito, talvez pelas vezes e pela força com que pensei, fora diferente da vez anterior. Um brilho intenso me preencheu em meio à escuridão, fazendo com que as fadas se afastassem rapidamente. Por um breve momento, senti alívio com a distância, entretanto, sabia que teria que pagar o seu preço.

Minha mão, que até então estava segurando o bilhete, começou a queimar, de uma forma estranha, como se estivesse formando uma casca no lugar da pele. Puxei-a rapidamente, e observei escamas, como se fosse de um dragão, tal qual o presente no bilhete. As escamas escarlates soltavam faíscas que oscilavam pelo ar numa dança incendiária viciante. Eu sentia que um grande poder emanava de minha mão, ao mesmo tempo que uma agonizante dor tentava tomar o controle dos meus pensamentos.

"Era disso que eu estava o afastando", sussurou uma voz fina e feminina em minha mente, de forma tão suave que eu poderia dormir ao ouvi-la, se não fosse a dor fulminante. No segundo seguinte, a dor aumentou estrondosamente, e as escamas já preenchiam meu braço por completo. Uma parte de mim clamava, inutilmente, por piedade frente à dor devastadora, enquanto a outra tinha uma sede crescente pelo poder que eu estava recebendo. Dor e poder estão lado a lado, progredindo no mesmo passo.

Como numa dança de valsa, as chamas sorriam-me ao deslizar-me pelo salão de escamas, enquanto lembranças humanas teimavam em puxar minha consciência. Uma dança viciante e torturante, a quem aquele que me tomasse por último ganharia controle pleno. Em meio ao desespero, senti algo gélido próximo ao meu coração, exatamente onde estava o bilhete. Por um pequeno instante, desliguei-me completamente da dor e do poder que me consumiam e voltei a ver aquela luz que o bilhete emanava da primeira vez que eu o vi.

As escamas começaram a sumir, trazendo de volta a dor intensa de quando surgiram, e isso, apesar do lado bom de eu voltar ao normal, angustiou-me tão torturosamente como mil espadas cravejando-me. O poder se esvaindo fez lágrimas quentes jorrarem de meus olhos gélidos. Logo, me senti quebradiço, despedaçando-me por dentro. Senti cada longo milésimo em que o meu poder ficava cada vez menor, se dissipando, sem deixar nem mesmo um mero rastro, como se nunca tivesse, de fato, existido. Não havia mais poder, apenas um rastro em minha mente de uma repentina tentativa de dominação. Era como se, na valsa, eu houvera sido dispensado, e para abafar minha frustação, eu arrancara a lembrança à força.

Sentia meu corpo vazio, como se minha alma estivesse escapado. Desabei no chão e, enquanto lágrimas brotavam em meus olhos, pela dor e pela frustração, senti um calor aconchegante, provindo do bilhete, antes álgido. Uma sensação misteriosa, que parecia preencher meu ser, como se realocasse minha alma. Então ouvi o tilintar de pequenas asas, de fadas que se aproximavam e se afastavam, em busca de algo. Pareciam incertas e confusas, provavelmente atordoadas pelo que acabei de fazer. Contudo, ainda estavam aqui, isso mostra que o bilhete também lhes é de grande importância, a ponto de, igualmente, correrem riscos pelo seu conteúdo.Certifiquei-me da posse do bilhete, olhando-o rapidamente, levantando-me para correr das fadas.

Imaginei por breves segundos como poderia abri-lo, e poucas foram as opções. Para a minha surpresa, as fadas não me seguiram, o que, de certa forma, me decepcionou. Portanto, resolvi tentar violar o lacre do bilhete para, enfim, tomar conhecimento do que ele guarda. Em algum momento o bilhete havia se rachado, e o dragão tão perfeitamente esculpido estava rachado. Talvez por isso, talvez pelo poder que a pouco quase me tomara posse, pude abri-lo. De fato, era arriscado, contudo não deixava de ser uma opção. Eu ousaria recorrer à magia do amuleto novamente?

Sim, eu ousaria, afinal o que me trouxe até aqui fora minha curiosidade inabalável, minha força de querer ir em frente. Olhei o bilhete, respirei fundo, e pensei no que poderia ver, depois de toda essa aventura. Estou completamente aterrorizado, mas não me dobrarei a este pânico. Com os olhos fixos no bilhete, eu estava pronto para emboroçar novamente. Coloquei a mão sobre o dragão rachado, e com um ínfimo de luz reluzente ele se abrira, fazendo desaparecer o dragão esculpido. O bilhete sumira, deixando gravado em minha mão esquerda, como numa tatuagem, as seguintes palavras: um dragão só desaparece quando outro surge.

Notas finais
Agradecemos por lerem esta história. Ela é muito especial para nós. =)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!