O Berço dos Esquecidos - Rebelião em Ascenção
5 5: A Princesa Cega
Notas iniciais
por Josh Daniel
Acordo deitado em cima de grama. Uma grama cheia de orvalho. Sento-me. Minha blusa polo azul e meus shorts jeans estão úmidos, e meus tênis pretos estão totalmente molhados. Olho em volta; árvores,árvores e mais árvores. Onde estou?
– Quem se atreve a vir até as minhas redondezas? – ouço uma voz feminina furiosa atrás de mim. Olho para trás e uma mulher linda está atrás de mim. Usa um vestido branco deslumbrante, que se sustenta num ombro só. Ela tem cabelos azuis da cor do céu, e olhos tão negros quanto à noite. Apesar de sua beleza, ela segura uma lança de ponta muito afiada em minha direção, e ela me fuzila apenas com o olhar.
– M-me desculpe... – digo, com medo. – Eu não sei onde estou. Eu acordei aqui e...
– Espere aí. – interrompe a mulher. Ela olha para mim e estreita os olhos. – Você... Você é Josh Daniel?
– Sim. Como sabe meu nome?
– Óh, meu Deus! – diz ela. A mulher estala os dedos e a lança se transforma numa corrente em seu pescoço, e o pingente é a miniatura exata da lança. O que é isso? – Me desculpe. Você tem que vir comigo agora!
Ela corre até mim e me ajuda a me levantar, e é assim que percebo que tenho um corte muito fundo em meu joelho esquerdo.
– Aaah! – gemo, quando me levanto.
– Segure-se em mim. – diz a mulher. Eu obedeço, e então de repente tudo em nossa volta fica dourado. Então, com a mesma rapidez, o dourado se transforma numa sala com paredes e chão de pedra; com cadeiras elegantes em dourado e vermelho. Parece uma sala de castelo.
– Mas o quê...? – pergunto, espantado. Sinto-me zonzo. — Num minuto estávamos num gramado, em outro numa sala de castelo.
– Um teleporte. – responde a mulher, calma. – Olha, Josh, sente-se. – obedeço, louco por explicações. – Olha, já vou avisando que será muita informação. Não precisará de mais do que isso para saber que falo a verdade.
– O... Teleporte? – pergunto.
– Não, não. Isso. – diz ela, então ela estende a mão direita e ela começa a brilhar num tom magenta, e então sinto um formigamento no joelho. Havia me esquecido do corte. Quando olho para ele, me assusto ao ver que ele está brilhando e cicatrizando rapidamente.
– Mas que droga é essa? – grito, sacudindo a perna.
– Josh, ouça. – diz a mulher. – Você está num lugar chamado O Berço dos Esquecidos. Todo tipo de pessoa que tem o dom da escrita, como você, e cria personagens, cria um novo Berço. Toda vez que você cria um personagem e desenvolve a sua história, ele passa a existir fisicamente numa realidade chamada A Terra dos Lembrados, onde eles vivem realmente as histórias escritas por você. Porém, quando você se esquece dele, e abandona o desenvolvimento de sua história, ele passa a existir aqui, O Berço dos Esquecidos. Como você desiste deles, quer dizer, nós, não temos alternativas a não ser escrevermos nossas próprias histórias. Então nós damos continuidade a nossa vida aqui.
– Uau. – digo, absorvendo tanta informação. Para um cidadão da pacata cidade de Moony City, sim, isso é demais. Percebo que ela vai continuar falando, mas a interrompo sem perceber: — Desculpe, mas antes de continuar, quem é você?
– Eu sou a Princesa Cega.
– A Princesa Cega? – digo, surpreso. – Mas eu... Hm... Esqueci você há pouco mais de cinco horas. Eu fui para a delegacia, dormi, aconteceram algumas coisas e então eu estou aqui, e você tem um castelo?
– O tempo deve passar diferente por aqui. – diz ela. – Bem, já faz muito tempo mesmo que eu estou aqui.
– O quê?! Uau. E... Não era para você ser... Cega?
– Hm, bem... Eu resolvi aprender a magia boa. Roubei um livro de mágica e construí esse castelo em horas. Depois, fiz novos olhos para mim. Estes são mágicos. Posso ver o quão distante quero.
– E seus olhos antigos estão tipo... No lixo? – meu corpo se arrepia ao imaginar dois globos oculares numa lata de lixo.
A mulher faz uma careta amarga.
– Eu os guardo nas masmorras subterrâneas. Encantei-os e prendi as almas de Joshua e Elisa em cada um deles. – ela diz. – Eu mudei para melhor, mas não posso... Quer dizer, não consigo perdoá-los. Especialmente Elisa.
“Especialmente Elisa.” “Especialmente Lisa”.
– Hm, mas sério, o que tenho para contar é importante. – continua ela. – Bem, Josh, quando você tinha treze anos, resolveu criar um antagonista. Um antagonista que acabou sendo poderoso demais. Quando chegou aqui, ele era o mais forte de todos os “vilões” que vivem no Berço. Ele tem magia, e ela é bem mais forte do que a minha. Construiu seu castelo no alto da montanha que contém o portal entre o seu mundo e o nosso.
– Quer dizer que vocês podem sair daqui?
– Não. O máximo que podemos fazer é aparecer em uma projeção de imagem, mas nada mais profundo. – digo. – Vivemos sobre a tirania dele. Ele se intitula Lorde Forgatto.
– Forgatto é? Que gracinha. – brinco, mas me sinto tonto com tantas informações loucas.
– Acredite, não achará isso quando encontra-lo. A propósito, chame-me de Milenna. Esqueci-me de dizer. Bem, a maiorias das boas pessoas também servem a Forgatto, e todas as más pessoas são servos diretos do Lorde. Existe uma aliança rebelde que se formou há pouco tempo. Eu e meus anões...
– Anões?
– Sim, anões. Ocupei a área deles sem saber. Então eles moram aqui e me servem. São vinte. Continuando, recentemente apareceu uma rainha no castelo. Ela passeia por todo o Berço dos Esquecidos, atormentando a vida de todos e tomando bens para si e para o Lorde. Dizem que Forgatto a tomou dos sonhos lúcidos.
– Espera, Milenna, o que os sonhos lúcidos tem a ver com isso?
– Dizem que Forgatto concedeu a Rainha poderes, e ela pode viajar entre o mundo dos sonhos e aqui. — Sim, mas o que me impede de simplesmente acordar?
– Você não entendeu. Isso aqui é um lugar físico. Você não está sonhando.
– Então eu estou preso aqui?
– É aqui que as nossas histórias se encontram, Josh. – continua Milenna. Que trocadilho irônico. – A saída do nosso mundo está no Castelo da Realeza Esquecida, onde vive Forgatto, a Rainha e as outras más pessoas. Seria impossível você chegar até o portal sem lutar. Afinal, a primeira coisa que o Lorde Forgatto faria seria matar você. Ele era maldoso por natureza de sua criação, mas ao ser esquecido, o ódio em seu coração aumentou, e ele decidiu continuar escrevendo a sua história mais sombria ainda.
– Meu Deus, eu sabia que não continuar meus livros era mais do que só um hábito ruim. Quer dizer que meu arquinimigo é um vilão que criei com treze anos?
– Lorde Forgatto não é mais Lorde Paper, um vilão com roupas coladas que tem o poder de criar dinossauros de papel.
– Está bem, prefiro Forgatto.
– Continuando, teremos de sair da zona de segurança e formar uma equipe para investirmos contra o Lorde e seus aliados. Treinaremos você para que você possa se defender, e então sairemos. Será uma longa jornada até o castelo, e acredite, os aliados de Forgatto e da Rainha não são poucos. Mas se formos bem sucedidos, estaremos libertos da tirania Forgatto e você voltará para seu mundo.
– Mas e Lisa e meu avô Henry? – pergunto, lembrando-me. Uma lembrança no Berço dos Esquecidos. – Acho que eles também vieram para cá.
– Tenho uma ideia. Josh. Como foi que acabou aqui, quem te pegou no sonho lúcido?
– Bem, eu estava num sonho lúcido, procurando por Lisa, e então uma mulher toda de preto e com um véu no rosto me pegou e começou a me fazer brilhar, e aí eu acordei na floresta.
– Essa mulher... – diz Milenna. – Ela era a Rainha. Se você veio atrás de seu avô e Lisa, foi porque eles desapareceram depois de terem sonhos lúcidos, não é?
– Sim. Bem, Lisa pelo menos, por que acho que meu avô não conhece os sonhos lúcidos.
– Então, Josh, tenho um palpite não muito agradável. – diz Milenna. – Lisa e seu avô podem estar sob o poder de Forgatto e a Rainha. E, perdoe-me, mas isso tudo foi muito bem planejado para você acabar aqui. Lisa era a isca.
– Droga. – digo. – Eu não tenho outra escolha senão ir, não é?
– Se não quer viver aqui sem Lisa nem seu avô, não.
– Então... – digo apreensivo. – Temos de ser rápidos. Espero poder confiar em você, Milenna. Ainda não digeri tudo isso.
– Prometo não prender você em um globo ocular. – diz ela, forçando um sorriso amigável.
– Há. Há. Há. – digo. Milenna ri. Algo nela diz que seremos bons amigos. Eu confio nela.
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