Notas iniciais
O título já mostra como o capítulo é feliz.

Três dias depois da minha ida à casa de Lisa, estávamos sentados novamente em frente à sorveteria. Depois do jantar com a família de Lisa, nós estávamos oficialmente namorando, e ela decidiu passar as férias comigo, desta vez. Contei ao meu avô, e ele só soube dar algumas fungadas. Devia querer dizer algo. Ou era só nojento.

– Você está se lembrando dos testes de realidade? – pergunta Lisa, enquanto eu brinco com a ponta dos seus cabelos.

– Hm, não. – respondo. – Na verdade, Lisa, eu decidi desistir disso.

– O quê? – exclama ela, escapando dos meus braços. – Mas você não tentou nem por uma semana!

– Sim, mas não é por causa disso. – explico. – É que eu andei lendo, e sonhos lúcidos iniciados externamente, o nosso caso, tem um risco considerável de paralisia do sono.

– Sim, isso é verdade. – diz ela. – Mas mesmo assim, paralisia do sono não é algo tão ruim.

– Lisa, é melhor prevenir. Não quero correr esse risco.

– Ah, que óbvio. O garoto da cidade pequena e pacata não querer correr riscos.

– Hei! – exclamo.

– Não olhe assim para mim. Você é que não deveria ser frouxo.

Estou prestes a responder quando meu telefone começa a tocar. Olho para a tela e vejo que quem está me ligando é Emily, a irmã de Lisa e a xerife de Moony City.

– É a sua irmã. – digo para Lisa. Em seguida, atendo. – Alô?

– Josh? Oi, é a Emily, irmã de Lisa.

– Oi, Emily.

– Josh, você e Lisa poderiam vir com muita urgência até a residência de Emma Goodwin? – percebo que ela está usando o tom de quando está se referindo a assuntos de Emily Xerife, não Emily Cunhada. No mesmo instante, fico preocupado.

– Sim, sim. Já estamos indo. Mas o que aconteceu?

– Um suicídio.

*****

– Oh, Emily, viemos o mais rápido que pudemos. – diz Lisa quando chegamos. Há várias pessoas em frente a casa de Emma, e Tommy, o assistente de Emily, está isolando a área.

– Conhecem Aaron Joseph? – pergunta Emily. – Do time de futebol do colégio de vocês?

– Sim. – digo. Aaron é um dos babacas do colégio.

– Ele disse ter recebido uma mensagem de Emma no AddToon para “se divertir” com ela hoje à tarde, ontem a noite . Quando ele chegou aqui esta manhã, encontrou Emma Goodwin morta sobre a cama da mesma. Havia uma faca a centímetros de sua mão, e todas as outras evidências apontam suicídio.

– Meu Deus! – digo. As pontadas começam a se formar.

– Isso é terrível! Mas por que ligou pra gente? – pergunta Lisa.

– Espero que não se assustem, mas Emma parece ter deixado algo para vocês. – Emily diz, entregando um saquinho plástico para mim, contendo um papel. – Se quiserem não precisam ler. – Pego-o e abro. Subitamente, meu coração começa a bater mais rápido. Uma mensagem de Emma para mim e Lisa está escrita no papel.

“Desejo toda a felicidade a vocês, Josh e Lisa.

Especialmente a Lisa.”

– Oh, meu Deus! – grita Lisa. Ela enterra a cabeça em meu ombro e desaba. Algumas lágrimas de culpa rolam pelo meu rosto.

– Nós... Nós somos suspeitos de algo? – pergunta Lisa entre soluços.

– Não. A mensagem não aponta nada, e, como eu disse, não foi um homicídio. – responde Emily. — Olhem, não foi minha intenção causar isso. Lisa me contou sobre Emma, eu sei a situação, mas espero que não vivam com culpa. Sabe, querendo ou não, é impossível ser feliz sem afetar alguém.

– Shhhh... – faço, tentando acalmar Lisa.

– Po-podemos ir para casa? – pergunta Lisa.

– Sim. – diz Emily. – Tommy! Tome conta daqui. Já estou voltando, ok?

*****

– Mãe, fique com eles enquanto eu volto. – diz Emily a Sra. Brandon, quando chegamos.

– Sim, mas o que aconteceu? – pergunta ela, com um sorrisinho falso.

– Um suicídio. – diz Emily, séria. O sorrisinho da Sra. Brandon desaparece no mesmo momento.

– Tudo bem, tudo bem. – diz ela. – Pode ir, Emily. Eu fico com os dois.

– Tudo bem, mãe. – diz Lisa, cessando o choro lentamente. – Vem, Josh.

E então ela me arrasta até o seu quarto, e nós ficamos sentados no sofá de veludo em silêncio.

*****

– Hey, Lisa. – digo, finalmente,depois de meia hora até que Lisa parasse de chorar e se acalmasse na medida do possível. – Está tudo bem.

– Não, não está. – diz ela, com a voz trêmula. – Josh, você não conhece minha história com Emma, não é?

– Que história, Lisa? – pergunto, confuso. Lisa suspira.

– Eu e Emma nos conhecemos há mais tempo do que eu e você. Antes de você entrar na creche, já que você entrou tarde, eu e Emma éramos melhores amigas. Daí você chegou e... E eu abandonei Emma. E eu me arrependo. Um dia, quando já estávamos no colégio, eu tentei conversar com ela. Na frente de todo mundo, eu pedi desculpa para ela, desculpas sinceras.

– E aí?

– E aí Emma me deu um tapa forte bem no rosto.

– Uau. – digo.

– Acredite, Emma só é dócil com você. Acredito que a culpa era minha por ela ser tão louca por você. Acho que queria se vingar de mim tomando você de mim. Eu devia ter tentado ser discreta... Mas toda vez que eu percebia Emma nos espiando, eu tentava esfregar minha felicidade na cara dela. – Lisa suspira. – E então nós começamos a namorar e... E nós nem nos importamos com ela.

– Uau, Lisa... – digo, surpreso. – Eu nunca fiquei sabendo disso. Mas, Lisa, eu não sei o que fazer. Se alguém aqui tem culpa, sou eu.

– Não, Josh.

– Então nós dois. – digo. – Olha, Lisa, deite-se um pouco. Durma e descanse. Eu vou fazer o mesmo. Depois podemos pensar nisso e... pensamos num modo de lidar com tudo isso.

– Não temos escolha mesmo. – diz ela. Dou-lhe um beijo e me levanto, me despedindo. Então vou para casa, com um peso enorme nas costas.

*****

por Lisa Brandon

“Especialmente a Lisa.”

“Especialmente a Lisa.”

“Especialmente a Lisa.”

As palavras de Emma ecoam em minha mente. Eu não devia ter tentado ferir Emma. Não devia ter tentado afastá-la. Será que Emily estava certa? É impossível ser feliz sem ferir alguém? Não. Essa frase não vale para mim. Eu tentei ferir Emma. Eu sou a culpada, e não há nada que Josh possa dizer que mudará isso.

– Lisa! – grita minha mãe. – Venha comer algo! Sobrou um pouco de lasanha...

– Mais tarde, mãe. – digo. – Estou sem fome. Pode trazer um copo de leite pra mim?

– Tudo bem, Lisa.

*****

Depois de três copos de leite quente e um remédio, finalmente estou com sono. E, sinceramente, esse drink de leite, remédio, sono e culpa não é nada saboroso. Mesmo enquanto adormeço, a culpa parece estar acariciando meus cabelos. Então eu me lembro de algo.

E finalmente encontro o site certo. Adormeço com as ondas binaurais.

*****

por Josh Daniel

No dia seguinte a descoberta da morte de Emma, eu estou sentado à beira do pequeno lago artificial do parque da cidade. Dormi na casa de meu amigo PJ ontem a noite. Combinei com Lisa para que ela me ligasse quando quisesse conversar, e nada até agora. Posso me preocupar com as possibilidades, não?

Como minha cabeça está cheia com tudo o que aconteceu, decido pegar meu caderno e escrever um novo pequeno conto.

*****

A Princesa Cega

Um conto de Josh Daniel

Era uma vez, na época em que a magia ainda circundava a Terra, uma linda mulher. Ela era a princesa mais linda do reino, até mais do que todas as suas irmãs. Ela era aclamada pelos plebeus, e ela era bondosa para com eles. Usava lindos vestidos de linho fino, e estava sempre deslumbrante com sua própria carruagem.

Porém, por baixo de toda a realeza da princesa, ela tinha uma melhor amiga. Alguém em quem podia confiar e partilhar segredos. Ela era a princesa de outro reino, e estavam sempre juntas em suas carruagens. Seu nome era Princesa Eliza.

Juntas, com suas guardas reais, desbravavam juntas as florestas e cavernas de seus reinos. A amizade das duas era forte, tanto como um cordão de três dobras.

Mas houve um dia especial no reino da linda princesa. Ela receberia a visita de um príncipe de um reino muito, muito distante. Era o Príncipe Joshua, um valente guerreiro e único herdeiro do trono de seus pais.

O dia chegou, e, como sempre, Elisa estava junto com a princesa. O Príncipe Joshua chegou, e foi como se a flecha do cupido atingisse a princesa bem no alvo: o seu puro coração. Ela se encheu de amor, e logo estava apaixonada. No decorrer do encontro real, esse sentimento só se aprofundou.

Joshua não olhava para a princesa como a Princesa olhava para ele. Ele olhava para a Princesa Elisa. E ela para ele.

Era como se ela tivesse sido apunhalada pelas costas. Naquele dia, ela se fingiu de doente para voltar ao seu quarto. Mas um mês depois, quando assistia ao casamento de Joshua e Elisa, ela não suportou mais. Ela se levantou no meio de casamento, e, erguendo um punhal, gritou:

– Joshua! Lindo Joshua! Eu te amei desde o primeiro dia em que ti vi. Fiz de tudo para chamar a sua atenção, e mesmo assim, eu não passava de um inseto em sua vida! Mas, Joshua, se eu não terei você como Elisa te tem, eu não quero ver um mundo onde estou sem você.

E, dizendo isso, arrancou seus próprios olhos na frente de todos, arrancando gritos de todos. E suas últimas palavras antes de fugir cambaleando foram:

– Vocês me abandonaram e arrancaram minha felicidade. Eu prometo que voltarei.

Paro de escrever quando percebo o que estou fazendo. Joshua, Elisa, a princesa. Eu, Lisa, Emma. É impossível tirar isso da mente. Dramático demais.

– Oi, Josh? – volto a realidade quando uma mão pousa sobre meu ombro. Tommy, o ajudante de Emily.

– Ah, oi, Tommy. – digo.

– Josh, poderia me acompanhar até a delegacia?

– Hm, sim, mas... porquê, exatamente? – pergunto, confuso.

– Precisará dar um depoimento. – diz ele, sério. — Lisa Brandon e Henry Daniel estão desaparecidos desde ontem à noite.

*****

– Bem, Josh. – diz Emily, quando entro em sua sala na delegacia. – Deve estar sendo difícil para você, não?

– Na verdade, não tive tempo de processar tudo isso. – digo. – Está acontecendo tudo muito rápido.

– Sim, Josh. – diz ela. Sua voz soa seca. Emily deve achar que fiz algo com Lisa. – Bem, Josh Daniel. Preciso fazer algumas perguntas, sim? Onde esteve ontem a noite?

– Depois de sair de sua casa, fui na casa de PJ. – digo, com firmeza. — Ele me convidou para dormir em sua casa, então eu fui até a minha casa por volta das cinco da tarde pegar minhas coisas. Meu avô estava lá ainda. Então eu voltei, dormi lá, e hoje, as nove da manhã, saí da casa dele e fui ao parque. Então Tommy chegou.

– É um bom álibi. – comenta Tommy. Não percebi um bloco de anotações em suas mãos. – Vou checar as informações ao telefone, Emily.

– Sim. – diz Emily, e Tommy sai da sala. – Não espero que se ofenda, Josh. Não acho que você possa ter feito algo a Lisa ou a Henry, mas era necessário. Você está liberado.

– Mas... E Lisa? – digo, com a voz trêmula. — Lisa é uma das únicas coisas que tenho... Não sei se estou preparado para levar a carga do suicídio de Emma e... Se algo acontecer com Lisa...

– Eu te entendo, Josh. – diz Emily. Ela se levanta e se senta ao meu lado, me abraçando levemente. – Afinal, sou a irmã mais velha dela.

– Eu não posso ajudar?

– Vá para casa. Descanse. – diz ela. – É o melhor para você e para nós.

– T-tudo bem...

*****

Notas finais
Oh god... Gostou, não gostou? Comente!