O Belo, e a Fera
4 Capítulo 4
Notas iniciais
O outono havia chegado a Vila de Santa Fé, e com ele uma chuvinha mansa, aquele que te toca e você sente um frio gostoso. Tudo acontecia como de costume. Seu Giácomo e Milita já estavam com a venda aberta, e com um sorriso no rosto para todos que ali passavam. Professora Juliana já estava na escola com seus alunos, e seu Pedro Falcão e uma estranhamente quieta Gina, já estavam lidando na roça. Seu Pedro estava achando muito esquisito o jeito da filha, já que ela costumava falar pelos cotovelos.
Fia, cê sabe que ieu to lhe achando bucadinho quietinha hoje, ocê nunca é assim. — Pedro falava dando um tempo no machado para analisar a expressão da filha. — Ta tudo bem cocê? tem argo que ta te amolando as cachóla? se tive, ocê sabe que pode falar preu que ieu resorvo procê. — ele terminou.
Gina parou de capinar a roça pra pensar numa resposta a dar ao seu pai. Por um momento antes de responder, sentiu a garoa atingir seu rosto e arrastar seu cabelo, uma sensação tão boa, e pela primeira vez desde o ocorrido, ela se permitiu lembrar. E que lembranças, Era tão real que poderia estar acontecendo agora, sem ela notar. Ferdinando a beijando de uma maneira selvagem, como ela jamais pensou que seria vindo dele, um moço tão sensível. Mas ao mesmo tempo, ela agora raciocinando bem, sentia que havia algo ali, não entendia de romance e essas baboseiras que Juliana insistia em falar. Mas a maneira como Ferdinando a olhava, suas palavras, seus beijos, seus toques, e quando ele se preocupou em saber se ela queria que ele parasse. Ara, agora ela estava corada, o que ele estaria pensando dela? que ela era uma assanhada, só pode. Um pedaço dela queria esquecer tudo aquilo, fingir que não aconteceu. Mas a outra insistia em reviver cada instante daquela manhã conturbada onde foi beijada e acariciada pelo homem dos seus sonhos. Oh não, o que estava pensando? Foi retirada de seus pensamentos quando focou em seu pai parado em sua frente esperando algo, e o que era mesmo? Ah certo, uma resposta, esta que ela teria de mentir.
Mai ocê ta vendo coisa onde num tem pai, ieu não tenho nenhuma pendenga pro sinho resorve dessa veiz, ieu só num tenho nenhum arsunto pra fala, num tenho sô! - Gina falou da maneira mais convincente que poderia encenar. — I agora o sinho pode sirse imbora que o termino aqui suzinha.
Ai ai, tabomsê fia, se ocê ta dizendo ieu acrendito. Agora o vô mermo simbora, cause de que ieu prometi te um dedo de prosa com amiguinho Ferdinando, i o quero ta em casa quando ele chegá. — Gina se arrepiou quando ouviu "Ferdinando" mas não podia transparecer pro pai.
Ta certo, ta certo, o sinho vá que a dispois ieu vô. — Gina viu o pai percorrer o caminho até sua casa, desaparecendo depois de um tempo. Ferdinando ia estar em sua casa, ela queria vê-lo, por mais maluco que seja, ela queria vê-lo, mas era bom que estivesse na lida e impedida disso, não saberia o que fazer se tivesse que falar com o moço;
Bom dia seu Giáco, bom dia menina Milita — Ferdinando disse entrando sorridente na venda.
Bom dia, o que o amigo faz por aqui uma hora dessas? — Seu Giácomo quis logo saber.
Na verdade ieu to aqui dando um tempinho, vou até a casa do amigo Pedro ter uma prosa com ele, e passei aqui pra dá tempo do amigo voltar da roça. — Ferdinando explicou enquanto o italiano enchia um copo de cachaça pra ele.
Oh sì sì, il suo amico Pedro deve in questo stesso giardino. O amigo Pedro deve estar voltando de seus campos por agora, se o amigo correr encontra ele chegando em casa. — Seu Giácomo alertou.
Ferdinando entornou a copinho de cachaça de uma vez só, iria falar com seu Pedro, mas queria se certificar de que ele já estaria em casa, sua prosa era com Gina, e a sós.
Obrigado seu Giáco, ieu vou me indo, té mais. — Ele disse seguindo apressado em direção a casa de seu Pedro.
Não deu outra, Ferdinando chegou se escondendo, a tempo de ver seu Pedro batendo as botas antes de entrar para dentro de casa. E ele estava sozinho, essa era a hora. Ele contornou a casa, seguindo a trilha direto para os campos que ali reinavam. Não precisou andar muito para perceber logo a diante um tufo de cabelos vermelhos agora ainda mais vivos molhados pela fina chuva que insistia em cair. Incontrolavelmente lembrou-se do dia anterior, Gina estava da mesma forma, os cachos domados e baixos devido ao peso da água sobre eles. Não pode deixar de sorrir, como a moça era linda. Ele foi chegando por trás da moça, surpreso por ela ainda não ter notado sua presença, Gina parecia estar em outro mundo, tão pensativa, e ele se perguntava se era nele que ela pensava naquele momento.
Olá Gina! — Ele cumprimentou chamando a atenção da moça pra si. Ela arregalou os olhos de imediato, o que fez com que Nando ficasse temeroso. Enquanto ela lhe olhava daquela maneira estática, ele tentava lembrar o que afinal veio fazer ali, agora sabia, ele não sabia o que falar, nem como agir, ele só queria vê-la.
Ora Ferdinando, o que cê ta fazendo aqui? — Ela lhe perguntou com uma voz tão baixa e controlada, delicada era a palavra, e aquilo o deixou atônito. Gina nunca falará assim com ele, alias ela nunca falava assim com ninguém, a não ser o pai.
Ieu vim falar com seu pai Gina — Ele disse se aproximando, agora não podia mais se segurar,já estava tendo aquelas sensações de ontem novamente, Gina não poderia imaginar o poder que tinha sobre ele, e cá pra nós, ele nem queria que ela soubesse, caso contrário estaria perdido.
Gina o viu falar, mas estava mais preocupada com a aproximação de Nando, ele vinha em sua direção devagarinho, olhando fixamente para sua boca, era um olhar devorador, ele a olhava como se a qualquer momento pudesse ataca-la.
Mai se ocê veio pra falar com pai, o que ocê ta fazendo por cá? O pai já foi pra casa lhe espera. — Ela disse, mas nem ela mesmo sabia o que estava dizendo. Ela queria sair dali, mas seus pés não a obedeciam, Ferdinando estava a centímetros novamente, e ela não fazia nada para impedi-lo.
Gina, ieu tenho que lhe pedir desculpas, ieu não sei o que me deu ontem, o tava muito ofendido com o que ocê disse deu, e ieu só queria provar o contrário, eu não imaginei que fosse acontecer tudo aquilo. — Ele dizia num fôlego só, ele pegou a mão da moça e colocou em seu peito para que ela sentisse seu coração — Ocê me descurpa? olha Gina, escuta, é de coração.
Ela não conseguia pensar, Ferdinando estava novamente em toda parte, ela sentia sua respiração tão próxima, e novamente aquele instinto que fez com que ela o beijasse daquela forma no dia anterior, estava ali, gritando para aparecer. Ainda mais quando ele pegou sua mão, depositando em seu peito, ela sentiu o coração dele acelerado, e sabia que o seu estava da mesma forma, ele lhe tinha um olhar tão gentil, tão sincero, não conseguia não desculpa-lo. Mas espera ai, desculpar? Se ele tava pedindo desculpas por tudo que aconteceu ontem, era porque estava arrependido, estava arrependido de ter beijado-a. Ela não sabia porque estava surpresa, aquilo era um erro desde o começo.
Ocê não precisa pedir descurpa, causo de quê ieu já tinha até que me esquecido — Finalmente ela conseguiu desgrudar os pés de onde estava, e virou-se de costas para o moço, não queria que ele visse a frustração estampada ali.
Ferdinando não pode deixar de ficar triste com aquelas palavras, como algo que mesmo sabendo que a maneira que foi feita estava errado, mas mesmo assim, algo que tirou seu sono, simplesmente pelo fato que não conseguia tirar a ruiva e sua boquinha doce da cabeça. E ela estava dizendo que já tinha até esquecido. Mas ele não ia deixar isso assim, queria ver se ela tinha esquecido mesmo.
Tá certo, tá certo, esquecemos então, mas antes, ocê vai ter que fazer uma coisa — Ele disse esperando uma resposta. E a moça se virou pra dizer:
Faze o que? — Questionou de frente para Nando de novo, e ele começou a se aproximar, diabos porque ele sempre tinha que fazer isso?
Ieu quero..Ieu quero que ocê me beije Gina — Ele viu ela franzir a testa sem entender nada — Sem briga, pra gente selá a nossa paz! — Ele terminou quando a moça já estava entre ele e uma árvore, escorada sem ter pra onde ir.
Ocê ta mais é besta é? — Ela disse quando colidiu inteiramente com a árvore atrás de si, tendo Nando impedindo que ela passasse.
Olha que eu lhe agarro a força denovo — Ele disse com um sorriso malicioso nos lábios.
Pois então tente.. — Ela disse o desafiando, sim era um desafio, e esperava que Ferdinando não cedesse sobre pressão, ela não iria admitir, mais queria os lábios dele novamente.
E ele fez o que ela achou que faria, pôs as duas mãos envolta de sua cintura, a apertando ainda mais contra a árvore. Mas não tão fácil.
Ara mai venha que ieu te arrebento — Ela falou colocando o punho fechado entre eles, e ouviu Ferdinando grunir com o enfrentamento dela, mas não tinha mais volta, sabia o que vinha a seguir, sabia que ele lhe beijaria, ela apenas esperava. Porém não estavam mais sozinhos, quem os pararia dessa vez mudaria completamente o rumo das coisas.
Ieu posso sabe que diabos o amigo ta fazendo com minha fia? — Era Pedro Falcão, Ferdinando só teve tempo de soltar Gina e se virar para o amigo. Ele soltava fumaça pelas ventas. Deu uma ultima olhada para Gina e ela estava tão ou mais em choque quanto ele, ele esperava receber uma ajuda dela, mas pela maneira como ela o olhava, também pedia ajuda silenciosamente. Logo atrás de seu Pedro vinha Dona Tê.
Pronto, estava morto.
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