O Belo, e a Fera
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Quando a lágrima escorreu tímida e sozinha por seu rosto, a porta se abriu deixando-a desconcertada vendo quem era. Nem Ferdinando tivera tamanha ousadia, e isso a deixou perplexa. Era Viramundo, e estavam sozinhos.
Ô Vira, ocê me assusto — ela disse enxugando disfarçadamente as lágrimas.
Ieu queria fala cocê antes de fala com seu pai.. — ele começou aproximando-se, deixando a ruiva um pouco nervosa, mesmo que soubesse que Vira era só seu amigo, as minhocas que sua mãe queria fazer com que ela acreditasse, acabavam deixando-a com um pé atrás.
Ara, fala o que sô? — falou levantando de um pulo da poltrona e indo até a janela, um passo em falso e ela saberia o que fazer, odiava-se por pensar em certas possibilidades, o violeiro era seu amigo, não queria trata-lo mal, porém sabia de sua fama.
Ocê sabe que o seu Giáco num quer que ieu namore a fia dele, e ieu num to mais arguentando vive aqui e num pode ta com ela — Ela sentiu mesmo sem querer uma pontada de ciumes, não queria dividir o amigo com mais ninguém, porém compadecia-se de seu sofrimento, até porque sabia do amor dele por Milita, e como amiga, queria o moço feliz. — Por causa disso ieu to pensando em ir simbora daqui Gina. — Ele terminou desanimado, sentando na cabeceira de sua cama.
Ara Vira, ocê num pode ir simbora — ela disse indo até ele e o abraçando, assustando a si mesma pela atitude, se perguntava o porque de não sentir problema algum em estar próxima de Viramundo, e de contra-partida sentir correr um risco só de estar no mesmo lugar que Nando, tal fato alias que não acontecia a muito tempo, seu coração apertava ainda mais apenas de lembrar.
Ieu num tenho mai nada pra fazer por cá minha frô. — ele falou ainda a segurando, fazendo-a sorrir com o apelido.
Escurte Vira– ela afastou-se apenas para segurar o rosto do rapaz entre as mãos — A Milita te ama, ieu acho que ocê devia tentar de novo falar com seu Giáco, quem sabe agora que inhele sabe que ocê é rico ele lhe deixa namora a moça.
Um pingo de esperança surgiu naqueles olhos e a ruiva sentiu-se bem mais aliviada por ver que talvez tenha ajudado. Ele ia abrir a boca pra falar algo porém foram interrompidos por uma terceira pessoa.
Gina respirou em contentamento por ver que era apenas Juliana, se a mãe ou o pai a vissem abraçada a Viramundo, estariam no mínimo casados. Ela viu Juliana pigarrear anunciando sua chegada, soltou Vira na mesma hora que ele abriu um sorriso para a moça dos cabelos cor de rosa.
Olá dona Juliana, er..Gina — dirigiu-se novamente a ela. — Ieu acho que ocê tem razão, ieu vo tentar de novo. Obrigada minha frô.– Ele falou alegre sorrindo para ela e depois para Juliana a sair do quarto, bom quem sabe, missão comprida. Era por isso que gostava de Viramundo, não importava o assunto, ele fazia com que ela esquecesse de tudo. Torcia pelo amigo, independente da forma que fosse.
_____
Então ocês tão namorando? — Ferdinando encontrava-se no celeiro juntamente de Zelão, esse que tinha um sorriso que não cabia no rosto.
Pra o sinho ve seu Nando, tudo ocês diziam que a prefessorinha era demais preu, mai foi ela seu Nando — ele falava andando de um lado para o outro, e Ferdinando por mais que sentisse por seu amigo Renato, não podia deixar de sentir-se feliz pelo capanga. — foi ela que me beijo — ele parou de repente — aqui — colocou dois dedos em cima dos lábios — na boca, ela me beijo na boca. Ieu acho que ocês esquecerum de me avisar que ieu morri e fui pro céu. — ele terminou caindo sobre a palha ao lado de Nando no chão, suspirando de amor.
Pois é Zelão, quem diria que a Juliana gostava mesmo docê homi — Ele disse dando tapinhas no ombro do amigo. — É como dizem "A gente aceita o amor que acha que merece". Ocê sempre soube que merecia esse amor, nós todos que fomos burros em achar que não meu amigo. — Ele terminou já desanimado, pensando no amor que escolherá para viver, esse que era impossível.
Ô num quero me meter patrãozinho, mai ieu acho que cê ocê gosta mermo daquela tar de Gina, ocê tem de dizer isso pra ela, dizer tudinho. — Ferdinando foi pego de surpresa pela observação do homem, até Zelão havia percebido, sorriu de canto para o capanga.
Ieu acho que ocê ta certo Zelão, ieu só preciso toma coragem pra faze isso. - falou sincero, levantando-se para ir embora. — Ieu quero que ocê saiba meu amigo, que ieu lhe admiro muito, e que apesar de tudo, ieu torço de verdade procês. — esperou que aquelas palavras fossem suficientes para expressar sua gratidão, o capanga levantou-se diante de si, em toda sua postura, essa que agora Ferdinando entendia. O gigante a frente dele estava envolto por um mar de amor, ele pegou Nando de surpresa quando o abraçou. O moço jamais em toda sua vida recebeu um abraço tão sincero, sentia-se feliz por Juliana, ela estava com a pessoa certa. – Inté Zelão — partiu então para casa, enfim sentia-se seguro para tentar novamente.
_____
E você o incentivou a ir atrás da Milita? — Juliana perguntava incrédula, como se fosse algo absurdo.
Mai é craro, o Vira é meu amigo Juliana, ieu só quero o bem dele sô. — Gina disse já debaixo das cobertas, o inverno estava os maltratando mesmo sem ter chegado totalmente.
Humm..E eu que achei que você estava gostando dele — a professora disse antes que a ruiva pudesse protestar, seguindo a frase e a piorando — Se bem que eu também achei que você gostava do doutor Ferdinando e me enganei — Ela falou olhando desconfiada para Gina — Quero dizer..eu me enganei não é Gina?
Ara Juliana, ocê com essas conversa de novo, ieu já disse que o Vira é só meu amigo, e ieu num quero saber daquele engenheirinhú gronomo. Inhe meior nóis ir dormir agora. — Gina ia terminar com um belo boa noite mais a pergunta a seguir a desanimou.
Você não vai me dizer mesmo o porque de toda essa briga com o Nando? Vocês nem se olham — ela falava exasperada — Ou melhor, ele olha quando você não olha, e você olha quando ele não está olhando. Minha amiga, por favor, diga pra mim o que aconteceu, eu posso lhe ajudar. — Ela terminou sincera.
Gina a fuzilou com o olhar, virou-se para a parede sem responder e sem ao menos dar boa noite, ninguém poderia ajuda-la, nem mesmo Juliana.
_____
O dia amanheceu um pouco mais gelado na casa dos Falcão, a cantoria por lá tristemente havia acabado. Viramundo se despediu antes mesmo de Dona Tê servir o café da manhã, disse que não gostava de despedidas.
Gina não teve animação nem para trabalhar naquela manhã, sem Vira por perto tudo parecia mais deprimente. A única coisa que a fazia sentir-se bem, era a esperança de que quando encontrasse Milita, a ruiva o convenceria a ficar e enfim seu amigo poderia ser feliz.
Era perto da hora do almoço quando ela e Juliana estavam chegando em casa, a ruiva estava até sem vontade para comer, o que nunca acontecia, seu desanimo era visível. Porém ele deu lugar a outra sensação assim que pôs os pés pra dentro de casa e ouvia aquele tom, aquela voz tão conhecida, aquela que ela poderia passar séculos sem escutar, mas jamais esqueceria. Aquela voz que era tão sua e que agora vinha de algum ponto da casa, ouviu também a voz de seu pai, eles estavam conversando.
Olhou paro o lado a tempo de ver Juliana rindo debochada, sabia o porque, sempre que Ferdinando aparecia, o que era raro já que a ruiva fazia questão de trata-lo mal, mesmo assim sempre que ele vinha, Juliana rezava o mesmo mantra "Ele veio conferir se você continua apaixonada".
Não importava ralhar, brigar, fazer o que fosse, a professora já havia perdido o medo da ruiva. E ela se perguntava como Juliana poderia insistir em algo tão veemente se já havia dado por encerrado, talvez a amiga soubesse de seus sentimentos melhor do que ela própria.
Fiaaaaaaaaaaaaa do céu — Era sua mãe que viera correndo da cozinha, como se alguém fosse morrer se não o fizesse.
Ara mãe, pra que esse desespero todo sô? — perguntou já desconfiando que o motivo era a voz que vinha da sala ao lado, tinha certeza que a mãe a mandaria ir pro quarto para nem vê-lo. Mas desta vez não aceitaria, por mais que ainda nutrisse magoa da ultima vez que estiveram juntos, seu coração pedia por ele, pelo menos para vê-lo um pouquinho que fosse.
O doutô Nando fia, ieu nem te conto o que ele ta proseando mais seu pai lá na sala — ela dizia esbaforida segurando-se em Juliana, essa por sua vez segurava-se era pra não rir.
Mai a sinhora num precisa nem conta — ela disse largando no armário suas ferramentas de lidar com a terra — ieu vo lá vê o que inheles tão conversano — ela saiu pisando fundo. Já estava cansada dessa história, mesmo achando que Nando não quisesse mais olhar na cara dela depois do que fez, sentia enfim bem o suficiente para explicar-se e tirar satisfações do porque ele havia lhe tratado daquela forma.
_____
Nando havia acordado naquela manhã motivado afinal a lutar pelo que era seu, como havia dito a Zelão na noite anterior.
Juntou todas suas forças e um pouco de cara-de-pau e seguiu rumo até a casa dos Falcão, e lá estava ele, sentando em frente a seu Pedro Falcão, bebendo um aperitivo para encorajar-se ainda mais. Contudo a expressão bondosa no rosto do homem a sua frente o deixava mais tranquilo, mesmo sabendo que poderia mudar a partir do momento que dissesse enfim o porque da visita, mesmo assim, sentia que poderia confiar em seu Pedro.
Mai então fio, ocê num veio até aqui só pra me conta das maluquice do seu pai o coroner Epa, e pra toma uns golinho. — Pedro dizia enquanto coçava a barba, sinal de curiosidade, esse já conhecido de Ferdinando. — Ocê diz o que lhe trouxe aqui pra casa. — Falou por fim não deixando mais escapatórias para o moço.
Ele ouviu os passos de Dona Tê seguirem apressados até a porta na mesma hora que o som de gente chegando invadiu o lugar. Pela primeira vez sentiu-se tranquilo ao pensar que talvez fosse Gina, afinal estaria salvo. Mas não, não era assim que devia pensar, veio para pedi-la em namoro para seu Pedro e era isso que faria, só precisava encontrar as palavras que lhe fugiam da boca assim que ameaçava falar.
Então..er..er — tentava mais nada saia, começou a ficar vermelho na mesma hora que olhou para o pequeno horizonte atrás de seu Pedro, lá estava ela, escondida, espiando. Ele não sabia onde se enfiar, como diria aquilo com Gina ali? ela parecia não ter notado que o moço a percebera escondida em um canto.
Fale de uma vez rapaiz — Seu Pedro chamou-lhe a atenção novamente, não sabia se contava a travessura de ouvir atrás da porta que sua filha fazia, ou aproveitava que ela estava ali para dizer tudo que sentia.
Suas mãos estavam suando frio e ele queria achar um lugar onde enfiar a cabeça para que ninguém pudesse vê-lo. No mesmo instante que resolveu abrir a boca, percebeu que agora além de Gina, Juliana e Dona Tê também espiavam. Bom, era a hora.
Seu Pedro...Dona Tê — ele gritou o nome da mulher fazendo Seu Pedro dar um pequeno pulinho na poltrona, sem entender nada e procurando a mulher pelos cantos sem sucesso. Mas a própria parecia um tomate de tão vermelha, foi o que Nando constatou a olhar por cima do ombro do amigo.
Gina acima da mãe parecia perplexa e Juliana ria da situação, porém nenhuma delas se moveu de onde estava, não importava, elas iriam ouvir.
Ieu vim até aqui pra pedir ao senhor seu Pedro, com todo o respeito que o senhor sabe que lhe tenho, que permita que eu namore sua filha. — Disse por fim fazendo todos os presentes engasgarem exceto Juliana que parecia ter sido ela própria a ser pedida em namoro, tamanha animação.
Ocê o que Ferdinando? — Gina largou o esconderijo rompendo sala a dentro assustando o pai que não sabia que ela já estava ali a um bom tempo.
Isso mesmo que ocê ouviu Gina — ele disse levantando-se e ficando num lugar que sabia ser seu, a centímetros da moça, todo seu nervosismo desapareceu assim que sentia o vento frio que entrava pela unica janela aberta da casa, ir de encontro aos cachos da ruiva que emanaram até o moço aquele perfume que ele tanto sentira saudade, aquele que era só dela.
Ele viu naqueles olhos confusão, ela parecia dividida entre o espanto da pergunta, a magoa e a raiva inexplicável — apenas para ele — e algo que ele sentira em todas as vezes que a tivera nos braços, paixão.
Ela mantinha o rosto numa expressão carrancuda, mas ele viu que seus lábios pregavam-lhe uma peça, querendo fazer brotar um sorriso travesso.
Ele tinha consciência das outras pessoas ao redor deles, não só porque Dona Tê se destacava com o rosto tão vermelho como um pimentão que parecia pescar para ela todo o foco. O mesmo para Juliana que tentava conter-se nos pulinhos de alegria, ele sabia que a amiga sempre o ajudaria, e as vezes ela parecia até mais animada que Gina quanto a ele. Mas sim o que mais o fazia perceber as pessoas ao redor, era Seu Pedro, esse que estava também a poucos centímetros dos dois, como se estivesse preparado para segurar Gina caso ela tentasse estrangula-lo.
Porém nada disso importava quando fixou novamente seus olhos nos dela.
"Sabe quando eu vi você
O meu tempo quis parar
Nos teus olhos encontrei
A razão pra não
Deixar mais de sonhar"
Parecia sempre como a primeira vez, a primeira vez que a via, a primeira vez que tocará seus lábios, a primeira vez que sentiu seu corpo, e a primeira batida de seu coração que parecia fazer apenas para lembra-lo de que nasceu para ama-la.
Fale com o autor