O Beijo do Acaso - Sangue
1 A História de Cipreste
Notas iniciais
Ao pé de Cipreste
havia uma velha casa
Que nem mesmo o céu azul-celeste
podia devolver-lhe sua antiga graça.
No passado fora o símbolo de uma união,
mas agora ali jaz um partido coração
e os resquícios de uma antiga desilusão.
A família que ali morava
partira de repente
Mas a casa ainda se lembrava
do rosto daquela gente.
A grande mesa desbotada
havia um dia experimentado
O leve toque aveludado
de uma pequena mão enluvada.
Porta-retratos abandonados
traziam à memória
fotografias dos antigos senhores abençoados.
A lareira apagada ainda se lembrava
da jovem menina que recitava milhares de versos
e chorava.
Poema de autoria anônima acerca da Casa Guimarães em seus tempos de abandono (1929-1948). Acervo do Museu Antônio Cabral Guimarães. Cipreste, Minas Gerais.
Cipreste era um pequeno povoado quando Eduardo Guimarães e Sara Cabral, um casal nobre português, viera ao Brasil junto com a Família Real Portuguesa em sua fuga no ano de 1808. Assim como grande parte da nobreza portuguesa, o casal estava falido e se sustentava através dos benefícios que a a Coroa lhes proporcionava.
Eduardo Guimarães, decidido a fazer fortuna nas novas terras aventurou-se pelo interior de Minas Gerais, onde descobriu em Cipreste as minas de ouro que garantiriam a fortuna de sua descendência. Um acordo com D. João deu-lhe permissão para explorar as minas e passar (assim como todo o ouro da colônia que acabara de se tornar a metrópole por ser a sede da monarquia) uma parte do mesmo para a Coroa.
Os anos foram passando e os Guimarães transformaram Cipreste em uma importante exportadora de metais preciosos, com alto desenvolvimento e a segunda maior cidade de Minas Gerais (perdendo apenas para a capital Belo Horizonte).
Em 1875, no entanto, chegou a Cipreste uma rica família italiana: os Orsini. Descendentes de uma das mais poderosas dinastias italianas, os Orsini chegaram a Cipreste por indicação do nobre Caetano Costa, membro extremamente influente dentro do Conselho do Ouro (instituição criada pelos próprios Guimarães). Com a intenção de diminuir o poder da família na região, os membros do Conselho do Ouro (com grande influência de Caetano Costa) determinaram que metade das minas de ouro de Cipreste deviam ser leiloadas para quem as pudesse comprar, pois " (...) tamanho poder dentro de uma província é uma ameaça ao poder da capital e do soberano Imperador D. Pedro II" como escreveu Caetano Costa no documento que fora entregue aos Guimarães na tarde de 14 de outubro de 1870.
Assim, os Orsini compraram metade das minas de ouro de Cipreste e passaram a dividir o poder entre si, resultando em inúmeros conflitos internos que prejudicaram os negócios da região.
Quando, enfim, um acordo foi assinado e o casamento entre uma filha dos Guimarães e um filho dos Orsini uniu as duas famílias e unificou a economia da cidade em 21 de fevereiro de 1902, as grandes travessuras do destino estavam apenas começando e as tragédias e desgraças encontrariam no amor o seu maior pecado.
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