O Beijo: Um Maldito Talvez
1 Capítulo Único
Bárbara olhava fixamente para além da janela de vidro e das gotas de chuva. Estava sentada com as pernas coladas uma na outra, imóveis. Sua mão esquerda segurava o assento enquanto a outra bailava os dedos nervosamente sobre o joelho. Em seguida, a menina sente uma aproximação suave em seu rosto, pisca devagar e imobiliza a mão. Bárbara esperou tanto tempo por isso e agora tem segundos para realizar-se ou simplesmente arruinar tudo. O fato é que a presença de Clive deixava-a vulnerável, em certo sentido. Se estivessem com mais amigos ali, ela agiria com a maior confiança do mundo, o que certamente, pensa ela, o atrairia. Mas não. Estavam só os dois, num trem. Os dois, que conversaram durante metade da viagem agora estão em silêncio. É quando ela se vira para a janela e fica sem saber o que fazer com a mão, que está tão próxima da dele. No momento que ela foge, ele a encontra. Olha o rosto dela refletido, inseguro no vidro, olha para as mãos sobre o joelho, as lindas pernas imóveis. Agora a menina confiante pareceu-lhe encantadora e irresistivelmente vulnerável. “Será que ela vai segurar minha mão, que está tão próxima da dela? ” Ele num impulso doce e inexplicável, aproxima-se suavemente do rosto de Bárbara – e a vê piscando devagar e imobilizando a mão. Era noite. Lá de fora, a lua se enchia, preenchia, alimentada pela conversa e sorriso dos dois. Viu a face rosada da menina olhando para além da janela, abençoou a boa ideia do menino de aproximar-se do rosto daquela tão tímida dama. Torceu pela felicidade dos dois e pra que aquele beijo acontecesse sem demora.
Após quatro longos segundos, de respiração pesada, coração inimaginavelmente acelerado, Bárbara vira-se olhando com profundidade nos belos olhos azuis de Clive – olha pra sua boca e aproxima-se...
BOOM! BOOM! BOOM!
O estouro que quase a ensurdeceu! Os olhos antes cheios de amor, agora estão em pânico absoluto e então a menina se dá conta da cena e do sangue encharcando a camisa de seu amado. Da morte. Então Clive olha ao redor e vê o passageiro que estava no banco de trás, tão próximo a ele... morto.As portas se abrem, os bandidos fogem e o alvoroço começa. Ligações pra ambulância, polícia e tudo que se tinha direito. Todos os passageiros correndo, descendo do trem, uma tremenda bagunça. Ficaram os dois na plataforma esperando por outro trem que pudesse levá-los a seus destinos e em meio a desatinos e ao caos absoluto, os dois relutantes, em luto, consolaram-se em um beijo terno de amor. E num passo em falso pra trás, o doce e belo rapaz é levado pelo grande e apressado trem. Depois de ter beijado Bárbara, inventou de beijar a morte e deixa a moça completa e desesperadamente sem ninguém.
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