O Barco II : As Ilusões de Morphia
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Notas iniciais
Era outra peça da minha mente... eu me sentia agonizando, agitando os braços dum jeito frenético, acho que relutando para subir, mas a sensação era de algo que me empurrava ferozmente pra baixo. Estava afogando, mas não era em água... um turbilhão de lembranças era jogado contra mim... as mesmas que por quase cinco anos venho lutando pra não precisar mais lembrar!! Vontade de abrir os olhos e não conseguir... isso me desesperava porque já sabia como ia terminar... sempre termina da mesma forma... um espectro brilhante apareceu no meio da escuridão... uma imagem apavorante que chamava pelo meu nome... aquele era... era o meu...
Adel!
— AAHHH!
Abri os olhos quando a voz do sonho se misturou com outra.
— Até que enfim... o que você tem?!
— Só um pesadelo... acontece às vezes... não é nada...
— Como nada?! — ele exclamou. — Você delirou por quase meia hora! Eu nem podia jogar água em você porque essa porcaria parece mais ácido!
Ele sentou do outro lado, pondo a mão sobre os olhos e só então tive uma ideia da minha situação. Eu estava encharcado de suor e respirava acelerado.
— Cara... desculpe pela preocupação...
— Tá tudo bem. O que importa é que você já acordou, só isso.
— Ainda falta muito?...
— Não dá pra saber.
Meu nome é Adel. Há alguns dias, fui misteriosamente tragado pra uma espécie de mundo paralelo, Lucidia, onde seu povo me aguardava quase como um messias. Eles queriam que eu viajasse num barco atrás de um lugar que chamavam de Utopia, onde, supostamente, encontraríamos qualquer coisa que faltasse em nossas existências.
Aquele ao meu lado era Irwin, quem viajaria comigo por esse mundo novo. Como ele era meio fechado, não éramos a melhor das duplas, mas eu não ficava bolado com isso porque também costumava ser assim.
— Lucy disse que esse mundo é dividido em três províncias.
— E teremos que vasculhar as três até achar o que a gente quer — ele deduziu. — ... se Lucidia por acaso tiver o mesmo tamanho da Terra, estamos muito, muito ferrados.
— Pow... nem me diga isso. Já fui "convidado" várias vezes a rodear o mundo pelo mar e piro só de pensar.
— Querem te botar na Marinha?
— Mais ou menos... — respondi, sem saber ao certo como explicar, mas outra coisa aconteceu. — Ah, veja só.
O contorno diluído de uma ilha surgiu na camada de nevoeiro à nossa frente. Depois disso, acho que pudemos respirar mais aliviados, pois a sensação de velejar em linha reta por tempo indeterminado e sem poder enxergar nada diante de você não é das mais tranquilizantes. Restava agora saber se havíamos chegado aonde queríamos.
— Será que é aqui? Foi rápido demais.
— Por isso era um atalho.
— Devíamos ter conhecido esse "atalho" na primeira vez que viemos parar aqui — Irwin resmungou.
Dessa vez, ele até tinha um bom motivo pra se contrariar. Minha amiga Lucy — que descobri ser na verdade a própria imperatriz daquele mundo — , pouco antes da partida, me indicou tomar esse caminho, que não conhecíamos antes e poderia ter nos poupado tempo e sofrimento.
— Tem razão — eu disse. — ... melhor certificar antes se é mesmo aqui.
— É sim, já vi...
Olhei na direção que seu dedo indicador apontava. Na praia havia alguns vultos, e um deles especificamente vinha correndo até nós mais rápido que os outros.
— Adel!
— Belle...!
A garotinha, uma das primeiras pessoas que conheci naquela nova realidade, mal esperou que eu descesse pra se agarrar com força na minha perna.
— ...Vocês voltaram... que bom...
Olhei para as expressões de alívio no rosto dela e dos outros, temendo o que estava prestes a dizer. Se eles achavam que tínhamos encontrado a Utopia, se frustrariam, e acredito que frustração não é algo recomendado pra quem já tinha que morar naquele mundo.
— ... Irwin, o que eu devia diz... hã?!
Onde ele estava?... ah, sim, esqueci de dizer que aquele cara tinha um talento nato pra sumir feito fumaça. Ia lhe pedir uma ajuda, mas teria que me virar no que dizer agora.
— Hoho, acalme-se jovem, todos aqui estão cientes de que a missão de vocês apenas começou.
— ?
Era Sage, um ancião que parecia liderar o povo daquela ilhota. Assim como da outra vez, ele parecia ter adivinhado o que eu estava pensando. Isso me incomodava, e muito.
— Não faça essa cara — continuou. — Por que não segue o exemplo do seu companheiro de viagem e descansa um pouco?
Foi então que o encontrei. Irwin cochilava encostado numa árvore a alguns metros, do mesmo jeito de quando o vi na primeira vez. Como eu tinha dormido por quase todo o trajeto, não estava com sono e passei o tempo respondendo às perguntas que os outros tinham, quase todas relacionadas com meu encontro com a imperatriz.
— Então, como ela é?! — Belle perguntava pela quinta vez, mesmo já tendo ouvido minhas respostas aos outros.
Respondi com outra pergunta:
— Como você acha?
— Bem... meu pai e todos dizem que ela deve ser linda... eu também acho. É verdade?
— Hmm... todo mundo tinha razão então — olhei pros lados, fingindo temer que mais alguém escutasse. — ... na verdade, um pouquinho menos que você, mas que isso fique entre nós.
Ela se alegrou, mas pouco depois o sorriso desapareceu enquanto abaixava os olhos
— ... Não encontrou meu pai, né?...
— ... Não — e levantei seu pequeno rosto com cuidado. —Ainda não! Me dê um pouquinho mais de tempo, agora desfaça essa carinha, ok?
Belle sorriu, concordando comigo, e foi se juntar aos outros.
Mais tarde, havia seguido Sage por um caminho pelo bosque. Disse que queria falar a sós comigo.
— Todo mundo está muito surpreso por ter se encontrado com a imperatriz — ponderou, virando para mim. — Mas foi você o maior surpreso, não foi?
Dei de ombros:
— E queria que eu adivinhasse que ela era a minha amiga? Aliás, já que sabe disso, por que não aproveita pra dizer o que mais sabe e está escondendo?
— Precisava ter feito isso, rapaz. Antes de mandá-lo em busca da Utopia, era necessário que viajasse por essas ilhas para começar o seu preparamento, fosse físico ou emocional.
— Estavam me testando?...
— Não precisa colocar dessa forma. Mas é verdade que agora você está um pouco mais determinado a cumprir seu destino, e até mesmo começou a estabelecer um laço de amizade com aquele que chamamos de "Segundo Barqueiro".
— Não me lembro disso ter acontecido — disse Irwin, aproximando-se pelo mesmo caminho que usei. — Por que não pára de falar loucuras e vai direto ao que interessa?
— A imperatriz deve ter dito algo sobre as províncias...
— Isso — respondi
— Além deste arquipélago, Lucidia é dividida em três províncias... ou melhor, quatro. Elas são: Morphia, a Terra da Ilusão; Phobia, a Terra do Pesadelo; e Phantasia, a Terra da Retribuição.
— E a quarta? — perguntou Irwin
Sage sorriu:
— A quarta está fora de alcance, até para o Barqueiro... a menos que você morra primeiro.
Nós nos agitamos um pouco quando ele disse isso, mas foi minha vez de perguntar:
— Por qual delas devíamos começar?
— A escolha é sua... contudo, se eu fosse vocês, seguiria primeiro até a Terra da Ilusão. Primeiro, porque é a mais próxima daqui, e, segundo, porque...
— Por que o quê? — Irwin se inquietou diante da hesitação dele.
— ... Garotos, existe uma outra história de que alguém, possivelmente o antigo Barqueiro, escondeu algo em Morphia... algo que apontava o caminho para a Utopia e que, pra não cair em mãos erradas, precisava ser muito bem guardado, mas ninguém, nem mesmo a jovem Lucidia sabe os detalhes.
Seria melhor se soubéssemos mais, mas não pude evitar de gostar daquilo. Era bom vê-lo se sentir tão confuso e desorientado quanto nós. Talvez assim parasse com essas brincadeiras malditas... ou talvez eu só quisesse descontar nele o que me custaria fazer com Lucy...
— Então, é pra lá que vamos? — Irwin me perguntou, tirando-me do meu transe.
— Hã?... Ah, sim... deve ser o melhor.
— Espero você no barco — ele disse, dando meia volta.
— Adel, pode me fazer um favor? — Sage pediu depois que Irwin tinha saído.
— Diga.
— Se possível, não comente com os outros que estão a caminho de Morphia... em especial, não diga nada a Belle.
— E por quê?
— Foi por lá que o pai dela se aventurou atrás da Utopia... pra não voltar mais. Se souber que você também vai até lá, ela pode se desesperar, ou pelo contrário... se encher de esperanças, e nós dois sabemos que tanto um quanto o outro podem ser igualmente perigosos...
— ... Certo.
A despedida foi mais breve que da outra vez, apesar de que provavelmente ficaríamos um bom tempo sem voltarmos a nos ver. Sage e Belle ficaram à frente dos demais, acenando e desejando boa sorte incontáveis vezes. Tínhamos tomado um novo caminho, partindo pela praia da margem oposta. De acordo com Sage, não demoraríamos a chegar ao novo destino, e, de fato, o nevoeiro já não parecia mais tão denso.
— Parece que a gente tá chegando.
— É.
— ... O que temos que fazer não ficou muito claro — comentei.
— E quando algo foi "claro" desde que chegamos aqui?
— Você tava certo, estamos muito, muito ferrados.
— Heh.
Era até mais fácil rir quando se tratava da nossa própria sorte. Por volta de uma hora depois, já não haveria mais um único vestígio de névoa, o que, no fundo, não servia pra facilitar as complicações do nosso caminho.
A Terra da Ilusão... já tínhamos experimentado as ilusões de Lucidia e quase morremos por isso.
Por um segundo, cheguei a pensar que foi por misericórdia que Sage e Lucy nos testaram.
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