O Barco

23 Rumo à Utopia


Notas iniciais
Ponto de vista: Irwin

“Pra onde?...”

Era a pergunta que me fazia a cada cinco minutos enquanto vagava pelas ruas daquela pequena cidade. Exceto pela neblina que não havia mais ao redor, era como qualquer outra ilha por onde tinha passado desde que entrei naquela nova realidade.

Lucidia. Uma sombra do outro mundo, o mundo real, o mundo "deles"... o mundo que até então eu me perguntava se seria mesmo o meu lugar, ou se não tinha nascido ali por engano. É até irônico eu ter me recusado a acreditar em tudo quando fui parar em Lucidia, afinal, não era eu mesmo que, no fundo, pensava que existia um lugar diferente? Um lugar pra chamar de lar... sem mais nenhuma dúvida. Bom, se aquela era a lixeira do mundo humano, então eu estava sim no meu lar...

É, mas isso não mudava a ordem natural e universal de certas coisas. Eu ainda era um otário vagando sem rumo certo pelo desconhecido, e o pior, sem grana. Como faria pra sobreviver de agora em diante?... eu nunca tinha trabalhado, não por preguiça ou vagabundagem, mas falta de oportunidade mesmo. Será que emprego por ali seria mais fácil?

Tinha essa minúscula esperança dentro de mim quando entrava numa taverna parecida com a daquele cara de antes, o Flint. Entrei atraído por um aviso colado na parede dizendo que precisavam de empregados.

— Tem alguma experiência, rapaz? — me perguntou o cara que devia ser o dono do local, enxugando alguns copos.

— Bom, eu costumava tomar conta dum pequeno bar na minha casa... na minha antiga casa — corrigi. — Nunca fui um funcionário exemplar lá, mas prometo fazer o meu melhor.

Imediatamente me arrependi por ter sido tão sincero, mas ele, acho que adivinhando que eu era novato nesse mundo, concordou, mas disse que no momento só precisava de alguém para fazer faxina, e ainda assim só por um dia. Isso não me ajudaria muito, mas já ia dar pra me virar pelo menos até o dia seguinte, então aceitei na hora.

Já era noite mas não havia tantos fregueses, o que facilitava o meu serviço. Enquanto tirava o pó dum monte de caixas perto das mesas ao fundo, o cara disse que me pagaria 35 lucos por isso. Eu não fazia ideia de quanto isso valia, então só pude concordar.

Umas duas horas depois, com um movimento ainda menor de gente, voltei a ser abordado.

— Você tá começando a ficar previsível — disse alguém, sorrindo enquanto me mostrava o anúncio da entrada.

Era Adel, o Barqueiro — uma espécie de super-heroi endeusado praquela gente — , com quem eu tinha viajado nos últimos dias. Nunca tínhamos nos visto antes, e ainda assim devo dizer que minha vida já foi duas vezes salva por ele nesse curto tempo. Talvez por isso sua presença me incomodava mais que o normal.

— Dessa vez vai aceitar uma bebida?

— Tô trabalhando.

— Você quer ajuda? — ele perguntou.

— Fala sério... se alguém encontrar o Barqueiro esfregando o chão junto comigo, vou ser linxado dessa vez.

Ele riu e insistiu mais um pouco, dizendo que era só não dizer o nome dele em voz alta, mas acabei vencendo. Mesmo assim, disse que esperaria até eu terminar e sentou numa mesa. Uma vez que tinha acabado o serviço, o dono já tinha me pago e Adel ainda estava lá.

— Pode beber agora?

— Desculpe, eu tenho algumas coisas pra fazer.

— Irwin, eu não vou tomar muito tempo. Senta aí, por favor.

Ainda relutando, fiz o que me pediu. Tomara que não demorasse mesmo.

Segundo um comentário que fez, as bebidas que havia ali eram todas diferentes de qualquer coisa que ele conhecia, então escolheu uma aleatória.

— Tava te procurando pra avisar da minha decisão.

— Decisão...? — repeti.

— ... Vou atrás dessa Utopia.

— Boa sorte.

— Valeu... hehe — e indicou a garrafa depois de provar. — ... hmm... é das boas, por que não tenta?

Olhei um tanto nervoso para o meu copo e, tentando aparentar naturalidade, levei-o à boca. O resultado foi como temia, tive vontade de cuspir, mas consegui aguentar e não fiz isso. Mesmo assim, não foi o bastante pra enganá-lo.

— Ahahahahaha, então era isso! Nunca tinha provado álcool na vida!

Com os punhos e dentes cerrados, me levantei:

— Muito bem, agora que já me zuou e já desejei boa viagem, vou nessa.

— Calma rapaz, tem mais uma coisa — ele disse, recuperando a seriedade. — Vou perguntar de novo, não quer mesmo vir junto?

— Sabe minha resposta.

— É, eu sei que você não gosta de ter companhia, só que foi você que me mandou uma mensagem pedindo ajuda uma vez. Eu fiquei muito mal naquela vez, comecei a imaginar mil coisas que podiam ter te acontecido sem nem te conhecer, mas não é nada legal ver alguém no fundo desse mesmo poço... por isso vim te perguntar outra vez, porque se por acaso acharmos essa Utopia, também vai ser bom pra você.

Não respondi na hora. Ele parecia sincero no que queria dizer... não queria alguém no fundo desse mesmo poço... sem que eu percebesse, tinha voltado a me sentar, e também sem que percebesse, acho que comecei a falar.

— ... Eu fugia da faculdade quando vim parar aqui... tava pronto pra voltar pra casa e pro marasmo de antes.

“Por que estava contando isso a ele?”

— Por que você fugiu?

Abaixei a cabeça. Não poderia responder. Não estava afim de que risse de mim outra vez.

Ele sorriu:

— Não precisa dizer... eu já sei.

— ... Posso então perguntar uma coisa também?

— À vontade.

— Já que tocou no assunto, por que você estava naquele fórum de depressivos, Adel?

Os olhos dele se alternavam entre mim e a mesa. Parecia ter ficado um pouco confuso. Ele também preferiu não responder. Em vez disso, retirou algo do bolso, um tipo de brasão prateado preso num cordão.

— Fica com você — murmurou, passando-o pra mim. — Serve pra dar sorte, eu acho.

— O que é isso?

— Era do meu pai — respondeu antes de tomar um grande gole. — ... ele morreu.

—Tá louco?! Não posso ficar com isso...

Mas ele não aceitou a devolução.

—Veja isso então como um pedido meu... pra que fique com a pessoa que queria minha ajuda pra não fazer algo errado. Não vou sentir falta... o que isso podia fazer por mim, já fez.

Acho que começava a entender... Adel temia que eu fizesse algo contra mim mesmo, como ameacei naquela mensagem. Queria ter certeza de que eu seguiria adiante, nem que fosse me apegando a um objeto com a sua ausência.

Olhei em seus olhos por um momento. Então, basicamente, ele estava nessa por ter perdido alguém... um motivo bastante digno. Era tudo que eu poderia concluir.

—Tudo bem então... obrigado.

Adel se contentou e, depois, ele próprio levantou e foi embora. Nos desejamos tudo de bom uma última vez, embora o meu “Boa sorte” tenha demorado a sair agora.

Aquela noite não foi tranquila. Queria procurar um lugar pra dormir, mas estava sem um pingo de sono. Minha cabeça não parava de martelar um monte de coisas e me deixar confuso... coisas referente aos meus últimos dias. Toda vez que tentava fechar os olhos sentia esse desconforto e agonia gigantescos.

Pensava nisso enquanto olhava pela milésima vez para o presente de Adel.

—... Mas que maldição...

A pequena multidão observava a tudo outra vez, agora bem distante da praia, impedida pelos guardas. Muitos gritavam e agitavam os braços, acenando para o cara que retirava uma embarcação da areia, pronto para partir.

Ele estava cada vez mais próximo de mim. A cada passo... mais e mais. Parecia que já estava quase alcançando quando dois guardas me barraram e me forçavam a parar. Contudo, foram eles que pararam ao ouvirem a voz de mais alguém, o que me permitiu continuar.

Já se movia quando subi, tomando cuidado para não tocar na água. Isso fez com que o Barqueiro virasse para trás e me visse, mas não demonstrava estar surpreso.

—Parece que sou até bom em manipular...

—Cala a boca. Entrei nesse maldito barco por vontade própria —e soltei um longo suspiro, sentando num canto. —... sim, por vontade própria!

Comecei a rir e ele me acompanhou, desviando o olhar para a garota que nos observava do cais, cercada por vários daqueles guardas. A mesma que tinha gritado para que me deixassem passar.

Aquele foi o momento em que a busca pela Utopia começou de verdade.

Notas finais
Muito obrigado a quem acompanhou!
Quem quiser acompanhar a continuação da história:
http://www.fanfiction.com.br/historia/172136/O_Barco_II_As_Ilusoes_de_Morpheia
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!