O Barco

22 Decisão


Notas iniciais
Ponto de vista: Adel

Estava perplexo. Ou mais que isso... não sei como foi minha reação. Acho que fiquei paralisado... anestesiado por dentro por um momento. Ela, aquela pessoa que estava nos acompanhando era mesmo...

Tentei olhar para Irwin, só para encontrar a sua cadeira, de frente para a minha, vazia. Cara... como ele fazia essas coisas?

Ela me tirou da minha distração temporária:

— Deve estar surpreso.

Sim, a voz também era de Lucy. Ao vivo, era um pouco diferente que por telefone ou conversa online, mas ainda assim, era a dela. A prova de que não era outra ilusão insolente?

— Demais... queria que eu não ficasse? — por fim consegui falar.

Ela fechou os olhos e abaixou levemente a cabeça.

— Não. Na verdade, também não esperava que nos conhecêssemos somente aqui. As coisas fugiram do meu controle e você foi chamado com antecedência.

— Do que está falando? — perguntei, só então lembrando que ela também era a pessoa que acreditávamos que tiraria todas as nossas dúvidas.

Ela deixou a sala caminhando sem pressa, e eu a seguia mecanicamente. Enquanto subíamos uma longa escadaria em espiral, ela continuava falando:

— Toda Lucidia só fala em seu nome ultimamente. Imagino que esteja odiando isso.

— Mas o que é esse lugar, afinal?

— Você já sabe. É um mundo de exilados — e virou para mim. — O mundo de quem perdeu a vontade, o estímulo... ou o direito de ficar no outro.

— Como você criou um lugar assim?

— Este mundo não é minha criação. Nasci aqui, mas posso transitar com liberdade entre este mundo e o outro, por isso alguns idolatram a mim e a minha linhagem a ponto de me nomearem "imperatriz" e batizarem o mundo com meu nome.

Isso me lembrava que ela sempre evitava falar muito da família. Percebia isso quando falávamos sobre o assunto, provavelmente depois de mais algum desentendimento com meu irmão.

Havíamos chegado a uma das torres mais altas, com uma larga janela que teria uma vista impressionante, se a neblina abaixo não existisse. Parando na frente dela, Lucy suspirou.

— Você precisou percorrer as águas inconstantes dessas ilhas cobertas por névoa pra chegar até aqui — e olhou para mim de novo. — Não parece estar bem... desculpe-me por causar tantos problemas.

À medida que minha apreensão ia se acalmando, percebia outra coisa. Sabia que era, sem a menor dúvida, a minha amiga, mas aquela imperatriz de olhos castanhos melancólicos parecia tão diferente da garota radiante que todo dia insistia em perturbar meus olhos jogando raios de luz em mim.

— Não fique assim — falei, tentando me aproximar mais. — Cheguei aqui até que sem muitos problemas... aquele barco maldito parece confiável.

Ela sorriu, o que me aliviou. Estava demorando para voltar a parecer a garota de sempre, e eu não estava gostando disso:

— Quando vai entender que suas mentiras não funcionam em mim?

— Hehe...

Eu com certeza tinha muito pra falar naquele momento. Quantas vezes não me vi imaginando quando iria enfim conhecê-la, e agora estava bem ao meu lado. Ainda assim, fiz um último esforço pra manter a racionalidade e priorizei o que tinha ido fazer ali:

— Então... foi você que me escolheu pra procurar por aquele lugar especial...

— Não — disse, negando com a cabeça. — Eu sabia que seria o próximo Barqueiro, mas não te escolhi.

— Quem, então?

— Desconheço boa parte dos acontecimentos deste mundo... não posso responder sua pergunta.

— Mas também vai me pedir pra buscar essa Utopia — deduzi.

— Não duvide. Ela existe... mas adianto que também não sei onde exatamente. Lucidia é dividida em três grandes províncias além deste arquipélago: Morphia, Phobia e Phantasia. A Utopia está em algum lugar entre elas.

— Hum... e o Irwin?

Ela juntou as sobrancelhas como se se sentisse confusa:

— Nunca houve relatos sobre dois Barqueiros simultâneos... a única explicação que vejo é que chegou a hora dele trocar de mundos e ele, por coincidência, foi transferido para cá no mesmo instante que o Barqueiro foi chamado... apenas isso.

— Mas também o esteve "sondando"? — desenhei aspas quando falei.

Ela se enfureceu:

— Não fale assim! É como se dissesse que só me aproximei de você por isso — e olhou para o chão de novo. — ... talvez no início, mas não pode dizer, hoje, que isso é uma verdade.

Demorei para perceber como minha pergunta tinha sido idiota.

— L-lucy, eu...

— Adel, no fundo, foi isso que fiz — ela reergueu a cabeça, me olhou com seus olhos claros, cobertos de lágrimas, e levou a mão direita ao meu rosto. — Estava presa numa situação em que não sabia o que fazer nem a quem pedir socorro — ela se aproximou lentamente.

Nossos lábios se encontraram.

A iniciativa partiu de mim, mas mesmo assim fui pego de surpresa; o calor do corpo dela causou em mim uma sensação de êxtase puro. Por um momento, pensei no que estava fazendo; Lucy era minha melhor amiga, eu deveria mexer naquela amizade? Conhecia casos de outros amigos que haviam se distanciado por causa desse sentimento maldito; mas eu não conseguia parar, estava gostando. Naquela hora, me senti disposto a jogar tudo para o ar; desistir da jornada, do barco e até dos dois mundos, mas o rápido impulso, logo acabou.

Nós nos separamos. Eu ainda estava surpreso.

— Lucy... — tentei falar, mas ela foi mais rápida.

— Essas pessoas vivem cada segundo num desespero horrível — pude perceber que as lágrimas que ela tanto lutara para reprimir, haviam vencido. — Muitas das minhas tentativas de fazer você melhorar foram feitas pensando só no bem dos que estavam do lado de cá, me pressionando em busca duma solução... mas com o passar do tempo, coisas novas surgiram e isso mudava a forma como te via... não posso dizer que me arrependo.

Não sei se também era típico de Lucidia ou se foi algo mais, mas é como se eu pudesse sentir, dentro de mim, tudo aquilo que ela havia passado em vários anos. Eu não podia culpá-la... ainda que por um minuto não tivesse sido sincera no que me dizia...

— Tomei a decisão — murmurei. — ... eu só preciso fazer uma coisa antes. Uma coisa que tá me incomodando.

Calmamente, e um pouco contra a minha vontade, me desvencilhei daquele abraço e me afastei, me sentindo grato pela primeira vez por ter sido enviado para aquele mundo.

Notas finais
O próximo capítulo encerra a primeira parte da história.
Obrigado a quem acompanha!!