O Barco

5 Contato


Notas iniciais
Ponto de vista: Adel

Que lugar é esse?

Foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça antes de me dar conta de que estava novamente dentro dum daqueles sonhos estranhos. Percebi isso quanto voltei a sentir aquele vento quase gélido contra o meu rosto. Aliás, agora não só sentia, como também podia ouvi-lo. Um vento sibilante um tanto perturbador que esvoaçava meus cabelos e roupas.

O local era o mesmo. A mesma praia sem cor coberta por neblina da outra vez; um oceano frio, quase estático, e... um barulho. Sim, agora havia um novo barulho. Algo como um leve som de água vindo do próprio mar, bem onde... bem onde volto a ver o vulto de antes. Um contorno diluído no meio das águas... o que era, afinal?

Cansado dessa palhaçada, corri na sua direção pra descobrir de uma vez por todas, mas minha tentativa não durou muito:

— Ah!... Que droga é essa?!!

Voltei pra areia quase num salto. A água... doía. Não estava entendendo mais nada, mas o fato é que alguma coisa sinistra percorreu todo o meu corpo num milésimo de segundo. E não era uma dor qualquer... era aquela dor sem nome... a dor de dois anos atrás...

— Que diabos...

Não sei por quanto tempo aquilo continuou. Nem sabia também como era possível sentir dor ou frio sendo que nada daquilo era real. Será que era isso que chamavam de sonho lúcido? Não sabia, nem fazia questão de saber. Se antes não simpatizava com esse sonho, agora sim ele tinha conquistado pra valer o meu ódio. Cheguei até a me beliscar, dar bofetadas no meu próprio rosto, enfim, qualquer besteira que pudesse me tirar dali, mas nada dava certo. Olhei para o outro lado da praia, onde havia o que parecia um tipo de bosque negro. Não tinha nada de interessante ali, mas tive a impressão de ver um arbusto se mexendo, e não estava mais ventando. Ainda me sentindo um pouco dormente, caminhei naquela direção pra ver o que era, no entanto, acho que as bofetadas tiveram efeito retardado.

Pela primeira vez em muito tempo me senti grato por ter aberto os olhos, na manhã seguinte. Ao menos era final de semana e não tinha aula. Ainda estava meio sonolento e quando olhei pro despertador, vi que ainda era muito cedo, mas assim mesmo fui lavar o rosto e logo depois ligar o pc. Só a ideia de voltar àquela praia maldita me desanimava a voltar pra cama. Por outro lado, nem sabia o que ia fazer no computador. Nenhuma das poucas pessoas com quem conversava devia estar online numa hora dessas, e não tinha a menor vontade de assistir a um filme ou algo do tipo. Já ia desligar a máquina e procurar qualquer outra coisa pra fazer, quando...

— Humm? Isso aqui é...

Havia uma nova mensagem para mim. Era dum cara que já tinha me mandado uma antes, no dia anterior. Pelo que entendi, alguém que viu minhas postagens em algumas comunidades e veio me pedir ajuda pra... se matar. Como nunca tinham me perguntado isso antes assim, sem mais nem menos, mandei outra mensagem tentando explicar que não poderia ajudá-lo nisso. Não esperava que me respondesse de volta, e fiquei mais confuso ainda sobre o que dizer agora, mas procurei ser franco:

Pow cara... é Irwin o seu nome, certo?... Eu sei como é isso, problemas com família... Não sei se entendi, mas você ama sua mãe, não é?! Ela ainda pode ser um motivo para você ficar, porque no meu caso, cara, eu não sinto nem amor por eles... pela minha mãe talvez, mas não me importo com mais nenhum... Eu tô aqui ainda porque uma pessoa que eu gosto muito me pediu, não é por ninguém da família. Eu perdi todo o amor que um dia tive... Eu vi tudo que era valioso para mim morrer, perder o valor... Em mim também a tristeza e a solidão são coisas que estão sempre presentes... Não tenho mais pelo que lutar... Eu vivo como um ser esperando pelo nada... Mas sempre tem solução... Basta procurar... É difícil encontrar, mas esse é mais um motivo para você continuar. Não ligue pra vida, ela é realmente inútil, mas em vez de procurar métodos para morrer, procure motivos para viver.... Você vai ganhar muito mais...Eu estou tentando fazer isso, apesar de que só sinto dor e mais dor...A tristeza e a solidão são coisas que estão sempre presentes, e meu pensamento é sempre o mesmo todos os dias, mas tento ser forte e continuar, mesmo sabendo que isso não vai levar a lugar algum! É como disse, eu não vou dar métodos para suicidar, mas pense bem antes de agir! Cara, você tem certeza de que quer fazer isso?!?!?!?!

Enviei.

Não devia ter feito uma pergunta no final, porque minha intenção era encerrar a conversa ali mesmo. Primeiro porque não me considerava mesmo capaz de dar um conselho que fosse útil a alguém, e, segundo, porque esse tipo de contato virtual nunca me interessou muito. Claro que houve uma exceção, uma amiga que conheci há pouco tempo, mas no geral essas pessoas que aparecem pela Internet acabam se transformando em meros números. Perco contato com eles e, tempos depois, nem me lembro mais de quem eram ou o que queriam.

A questão era que eu não aprovava o suicídio. Deveria, mas não. Contraditório, quem sabe... porém é o que acontece.

Tudo que podia fazer era torcer pra que aquele cara conseguisse pensar duma forma parecida.