O Barco
14 Aproximação
Notas iniciais
O lugar não tinha nenhuma diferença com o anterior, os mesmos casebres baixos de madeira e pessoas levando uma vida um tanto pacata. Não que eu me importasse, mas era no mínimo interessante tentar entender o ambiente desse tal Arquipélago do Nevoeiro.
Parece que Adel nem percebeu quando me desviei do caminho, o que não deixava de ser bom pra mim. Ao menos assim ele não teria tempo de me seguir. Não conseguia entender aquele cara... ao mesmo tempo que dizia se sentir apreensivo com toda essa responsa de Barqueiro, ficava falando comigo com aquele sorrisinho de deboche por eu ter de ir junto como se fosse um passeio divertido. Ele teria mesmo o... vamos dizer, perfil de alguém que mereça ter ido pra Lucidia?
Bom, tendo ou não, ele era alguém cujo nome custaria a sair da moda ultimamente. Me certifiquei disso quando, enquanto procurava um lugar mais sossegado, sem muita gente por perto, me deixei levar por uma conversa que ouvi de algumas pessoas pela estreita rua:
— É o que dizem... o Barqueiro Adel já está nos arredores...
— Disseram que ele acabou de passar pela ilha do oeste...
— ... vocês ouviram o boato de que havia mais alguém no barco além dele?...
Parecia o tipo de conversa que eu poderia escutar sempre que quisesse, em qualquer lugar, então simplesmente continuei pelo meu caminho, mas inesperadamente me contive ao ouvir algo mais:
— Será que ele vem pra cá?...
— Duvido... deve ter ido pro castelo pra saber onde fica a Utopia...
— Tem razão...
Castelo?...
Valendo-me da minha pequena capacidade de me socializar por conveniência, dei meia-volta e me dirigi àquelas pessoas:
— Com licença... sou novo por aqui e todos só falam no Barqueiro da tal lenda, mas que castelo é esse que ouvi alguns comentarem?
Uma mulher franziu os olhos e riu:
— Só mesmo os novatos pra não saberem da Imperatriz...
— Imperatriz? — repeti, intrigado.
— A Imperatriz Lucidia é a grande governante desse mundo — explicou outra mulher. — Dessa forma, se existe alguém que tenha conhecimento da Utopia, só pode ser ela e ninguém mais.
— Hmm... interessante... e onde fica o castelo dela?
— No continente próximo a este arquipélago — disse um homem. — O castelo imperial fica logo na costa.
"Imperatriz, hã?..."
Se contasse isso a Adel, talvez ele concordasse em procurá-la no continente, e eu poderia chegar lá mais rápido sem ter que obrigá-lo... a ideia parecia boa.
Agradeci pela informação e fiz o caminho de volta, dessa vez torcendo pra encontrar depressa o Barqueiro. A aldeia era tão minúscula quanto a anterior, então isso devia ser fácil, especialmente se ele estivesse cercado de fãs de novo.
E realmente, não custei a achá-lo. Adel deixava o vilarejo no sentido da praia, retornando para onde tínhamos deixado o barco. Mas havia algo errado, eu percebi. Ele não conseguia andar em linha reta e às vezes até parava de caminhar. No começo, pensei que estivesse ferido, mas não foi o que constatei quando o alcancei, e por pouco o impedi de cair no chão:
— Irwin! — ele bradou com uma voz entorpecida. — Você também não quer me deixar cair, é?... Talvez eu devesse dizer Valeu... hahahahahaha!
— Mal saiu da maresia e já foi beber? Queria ter seu estômago...
Eu ajudava como podia toda vez que percebia que ele estava prestes a cair outra vez. Num determinado momento, porém, ele simplesmente parou de se mover, com a cabeça baixa, como se tivesse desligado todos os sentidos.
— Cara, vai ficar aí parado? — e o toquei de leve. — Adel...
Mas não me respondia. E isso também não tinha importância. Cuidar de bêbado tava bem longe de ser a minha especialidade, e isso nem era problema meu. Eu já tava pronto pra deixá-lo ali mesmo e seguir de volta sozinho.
— Então fica aí...
— ... eu disse a ele... — ouvi sua voz murmurando.
— Hã?
Quando me virei, Adel me encarava com a cabeça levantada e olhos bastante avermelhados. Aquilo seria apenas efeito efeito do álcool?
— Eu disse a ele, Irwin! — gritava pra mim. — Eu disse ao garoto pra ele acreditar no pai dele e no Barqueiro!... eu enchi ele de esperança, e pra quê?! Eu não acredito mas disse pra ele acreditar... acreditar no maldito Barqueiro que não acredita em si próprio!...
Agora ele também batia em mim, ou me puxava, mas sempre sem empregar muita força, mas eu não fazia a menor ideia do que ele estava falando, e ele continuou em voz alta:
— O que eu vou fazer, cara?! ME DIZ! O que vou fazer quando voltar sem ter encontrado a Utopia do menino, de Sage, Flint e todo mundo que também acredita nisso?! O que eu vou dizer pra eles?!!
A crise que o invadiu ainda duraria um bom tempo. Isso me pegou um pouco de surpresa. Então, ele também não acreditava desde o início... é, eu devia ter imaginado que ele pensava do mesmo jeito que eu...
Vê-lo assim me incomodou. E sinceramente, não gostei nada disso... eu não deveria deixar isso me afetar... não, não posso correr esse risco de me importar com a sua situação... era o que tinha prometido pra mim mesmo... não deixaria mais que os outros invadissem meus pensamentos...
Sei que me odiaria depois por isso, mas, naquela hora, acho que passei o braço em volta do seu ombro, e não foi só pra ajudá-lo a andar.
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