O Barco
6 A Cor da Solidão
Notas iniciais
O cenário que tenho antecipado na minha mente nos últimos oito meses finalmente tinha se concretizado; estava no quarto daquele pensionato, arrumando minha bagagem para uma partida definitiva. Uma fuga, na verdade. Em parte, podia dizer que tinha a consciência tranquila. Comprovei que minha mente não tinha mais condições de continuar ali, visto que meu desempenho nas diversas disciplinas do curso têm caído quase em progressão geométrica. Fazer o que... o que eu tinha decidido mesmo era me matar, mas não consegui encontrar uma forma adequada. Pensei que aquele sujeito, Adel, eu acho... com o perfil que aparentava ter talvez tivesse boas ideias, mas ele também era mais um anti-suicídio apesar de não ter uma vida muito tranquila, como me disse.
— Que seja — bufei, socando umas últimas peças de roupa na mochila. — Pelo menos cair fora dessa faculdade do inferno é coisa que posso decidir sozinho.
— Então, você vai voltar mesmo...
Olhei para a porta pra ver quem tinha falado e encontrei a dona do lugar, com um ar cabisbaixo denunciado por um minúsculo suspiro. Ela sabia da minha situação. Sabia, porque ouviu todo o meu histórico da boca da minha própria mãe, em fevereiro passado, quando cheguei ali. Desde então, sempre se dirigia a mim num tom especial e dedicando-me uma atenção digna de alguém que precisasse de muitos cuidados. Não era algo que eu apreciava, mas talvez fosse uma mentira se eu dissesse que não gostava daquela senhora.
— Lamento por não ter podido fazer algo por você — ela continuou. — Digo, para que pudesse ficar mais.
— A senhora fez muito — falei sem interromper o que fazia. — O que acontece é que eu não posso mais ser ajudado, simplesmente.
— Não fale assim... se Deus quiser, tudo vai ficar bem. Sua vida vai melhorar, e você vai poder voltar e terminar a faculdade.
— É, talvez...
Ela pediu para me dar um abraço de despedida, o que eu, um tanto constrangido (sempre ficava assim nessas circunstâncias), permiti. Menos de uma hora depois, já estava sentado na rodoviária com a passagem do ônibus em minhas mãos. Não me despedi nem mesmo daquele meu colega do curso. Faria isso depois, porque queria evitar uma possível discussão ao vivo.
Falando em discussão, fatalmente teria que me preparar pra uma assim que chegasse em casa. Com certeza ficarão com vontade de me atirar dum prédio quando se derem conta de que toda a grana gasta na minha estadia ali tinha ido pro ralo. Mas nada que me pegará de surpresa, pelo menos...
O ônibus chegou à plataforma também mais rápido que o esperado. Aguardei algum tempo na curta fila entre os demais passageiros enquanto nossas passagens eram examinadas, e então entrei. Tinha escolhido um dos últimos lugares pra não ser importunado por ninguém, no entanto, no meio do caminho até lá, senti minha vista ficando turva. Tive que me apoiar numa das poltronas para não cair, e cheguei a ouvir alguém perguntando se estava me sentindo mal.
— Não... está tudo bem — respondi, voltando a erguer a cabeça. — ... mas o que...
O que estava acontecendo? O interior do ônibus... ou melhor, tudo ao meu redor estava diferente! De onde saiu aquela praia? Espera... seria mesmo uma praia?
Bem, foi a primeira coisa que me veio à mente, mas jamais tinha visto coisa parecida. A areia, o mar, o céu... era como se nada daquilo tivesse vida. As próprias águas não tinham movimento algum. Por um instante, cheguei a pensar que estava diante dum oceano congelado.
— Cor de cinza... solidão — balbuciei, desviando o olhar agora para o outro lado, onde havia vegetação. — Mas o que significa tudo isso? Será um sonho acordado?
Se meu estado de espírito não estivesse tão carente de energia, talvez tivesse me desesperado e corrido de um lado para o outro à procura duma explicação, mas a verdade era que só estava um tanto curioso e nada mais. Sendo assim, depois de autistar por vai lá se saber quanto tempo, minhas pernas enfim se moveram pela praia. Nem sabia ao certo o que estava procurando, mas antes mesmo de avançar três passos, um som vindo por trás de mim me conteve.
Voltei a encarar o mar. Uma camada de neblina me impedia de enxergar direito, mas acho que vi alguma coisa. Algo estava se movendo pela superfície da água e parecia vir lentamente na minha direção. A princípio, pensei que fosse algum animal. Por instinto, recuei alguns passos, e foi quando um novo ruído, dessa vez vindo do bosque, se fez ouvir.
Virei o rosto na mesma hora, ainda em tempo de ver um vulto se afastando às pressas. Pelo que puder ver, tinha forma humana, e pelo tamanho devia ser uma criança. Em situações normais, prefiro os animais, mas naquele sonho(?) bizarro, achei mais sensato abandonar a coisa na água e seguir para o bosque. Devo ter andado por alguns bons minutos e nada. Não me sentia cansado, mas estava farto. Era como se andasse em círculos.
E, pensando bem, por que me importaria em saber onde estava? Não havia nada de bom esperando por mim no lugar para onde estava indo... minha casa. Em algum momento o sonho teria que terminar, então apenas sentei recostado numa árvore qualquer e me pus a esperar.
E foi aí que aconteceu. Mais arbustos à frente começaram a se agitar, e de lá surgiu o mesmo vulto de antes. Era realmente uma garotinha. Pensei que fugiria outra vez, mas agora se aproximava, com algum receio de mim. O interessante era que seus olhinhos me encaravam com algo que não consegui definir se era medo ou surpresa. Os dois, quem sabe. E não estava sozinha. Em questão de segundos, sem que me desse conta, mais pessoas surgiram, todos me olhando da mesma forma. Não é uma boa ideia fazer isso com um sociofóbico... pra evitar que a coisa desandasse, tentei manter o controle e perguntar o óbvio:
— ... Posso ajudá-los?...
Antes de responder, a pequenina que vi antes chegou mais perto de mim do que eu gostaria, o que quase me fez levantar de súbito.
— Mais um — ela disse. — ... Você também vai subir no barco?
Fale com o autor