O Barco
16 Águas Passadas
Notas iniciais
Era uma sensação profunda, e muito diferente da sensação de estar afogando que pensei que teria ao ser derrubado nas águas furiosas, pego de surpresa por uma onda que viera por trás de mim. Senti meu rosto se agitar.
Adel!... ele também teria caído?... Não!... Por que diabos estou pensando isso numa hora dessas?! Deveria me preocupar com a minha própria situação, já que mal sabia nadar.
Era o fim... certamente era ali que encontraria de vez um encerramento pra minha pouco significativa vida. Pelo menos, era bem diferente das outras formas de suicídio que vivia analisando.
Mas... tinha algo errado. Onde estava a sensação desagradável de desespero ou agonia que deveria existir no limiar entre os dois estados? Minha mente estaria tão sedenta de morte que tinha pulado essa etapa? Eu poderia até comemorar então, mas não era o que estava acontecendo de fato.
Eu podia respirar. Sim, podia respirar mesmo sob a água. Essa água... não era normal. Voltando à sensação que comentei antes, era como se uma dor se apossasse do meu corpo lentamente, deixando-me dormente, mas não era bem uma dor física. Era a dor com que já tinha me familiarizado. A dor do esquecimento, da tristeza, da ira...era como se me revivesse os piores momentos que já tinha passado na vida. De repente, a ideia de agonizar num afogamento normal me parecia bem mais agradável...
Devo ter perdido os sentidos uns cinco ou dez minutos depois, à medida que a "dor" se tornava maior. Não fazia ideia do que estaria esperando por mim quando voltasse a abrir os olhos, se é que isso aconteceria... e aconteceu.
Eu abri os olhos e me vi encostado numa árvore dum bosque em frente a uma praia cinzenta, que não era diferente em nada da primeira que conheci em Lucidia. Minhas roupas ainda estavam molhadas, e não conseguia me levantar. Meu corpo me respondia, mas com muita dificuldade. Ouvi sons e, com esforço, virei o pescoço para o lado e vi que havia mais alguém também recostado em outra árvore, a uns dois metros de mim. Adel. Igualmente ensopado.
— Você está bem?... — eu perguntei a ele, pois achei estranho o fato de que respirava pesadamente, e sua expressão estava ainda pior do que quando tinha bebido além da conta.
— Bem??? Nunca estive... uashausaushh — mesmo nessa situação, não parava com suas piadinhas estúpidas. — Só tô um pouco dolorido. Essa água é... diferente... e faz tempo desde a última vez que tive que nadar com essa força... aliás, nem é bom lembrar, heh.
— Então, as ondas te derrubaram tamb... ah!
Bastou ver o esquisito sorriso de satisfação que ele tinha mesmo naquele estado, para descobrir o que realmente havia acontecido.
— E-Essa ilha... foi você?! — exclamei.
— Golpe de sorte, você pode dizer... primeiro, conseguir te encontrar naquela vastidão... e depois ter conseguido achar um pouco de terra pra gente...
Começou a gemer depois disso. O efeito do mar com certeza foi ainda pior em Adel, que ainda teve que levar consigo mais alguém... não, isso não estava acontecendo. Eu não entendia aquela pessoa.
— Você pulou do barco pra me tentar me resgatar?! Enlouqueceu?!
— Você me deu uma ajuda ontem, e era mais que minha obrigação pagar o que te devia... afinal, não somos amigos.
O novo sorriso dele não era tão expressivo quanto o anterior. Ele não dava muitos sinais de melhora, mas eu, pouco a pouco, sentia que recuperava os movimentos. Muitas coisas vagavam pela minha cabeça de uma vez. Olhei para o céu, encostando a cabeça no tronco da árvore. Acho que ele merecia uma explicaçãozinha um pouco mais satisfatória
— Até hoje... amigos me fizeram mais mal do que bem, Adel... especialmente um, o último que tive. Talvez seja diferente com você, mas seria muito arriscado pra mim permitir que mais alguém se aproxime muito.
— Não fique com raiva de novo, mas é como eu já disse, eu te entendo. E entendo porque eu costumava dizer e pensar as mesmas coisas. Posso dizer que, hoje, tenho um amigo... ou melhor, dois. Sabe... talvez seja por eles que eu ainda esteja "aqui"... acho que você entendeu o que eu quis dizer, hehe. Um deles me fez mudar aos poucos minha forma de pensar, mas ele teve muito trabalho. Eu tava com ele antes de ser jogado nesse mundo.
— ... E o outro?
Não sei por que fiz a pergunta, já que não gostava desse tipo de assunto, mas ela simplesmente saiu.
— "A outra" — ele corrigiu. — ... a Lucy... acho que falei qualquer coisa dela pra você num email... foi quem me sugeriu responder as mensagens que você mandava... ela é sem dúvida muito importante pra mim...
Seu olhar ficou distante nesse último trecho. Um ruído qualquer vindo do bosque deve tê-lo tirado do quase transe, e rapidamente fez questão de retornar à nossa situação:
— Cara, temos que fazer alguma coisa... arghh... droga, ainda não consigo me mexer direito...
Como eu era o menos prejudicado pelo efeito das águas, ao que parecia, e já estava perturbado o suficiente com tudo aquilo, reuni as forças que ainda tinha e me levantei, fazendo o possível para ignorar qualquer dor que ainda persistisse, e fui ajudá-lo a fazer o mesmo.
— Valeu por me levantar de novo... — ele soltou um riso sofrido.
— Cale-se.
— Hehe... só queria saber o que vamos fazer pra cair fora daqui... e cuidado com o meu braço que isso ainda dói!...
— Já tentou olhar pra praia?
— Hmm?... Mas o que...?...
Adel se surpreendeu um pouco ao ver o barco quase encalhado junto à areia. Eu já o tinha visto há algum tempo, mas a conversa me desviou a atenção disso.
— ...Coincidência? — ele indagou.
— Sem chance. Acho que esse barco fica stalkeando o Barqueiro. Melhor pra nós...
Sendo assim, nos guiei em sua direção, atravessando parte da praia. Antes, porém, eu o fiz parar e falei olhando nos seus olhos, o que raramente tinha por hábito fazer:
— Você é um imbecil. Nunca mais faça isso por minha causa... se você morresse, seus amigos sofreriam muito... Você não parou pra considerar isso.
Dei-lhe as costas e subi logo no barco, para não prolongar aquilo mais que o necessário. Mas, mais uma vez, tive a irritante sensação de que o veria sorrindo se me virasse.
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