Não lembrava o por que, mas nada daquilo fazia sentido, sua vida estava vazia, não sentia mais nada, nada fazia ele feliz novamente, e mesmo que tentasse tudo dava errado, sua vida parecia fadada ao fracasso. E assim, com seu corpo arrastado com apariencia medonha e os olhos com um brilho apagado entrou no único lugar onde alguém como ele poderia ir: o bar da cidade. Não era um bar divertido onde poderia conheçer uma porrada de gente e se divertir e beber até cair no chão e se levantar no dia seguinte com dor de cabeça mas com histórias que algum dia poderiam lhe arrancar boas risadas, não, era um bar calmo, não triste, mas nada de diferente ocorria naquele lugar, era um local que, segundo ele, seria para sentar-se e afogar suas mágoas enquanto o dinheiro lhe restasse e logo depois voltar para casa e deitar na cama, onde não dormiria por várias horas até finalmente cair no sono.
Sentou-se na bancada, as mesas eram muito grandes e lhe davam maior sensação de solidão, por isso escolheu se sentar em frente ao único que lhe dirigiria uma palavra, o barman.

-Posso ajudá-lo senhor?

-Sim, um whisky por favor.

-De qual tipo?

-Daquele que meu dinheiro alcançar.

-Tome, este é por conta da casa

"Até que enfim um pouco de sorte, pelo menos um drink de graça, hehe, a sorte me sorri hoje... Aahh, se pelo menos fosse assim com o resto das coisas da minha vida."

-Se incomoda se eu me sentar ao seu lado?- perguntou um homem de apariencia simploria, tão simples que ao olho de uma pessoa qualquer ele passaria despercebido, e assim esse homem comum atravessou o salão inteiro sem despertar a atenção do único cliente no bar.

"Por que um estranho se sentaria ao meu lado? Isso não fazia o menor sentido, quem no mundo viria conversar comigo, que, nesse estado, já não tinha mais ninguém que se importasse comigo. " — Claro, sente-se, o bar é de todos...

O homem sentou-se no banco ao lado e pediu um drink qualquer, sorriu e disse em tom amavel — A vida é bela não é mesmo? — Com um sorriso no rosto aquele homem simplorio deu um grande gole de sua bebida e fez uma pausa, soltou um suspiro satisfatório e começou a cantarolar baixinho enquanto observava o fundo do copo através do líquido alcoolico. -Qual é seu nome companheiro?- perguntou sem desviar o olhar do objeto em suas mãos.

-Meu nome é Walter, e o senhor?

-Ah, eu já tive um nome, mas ele não é muito importante no momento imagino.

"Que sujeito mais estranho, realmente não suporto este tipo de pessoas, que se fazem de misteriosas e levam a vida como se fosse durar para sempre..."

Antes que Walter pudesse fazer outra pergunta uma figura alta e esquiva surgiu atrás deles, desta vez não tão amavel, encostou no hombro do outro homem e disse em tom seco — Vamos, já passou da hora — O homem sentado na barra despediu-se brevemente e saiu acompanhado da outra figura mais estranha ainda.

-É curioso sabe... — disse o barman enquanto lustrava a tabua da barra já gasta por tantos anos de uso — Observar essas pessoas que passam todos os dias por este bar.

-O que há de tão curioso nisso? — perguntou Walter intrigado com o modo como o barman falava das duas figuras tão simples e estranhas.

- Oh, o senhor então não sabe... Me desculpe, achei que o senhor soubesse

- Soubesse o que?

- Este não é apenas um bar comum, algumas almas passam por aqui para tomar seu ultimo gole de vida, todas elas pagam por um drink, bebem metade e vão embora... pena que nunca deixam gorjeta.

Ao observar o copo, assim como o senhor havia falado, Walter percebeu que ainda estava pela metade.

- Aliás, pensei que o senhor fosse uma dessas almas — disse o barman com um sorriso meio irônico.

- Não! Não estou nem perto de morrer! Ainda pretendo viver mais algum tempo.

- Ah, ótimo, ótimo...

- Mas então quer dizer que a outra figura era a morte vindo buscar a alma? — perguntou desconcertado.

- Ele recebe muitos nomes, mas pode se dizer que sim... ele seria a representação da morte para aquele individuo.

- E por que ele foi tão seco e mal educado?

- Isso nem eu posso lhe responder Walter, isso... isso é algo de cada um. Cada pessoa vê a morte como quer, alguns tem medo dela, outros a aceitam. Alguns acham que é algo maligno, outros como um ser que os acompanha ao outro mundo. Já vi ele se manifestar como um animal, e outras vezes já foi uma moça muito bonita. Acredite se quiser, mas uma vez veio em forma de uma planta..... Uma planta... que irônico...

O barman falava com uma naturalidade sobre o assunto como se fosse algo rotineiro, e talvez por isso Walter não se surpreendeu nem achou aquilo tão ridículo. "Há tantas coisas no mundo que não entendemos, por que isso não seria uma delas?" pensou Walter em silencio enquanto terminava sua bebida em um gole só. Talvez fosse o efeito da bebida já no sangue, mas ele decidiu acreditar naquela história.

- Todas as almas passam por aqui?

- Só aquelas que precisam se despedir do mundo. E você? Precisa se despedir do mundo?

- Como eu disse, eu ainda não vou me despedir deste mundo! — Disse com um tom já irritado pela insistência no assunto. — Me dê mais um um copo por favor, mas desta vez pagarei por ela, agradeço o ultimo copo mas eu sou orgulhoso demais para aceitar tanta caridade assim.

- Aqui está, um copo bem caprichado.

- Obrig...- Antes que pudesse terminar a palavra uma mulher entra no bar. Era uma mulher bela, com um vestido preto que resaltava o formato do corpo mas sem ser provocativo, apenas lhe dava um balanço formidável enquanto andava. Cabelos Castanhos ondulados que se juntavam ao vestido para fazer par na dança enquanto ela se dirigia ao banco ao lado de Walter.
Ao chegar na barra a moça, que de perto percebia-se muito mais bela, não pediu nenhuma bebida, apenas sentou-se e começou a conversar sobre assuntos triviais com o barman, como se fossem conhecidos de longa data.

-O..o.oi — Walter se surpreendeu ao gagejar na tentativa de falar.

A bela moça respondeu com um sorriso calido, e então os dois começaram a conversar naturalmente, e passaram assim algumas horas, coversando e rindo. Walter sentiu-se bem por primeira vez em muito tempo. Então a mulher olhou o relógio e como com um susto disse — Oh, perdi a hora, preciso ir urgentemente.

- Não se preocupe, eu lhe acompanho.

E assim os dois sairam do bar, ela contando histórias bobas e ele cantarolando baixinho.
O barman ainda lustrando a tabua da barra recolheu o copo de Walter ainda pela metade e sorriu -Bem que ele podia ter deixado uma gorjeta...

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