O Bando
9 O recomeço (capítulo 9)
Notas iniciais
Pensamento de Helene
Só me lembro de acordar praticamente nua, deitada numa vala na floresta. Mas o que tinha acontecido? Será que eu bebi ou será que estava tendo problemas com sonambulismo novamente? Eu estava muito confusa, tinha tido sonhos estranhos aquela noite, sonhei com lobos que corriam atrás de mim, mas não lembro mais nada além disso.
Espiei as margens da floresta que dava na estradinha perto da minha casa e torci que não tivesse ninguém na rua para me ver naquele estado deplorável, corri e consegui chegar em casa, minha mãe ainda estava dormindo para minha sorte, subi as escadas ainda cambaleando, mas o que estava acontecendo comigo? Depois que ele me deixou eu andava tendo esses pesadelos com monstros e lobos, mas agora a coisa estava ficando pior, nunca mais tinha tido crises de sonambulismo desde que eu tinha 5 anos de idade e agora tudo voltou à tona.
E assim seguiu os outros dias, volta e meia eu acordava na floresta, às vezes ainda de pé como se algo tivesse me guiado até lá e só o que me lembro são dos sonhos que não eram tão claros pra mim, só algum flash vinha na minha mente, algo como se eu estivesse correndo, bem rápido, uma sensação de liberdade com o vento batendo no meu rosto, uma sensação boa, algo que eu não sentia há muito tempo desde que ele me deixou.
Só que a coisa estava ficando preocupante então minha mãe e eu decidimos nos mudar, ir para um lugar longe daquela floresta que tanto me trazia más recordações porque foi perto dela que nos conhecemos e foi lá que eu me perdi nos braços dele, minha mãe queria se mudar mais pela minha segurança, mas eu usei isso como desculpa pra fugir das lembranças que me atormentavam, eu queria recomeçar sem ele! E só longe dali eu conseguiria ter um novo recomeço.
Pensamento do Arthus
Quando acordei eu já estava na vila e já havia se passado uma semana desde aquela terrível noite em que perdi Helene, como posso ter ficado desacordado por tanto tempo? O novo lobo tinha me atingido em cheio e na forma humana eu era frágil. Queria entender como Helene chegou até a floresta? Alguém a tinha atraído e a resposta já estava na minha mente “Juli” eu tinha certeza que foi ela quem trouxe Helene para floresta, ela queria vingança e essa foi a pior forma que ela achou pra se vingar.
Levantei da cama devagar, ainda estava meio tonto, um ferimento enorme no meu pescoço que ainda sangrava, respirei fundo e fui até a sala, todos estavam sentados a espera da minha melhora, e lá estava Juli sentada com a maior cara de santa, como se ela estivesse muito preocupada comigo, ela tirou tudo que mais importava pra mim, nem pestanejei e avancei pra cima dela e peguei-a pelo pescoço
–Arthus: “FOI VOCÊ NÃO FOI? FOI VOCE QUE ATRAIU HELENE PARA FLORESTA”
–Juli: “O QUE VOCÊ TÁ FALANDO?”
–Arthus: “VOCÊ SABIA O QUE EU SENTIA, POR QUE VOCÊ FEZ ISSO?”
–Juli: “Ela era sua presa Arthus, ela tinha que morrer”
–Tereza ( A matriarca do bando): “Solta ela Arthus, o que você pensa que está fazendo? Ela faz parte do bando, ela é nossa família”
–Arthus: “NÃO MÃE! ELA NÃO FAZ MAIS PARTE DO BANDO, ELA TÁ SENDO EXPULSA DELE AGORA, PORQUE SE ELA NÃO SAIR, QUEM VAI SAIR SOU EU!”
–Juli: “Você não tem poder pra me mandar pra fora do bando, é a matriarca quem dá as ordens, até ela morrer, você será submisso a ela, não é matriarca?”
Tereza ficou em silêncio.
–Juli: “Não é Matriarca?”
–Tereza: “não é bem assim Juli, você sabe que o Arthus seria o próximo a sucessão, ele é o alfa e eu não posso tirar esse poder dele, eu comando até ele crescer e aprender a ser o alfa e isso ele já o fez, eu já não tenho mais poder aqui”
–Juli: “Mas a senhora não pode me largar por aí, ainda mais com um lobo novo buscando território, eu não vou sobreviver sozinha, Tereza você me criou desde pequena, é uma mãe pra mim não pode fazer isso comigo”
–Arthus: “CALA A BOCA, VOCÊ TEM QUE FICAR FELIZ POR EU TE DEIXAR SAIR VIVA DAQUI, POR MIM VOCÊ NÃO EXISTIRIA MAIS, EU MESMO IA MATAR VOCÊ”
–Juli: “Tereza? Por favor Tereza..MÃE”
Ela soltou um gemido de dor, daqueles que um cachorro dá quando a gente pisa na pata dele, olhou para o resto do bando esperando alguma manifestação como não teve nenhuma a última coisa que ela falou foi: “Vocês vão se arrepender por isso” e desapareceu pela porta da frente.
Pensamento de Juli
Quando eu saí daquela sala, ódio e tristeza ardiam dentro do meu peito, a minha família, mesmo que não fosse de sangue, mas para mim era uma família tinha me renegado, por um capricho, como eu me senti traída, inútil eu não era nada naquele bando, minha opnião não era importante. Eu fui criada pela matriarca que me achou perdida na mata, quando eu ainda era pequena, uma pequena criança e um lobo na floresta, ela podia ter me devorado mas o sentimento de mãe foi maior e ela me transformou, cuidou de mim e todo aquele sentimento tinha ido pro ralo, aquele amor que eu sentia por ela se tornou ódio, nenhum teria me decepcionado mais naquele bando do que ela, nem o Arthus que eu amava tanto me fez sentir uma dor tão forte, como a matriarca me fez sentir, na minha cabeça só soava um lema “eu vou me vingar, eu vou me vingar”.
Corri para floresta o único lugar que era realmente o meu lar, para o cheiro de terra molhada, para as arvores que eram realmente a minha família, aquele lugar nunca iria me trair. Mas o medo ecoava nos meus ouvidos, a presença de um novo lobo era uma ameaça para mim que não tinha mais o bando pra me proteger eu não poderia ir contra ele, eu morreria em questão de minutos, porém se eu não podia ir contra o perigo eu poderia me juntar a ele, isso seria difícil, mas talvez com uma oferenda eu poderia mostrar submissão e talvez ele me aceitasse ou talvez apenas ele teria pena de mim e não me matasse, me deixasse ir e então eu corri, corri na escuridão da floresta, na esperança de encontrar aqueles olhos vermelhos como sangue, o sangue que eu queria ver derramado, para pagar minha vigança!
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