O Bailarino

18 Um Passado Indistinto - Parte II


Notas iniciais
Oi, gentee ♡ ESTAMOS CHEGANDO PERTO DO FIM OuO aaah vou sentir mta faltaaa, faltam apenas 4 capítulos mais ou menos. E agora, já dá pra entender um pouco qual é o segredo do bailarino? -u- Boa leituraa ♡ ♡ ♡

Quarto de Sofia, casa dos Marlborough – 13:11 hrs

Após o almoço, Anelise seguiu até o quarto da irmã, queria pôr o papo em dia.

Com o seu casamento e a reputação restabelecida, seus pais foram mais do que compreensivos quanto às suas novidades. Ainda que divergissem, todos ali sabiam que nada poderiam fazer. Felizmente, para Anelise, seus desejos estavam em sintonia com os do seu marido e faltava pouco para se sentirem, enfim, livres daquelas obrigações sem sentido.

Contudo, afastar-se completamente dos familiares não era uma tarefa fácil. Apesar dos pesares, muito os considerava, sobretudo sua pequena irmãzinha. A acompanhou até o quarto, fechou a porta e foi se acomodar ao seu lado, na beira da cama, pois sentia que precisava ter uma conversa sincera e distante do olhar julgador dos pais.

— E então, garotona, quando vai ser sua vez, hein? Lorde general Garth ainda não lhe pediu em casamento?

— Ah, irmã, vai catar coquinho!

A morena lhe jogou um travesseiro, o que imediatamente fez as duas gargalharem.

— Então o Thomas já te contou que entrou para o exército?

— Ele vai virar um soldado raso, mas já é um bom começo. Se acontecer alguma guerra nesses anos, ele vai ter que dar tudo de si para se destacar e ter algum prestígio.

Sofia suspirou, parecia cabisbaixa.

— E, também, para sobreviver… o que é ainda pior.

— Pelos céus, Sofia, nunca imaginei que desejasse a morte dele.

— O quê?! Nem pensar, sua bobona! — ela franziu o cenho. — É justamente o contrário! Estou falando que, se ele não sobreviver, será pior! Eu não quero que ele suma… pra sempre…

Anelise sabia das intenções da irmã ao falar sobre o Thomas, provocar era típico na brincadeira das duas, mas a última frase havia lhe chamado atenção. Todavia, sequer precisou instigá-la a prosseguir, ela já pensava em fazê-lo.

Sem olhar para a irmã, apenas admirando vagamente as mãos unidas ao próprio colo, Sofia prosseguiu.

— Acho que foi desde que você sumiu pela primeira vez, quando te achamos na floresta. Thomas muito me distraiu de toda aquela turbulência. Ele ainda é pobre e mal vestido, mas é um cavalheiro.

A ruiva sorriu com muita sutileza, percebeu que alguma coisa estava nascendo ali. De qualquer maneira, não quis antecipar ou se precipitar, deixou que os dois se resolvessem e somente desejou o melhor para sua irmãzinha.

— Bom… e quanto à sua viagem? Vai se mudar mesmo?

A indagação de Sofia lhe trouxe mais uma vez ao mundo real. Anelise balançou positivamente a cabeça.

— É o nosso sonho. Meu e dele. Vamos sair de Londres e viver do jeito que queremos. Sem pressão social, sem amarras, sem certo ou errado. Apenas obedecendo a lei, que já é mais do que suficiente, e preservando a nossa excentricidade — ela a encarou. — O que acha disso?

— Acho que vocês tem que ser felizes — Sofia sorriu. — Irmã, é somente o que eu mais desejo. Mas lembrei de uma coisa que queria te perguntar…

Aquelas palavras fizeram Anelise dar o dobro de atenção, e sua irmã se aproximou sorrateiramente, como se quisesse guardar um segredo. Já perto o bastante, estampou um sorriso travesso no rosto.

— Como ele é? Como tudo isso é? Vocês já… tiveram noites românticas?

— Sofia!

Foi a vez da ruiva lançar-lhe um travesseiro, o que fez a morena gargalhar incansavelmente. Embora estivesse sentindo um incontrolável rubor surgir nas bochechas, com leves formigamentos, não podia ignorar a curiosidade da irmã. Cria ser, até mesmo, o momento ideal para desabafar, pois não era algo que sentia vontade de comentar com seu marido. Era, inclusive, ridículo de se pensar discutir as observações que têm feito durante esses poucos meses, sobre ele, com ele.

— Ah, Sofia — ela tornou a se ajeitar ao seu lado. Desviou o olhar para o chão e passou a brincar com as fitinhas das próprias luvas. — Ele é exatamente o que eu pedi para mim. Excepcional. Porém, é cheio de camadas profundas de mistérios. Coisas que eu ainda não desvendei.

— Como assim?

Disse a morena, arqueando a sobrancelha. Anelise suspirou com calma.

— É como se existissem vários no profundo de sua alma. Tem um que me cortejou no baile. Ousado, invencível, voluptuoso. Tem outro mais reservado, misterioso, brando, paciente — ela discretamente mordeu os lábios. — E tem mais um que eu desconfio ser o seu verdadeiro eu. Ele é… tão inocente. É uma criança. Não vê maldade nas coisas, gosta dos passatempos mais simples. Como se ter uma noite romântica quando esse seu lado desperta? Ele chora como uma criança, aninha-se no cobertor, de medo, e se acalma quando brincamos juntos. Ele é… excepcional.

Sofia custou a comentar alguma coisa, imersa em cada ponto daquela história.

— Uau… eu realmente não esperava. Isso é muito ruim?

— Não. Eu posso dizer que assinei esses papéis conscientemente. Eu já sabia que seria difícil tratá-lo como meu marido, mas não conhecia tão profundamente o motivo. E, quer saber? Eu não me importo. Não ainda, pelo menos. Eu o amo demais. Nós estamos lutando contra isso aos pouquinhos, percebo como ele se esforça para que sejamos felizes juntos e eu não vou deixar com que esse esforço seja em vão.

— Isso é muito bonito, irmã. Vocês foram mesmo feitos um pro outro — Sofia sorriu, mas o silêncio que Anelise permitiu aparecer ao deixar de respondê-la fez surgir, em seus pensamentos, uma questão incompleta que também dizia respeito a ela. — Irmã… e quanto aos seus sonhos desconexos?

Anelise tentou disfarçar uma expressão apreensiva. Não sabia se deveria contar, mas escolheu omitir. Se para si própria foi difícil aceitar as coisas que havia descoberto, não se perdoaria caso contasse e sua amada irmã, da mesma forma, não conseguisse digerir aquelas informações. Se os pais esconderam, tinham os seus motivos, não criaria uma "guerra mundial" agora.

— Voltou ao hinopter…

— Hipnoterapeuta. E, não, não voltei. Eu… ele não estava conseguindo ultrapassar mais do que aquilo que já te contei. É uma memória trancafiada. Só tenho a lamentar.

Sofia assentiu.

— Sinto muito.

— Tá tudo bem, irmãzinha — Anelise levou a mão ao próprio bolso e puxou a correntinha do seu relógio cor de prata. — Bem como eu previ! Daqui a pouco, preciso ir.

— Uau, irmã, que relógio lindo! — Sofia prontamente pegou o relógio com a permissão da ruiva. — É de prata pura? A maioria dos relógios são dourados, não?

— Pois é, o que não é o caso desse! Relíquia pura, estilo antigo. É do meu marido, eu peguei emprestado.

— Papai diz que relógio é coisa de homem.

— Valei-me, não podemos sequer ver as horas? Se me perguntarem que horas são, vou responder: pergunte à outra pessoa, sou feminina demais para olhar o relógio.

Ela revirou os olhos em deboche, sendo acompanhada pelas risadas da irmã, que buscava rir o mais baixo possível para não despertar a curiosidade dos pais. Seguiram para fora do quarto e, antes de partir, Anelise fez questão de falar com cada funcionário do conde, sabia que não voltaria tão cedo àquele lugar. Dos tantos que haviam ali, não tinha um que não fosse estimado por ela. Praticamente foi criada por eles, a viram crescer e participaram de momentos seus que seus pais sequer estavam presentes. Anelise passeou por todo o palacete mais uma vez, despedindo-se de cada um antes de seguir em direção à carruagem.

— Ah, madame Anelise! É tão difícil aceitar que já está tão crescida! Logo terá seus filhos e eu já desejo muita saúde a eles!

Comentou a senhora Everglow, o que fez a ruiva franzir o cenho. Ainda tinha dificuldade em aceitar a ideia, sobretudo por razão dos medos de seu amado, mas sabia que um dia precisaria enfrentar o desafio.

E isso não impediu Sofia de fazer uma provocação.

— Ela disse que anda ouvindo risinhos de crianças pelos corredores à noite! Eu bem que falei pra ela que isso é presságio.

— Ah, e dos grandes!

— Tá bom, okay! Eu vou ter um batalhão inteiro, já entendi. Por que é que eu fui te contar isso, Sofi?

A morena gargalhou, e Anelise estava a pouco de não resistir às risadas dela.

— Vou sentir falta dos seus sermões cheios de amor, senhora Everglow. Não vou aparecer muito por aqui, mas vou voltar, prometo.

— Nós aguardaremos ansiosamente, madame!

Após mais uma árdua despedida, chamou sua irmã para acompanhá-la até a frente da mansão, já estava prestes a seguir de volta para casa, todavia, em um segundo, foi abordada pelo próprio pai, o conde Herder.

— Anelise, tem um minuto para mim?

— Claro, papai!

Com a confirmação, ele retornou para dentro de casa, esperando que fosse acompanhado por ela. A ruiva achou aquela situação intrigante, pois, o que quer que ele fosse falar, podia fazê-lo ali, naquele exato momento, mas pensou se o assunto não era particular demais para a ocasião.

Olhou para Sofia, que entendeu imediatamente e a deixou ir só. Sendo assim, retornou à mansão e encontrou o homem já nos corredores, admirando uma pintura da garota em seus oito aninhos de idade.

— O que foi, papai?

Tentou decifrar suas expressões, mas o homem parecia tranquilo, embora seus ombros tensionados passasse a mensagem de que algo o preocupava. Aquilo a deixou em estado de alerta.

— Isso é seu?

Ele abriu a gaveta de um gaveteiro que havia ali e lhe mostrou o relógio de prata com correntes brilhantes. Anelise arregalou os olhos e estendeu a mão para pegá-lo, ainda muito tranquila e apenas surpresa.

— Sim! Deixei com Sofia, mas essa menina costuma perder as coisas por aí. Ai, ai… Onde o achou?

— Ela o deixou cair. Por sorte, não quebrou — disse, agora virando-se completamente para ela. — Anelise, com quem conseguiu esse relógio?

— É do Michael. Sinceramente não era nem pra estar comigo, eu esqueci de devolver.

— Do Michael?

Ele fez um olhar surpreso, o que instigou a garota a revirar os olhos, achando se tratar de outra daquelas repreensões do seu tempo de solteira.

— É, do meu marido, papai. Está melhor assim? "É feio chamar pelo nome, lá lá lá"...

— Não… Digo… Você viu as iniciais que há nesse relógio?

Ela o pôs na palma da própria mão e fechou a sua face, observando as duas letrinhas rebuscadas que notara desde a primeira vez que viu aquele objeto.

— Sim. Isso não é a marca dele?

— Hamish Casanova, um ítalo-escocês, dono de um promissor comércio de jóias. Me preocupou encontrar um objeto dele em sua posse, você certamente não o conhecia. Ele morreu há muitos anos.

Aquelas palavras foram suficientes para atiçar a curiosidade da ruiva, que, aos poucos, aceitava aquelas informações com bastante confusão.

— Como assim?

— Anelise, ele foi assassinado. Há muitos anos, alguém matou a ele e à filha. Era um homem cheio de problemas, mas não tinha inimigos…

— Mas, se era um dono de lojas de jóias, isso não poderia fazer parte de alguma coleção criada por ele?

— Ele não fazia relógios, limitava-se a colares, pingentes, alianças… Trabalhou para seu avô há muitos anos. Tenho certeza que esta é sua rubrica, era assim que assinava os papéis. Onde o seu marido conseguiu isso?

— Eu não sei, estou descobrindo agora! — por um segundo, cedeu à pressão, mas tornou a se acalmar quando percebeu estar perdendo o controle. Agora, depois de tanto tentar compreender os segredos do seu amado, aquele definitivamente ganhou sua atenção. Já não havia desculpas que a impedissem de interrogá-lo sobre absolutamente tudo que faltava e o que cria ter direito de saber. — Não se preocupe, papai, vou falar com ele. Tenho certeza que tem uma explicação bastante plausível para isso. Algum meliante pode ter roubado e vendido a ele… realmente não sei.

— Se for o caso, acho prudente que entregue à polícia. Ninguém nunca encontrou o assassino, pode ser uma pista.

— Certo, faremos isso. Eu preciso mesmo ir, está tarde. Mandarei cartas sobre esses assuntos, tudo bem?

Anelise despediu-se do homem com um pouco de pressa. Estava eufórica mais uma vez, era como ficava quando algo entrava na sua mente e não desejava sair. Ela pouco falou com a irmã, lhe deu um beijinho rápido na bochecha e saiu em disparada, rumo à carruagem.

Conde Herder ficou lá, e, embora soubesse que sua pequena Anelise não era sua filha biológica, havia algo que compartilhavam em suas personalidades: aquilo não sairia de sua cabeça enquanto, também, não elucidasse as próprias dúvidas.

Sobretudo, porque eram questões óbvias demais.

Notas finais
Próximo capítulo: — … O que você fez? Ele não respondeu. Anelise, já cansada de suas conversas mentirosas, puxou o relógio de prata do bolso, o que redobrou o alerta do homem, encarando-a com surpresa no mesmo instante. Finalmente, e tão rápido quanto inesperado, ele indagou. — O que isso está fazendo contigo? — E o que isso importa? De quem é esse relógio, Michael?! — É meu, me devolva. Se aproximou, o que fez a mulher recuar no mesmo momento. Ela suspendeu o objeto, o segurou pela corrente e moveu para um lado e para o outro, como se estivesse exibindo um troféu. Todavia, o seu rosto apenas expressava a face da raiva. [...] — Me diga uma coisa… me diga, francamente — ela trepidou, como se a adrenalina em seu corpo não a permitisse parar em um canto —, aquele quebra-cabeça é seu. Você estava lá — apontou para o objeto, sem tirar o olhar do homem à sua frente. — Você estava no dia em que eu fui separada do meu pai. Eu sei… porque eu conheço essa casa, eu conheço a sua antiga casa, mas não vi, até agora, o casarão de madeira dos meus sonhos. Era a casa do meu pai, não era? Você estava lá… com ele.