O Azar dos Heróis
7 Meu primeiro ato de coragem
Notas iniciais
Aquele dia, eu senti que podia fazer qualquer coisa, bom, eu não recebi um “sim”, mas pelo menos ela não riu na minha cara e falou não. Isabelle foi tão educada que eu quase perguntei “quem é você e o que fez com a Isabelle Blake”.
Ela disse que ainda não queria sair com ninguém, imaginei que foi por causa to termino, mas não quis comentar nada. Caminhando pelos corredores para ir para a aula da abominável geografia, esbarro em uma menina de cabelos castanhos e de olhos pretos que imaginei que estivesse perdida.
–Onde fica a sala do professor Carter? –ela me olhou como se estivesse assustada, acho que eu não tinha nenhuma cara de presidente Snow nem nada do tipo, só sei que ela parecia estar com medo e por incrível que pareça, medo de mim.
Indiquei para ela com o dedo, ela agradeceu e saiu, entrei na sala e a professora me olhou como se tivesse violado mais de cinquenta leis, sentei na minha carteira ao lado do garoto que come meleca, ele era conhecido assim desde a quarta serie, porque quando ele era menor, ficava “cutucando” o nariz e o que ele encontrava, ele comia.
Noah ficou contente pelo meu pequeno feito, quero dizer, pelo meu primeiro ato de coragem de falar com a Isabelle. Neste dia, Noah havia me dispensado, ele iria fazer trabalho na casa de uma garota, não sabia quem, mas também nem me lembrei de perguntar. Passei a minha tarde inteira de quarta feira jogando e quinta foi a mesma coisa, depois que voltei da escola, é claro. Noah passara os minutos do intervalo comigo, ele começou a falar sobre um livro que ele estava lendo que contava alguma coisa sobre a Guerra Fria, não prestei a mínima atenção, até ele começar a falar do trabalho que ele fizera.
–Quer dizer então que o trabalho foi com a Emily? –disse um pouco exaltado. — Por que você não me contou?
Passaram-se alguns segundo então ele fez a cara mais convincente de ingenuidade que ele conseguiu e falou de uma maneira como se cuspisse as palavras, porém rindo:
–Você não me perguntou nada!
Andava pelos corredores lotados de adolescentes barulhentos enquanto Noah gritava fazendo com que a sua voz se sobressaísse, porém mesmo com a altura de seus berros, não pretendia prestar atenção em nada, até que ele disse as palavras-chave que me despertou de meus profundos pensamentos: Isabelle Blake.
Sua pele clara e seus olhos que eram tão verdes fez-me perder em pensamentos absurdos de garotinhos de onze anos, será que ela está olhando para mim? Será que ela gosta de mim? E outras baboseiras que me fizeram sentir vontade de me socar. Passei despercebido porque de fato, não queria ser notado, vários problemas como, de manhã derramei suco na minha blusa e esqueci de trocar ou como a enorme espinha que brotara no meio do meu rosto que parecia que estava criando vida própria me fizeram agir desta maneira.
Não que eu me importasse com aparências, não era assim, mas ela se importava. Durante esse pequeno percurso de volta à sala, esbarrei novamente na garota que vira hoje mais cedo, ela me acompanhou até a sala, quero dizer, não fomos juntos e conversando, mas ela andou praticamente perto de mim já que também ia para a aula de matemática.
Sentei no meu lugar de costume, peguei um caderno e comecei a desenhar, não que eu tivesse um dom ou fosse um prodígio do Picasso, porém de todas as coisas que eu já tentara fazer, essa era a que eu “menos pior”.
Senti alguém sentando ao meu lado, o que era raro, pois sentava em uma das últimas carteiras e nem todos gostavam de sentar muito atrás. Era a garota que eu havia visto algumas vezes durante o dia. Seus cabelos eram castanho escuro, e seus olhos eram pretos como um céu noturno sem nuvem alguma. Fiquei pensando se eu perguntaria qual era o seu nome, no fim, não falei nada.
–Barbara. Meu nome é Barbara. –ela disse como se pudesse ler meus pensamentos, admito que fiquei um pouco assustado e pensando se ela pudesse ver outras coisas, o que me levou a crer que eu estava assistindo muitos filmes de super-heróis.
–Eu não posso ler seus pensamentos, não seja bobo. Só resolvi me apresentar. –ela disse com um sorriso em seu rosto.
Como ela fez isso? Como ela pode ter respondido as perguntas que eu formara em minha mente? Com certeza isso não era algo que acontecia todos os dias, mas por fim, resolvi deixar de lado e fazer outra pergunta.
–Você é nova aqui? –disse olhando diretamente em seus olhos negros enquanto ela parecia estar com dúvida na pergunta que eu acabara de fazer.
–Não. –ela disse enquanto meu rosto queimava de tanta vergonha, não que era minha obrigação saber de sua existência, porém desta vez, cometi um erro enorme. –Não precisa ficar tão corado, em uma escola de praticamente dois mil alunos, eu acho que, é bem provável que setenta por cento não me conheça nem de vista.
Seu sorriso era de uma forma gentil, que demonstrava alegria, o que não era comum em plena escola, talvez fosse pelo fato de ser sexta-feira.
–Na verdade estudo aqui desde o ano retrasado, e estudo nesta sala desde o começo do ano. –ela disse rindo enquanto eu, só ficava mais corado. –Então o que você gosta de fazer? –fiquei um pouco espantado com a pergunta espontânea que ela acabara de fazer. –Anda, responde, não sou nenhum tipo de assassina ou coisa assim, só quero preencher o tempo enquanto o professor não chega.
–Jogar. Qualquer tipo de jogo. E você?
–Desenhar, gosto de fazer releituras de algumas obras, mas quando que desenho, o que eu realmente gosto e colocar o lápis sobre a folha e deixar que a minha imaginação guie a minha mão e ver o resultado no final.
Suas palavras soavam como se William Shakespeare tivesse escrito um roteiro para ela, seus olhos brilhavam em uma intensidade que me fez sorrir, quando a aula começou, nós não nos falamos e quando ela saiu pela porta, não a vi mais. Talvez ela tenha ido para o outro prédio, mas isso não me importava, não era da minha conta, encontrei Noah no banheiro masculino, seus olhos roxos e sua boca sangrando, não eram normais, Noah nunca entrara em uma briga, definitivamente, ele não sabia lutar.
–Que merda você fez desta vez?
Ele começou a rir tanto, e não era uma risada forçada por alguém que queria chorar e estava rindo para conter as lágrimas, era totalmente verdadeira, ele começou a rir e rir, que não conseguiu parar, ele sentou no chão e continuou a rir. Depois de um tempo ele parou e eu sentei ao seu lado.
–Eu a chamei para ir ao cinema comigo, quero dizer, não foi como quando eu chamei Nora Wilbert para ver Harry Potter comigo, foi mais para o lado romântico e não por... pena. –ele disse enquanto olhava em meus olhos.
–Quem? –perguntei com uma enorme curiosidade em meu rosto.
–A Emily.
–E?
–O namorado dela me bateu... muito. –as risadas acompanharam o final da frase, não me aguentei, sentei ao seu lado e comecei a rir também, fiquei imaginando quem seria o novo namorado de Emily Blake. Depois de um tempo, apenas uma frase saiu pela minha boca enquanto eu ria:
–Você é muito idiota.
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