O Azar dos Heróis
2 A confissão
Notas iniciais
Tive que acordar cedo apesar de odiar, o sol batia no meu rosto, querendo que eu levantasse daquela cama em caráter de urgência, trabalhar naquela lanchonete além de ser incrivelmente irritante e insuportável, era tentador, pela parte da comida. Fui direto para o banheiro tomar meu banho, estava com muito sono, tinha ido dormir era quase quatro da manhã e agora, olhei naquele relógio idiota que fica ao lado da minha cama, ele marcava sete horas. Fui andando com os olhos fechados até o banheiro como eu fazia todos os dias que eu tinha que levantar as seis e ir para o colégio. Então bati minha cara na parede com toda a força.
–Merda!
–Ajudaria se você abrisse os olhos. –Anne disse enquanto ria.
–Obrigado pela dica, coisinha.
Aquela água extremamente gelada caia sobre meu corpo me despertando, não sei exatamente o motivo, mas várias lembranças vieram em minha cabeça como um filme emocional, lembranças de criança talvez, tudo isso se passava na minha cabeça ao som de Give me Love, de como eu sempre ficava isolado e nas fotos de família quando todos riam, eu era o único que ficava serio, não sei o porquê, parecia que eu não pertencia a minha família.
Coloquei aquela roupa ridícula, com o avental que eu particularmente odiava e fui andando com passos apresados de quem queria chegar logo. O fato é que eu não queria chegar logo e sim que o tempo passasse mais rápido, para voltar para casa e ir para o mundo que eu realmente gostava de estar, sentar na frente do computador e não sair mais.
Vi Grace sentada ao lado de Ted, o novo funcionário que devia ter a minha idade, só que ele tinha uma namorada, eu a conhecia, estudava no meu colégio, eu a via na aula de espanhol. Comecei a limpar o balcão por causa do enorme movimento as 10:00 horas da manhã para comprar hambúrguer, refrigerante ou soverte, a lanchonete estava completamente vazia, até que uma menina chegou, ela tinha longos cabelos pretos e olhos castanhos, era Emily, a irmã mais nova de Isabelle, que tinha a minha idade, e por mera coincidência, nasceu no mesmo dia do mesmo mês que eu, ela era o tipo de garota que sempre faz o dever de casa, tira excelentes notas, era oradora de turma, presidente do clube de matemática e de xadrez e ao contrario da irmã, não tinha bunda nenhuma. Não que eu reparasse. Mas eu reparava. Só um pouco.
Ela se aproximou e então pediu um suco de laranja, ficou me encarando com aquela cara de “eu te conheço”, porém não disse absolutamente nada depois do pedido apenas pegou o suco e foi andando. Até ela parar no meio caminho entre mim e a porta, e então ela virou em minha direção.
–Travis?
Então, ela sabia quem eu era, ela sabia meu nome, será que Isabelle já havia falado de mim? Impossível. Não fazia a menor ideia do que dizer, apenas fiquei lá parado, não conversava com muitas meninas, as únicas garotas que eu falava era a Anne e a minha mãe, e não seria nada interessante sair com uma menina de cinco anos que tem dificuldade para fazer o dever de casa “pinte o pato de amarelo”, não a culpo, isso aconteceu quando ela tinha três anos, porém, foi um episódio engraçado.
–Oi. É a Emily, fazíamos aula de francês juntos.
–É eu lembro... –disse enquanto lembrava que só havia passado de ano nessa matéria graças ao Noah, ele fazia a minha prova. — você era aquela menina sentada na primeira carteira que conversava com a professora na língua dela.
Ela apenas balançou a cabeça, um pouco com vergonha e então voltou a falar:
–Você trabalha aqui? –ela disse enquanto olhava para a lanchonete com um sorriso sincero no rosto
–Pois é.
–Legal, tenho que ir, nos vemos outro dia. –ela disse enquanto estava com um enorme sorriso estampado em seu rosto.
O resto do dia foi um conjunto de desinteresse e falta do que fazer, estava com pouco movimento, apenas alguns casais sentados e poucas crianças se divertindo com os brinquedos que vinham com a comida.
–Oi Travis.
Anne tinha vindo com minha cunhada, Kate e com a Jennifer. Kate estava sempre sorrindo, ela tinha cabelos loiros e era bem curto, ela era bem alta, não exageradamente, mas não era baixinha. Elas fizeram o pedido e depois voltou ao mesmo tédio que estava antes, até Isabelle chegar, senti um sorriso se formando nos meus lábios que infelizmente duraram menos tempo do que eu imaginava.
Isabelle Black estava novamente com Ethan Campbell, teria como ficar pior? Não, simplesmente não, as chances de um garoto que não era bonito de fato ficar com a menina considerada a mais bonita do colégio eram realmente pequenas, ainda mais quando ela estava namorando Ethan Campbell, o garoto mais desejado em toda a escola.
Ele veio até mim, pediu dois lanches e então voltou para perto da Isa, gostava de chama-la assim, como o Ethan fazia, fingir ser seu namorado era uma das únicas coisas que eu tinha para suportar a dura vida real. Vê-los se beijando era como uma facada nas costas, como eu me sentia mal, como queria que aquela garota fosse minha. Quando o pedido dele chegou, sabia que o que eu estava prestes a fazer poderia custar o meu emprego, mas não pensara nisso no momento em que eu fiz. Catei o pote de molho de pimenta e coloquei sem piedade no refrigerante dele, e então falei que ia ao banheiro e Tyler ficou no meu lugar, admito que fiquei com um pouco de pena dele, do Tyler, não do Ethan, porém tinha que fazer isso sem Ethan descobrir que tinha sido eu, disse qual era o lanche de cada um. Fiquei uns cinco minutos no banheiro e então saí para ver o pequeno show que eu proporcionara.
Ethan provavelmente ainda não tinha bebido, então ele pegou o copo e um sorriso maléfico brotou no meu rosto, como tinha adorado o que fizera. O gole foi acompanhado de um grito, que em minha opinião, parecia de garota. Ele ficara vermelho e correu para o banheiro, Isabelle apenas observava as pessoas observando e apontando para Ethan, ela ficou com tanta vergonha que saiu correndo para fora da lanchonete, deixando apenas o dinheiro em cima da mesa. Comecei a rir e não consegui parar.
Saí do meu expediente e fui direto para casa do Noah, jogávamos e ao mesmo tempo o escutava falar merda, que era a única coisa que ele sabia fazer, além de jogar.
Eu tinha o conhecido quando estávamos na sexta série, achei o Noah o garoto mais estranho e repugnante de toda face da Terra, por isso decidi me aproximar dele. Quando cheguei a sua casa a sua mãe atendeu a porta e então fui até o seu quarto que era o segundo mais desorganizado, depois apenas do meu. Ele estava de frente para a televisão.
–Travis, sabe a Evie Turner? –ele disse com enorme sorriso no rosto, mas sem desviar a cara da televisão.
–Sim. –disse com os olhos arregalados pois ela era muito gata.
–Eu a chamei para sair, e... –e foi aí que o enorme sorriso saiu do seu rosto.
–E?
–E ela disse, não. –ele disse indignado e com a cabeça baixa.
–Você ainda não se acostumou com as rejeições? –disse sorrindo pois era a pura verdade. Levávamos mais “não” do que nota baixa, bom eu, Noah era o nerd da turma, depois da Emily.
–Ainda não, você já?
–Depois de tantas, já. –disse sorrindo.
Então passou um tempo, não muito, Noah continuou jogando, matando zumbis, até que ele pausou o jogo e olhou para mim, sei que ele queria dizer alguma coisa.
–É que eu realmente gostava dessa cara. Queria que tivesse dado certo.
–Você realmente gostava dessa? Como você realmente gostou das outras trinta e nove?
–Não, eu senti alguma coisa diferente dessa vez.
–Sei.
Então voltamos a jogar, ele ficou parado, então virei para ele e percebi que ele estava chorando, Noah Meyer estava chorando, o menino menos sentimental que eu conhecia, estava chorando, sim! Lágrimas! O que era aquilo?
–Noah? Você está... ham... bem?
–Sim, é que, cara, é frustrante você ter dezessete anos e só ter beijado duas garotas, sedo que uma delas era minha prima, e a outra foi por causa de um jogo na sétima série, ser rejeitado por trinta e nove garotas consecutivas é de fato um horror.
–Porra Noah, a Evie é uma completa idiota.
–A Evie, a Lily, a Chloe, a Amélia, a Hannah, a Erin, a outra Erin...
–Tá, já entendi.
–E você? Como vai com a Isabelle?
–Bom, eu vou mal, mas pelo visto, o Ethan vai bem.
–Eles voltaram? –ele disse com o espanto estampado na cara.
–Afinal, eles tinham terminado?
–Bem, eu acho.
Olhei na direção do Noah, com uma cara raivosa e ele começara a rir, pelo menos parou de se sentir corno, coisa que ele não era, porque para ser corno, tem que ser traído e para ser traído, precisa de uma namorada e isso ele não tinha. Apenas ficamos lá sentados, ele jogando e eu no computador, assim como fazíamos todas às vezes.
–Noah, não sei por que, mas sinto que esse é o nosso ano, vamos arrumar lindas namoradas.
–Sério? –ele disse com um tom alegre, porém sem desviar o olhar do jogo.
–Na verdade, não. Só falei isso para você se sentir melhor. –disse soltando uma enorme gargalhada.
–Seu filho da...
–Olha o pote!
Sim, a mãe do Noah fizera um pote que a cada palavrão dito naquela casa, teríamos que colocar dinheiro no pote, que extorsão! Mas mesmo assim, Noah não parava de falar, o que levava ele a pobreza total no fim de cada mês.
–Walker, esse ano eu vou te ajudar com a Isa.
–Não, muito obrigado. –disse arregalando os olhos enquanto ele olhava para mim.
–Por quê?
–Cara, você não consegue uma garota nem para você, isso não vai dar certo.
Ele olhou para mim, não cara de bravo, Noah praticamente nunca, ficava bravo com alguma coisa. Ele simplesmente balançou a cabeça e mudamos de assunto.
Voltei para casa depois de ficar três horas na casa do Noah, gostava de ficar lá, ele era filho único, sem crianças, sem gritos, sem barulhos, apenas jogar como se não pudesse para. Pena que eu voltei para a minha dura realidade, Anne já estava na porta de casa, pronta para atacar com toda a sua chatice insuportável. Minha mãe estava perto do meu pai, olhou diretamente para mim assim que eu entrei e disse que queria falar comigo. A primeira coisa que eu falei foi.
–Não fui eu. –disse tentando me livrar de qualquer coisa que fosse. Meu pai me encarou e minha mãe voltou a falar.
–Claro que não foi você. –ela disse olhando para o meu pai e sorriu, então se virou para mim e continuou. –Querido, eu queria te contar que eu... eu estou... grávida.
–O que?
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