O Assassino
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Eu vivo aqui tem muito tempo, num bairro em Curitiba, bem calmo. Meu nome é Clarice, tenho dois filhos gêmeos de 14 anos, trabalho numa floricultura, e agora sou casada com Steve. Era viúva, mas me apaixonei e casei de novo tem seis meses. Minha vida era perfeita e bem calma. Filhos sadios, boa renda e uma linda casa. Uma pena que tudo mudou.
Todo o meu pesadelo começou com a morte de Isabel, dona de uma empresa. A polícia examinou e viu que grande parte das riquezas que ficava na casa tinha sumido, desde objetos de ouro até colares de pérolas. Observando a situação, suspeitaram de seu irmão, Simão. Pensavam que ele a tinha matado para ficar com seu dinheiro, já que ela não tinha filhos. Acontece que assassinatos continuaram ocorrendo, e a única relação que tinham era que as vitimas eram ricas e seus bens eram roubados.
Comecei a ficar assustada, apesar de eu não ter dinheiro para esbanjar, o assassino poderia vir atrás de alguém de minha família. Não tinha nenhuma certeza de que ele só matava ricos! Então tomei uma decisão, fiz as malas e decidi que ia passar um tempo em Florianópolis, cidade de minha mãe. Avisei meu marido, que disse que estava indo a Campo Grande a trabalho na manhã seguinte, e se encontraria com a gente depois. Tudo estava certo e planejado, os meninos iriam sozinhos, e eu ia ter que ir mais tarde para arrumar umas coisas em minha loja. Escolha errada.
Levei os gêmeos ao aeroporto, e mais tarde recebi uma ligação de meus pais avisando que eles chegaram bem. Fiquei aliviada. Terminando de empacotar minhas coisas, fui à loja avisar a Daniel, meu assistente, que ele ia tomar conta de tudo. Aproveitei e peguei um pouco de dinheiro no caixa. Steve já tinha ido para Campo Grande, então estava sozinha em casa. Meu voo era à noite, lá pelas 11h.
Já tinha organizado tudo. Um pouco antes do horário de sair iria ligar para um taxista, então resolvi ver TV, para passar o tempo. Estava bem mais tranquila e relaxada. Aliviada por tudo estar dando certo. Cansada acabei cochilando. Acordei com um barulho, vindo do sótão. Era um barulho de alguém andando, pois as tábuas de cima eram mais frouxas. Havia bastante tempo que não ia lá, porque não guardava coisas importantes. Tentava me convencer de que era só um morcego, mas eu sabia que me enganar não adiantaria nada. Resolvi tirar a limpo e fui até a porta que levava para cima.
A abri e logo após a tranquei para caso alguém estivesse lá, não fugisse. Subi as escadas lentamente, tentando não fazer barulho para não chamar a atenção. Conseguia distinguir a sombra de uma pessoa, iluminada pela fraca luz de uma lâmpada. Imaginei que fosse um homem, devido a sua fisionomia. Comecei a caminhar lentamente em sua direção. Eu só ouvia o som de minha respiração, tensa e lenta. Tinha medo de fazer algum movimento brusco e chamar a atenção desse ser cuja identidade ainda era desconhecida.
Armei-me com um bastão velho, de quando meu filho jogava baseball, planejando nocautear o invasor. A cada passo minha ansiedade aumentava, eu ficava cada vez mais nervosa, queria fugir! Mas não, eu ia até o fim! Além do mais, ele não tinha notado minha presença. Não ainda.
Pisei numa tabua solta, que rangeu, fazendo o intruso olhar em minha direção. Rapidamente me escondi atrás de umas caixas amontoadas. Eu consegui ver por entre as frestas que ele segurava uma arma, enquanto olhava ao redor procurando pelo causador do barulho. Encostada nas caixas, fechei os olhos, e me preparei para meu fim. Mas nada aconteceu. Ouvi o ser descer as escadas e abrir a porta, mas não conseguiu, pois eu a havia trancado. O problema é que, assim, ele havia descoberto que tinha mais alguém lá. E para ele sair, tinha de me achar. Eu estava ferrada.
''Que raiva de mim, que idiota eu sou! Devia ter chamado a policia assim que vi que o intruso era muito perigoso para se enfrentar com um taco velho! Fui dar uma de corajosa e me ferrei!'' Lágrimas escorriam pela minha face e caiam no chão sujo e empoeirado. Mas balancei a cabeça e me conformei, não ia ficar sentada, ia lutar, pelos meus filhos! Meus filhos... Sozinhos, achando que a mãe está no aeroporto, segura! Não isso não ia acontecer. Esse safado não iria escapar, eu ia sair daqui e chamar por ajuda. Na hora que eu ia me levantar, vi a besteira que tinha feito.
Enquanto discutia comigo mesma, o intruso tinha me achado, e me olhava. Na hora que vi sua face, entendi o porquê dele estar paralisado e não ter atirado em mim. Nossos olhos se encontraram. Deixei o taco cair. Assustada, com medo, minhas pernas cambalearam. Aproveitei e dei uma boa olhada no sótão. As caixas que eu tinha me escondido estavam cheias de fotos e reportagens das vitimas dos assassinatos ocorridos agora. Uma mesinha tinha sido posta no canto e estava cheia de papeis e rabiscos. Enquanto olhava ao redor percebi tudo, aquele era seu esconderijo. Eu conhecia o assassino tão temido pela pequena cidade. Era Steve.
Fiquei muito assustada e sem reação. Não sabia se gritava, chorava ou corria. Só sabia que eu estava com muita raiva dele.
-Seu cretino! Como ousa, como pode?
Ele riu e com calma me pediu para sair de trás das caixas. Antes que eu pudesse reagir, ele apontou sua arma para mim e disse:
- Se eu fosse você, não faria nenhum movimento brusco. — e logo após — Bom, me perdoe por você ter descoberto assim. Imaginei que você tivesse viajado hoje de manhã.
Enquanto ele falava, eu tentava raciocinar. Acho que ele percebeu meu olhar confuso, pois falou logo em seguida:
- Eu sempre fui um assaltante, antes mesmo de nos conhecermos e casarmos. – arregalei meus olhos de surpresa. -Nunca gostei de ricos, pois fui pobre minha infância toda e ninguém ajudava minha família. Com todo aquele dinheiro e não podiam nos dar um pão? Eles não merecem esse dinheiro, não sabem como gastar.
Comecei a berrar com a confissão dele:
-Como assim? E todo esse tempo que larguei meus filhos com você? Confiei e te amei! E isso tudo sempre foi uma mentira?
Ele chegou perto de mim e tapou minha boca:
- Sua idiota! Quer que os vizinhos a ouçam?
Mordi sua mão, o chutei bem forte e berrei ainda mais:
-Oh! Que espertinho você! Resolveu pensar um pouco? Faz bem sabia? – minha raiva começou a aumentar- Argh! Idiota, idiota, idiota! Desgraçado! Desejo que arda no fogo do inferno! Você verá suas vitimas ensanguentadas olhando para você toda hora! Até o momento que irá se matar de tanto sofrimento e culpa.
Nesse momento ele se levantou e atirou.
Levei um susto e fechei os olhos, esperando minha morte. Aos poucos tomei coragem e resolvi olhar em volta. Olhei na direção que ele tinha atirado. Tinha acertado o teto, não com a intenção de me acertar, só de me silenciar. Steve chegou bem perto de mim e meu deu um forte tapa no rosto, enquanto sussurrava:
-Idiota. Pensa que após todos esses anos suas palavras iriam me atingir? Seu desespero e suas pragas não me afetam. Sou muito mais do que um ladrãozinho de rua! -com uma voz fina começou a me imitar- Arder no fogo do inferno, blah blah blah, larga de ser burra!
Comecei a chorar de raiva, pensei em tudo o que ele havia me feito acreditar, em como ele me fez de boba! Respirei fundo e disse:
-Mas, ainda não entendo. Porque se casou comigo?
Rindo maliciosamente ele disse:
-Ora, porque quem iria suspeitar de um homem de família?
Eu não queira mais saber de nada, só queria fazê-lo sofrer, machucá-lo de um jeito permanente. Tinha tanta raiva dele, um ódio profundo que nunca tinha visto em mim. Levantei a cabeça e vi que ele estava pensativo. Quando percebeu meu olhar indagador respondeu:
-Eu estava pensando, depois de te matar, qual vai ser meu álibi?
Meu coração começou a bater mais rápido, ele pretendia mesmo me matar e eu estava totalmente indefesa. Gotas de suor escorriam pelo meu rosto, eu sentia meu corpo todo tenso, rígido. Steve se aproximou de mim, me olhou como se estivesse bravo e falou:
-Porque você tinha que complicar tudo? O plano estava indo tão bem. Eu matava, limpava a cena, voltava para cá e ainda recebia cuidados, comida e amor! Tudo tão perfeito! – Quando ele disse isso me deu vontade de vomitar. Ele não dava mesmo à mínima e só se aproveitara de mim! – Porque você tinha que ser tão enxerida? Mas fazer o que? Pessoas vêm, pessoas vão!
Comecei a chorar mais ainda, pensando em minha família. Se eu morresse, os meninos iam ficar com o padrasto assassino, pensando que estariam seguros! Bruscamente ele se afastou de mim.
-Bom, adeus! Foi bom usar você esse tempo todo!
Ainda apontava a arma para mim. Essa era minha ultima chance de fugir, ainda tinha a chave, tinha que escapar. Virei-me e sai correndo, sem olhar para trás, ouvindo as ultimas palavras de Steve:
-Eu sinto muito, mas você sabe demais. Demais!
Ouvi um barulho alto seguido de uma dor latejante em minhas costas. Cai no chão e o vi se aproximar de mim lentamente, para pegar a chave em meu bolso. Uma poça de sangue já havia manchado minha blusa e o chão. Lentamente fechei os olhos, e a ultima coisa que ouvi foram os passos de meu assassino para fora, para minha casa, para meus filhos, para a liberdade.
Fale com o autor