O Assassinato de Sakura
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Plena pandemia em 2020, mas quem disse que isso impediu os cachaceiros de aglomerar em bares e botecos ou bandidos de roubar e assassinar?
Se alguém lhe disse que isso impediria qualquer crime, inocência da pessoa e inocência a sua se você acreditou.
Afinal, assaltante tende a ser a “profissão” melhor remunerada no Brasil. Muitos começam na classe média e chegam a políticos milionários.E em Goiás, não é diferente!
Tudo começou quando Sakura se relacionou com um médico. Ele veio de boa família, era sempre educado e atencioso. Homem de pele bronzeada, alto e charmoso, sem beleza exagerada. Parecia ser o partido perfeito, considerando sua estabilidade financeira e o respeito para com as mulheres. Seu nome era Francisco Sánchez — mesmo o nome mais comum, seu sobrenome mostrava a ancestralidade espanhola. Além disso, toda a família possuía boa estabilidade social e financeira.
Algum tempo depois, o irmão de Francisco veio a trabalhar com a política. Quando se candidatou para as eleições de 2020, Francisco foi chamado pelo irmão para ajudar nas campanhas políticas. Os dois eram como carne e unha: o que um fazia, raramente o outro não estava por lá. Então ambos foram trabalhar juntos nisso.
Não demorou para que Sakura fosse assassinada, e a polícia dizia que ela só poderia ter descoberto uma falcatrua política qualquer.
A família de Sakura estava arrasada. Toda a sua família morava em um bairro japonês em São Paulo, mas Sakura quis ir para Goiânia tanto para experimentar uma vida mais calma do que a vida corrida em São Paulo quanto para conhecer novos horizontes. Por volta de 2015 veio para Goiânia e não demorou para que Sakura prestasse ENEM e conseguisse uma vaga na Universidade Federal de Goiás. Mais especificamente, a garota asiática entrou no bacharelado em enfermagem e nessa mesma instituição conheceu Francisco — um homem mais velho e que foi seu professor durante um ano.
Ah, o delicioso clichê romântico de namoro entre professor e aluna.
Nesse delicioso clichê que Sakura se envolveu, e se permitiu tal envolvimento após ouvir relatos de romances assim que deram certo. A garota se iludiu, crendo que se casaria com ele após se formar na faculdade e conseguir um emprego na área. Como Francisco não a desejaria?
A partir do momento que soube, sua mãe foi contra tal relacionamento. Pressentia que algo não estivesse certo, e sempre orava a Buda, desejando que estivesse errada que protegesse sua única filha. Com o tempo, não foram raras as vezes que seus irmãos se juntavam frente ao altar de Buda. Especialmente quando souberam que Francisco se envolveu com política.
E após alguns anos de namoro, e mesmo em meio ao envolvimento político, Francisco pediu Sakura em casamento. Noivado, finalmente! Mas o anel de diamante continuava preocupando a família da garota! Ela sequer havia dado um jeito de apresentar o rapaz para sua família. Não pessoalmente, apenas por vídeos. Não era a mesma coisa para Yuki, sua mãe.
De qualquer forma. O médico fez praticamente toda a campanha eleitoral de seu irmão. Sempre que havia a oportunidade, falava de seu irmão na Universidade ou em sua clínica. Afinal, quais locais melhores que esse para divulgar o nome de alguém? Sempre haveria rotatividade de pessoas por ali, mesmo no período da pandemia! Havia santinhos de seu irmão por quase toda parte, assim como adesivos pregados em suas pastas, em seu carro e qualquer outro lugar que pudesse pregar adesivos. Claro, Francisco evitava abusar com suas propagandas excessivas, mas não poderia deixar as oportunidades passarem…
Muitas vezes, Sakura ajudava o cunhado. Afinal, queria entender-se bem com a família de seu noivo. Falava sobre ele para os amigos e fazia publicações em seu Facebook.
Ah… Como ela amava entrar no seu perfil do Facebook e ver que seu status de relacionamento era com Francisco. Claro que não faltariam publicações sobre o romance dos dois ou sobre seu cunhado político!
E a ajuda do casal foi tamanha que convenceu a muitos: seu irmão virou vereador de Goiânia. E houve uma belíssima festa para comemorar a vitória de Lorenzo Sánchez. Tal festa foi feita na casa dos Sánchez por ali no no setor Jaó. A festa teve direito a uma refrescante piscina, uma churrasqueira e uma deliciosa comida por conta de dois cozinheiros.
Por mais que sua mãe pedisse para não fazê-lo, Sakura apoiou a candidatura de seu cunhado, além de ter votado no mesmo. E novamente ignorando os pedidos da mãe, foi até a festa — onde ocorreu o assassinato de Sakura. A asiática foi encontrada morta no quarto do primeiro andar; ela havia sido enforcada até a morte e duas mãos grandes marcavam seu pescoço. Havia todo um ritual sádico envolvido: as mãos dela estavam algemadas na cabeceira da cama, e havia um pano em sua boca, além das marcas de chicotes feitas antes e depois de sua morte. Aproveitaram a música alta e as gritarias das pessoas bêbadas para realizar tal ato.
A polícia levou meses para conseguir concluir toda a investigação. Pessoas importantes não são investigadas e presas facilmente. Não no Brasil, pois tratam seus políticos como divindades e não como funcionários públicos.
Lorenzo Sánchez comprou a polícia, para que não fosse preso por abuso sexual e assassinato. Francisco Sánchez era para ter sido preso junto ao seu irmão, pois ajudou a violentar a garota. E ele era perfeito demais para ser um homem real, pois defendeu o irmão e tratou a falecida Sakura como uma vadia sem valor algum, mesmo que a garota tivesse ido até contra a própria família por amor. E isso me faz pensar: são reais os relacionamentos como o de Gomez e Morticia Addams, mas o quão raros são?
Levou 5 anos para ambos os irmãos responderem a algum processo, o que foi possível apenas porque mudou grande parte dos integrantes da polícia.
A essa altura do campeonato, Yuki já tinha ficado algum tempo internada por tentativa de suicídio. Sentia-se culpada pela morte da filha e acreditava que deveria ter feito mais — triste pensamento, pois a culpa nunca é das vítimas.
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