O Assassinato Do Manequim
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Entrou escondido na calada da noite. Era uma escura noite de lua nova, havia apenas algumas poucas e esparsas estrelas para iluminá-la. Tudo era silêncio e trevas.
A entrada fora o buraco vazio do ar condicionado que estava no conserto. Ninguém viu, ninguém ouviu, ninguém suspeitou. Passou por ali feito um gato.
Uma vez dentro, olhou em volta, mas só encontrou a escuridão absoluta. Após os olhos se acostumarem, começou a reparar nas coisas.
As mangas das roupas nos cabides se pareciam assustadoramente com os braços de um monstro. As roupas empilhadas pareciam castelos prestes a desmoronar. As lantejoulas das roupas de festa pareciam milhares de olhos espiando seus atos.
Mas nada se movia. Nem um ventinho passava.
Começou a andar, lenta e cambaleantemente. Pé ante pé, foi prosseguindo. Com cuidado, seguiu em frente entre cabides e provadores.
Os olhos estavam arregalados. Uma loja pode ser bem assustadora durante a noite, mas não se deixou abater. Continuou sua missão.
Ao chegar ao centro do local, olhou ao redor, procurando o alvo. Alvo localizado, seguiu pela direita em direção a ele. Se esgueirou pelos cantos, não querendo se arriscar, agora que estava às vistas da traiçoeira vitrine.
Chegou a poucos metros do alvo e respirou fundo. Isso precisava ser feito. E iria ser feito. Preparou-se bastante antes de pegar o que escondera sob a camisa.
O perigoso facão de caça reluziu na penumbra por um momento, após deixar seu confortável esconderijo de pano. Ergueu-o sobre a cabeça por algum tempo, cogitando a melhor maneira de atacar.
Deveria começar pela cabeça inumana? Pelos braços imóveis? Pelo tronco quedo? Por fim decidiu-se, guardando em sua mente o plano de investida.
Atacou, rápido e silencioso. Se houvesse alguém a espreitar, nada teria visto do movimento, tão velozmente que ocorreu. Em um instante não fazia movimento algum, o facão sobre a cabeça, e no outro já despontava sobre a pérfida representação de corpo humano.
Primeiro levou o facão de encontro ao pescoço do objeto, quase atravessando-o completamente. Com esse movimento, a peruca castanha escorregou e recostou-se no piso de desenhos geométricos.
Depois avançou nos braços: cortou o direito na altura do cotovelo e, com as próprias mãos, quase descolou o esquerdo do corpo falso.
Pegou novamente sua preciosa arma e cortou o pulso, deixando a mão esquerda cair no chão com um baque surdo. Arfando de raiva, abriu um imenso buraco no abdome de plástico. Arrancou um olho vazio, que era apenas um simples desenho no rosto sem expressão.
Partiu a perna direita em dois pedaços, fazendo o corpo inteiro se inclinar para a esquerda. Abriu uma fenda no pé. Por fim, inseriu o facão no peito do alvo já destroçado, onde residia o coração inexistente.
Fugiu sorrateiro, deixando a arma com que cometera o crime fincada no pseudocoração. O funesto facão de caça logo soltou-se, caindo com um tilintar.
Pouco antes do raiar do dia, voltou para pegá-lo. Não teve coragem de se separar de tal peça, afinal.
Olhou para sua obra um última vez. A cabeça pendia torta, por pouco não fora totalmente arrancada. A peruca se encontrava caída no chão, a alguns centímetros do braço direito. O braço esquerdo balançava, quase solto. O buraco irregular no abdome causava espanto. E tudo isso estava apoiado em apenas uma perna, pois a outra fora arrancada e jazia perto de uma mão cadavérica.
Concluiu que fizera um bom trabalho e deixou novamente o local, tão quieto que parecia a personificação do silêncio. Correu pelas calçadas ainda vazias enquanto o céu se tornava cada vez mais claro.
Quando a loja foi aberta, as crianças que passavam arregalaram os olhos, horrorizadas, imaginando quem teria coragem de matar um manequim.
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