O Aroma do Gelo : Entre Contratos e Cicatrizes

8 ​Capítulo 8: Entre Linhas e Lençóis



​Capítulo 8: Entre Linhas e Lençóis

​A luz da manhã em Manhattan tinha uma clareza impiedosa que atravessava as cortinas de linho da cobertura. Claire acordou sentindo um peso reconfortante sobre sua cintura. Por um segundo, o esquecimento foi uma benção, até que o cheiro de sândalo e a textura dos lençóis de mil fios a trouxeram de volta à realidade. Ela estava na cama de Ethan D’Strass.

​Ele já estava acordado, observando-a com uma intensidade que a fez prender a respiração. Não havia a dureza do escritório em seu rosto, apenas uma confusão silenciosa.

​— O depósito foi feito — disse ele, a voz rouca pelo sono. — O tratamento da sua tia começa ao meio-dia.

​Claire sentiu um nó na garganta. Era o som da liberdade dela sendo comprada pela saúde de quem amava.

​— Obrigada, Ethan. Eu... eu preciso ir organizar as coisas no hospital.

​— Vá. O motorista está à sua disposição. Mas Claire... — Ele hesitou, algo raro para o homem que comandava impérios. — Esteja aqui às oito. O jantar será servido no terraço.

​O Peso do Alívio

​O dia de Claire foi um borrão de gratidão e melancolia. Ver a tia receber a primeira dose da nova medicação, ver a cor voltar lentamente às bochechas da mulher que a criou, era tudo o que ela precisava para justificar sua escolha. No entanto, cada vez que seu celular vibrava com uma mensagem de Ethan perguntando se "estava tudo sob controle", seu coração dava um salto que ela não sabia classificar.

​Ela estava comprada, mas ele a estava tratando como se ela fosse o vidro mais frágil do mundo.

​Às oito horas em ponto, ela cruzou a porta da cobertura. Ethan não usava terno. Estava com uma calça escura e uma camisa de botões levemente aberta no colarinho, as mangas dobradas revelando as tatuagens que Claire tanto desejava tocar. O jantar estava posto, mas não havia a pompa dos eventos sociais. Era apenas comida japonesa e uma garrafa de vinho branco.

​O Contrato da Alma

​— Não vamos falar de negócios hoje — ele disse, servindo o vinho. — E não vamos falar da cláusula.

​Claire o olhou, curiosa.

— Então, sobre o que falaremos?

​— Sobre você. — Ethan sentou-se à frente dela, o olhar fixo. — Eu sei que você é delicada, sei que é jornalista e sei que faria qualquer coisa pela sua família. Mas quem é Claire Mackenzie quando não está tentando salvar o mundo ou entrevistar CEOs arrogantes?

​O jantar se estendeu por horas. Pela primeira vez, Ethan não tentou dominá-la com silêncios cortantes. Ele ouviu. Ouviu sobre a infância dela no interior, sobre seu amor por livros antigos e como ela chorava assistindo a filmes de época. E, em troca, Claire começou a cavar o gelo dele.

​— E você, Ethan? — ela perguntou, a voz suave como uma carícia. — Por que cosméticos? Por que beleza, se você se esforça tanto para ser alguém... feio por dentro?

​Ethan travou por um segundo, girando o vinho na taça.

— A beleza é a única coisa que não decepciona, Claire. Se você cuida dela, ela permanece. Pessoas... pessoas mudam. Pessoas partem. O lucro é constante. O amor é uma variável que eu não posso controlar.

​— Você tem medo do que não pode controlar — ela constatou, levantando-se e caminhando até ele.

​A Confusão de Ethan

​Eles terminaram a noite no sofá do terraço, sob o céu estrelado de Nova York. O frio da noite fez com que Claire se encolhesse, e Ethan, quase por instinto, a puxou para o seu colo. Ele a acomodou entre suas pernas, envolvendo-a com os braços.

​— Você disse que me queria na sua cama — Claire sussurrou, sentindo o calor do corpo dele contra as suas costas. — Mas aqui estamos nós, conversando sobre medos.

​Ethan enterrou o rosto no pescoço dela, inspirando o cheiro de flores brancas que agora assombrava seus sonhos.

— Eu sou um homem confuso, Claire. Eu queria possuir você para me livrar dessa obsessão. Achei que, se tivesse você, o mistério acabaria. Mas quanto mais eu te conheço, mais eu sinto que estou me perdendo.

​Ele a virou em seus braços, forçando-a a olhar para ele. O rosto de Ethan era uma batalha entre o carinho e a negação. Ele tocou o lábio inferior dela com o polegar, uma carícia carregada de uma eletricidade que fez Claire estremecer.

​— Eu quero ser duro com você, quero manter as paredes erguidas — ele confessou, a voz falhando. — Mas quando você me olha assim... eu sinto que o gelo está derretendo. E eu não sei quem eu sou sem ele.

​Claire levou a mão ao rosto dele, sentindo a barba por fazer.

— Talvez você seja apenas um homem que sente falta de ser amado, Ethan.

​Ele fechou os olhos ao toque dela, soltando um suspiro pesado. Ele a apertou contra si, um abraço possessivo, mas ao mesmo tempo desesperado. Naquela noite, eles voltaram para o quarto. Não houve a frieza do contrato, nem a pressa do sexo.

​Ethan a beijou com uma doçura que a fez chorar novamente — mas desta vez, não era de tristeza. Era o beijo de um homem que estava se entregando, mesmo lutando contra cada fibra do seu ser. Eles se amaram sob o luar, em um silêncio que dizia mais do que qualquer cláusula.

​Ethan adormeceu com o rosto escondido no cabelo ruivo dela, enquanto em sua mente, a palavra "diversão" era substituída por algo que ele ainda tinha pavor de admitir: necessidade.