O Arco Perdido
1 MARINA - Mais um dia
Notas iniciais
É tarde da noite, a lua está cheia e a adrenalina corre por minhas veias.
Estamos pregando mais uma peça. Dessa vez, uma daquelas vão irritar Quíron e o Sr. D profundamente caso funcione.
Travis e Connor estão esperando do lado de fora do chalé de Apolo, afinal, sou a menor e mais veloz, deve ser simples invadir o banheiro e encher os frascos de xampu com tinta.
Devia.
Porque uma das cabeças loiras não está na cama, e sim em uma poltrona, cochilando de leve, com um caderno no colo.
Will. O doce e engraçado Will, o mesmo que me curou quando cheguei ao acampamento, ferida e cansada, aquele que me ensinou a atirar com o arco, aquele que ria das minhas piadas tontas.
Espio o caderno e vejo que ele escrevia uma poesia, sobre asas e o sol. É linda, mas eu, em minha pura essência de filha atrevida de Hermes, não deixarei meu coração disparado interromper minha missão.
Respiro fundo e olho pela última vez para seus dedos cheios de tinta de caneta.
Entro no banheiro de azulejos amarelos e coloco tinta nos potes, TINTA AMARELA.
O Connor é idiota ou o quê?! ELES SÃO LOIROS!
Saio do banheiro, meio bufando, quando me lembro de Will.
Ele está se espreguiçando, permitindo-me uma visão perfeita de seu abdômen, ele boceja e olha ao redor. Seus olhos pousam em mim. Estou ferrada.
— Mari?!— ele sussurra
— Oie. Will. Tudo beleza? Eu, er, me perdi. Sou meio, er, sonâmbula.
Oh, deuses, porque eu não consigo mentir para este garoto?
— Sonâmbula? Mas a porta estava fechada. Tenho certeza.
Aponto para a janela aberta com descaso. Ele ri.
— Garota de Hermes, eu gosto do seu jeito.
Eu fico feliz pelo fato do escuro encobrir minhas bochechas vermelhas.
— E eu de você garoto de Apolo. Não use shampoo.
— O que?
Eu passo por ele, fico na ponta dos pés e sussurro em seu ouvido:
— Confie em mim.
Quando saio, Travis e Connor me afogam com perguntas:
— Porque demorou?
— Will estava cochilando numa poltrona do lado do banheiro— respondo
— Deu certo?
— Deu.
— Ele acordou?
— Hmm, er, sim, mas deu tudo certo, exceto pela tinta, né, CONNOR?
— Cala a boca, Mari. Ou conta o porquê dessas bochechas vermelhas.
E aí está o comentário que eu temi.
— Ah, eu conto sim. Contanto que você me diga por que nunca pregamos peças no chalé da Deméter. O chalé da Katie. Não é por medo que eu sei.
Travis se mete entre nós dois antes que nos ataquemos.
— Ui, a Mari gosta do Will, Travis. Aposto que ela não colocou a tinta. Ficou aos beijos com ele. Babando com a poesia e essas coisinhas de filinhos de Apolo.
— SEU LIMITADO RETARDADO! Pelo menos é poesia não cereal, vagabundo! Eu não o beijei!
Travis me joga pelo ombro como um saco de batatas e eu me debato como louca.
— Vamos acabar acordando alguém. — ele reclama
Connor ri de mim e eu me debato ainda mais.
É quando Will sai do chalé, confuso e sonolento em sua calça de pijama, e, oh, deuses, ele tirou a camiseta.
E meu coração é audível da lua.
— Você tá bem, Mari? Ouvi você gritar e... Ahn?
— Travis, me solte! Eu estou bem, Will. Melhor se ele me soltasse.
Travis me larga e eu caio de bunda na grama gelada.
Will estica a mão para me ajudar e sorri.
Eu a agarro, sua mão é quente, macia e tem alguns calos por causa do arco e flecha. Encaixa-se com perfeição na minha.
— Obrigada...
— E agora ela se derrete e cai em seus braços despidos — crocita Connor
Travis ri e completa:
— Suspirando, como um macaco com falta de ar, e espera que você cante pra ela se acalmar.
Eu bufo.
— Vão se ferrar, idiotas!— eu grito e parto pra cima deles, em uma situação comum sairia em desvantagem, mas hoje a raiva me consome.
Entretanto, algo me puxa pra traz.
Algo não, alguém.
E esse alguém tem as únicas mãos capazes de me fazer parar.
Essas mãos agarram minha cintura e jogam pelo ombro, com muito mais gentileza que Travis, as mãos de Will me deixam menos irritada e seu cheiro me faz derreter. Sol, margaridas, verão e sabonete.
Ele me leva direto para a Casa Grande.
Péra aí. Ele está me levando para a Casa Grande. Eu estou ferrada. Quiron vai me matar... De novo!
Deveria ter sido mais rápida!
— Calma aí, Mari. Não vou te entregar, pare de me bater. E, não, eu não vou te soltar. Pra você sair correndo e sumir? Como sempre?
Percebi um pouco de mágoa na voz dele. Sei que fugi vezes demais, entretanto, não é como se fosse só minha culpa: sim, na maior parte do tempo estou fazendo besteira e toda vez que nossas conversas ficam mais sérias, dou um jeito de mudar de assunto. Mas, não sou eu que vivo rodeada por meus irmãos talentosos e filhas de Afrodite. Não sou eu que exalo confiança o tempo todo.
Eu suspiro.
— Me desculpe.
Ele suspira também e me leva para dentro da casa.
A lareira está acesa e Quiron está sentado em sua cadeira de rodas mágica falando com uma menina de cabelos pretos espetados, com grandes olhos azuis: Thalia.
— Eu preciso deles!— ela suplica
— Não posso enviar quatro campistas sem uma explicação, Thalia.
— Eu não sei como explicar... Mas preciso deles! Recebi um sonho. Tenho certeza que é importante.
Will pigarreia, tentando chamar a atenção de Quíron.
— Hmmm, er, Quíron...
Quíron se vira para nós e se surpreende com a cena. Mais por Will que por mim, já que eu sempre estou envolvida nesse tipo de situação... É claro que normalmente são filhas de Afrodite me arrastando para cá e reclamando sobre as pichações na porta.
Thalia parece achar engraçado.
Will me coloca no chão e diz:
— A Mari estava tendo dificuldades para dormir, e eu também, por isso viemos perguntar se podemos pegar um pouco de chá na cozinha, você sabe, para tentar se acalmar.
Ele é persuasivo, admito. É por isso que os adultos o amam.
Quíron sorri.
— Claro, Will, fique a vontade. E é bom vê-la longe dos problemas, senhorita De Luca.
Mal sabe ele que todos os campistas de Apolo terão cabelos literalmente AMARELOS amanhã...
— Também acho — minto.
Vamos até a cozinha e Will olha acusadoramente para mim:
— Mentirosa!
— Você também não vai mal nessa categoria, Solace.
Ele ri.
— Sou convincente, não mentiroso.
— E eu sou adorável, não encrenqueira.
Ele ri, me puxa começa a me fazer cócegas.
Estou rindo loucamente, quando ele cochicha:
— Eu te acho adorável.
E eu caio na gargalhada.
CALMA. AÍ. PARA. TUDO. ELE. ME. ACHA. ADORÁVEL.
Eu paro de rir.
— Você só pode estar brincando. — murmuro
— Verdade. Você é uma encrenqueirazinha de primeira. A maior, mais irritante, mais baderneira de todo o mundo. — ele fala seriamente.
E quando me dou conta estamos no chão da cozinha da casa grande, estou encima dele e ele está rindo alto.
Mas, uma coisa nos paralisa: a voz de Quíron. Eu caio para o lado.
Ele não está falando conosco, mas o que ele diz me assusta.
— Uma filha e um filho de Hermes, um filho de Apolo, uma filha de Poseidon. Poseidon não tem filhas, você sabe disso.
Eu congelo: filha de Hermes, essa pode ser eu ou qualquer uma das meninas do chalé. Aquelas as quais eu tanto me afeiçoei.
— Eu preciso deles, Quiron. Também não entendo a última parte, mas tenho certeza.
— Em épocas turbulentas como essa, não posso me dar ao luxo de perder campistas, Thalia.
— Os quatro terão a benção de Artemis e muito provavelmente de Hermes. Não será perigoso com o deus viajante os protegendo. Não mais que mandá-los para casa.
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