O Arco Perdido
20 Kathleen - Begin Again.
Notas iniciais
- Adri.
Toronto estava calma e vazia. Eu acho. Acomodei-me no banco de trás, junto com Mari e Travis; Will foi à frente. Eu estava sem muito espaço, mas não reclamei. Mari estava apostando um rim dela que era em Toronto nosso destino – e, bem, ela era filha do deus dos viajantes... Quem era eu, uma mera filha das águas, para discutir com ela?
Mari instruiu o taxista bigodudo com sotaque francês a nos levar em um ponto distante e afastado da cidade, aonde só se enxergava a vegetação natural da região: a taiga. Árvores em formatos de cone, estilo pinheiros, amontoavam todo o local. E não se via mais que isso por ali. Eu lancei um olhar nervoso para Mari, sem saber se aquele caminho estava certo, mas permaneci em silêncio. De novo.
-Ah, aqui está bom. – falou Mari certa altura. O motorista freio bruscamente e reclamou algo em francês e nos tocou para fora do táxi, o rosto vermelho e dizendo em um inglês bruto e incoerente:
-Sumam daqui. Crianças problemas. Crianças cheirar problemas.
Eu tratei de sair, seguida por Travis e Mari estendeu um bolo de dinheiro para o sr. Bigode. Isso pareceu acalmá-lo.
Logo que depois de o motorista fazer a volta, sumir cantando os pneus, Marina se virou em direção à floresta, assobiando; completamente relaxada. Eu e Travis trocamos olhares preocupados e Will pigarreou.
-Mari...?
-Sim?
-Onde, exatamente, estamos indo? – questionou Travis, seguindo a irmã floresta a dentro com uma expressão torturada.
-Ah, saberei quando chegarmos. – falou ela, bem-humorada.
-Ah, vai saber, é? – resmunguei e entrei atrás de Travis. Will foi o último.
-Ela tem um jeito interessante de dizer que estamos perdidos, não acha? – murmurou Will.
-Eu ouvi isso. – falou Mari lá na frente. – E não estamos perdidos.
Eu abafei a risada junto com Travis e a única coisa que podíamos fazer... Era seguir em frente.
..
Uau! Eu parei de chofre e puxei Travis pela camisa. Ele era enorme. Branco. E rosnava para nós.
Will e Mari puxaram as armas, assim como eu e Travis. Eu peguei Katára e o girei, fazendo-o assumir sua forma original. O tridente em minha mão reluziu e pareceu completamente estranho cercado por árvores. Mas era a única arma que eu tinha. Travis trazia uma faca longa e estendeu um braço na minha frente, me empurrando para o lado, para trás dele;
-Não... Movam... Um... Músculo... – murmurou Will com calma e nós obedecemos. Então, o lobo parou de rosnar e se sentou; a língua para fora, os olhos divertidos como se aquilo tudo tivesse sido um pequeno e divertido jogo – claro, quase ter um enfarto era algo muito legal de se praticar.
-Ele.. Ele...
-Prata... – chamou uma voz ao longe. – Boa menina, Prata. Senta. – Thalia Grace se aproximou de nós, com um sorriso radiante... ESPERE AÍ?! THALIA?!
-O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI?! – guinchei.
Thalia me ignorou.
-Olá. Ela está esperando por vocês há um dia e meio. Estávamos prestes a partir quando vocês chegaram.
-Eu... Como... – Travis estava olhando tonto e abestado para Thalia, como um cego olhando o sol. Eu dei uma cotovelada nele, mal-humorada.
Eu cruzei os braços.
-Quem está nos esperando?
-É meio óbvio, não acha? – perguntou Mari. Eu olhei para ela de cara feia. Era óbvio. Mas eu não quis admitir nada; não na frente de Thalia.
- Ártemis. – disse Will, engolindo em seco. Ele parecia mais pálido agora. Que animador...
-Porque Ártemis...? – comecei, mas Thalia me cortou e disse de maneira mais seca:
-Venham comigo. Lady Ártemis tem assuntos a tratar com todos vocês. – coisa boa não pode ser.
Caminhamos pelo que pareceu ser uma eternidade, mas chegamos. Finalmente. Várias barracas de seda prateada estavam armadas, lobos como a que tinha nos parado rondavam por ali. Prata, a loba bipolar que havia nos encontrado, estava brincando de estripar um pedaço de madeira que uma Caçadora havia lhe lançado. Decididamente, eu ficaria longe daquela loba. Andei logo atrás de Travis que seguia Thalia sem muita animação – um encontro com Lady Ártemis não devia ser muito animador para um menino. Will seguia Mari de perto, pálido e com os mesmos ânimos de Travis.
Seguimos Thalia até uma tenda idêntica a todas as outras; quando entramos, encontramos a deusa ajoelhada conversando com uma Caçadora.
-... Mas minha Lady...
-Agora não, Pandora. Temos convidados. Por favor, entrem; sentem-se.
Com olhares apreensivos, os meninos se sentaram. Eu e Mari mais perto de Ártemis. Thalia se sentou ao lado de Ártemis.
-Bem... Vejo que chegaram até aqui. Fizeram uma boa viagem? – Ártemis trazia um olhar divertido e o pousou em mim. Oh, sim, quase morta pelo Senhor dos Céus, mas tudo bem...
Ártemis escondeu um sorriso e quando nenhum de nós a respondeu, ela prosseguiu:
-Chegaram até aqui. Vivos... – o olhar dela recaiu em Will e Mari – e juntos.
Mari corou, mas manteve o olhar firme.
-Espere... – pedi, me mexendo. – O quer dizer com “chegamos até aqui”? Não é aqui onde está o arco? O arco perdido?
Ártemis me olha nos olhos e então balança a cabeça... NEGATIVAMENTE.
Mari se levanta de uma vez só:
-COMO É?! – ela gritou.
Ártemis ergueu os olhos para ela de maneira lenta e letal:
-Sente-se, menina. E deixe-me explicar a situação.
Mari sentou furiosa. Eu não podia culpá-la. Mas que história era aquela agora...
-Nós viemos até aqui – começou Will, o Diplomata. – Mari nos guiou com as coordenadas...
- Aquelas coordenadas eram as primeiras; existe uma segunda. – o silêncio reinou na barraca.
-Eu... Uma segunda? – perguntei, sem acreditar.
-Uma segunda. – concordou Ártemis. Ela estendeu um papel azul celeste para mim e assim que eu o toquei tive uma certeza.... Aquelas coordenadas...
-Ah, essa não... – sussurrei. Mari tomou o papel de minha mão e o examinou de todos os modos, de diferentes ângulos e disse, por fim, completamente frustrada:
-Não... Não consigo nada. Não consigo identificar onde fica...
Eu suspirei.
-É porque não fica em terra, Mari... – comecei e o olhar de todos caiu em mim.
-Está dizendo... Que o Arco Perdido está no meio do mar? Tipo, em uma ilha?
-Pior ainda... — falei. – Fica... Em uma olha inexistente.
..
Ártemis nos fez apurar. De novo. Eu tropecei em algo e quase caí.
-Esse é meu pé, Kath! – falou Travis. Eu avermelhei.
-Desculpe.
-Onde estamos indo? – questionou Will.
-Não pergunte. Por favor. – pediu Mari. A lua estava alta no céu e apenas nós quatro e a deusa havíamos deixado o acampamento há algumas horas e seguimos entre as árvores, nos emboscando cada vez mais adentro da floresta de pinheiros. Seguimos e seguimos; Ártemis sem manifestar nosso destino de chegada. A noite fechava cada vez mais e sons de animais – como lobos famintos rondando – ficavam cada vez mais altos. Eu duvidava que elas atacassem a deusa da caça, mas não custava nada ficar esperta. Katára estava em meu bolso, em vez de meu cabelo e isso me tranqüilizava. Andamos mais um pouco e vimos algo logo à frente: uma caverna.
-Hum, hum... – fez Travis, parando atrás de Mari. Ele olhou para mim, analisando meu rosto, mas eu estava ocupada demais olhando a abertura sombria, escura e grotesca da caverna.
-Pergunta rápida: Vamos entrar nisso aí? – perguntei.
-Exatamente. – concordou a deusa. Eu engoli em seco. Santo Poseidon...
Lugares fechados, escuros e com grande tendência de abrigar animais como cobras, aranhas, escorpiões e cia. não era exatamente o tipo de coisa no manual de “Lugares para ir às suas férias”. Claro que não.
Ártemis indicou a caverna e disse em tom casual:
-Aqui está a segunda parte da tarefa de vocês: Terão que encontrar a ilha e quando chegarem lá leia as coordenadas de traz para frente, Marina. Você saberá exatamente aonde ir. Mas para chegar lá, vocês terão que pedir a ajuda do pai de Kathleen, eu creio.
-Poseidon?! – perguntei, recuando.
-Correto. – concordou ela. – Acho que é isto.
-E quando acharmos o arco? – pergunto Mari, inconsolada. Parecíamos tão perto de acabar com aquela missão... E ela mal tinha começado. – O que faremos?
Ártemis me analisou. A última linha da profecia.
-Acho... Que vocês sabem exatamente o que fazer. – murmurou ela. Eu e Mari sabíamos. Trocamos olhares alarmados. Não, não...
-Muito bem. Já é meia-noite. Andem ou perdem a passagem. – falou Ártemis para todos. Travis e Will nos olharam acusadores; eles sabiam que nós duas escondíamos algo, a última linha da profecia.
-Passagem? – perguntou Marina, para aliviar a coisa toda.
-É. Vão. Agora. – Will olhou para Mari e ela marchou decidida para dentro da caverna... Sendo engolida pela escuridão. Segundos depois ouvimos um grito: o grito dela. Will correu atrás dela e eu me adiantei também. Logo depois o grito de Will, ecoou ainda mais. Eu e Travis entramos na caverna juntos, ao mesmo instante... Mas não havia chão. Caímos desenfreados e eu sabia agora, de primeira mão, como Alice se sentirá ao cair na toca do coelho. Por fim, um cheiro familiar e oceânico invadiu o ar. A queda chegou ao fim. Bati com o rosto na areia. Ergui o rosto. Will estava ajudando Mari a se levantar e Travis se levantava sozinho. Aquela... Aquela...
-Não pode ser. – sussurro para ninguém em especial.
-Aqui é Long Island! – guinchou Travis.
-Não me diga Einsten! – retrucou Mari.
-Oh, não. – falou Will. – Mas não pode ser...
E não podia mesmo. Era impossível que tivéssemos entrado em uma caverna, no meio de uma floresta próxima a Toronto e tenhamos caído em... Em Long Island. ABSOLUTAMENTE IMPOSSÍVEL.
Olhamos em volta, os queixos caídos. Absurdo.
Aquela não era a praia atrás do Acampamento; podíamos ver um cais logo adiante e por isso nos colocamos em movimento.
Os meninos foram na frente, olhando a areia, o mar, o céu, as conchas... Tudo. Só para certificar de quer era real mesmo. Eu fiquei com Mari, logo atrás. Ela deslocava o pescoço de um lado para o outro, examinando tudo, de uma maneira disfarçada.
-Mari? – chamei olhando o sol brincar no cabelo loiro de Will.
-Hm? – respondeu ela de maneira distraída. Encaramos-nos nos olhos.
-Lembra quando lhe pedi para rezar para que nossa missão não envolvesse... O mar?
Ela assentiu; os olhos inflexíveis e sérios.
Eu a encarei carrancuda e disse com a voz mais séria que consegui fazer:
-Você não rezou o suficiente, Marina.
Ela riu e me empurrou pro lado. Eu me deixei sorrir um pouco. Aquilo estava só começando... Na verdade, estávamos começando novamente.
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