O Ar da Guerra

Caminho pelas ruas como se eu estivesse em uma cidade estranha. Olho para as casas que eram tão comuns para mim, que todos os dias ilustravam o meu caminho para a escola, mas agora há algo diferente. As pessoas estão diferentes. Agora há magia – embora eu não saiba muito sobre ela. É por isso que criei coragem para sair de casa. Preciso saber se a magia pulsa em minhas veias. Espero que sim, apesar de ela vir com um preço... Foi ela que deixou essas marcas na cidade. Foi ela que começou a guerra. Mas talvez eu possa proteger minha família.

Os cidadãos de Acigam tentam retomar a vida. Vivemos uma vida inteira acreditando fazer parte de mundo, de uma sociedade, de uma maneira de ser – era tudo mentira. Eu respiro fundo e tento controlar o medo. Olho para os cantos e torço para não encontrar aquela figura negra. Figura que roubou o meu sono desde que a vi. Não sei quem era – se era alguém – e estou certa de que não quero descobrir. Caminho sorrateiramente e vejo uma casa destruída. Sinto um calafrio no corpo e imagino que aquela poderia ser a minha casa. Poderia ser a minha família.

Não sei para onde estou indo. Pelo menos estou indo para algum lugar. Busco qualquer traço de magia, mas não a vejo. Vi coisas brilhantes e sobrenaturais durante a guerra, então presumo que isso seja a magia. Dobro uma esquina e vejo alguns guardas. Gostaria de poder perguntar a eles qualquer coisa. Minha cabeça está cheia de dúvidas, mas não sei como formular as perguntas. Abaixo a cabeça e penso nos meus irmãos pequenos. Estou fazendo isso por eles, eu repito para mim mesma. Viro o rosto e vejo uma pessoa com ataduras, então decido segui-la. Se ela está com machucados, provavelmente estava na guerra.

A garota alta e loira é rápida e cuidadosa. Ela olha para os lados de forma sutil e frequente, como se estivesse com medo de ser seguida. E ela está. Meu coração martela e minhas mãos suam. Eu congelo quando ela me flagra. Eu tento me esgueirar, só que ela é mais rápida – apesar dos machucados. A garota me joga contra a parede de um beco escuro e saca uma faca. Meus pensamentos se embaralham e eu sinto o aço gelado contra a minha garganta.

— Quem é você? — ela rosna e olha nos meus olhos. Eu consigo sentir o medo que emana dela. Consigo sentir o ar de tristeza, arrependimento e receio. É óbvio que ela está com medo.

— Ninguém — eu gaguejo e ela aperta mais a faca contra meu pescoço.

— Por que estava me seguindo?

— Presumi que estava na guerra, por causa dos machucados, entende? Pensei que poderia me levar até a magia.

— Te levar até a magia? — ela ri de forma sinistra. — A magia não vai te salvar.

— É por causa da magia que você está com tanto medo? — eu encaro seus olhos. Ela aperta a faca um pouco mais e eu sinto uma gota de sangue escorrer.

Ela abre a boca para responder, mas um barulho de passos a assusta. Ela vai embora rapidamente e eu respiro aliviada. Caminho com passos largos e engulo o choro. Coloco a mão no pescoço e sinto o corte pequeno. Não vou deixa-la me assustar. Se em Acigam ainda há pessoas como ela, então eu definitivamente preciso proteger as pessoas que amo. E, além do mais, ela não era tão assustadora quanto aquela figura negra de olhos amarelos brilhantes...

Avisto o mirante e decido que talvez a vista da cidade me dê respostas. Caminho apressadamente e chego logo lá. Sinto uma onda de saudade e tristeza no ar. Fecho os olhos e tento fazer essa sensação desaparecer. Abro os olhos e cerco o lugar. Uma estátua chama a minha atenção. Ela não estava aqui antes. Recostada na figura de mármore de um garoto está uma menina ruiva e muito pequena. É dela que emana a tristeza que eu senti antes. Ela tem alguns machucados e está com o rosto inchado de tanto chorar. Eu me aproximo e ela se assusta.

— Não estou aqui para machucá-la — eu digo e ela enxuga as lágrimas. — Não precisa esconder que estava chorando. Eu consigo sentir sua tristeza.

— É meio óbvio que estou triste — ela responde com uma voz rouca.

— O que aconteceu? — eu sento do seu lado e cruzo as pernas.

— Por que está perguntando? — ela me encara.

— Porque eu estive trancada desde a guerra. Não sei o que aconteceu. Não reconheço minha própria cidade. Tudo o que eu sei é que houve um conflito. Pessoas morreram. O governo caiu.

Ela me conta tudo o que aconteceu. Todos os pormenores. As baixas, as traições, as pequenas e grandes vitórias. Eu escuto tudo atentamente. Agora entendo o que a magia pode fazer, mas ainda sim quero saber se ela está em mim. Sinto vontade de lutar, de gritar com os governantes que nos manipularam por tanto tempo. Ela termina a relato e pergunta:

— E qual é a sua história?

— Ficamos sabendo que haveria guerra através de um vizinho. Ele disse para reforçarmos as portas e estocar comida. Fizemos isso. Fomos para o porão, eu, minha mãe e meus dois irmãos pequenos. Levamos toda a comida, mudas de roupas, recipientes, facas, enfim, tudo o que podíamos e que era possível. Fizemos uma barricada na porta principal e na porta que leva ao porão. Ficamos uns dois dias lá embaixo sem sabermos o que estava acontecendo. Estávamos com muito, muito medo. No terceiro dia eu resolvi sair do porão para ver o que estava acontecendo. Desfiz a barricada e subi as escadas aterrorizada. Fiquei olhando por uma fresta na janela por alguns minutos e nada acontecia. Não havia nenhum barulho, nada. Cheguei a ficar feliz com a chance de a guerra ser uma mentira, um boato falso. Mas aí eu vi algo que nunca vou esquecer. Uma figura preta, sinistra, de olhos brilhantes e amarelos — a garota ruiva estremece e eu paro a narrativa.

— Você viu um silenciador — ela diz e lembro do que ela contou. Eles eram os inimigos. Inimigos mortais. Eu revejo a imagem do silenciador e sinto um frio avassalador. — Ele te viu também? — ela pergunta.

— Não. Eu me abaixei assim que o vi. Começaram os gritos e eu voltei para o porão. Ficamos lá por vários dias. Eu olhei pela janela mais algumas vezes e vi coisas brilhantes dançarem pelo ar. Vi a magia. Quando percebemos que a guerra acabara, saíamos de casa só para comprar comida e suprimentos básicos. Estávamos com muito medo. Os vizinhos contaram histórias terríveis. Nos comunicávamos pela janela dos fundos. Eles também estavam escondidos. Essa é a primeira vez que eu saio fora do meu perímetro.

— Você não precisa ter mais medo, estamos em paz agora — ela tenta me tranquilizar. Eu lembro da garota loira e sua faca, mas decido não comentar nada.

— Qual é o seu nome? — eu pergunto.

— Boom. E o seu?

— Fiona — eu suspiro. — Boom, por que você está triste?

— Por causa da guerra, não é óbvio?

— Você perdeu alguém especial? — a pergunta sai dos meus lábios por impulso. As cores sumirem do seu rosto. Ela olha para a estátua e uma lágrima escorre pelo seu rosto salpicado de sardas.

— Perdi.

— Eu sinto muito — tento concentrar na sua tristeza, mas estou agitada demais para isso. Eu sempre consigo acalmar meus irmãos, gostaria de fazer o mesmo por ela.

— Eu também — ela fica em silêncio por alguns minutos e depois continua: — Qual é a sua forma de magia, Fiona?

— Eu não sei. É o que eu estou procurando descobrir.

— Você já fez algo de diferente? Já sentiu algo anormal?

— Não, acho que não. A única coisa que faço de diferente é sentir as emoções.

— Sentir as emoções? Como assim?

— Eu sinto o que as pessoas sentem. Mas posso parar de sentir a qualquer momento. Posso fazer elas se acalmarem. Só que isso não é magia.

— Pode ser. É algo diferente. Nunca vi ninguém fazer isso. Você pode me mostrar?

Eu balanço afirmativamente a cabeça. Respiro fundo e concentro na presença do ar. Imagino pequenas partículas de ar levando a dor de Boom até mim. Seguro as partículas, mas não consigo senti-las. Abro os olhos e vejo que ela parece intrigada. Solto a respiração e pergunto se funcionou.

— Sim, funcionou. Como fez isso? — Boom pergunta animadamente.

— Eu só respirei fundo e imaginei a sua dor vindo na minha direção.

— Você consegue sugar emoções. Interessante.

— Então é isso o que eu posso fazer? É essa a minha magia?

— Não estou muito certa. Você consegue projetar emoções?

— Não sei. Posso tentar.

Respiro fundo novamente e penso em algo feliz. Penso nos meus irmãos sorridentes e na minha mãe cantando. Imagino as moléculas de ar carregando esse sentimento até Boom. Abro os olhos e ela abre um sorriso.

— Eu me sinto feliz. Nossa, você consegue projetar emoções!

Solto o ar e vejo Boom desmanchar o sorriso.

— Como isso pode ser útil? — eu pergunto.

— Não percebeu? Você pode colocar medo nos seus inimigos! Raiva, felicidade, compaixão... Vamos tentar!

Nós testamos diversas emoções até escurecer. Percebo que já é hora de voltar para casa, minha mãe deve estar preocupada. Despeço de Boom e agradeço pela ajuda. Ela me convida para aprender um pouco de combate corpo-a-corpo amanhã. Eu aceito e fico feliz por ter feito uma amiga. Faço meu caminho para casa e observo o caminho de novo. Tudo ainda parece diferente, mas agora eu também. Eu tenho magia. E apesar de não ser algo tão espetacular como explodir as coisas e fazer várias cópias de mim mesma, fico satisfeita por me encaixar nesse novo mundo.

Talvez eu posso fazer com que ele seja um lugar melhor dando conforto ao próximo, mesmo que seja por um curto período. Talvez eu possa ajudar os sobreviventes da guerra, já que posso saber o que eles sentem. Lembro da garota loira e do medo que sentia. Gostaria de poder ajudá-la. Gostaria de poder ajudar a todos. Vejo outra pessoa com machucados recostada numa parede de uma casa. Tento sentir o ar que a envolve. Essa pessoa também sente medo. Vou até ela, abro um sorriso e digo:

— Eu sei como você se sente.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!