Notas iniciais
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Eu havia acordado no início da madrugada. A casa estava silenciosa, então queria dizer que todos estavam dormindo. Também não seria muito difícil escapar. O Condado de Chippewa (Michigan) era muito tranquilo e com poucas pessoas, uma "aventura" dessas era bem incomum pra maioria.

Havia pegado uma bolsa com as coisas que iria precisar e me lembrava das palavras da minha amiga, Neena, hoje de manhã:

– Shania, você tem que ir a essa festa, vai ser legal e vai ter muitas pessoas, e garotos pra você conhecer, que tal?

– Não sei, Neena. Eu não sou muito acostumada a festas e se meus pais me pegarem, eles vão me matar!

– Está com medo te lançarem uma maldição? Fala sério, Shany! Você tem que se arriscar um pouco! Tem que sair e se divertir, tente se "aventurar", sabe?

– Sim...Eu sei. Tudo bem, você ganhou! Eu vou a essa festa, mas se estiver alguma coisa errada, eu vou ir embora com ou sem você, ouviu?

– Ahhhhhh! Ela vai mesmo! Graças ao Grande Espírito, ela vai!

– Okay, agora para sua maluca! E onde vai ser essa tal festa, posso saber?

– Ela vai ser num círculo na fogueira na floresta ao norte, só seguir a trilha e vamos nos reunir de madrugada

– Tá, muito seguro, floresta sinistra no meio da noite com várias pessoas estranhas

– Deixa de ser medrosa! E não são pessoas estranhas, são pessoas que você vai achar legal, e pode fazer amigos ou quem sabe um namorado?

– Chega de imaginação fértil por aqui! Okay, eu vou, mas só porque eu queria sair um pouco mesmo e por que você vai estar lá

– Okay, te espero de noite, amiga!

Havia colocado minhas botas de camurça, calça jeans, blusa e casaco. Ajeitei meus cabelos morenos por trás dos ombros e pulei a janela. Meu quarto era no segundo andar, mas não era muito alto, por isso eu cai no chão de pé. Olhei em volta para ver se não havia ninguém e corri pela rua na direção norte.

***

Eu achava que seria difícil de encontrar a fogueira, porque o céu estava bem escuro aquela noite e iria encobrir qualquer indício de fumaça, mas seguir a trilha de galhos e folhas que foi deixada propositalmente lá foi bem conveniente. Depois de um tempo de caminhada, finalmente cheguei numa clareira aberta, mas estava tudo escuro e eu não conseguia ver nada.

– Ahn...Tem alguém aí?

De repente a fogueira se acendeu como se tivesse explodido, me fazendo dar vários passos pra trás e um monte de gente saiu de arbustos e por detrás das árvores.

– Uhuuuuuu! Mais uma chegou pra festa! — disse um garoto gordinho que estava com uma garrafa na mão

– Sorte que não era nenhum "tira", se não estaríamos ferrados — falou outro garoto do lado do gordinho

– Shanyyyyyy!!! — disse a Neena que nem louca vindo me abraçar, o que de certo modo me acalmou

– Também te amo, gata! Mas podia ser um pouco menos, por favor?

– Essa aqui é minha amiga super linda e solteira, Shania Namid, uma salva de palmas pra ela, galera!

Todos começaram a bater palmas e gritar, alguns garotos assoviavam (N/A: Ou assobiavam, sei lá) e algumas pessoas vieram me cumprimentar. Não preciso nem dizer que eu fiquei que nem um pimentão vermelho na hora, não é? A Neena me passou um copo vermelho de plástico e lá tinha uma bebida transparente e fria que eu não tive vontade de beber, então eu deixei no chão e andei até um dos troncos que estavam no chão servindo como bancos.

Fiquei um tempo observando os outros: Tinham um grupo de garotas que ficavam conversando entre si e dando umas risadinhas, alguns garotos ficavam dançando em volta da fogueira que nem loucos e algumas pessoas acompanhavam eles e alguns casais que ficavam trocando saliva ou se pegando (uma cena nada agradável), mas o que me chamou atenção mesmo foi um garoto que estava distante de todos. Ele estava encostado numa árvore perto da floresta e olhava pro céu. Ele tinha cabelos morenos meio cacheados, olhos claros, um porte físico meio musculoso e uma postura relaxada.

– Pra onde a senhorita estaria olhando? — perguntou Neena sentando ao meu lado do banco

– Nada, apenas uma coisa interessante — respondi dando de ombros

– Se essa coisa interessante for uma árvore, então você precisa achar coisas mais interessantes — ela disse indicando com a cabeça uma outra trilha pelo oeste

– Não, obrigado. E ele não seria uma árvore, ele está bem... — mas quando virei o rosto,ele não estava mais lá

– Okay, se você está inventando um garoto imaginário só porque não está afim de conhecer nenhum garoto real dessa festa, pode se levantando agora, senhorita! Que você vai ter um pouco de diversão hoje — ela disse se levantando e me puxando junto

Ela foi me puxando pela trilha oeste, enquanto eu ficava reclamando e tentando explicar pra ela que não havia inventado garoto nenhum, mas ela não me deu ouvidos e continuamos andando. Quando a trilha acabou, me vi diante de um grande lago negro. Também vi que tinham algumas pessoas a alguns metros de nós, perto de um tronco que servia como banco, todas conversando. Então, a Neena foi me levando até lá e eu não sabia pra onde correr:

– E aí, galera! Tudo beleza?

– E aí, Neena! — responderam

– Neena, quem é essa garota linda aí com você? — perguntou um garoto alto que me deixou com vergonha

– Essa daqui é minha linda e desacompanhada amiga, Shany. Essa é a primeira festa dela, então acho que ela precisa de uns...atrativos — Respondeu sorrindo

Posso dizer que meu alerta de "plano maluco da Neena" disparou que nem louco, mas só o que eu pude fazer foi olhar pro lago. Mesmo estando bem calmo, tive a sensação de que tinha algo lá, no fundo, me observando, esperando...

– Shany? Alôôô? Terra chamando Shania?

– Ahn...O que?

– Desculpa, galera, ela está meio avoada hoje. Deve ser a bebida.

– Nada. A bebida está uma droga, mas é o melhor que temos nessa maravilhosa cidade — respondeu uma garota morena cinicamente

– Shany, nós estamos pensando em jogar verdade ou desafio? Tá afim?

– Ah...não sei, não...não sou muito de jogar esses jogos...

– Qual é, Linda, está com medo de encarar isso? Se for muito pra você nós entendemos, não é, Iris? — falou o garoto alto pra morena

– É, Scott, esse jogo é pra pessoas corajosas, não queremos ninguém medroso aqui, não queremos ver nenhum "bebê chorão" — continuou Iris

Normalmente eu não ligaria pra comentários assim, mas não gosto que me chamem de medrosa (Mesmo eu sendo um pouco, sim), ainda mais depois de um desafio. Então não sei o que me deu pra dizer:

– Okay, só porque vocês me imploraram, eu vou jogar esse jogo besta! — disse sorrindo e me sentando no tronco ao lado do Scott

– É isso aí, Shany! Isi, pode passar a garrafa? — perguntou Scott pra um garoto careca na frente dele

– Tá Scott, mas eu não terminei de beber

– E você deveria parar mesmo, já é bêbado o suficiente quando está sóbrio. É só jogar o resto no lago e vamos começar

Então ele fez o que o Scott disse e eu tive impressão que algo se mexeu ali, mas ignorei. O jogo havia começado e eles já estavam pegando pesado: foi de confissões de decepções amorosas para micos de família, e os desafios foram de dedo molhado no ouvido a beijo na pessoa do seu sexo. Pelo menos demorou um bom tempo pra chegar a minha vez, mas me decepcionei quando a garrafa parou entre mim e a Iris:

– Uuuuuuu, agora que vai ficar interessante mesmo — comentou Scott — Isis, você pergunta pra Shany

– Shany, verdade ou desafio? Se você for capaz... — ela disse cada palavra lentamente, o que me causou um arrepio involuntário

– Eu...é...eu escolho...acho que...é...

– Escolhe qualquer coisa, Shany! — disse Neena

– Eu escolho...desafio — falei baixinho

– Uuuuuuuuuu — fizeram todos

– Eu...te...desafio...a... — ela falou lentamente, mais arrepios

– Rufem os tambores! — falou Isi e todos fizeram do tronco um tambor improvisado

– Brincar de 7 minutos na floresta com o...Scott — ela responde, o que todos responderam com "UUUUUUUUU"

– Você está de brincadeira, né? Está de madrugada, entrar naquela floresta não é opção e eu posso me perder!

– Ah...a "bebê chorão" está com medo! Não fique preocupada que o lobo mau não vai de machucar, muito — ela comentou e todos riram, menos a Neena

– Olha, se ela não quiser ir, ela não precisa — defendeu Neena

– Sim, está certo, mas...se ela não cumprir o desafio, vai ter que responder a "verdade" ou cumprir um desafio, ainda pior — respondeu Iris com um sorriso malicioso

– Okay, qual é a pergunta besta? — perguntei esperando que não fosse tão ruim quanto achava

– Você é virgem, Shany? — Iris fez questão de perguntar e se fez um silêncio ansioso nos outros

– I-Isso é muito pessoal, não vou responder esse tipo de pergunta! — bufei

– Você está muito fresca, hein? Tudo bem, se não quer vai ter que cumprir o outro desafio!

– Okay, qual é então?

Ela chegou perto de mim e sussurrou o desafio no meu ouvido, só pude arregalar os olhos e ficar com o rosto mais vermelho, tive vontade de me enfiar num buraco se quer saber.
– Mas de jeito nenhum que eu vou cumprir esse desafio besta! Prefiro mil vezes cumprir o primeiro desafio do que fazer isso!

– Tudo bem, bebê chorão, se acha que tem coragem suficiente pra isso

– Sim, eu tenho! E depois que cumprir essa não quero você me chamando mais de "bebê chorão", okay?

– Okay, o Scott vai junto com você, caso você cumpra o desafio sem sujar a fralda...eu paro de te chamar de bebê chorão, mas duvido que isso aconteça — respondeu com seu sorriso cínico
– Vamos, Scott. Estou afim de voltar logo e dormir pra ver se me acalmo!

Nem esperei que ele respondesse e o puxei pela mão em direção a floresta.

Nem imaginava que indo até lá, minha vida mudaria para sempre.
*

**

Estávamos andando a pouquíssimos minutos, que pra mim pareciam horas, e nós adentrávamos cada vez mais na floresta. Estava bem escuro, as árvores eram tão altas e retorcidas que quase cobriam o céu nublado e o único som que se ouvia eram os vento arrepiante, os galhos que se quebravam as nossos pés e as folhas jogadas no som. Scott se manteve ao meu encalço, tão perto que dava pra sentir a respiração dele no meu pescoço, quando perguntei sobre ele disse "Era para o caso de algum animal selvagem te atacar por trás, assim estará protegida", mas desconfie (ou melhor, tive certeza) de que era por medo.

– Scott — chamei

– O que foi? — perguntou assustado

– Ah...só quero saber quantos minutos se passaram

– Deixa eu ver...uns 3 minutos — respondeu conferindo seu relógio

– É impressão minha ou o tempo costuma passar lentamente nessa floresta?

Scott já iria responder quando ouvimos um galho se partindo alto. Ficamos paralisados por uma fração de segundos até eu puxar Scott para detrás de uma árvore. Fiquei com os ouvidos e olhos atentos para saber o que estava vindo. Ouvimos mais galhos se partindo e alguns sussurros desconexos. Depois um silêncio assustador se fez na floresta, até mesmo o vento havia parado totalmente. Só conseguia ouvir o som das nossas respirações baixas e do meu coração acelerado.

– O que está acontecendo? — sussurrou Scott

– Eu não sei, mas tem algo lá — sussurrei de volta

– Ta-talvez seja só uma coruja ou um esquilo — Scott sussurrou, mas estava tremendo atrás de mim

– Não, o som é alto demais pra ser algo pequeno e estou tendo uma sensação ruim...

Estava sussurrando quando vi uma garotinha sair por detrás de uma árvore mais adiante. Ela tinha cabelo loiros, pele pálida, estava com a aparência e roupas esfarrapadas e sujas. Tinha um rosto triste e desolado, mas não pude deixar de notar o brilho estranho que tinha em seus olhos.

– Ah, tudo bem... — Scott suspirou aliviado — É só uma garotinha, não deu tanto medo. Ela deve estar perdida, é melhor ajudarmos

Ele foi se levantando quando eu fiz questão de segurar em seu braço e no meu rosto eu carregava uma expressão preocupada:

– Eu não sei se essa é uma boa ideia. Uma garota no meio do nada, com certeza é estranho e ela bem que poderia te gritado por ajuda, em vez de se esconder por detrás de árvores, e além disso não estou tendo uma sensação boa — tentei alertar

– Qual é, Shany! Vai me dizer que está com medo de uma simples garotinha? Acho que a Iris tem razão em te chamar de "bebê chorão" — respondeu

Ele sorriu sarcasticamente e puxou seu braço, andando em direção da garotinha. Eu só pude me abaixar mais e observar de longe. Ele foi se aproximando mais da garotinha tentando conversar com ela:

– Olá? Você...está perdida? Não precisa ter medo, não vou machuca — la. Estou aqui pra te ajudar. Onde está sua família? É só me dizer que levaremos você até eles

– Você não pode me levar — ela respondeu baixinho e com um olhar mais triste

– Não fique com medo, não te faremos nada, pode confiar em nós — a essa altura ele estava bem perto dela e ela havia abaixado a cabeça

– Ah...eu confio em você, mas você não deveria confiar em mim — nesse instante uma sombra enorme começou a se formar nos pés dela — E você não pode me levar até minha família, porque eles estão mortos, assim como você vai ficar

Então a pior cena que eu já havia vista aconteceu: a garotinha tinha levantado a cabeça e ela não era mais uma garota, mas sim um monstro horrendo com grandes olhos totalmente brancos e fundos, seu nariz havia escolhido e no lugar de dentes comuns haviam dentes afiados e um sorriso maléfico, além de suas unhas terem crescido e se transformado em garras.

Scott ficou paralisado diante da cena que havia vista, assim como eu, então a sombra começou a se mexer e chegou debaixo dos pés dele. No principio nada aconteceu, mas quando Scott tentou correr daquela armadilha, ele não conseguiu sair do lugar. Eu queria fazer alguma coisa, queria mesmo, mas não sabia o quê, e eu estava aterrorizada demais pra pensar em algo. Então aquele monstro pulou em cima do Scott e usou suas garras e dentes para rasgar cada pedacinho de sua carne exposta, sangue escuro escorria pelas árvores, folhas e sombra a sombra que o prendia. Ele gritava sem parar e tão alto, que eu cobri os meus ouvidos com as mãos, enquanto chorando desesperadamente. Isso deu oportunidade do monstro cortar sua língua e arrancar seu coração, que ela jogou na sombra, fazendo o mesmo com o corpo recém-triturado de Scott, fazendo ele desaparecer por completo.

Então o monstro voltou a se transformar, mas ao invés de virar uma garotinha, ele virou Scott, em seu estado perfeito como se nada tivesse acontecido. Isso me fez soltar um gritinho desesperado sem querer. Eu só pude virar de costas e me esconder o quanto podia na árvore.

– Shania...eu sei que você está aí — cantarolou o monstro com a voz de Scott — Não tem onde se esconder, se eu te achar será pior pra você. Menina-Sem-Pais, não comandará de novo!

Estava sentido ele chegar cada vez mais perto e com pânico, fechei os olhos e me encolhi. Quando ouvi um barulho de uma lâmina sendo arremessada com rapidez e um grito de dor. Olhei para trás para ver o que estava acontecendo e não acreditei!

O monstro estava de costas pra mim, de joelhos, olhando pra cima e grunhido irritado. De seu ombro saia uma fumaça negra e densa, que aos poucos, ia se regenerando.

– Maldito! Vou cortar você em pedaços tão pequenos que nem vão servir pra alimentar os urubus! — vociferou o monstro

– Antes disso você tem que vir aqui me pegar! E não existem urubus em Michigan, se não eles já teriam acabado com você facilmente! — gritou um garoto de cima de uma árvore

Não podia vê — lo direito, porque ele estava muito no alto e ainda estava escuro, mas desconfiei de que ele estava ali para me ajudar. Eu poderia ter corrido naquele momento, mas queria saber o que iria acontecer e não poderia deixar aquele garoto ali, caso ele não conseguisse escapar do monstro. E bem, o que ele disse só fez o monstro ficar com mais raiva, o que fez o monstro saltar o mais alto que pode na árvore e usando suas garras começou a escalar. Ao contrário do que eu esperava, ele estava muito calmo até, calmo demais. Quando o monstro finalmente consegui subir na árvore, ele deu um salto tão grande em direção do garoto, que eu pensei que ele iria o destroçar inteiro. Aí que a coisa ficou mais estranha, o garoto pegou um tipo objeto por debaixo da blusa e ela começou a brilhar forte, tão forte que eu tive que virar os olhos para não me machucar. Quando eu me virei novamente a criatura havia sumido.

Agora, no chão, estava o garoto com um sorriso orgulhoso e um apanhador de sonhos? Ele era vermelho com penas vermelhas e brancas embaixo e suas linhas entrelaçadas pareciam um sol. E quando olhei pra cima, me surpreendi: era o garoto que a pouco eu havia visto perto da floresta. Eu não sabia o que fazer, agradecer ou fugir. Tudo que pude fazer foi ficar parada e observar.

O garoto virou pra trás e pude observar um símbolo, na sola de seus sapatos. De uma colina, um pouco distante, desciam um garoto e uma garota usando roupas parecidas com as do garoto.

– Quidel, tudo bem? Ouvimos um barulho... — falou um garoto loiro

– Tudo tranquilo, Wayra. Você sabe muito bem que eu posso cuidar de qualquer coisa sozinho — respondeu orgulhoso

– Para de se gabar e responda logo Quidel, o que era? — perguntou firme uma garota morena de cabelos curtos

– Humm...Eu não sei — respondeu envergonhado

– Está vendo! Você destrói as coisas sem saber o que elas são! E se ela tivesse te machucado ou pior... — falou ela com uma certa preocupação — Ahh...Vamos, me diga como ela era

E o garoto, Quidel, foi descrevendo a criatura para a morena e seus olhos demonstravam certa surpresa

– Era um Acheri, ele se apoderam de um corpo humano pelas sombras e , ou o mata e o suga para suas sombras ou o deixa incrivelmente doente, a ponte de possuir seu corpo — respondeu o loiro

– Sim, eu me lembro, mas não era pra ele estar tão abaixo das montanhas — falou a morena preocupada

– Não tem nada com o que se preocupar, Nita. Eu já acabei com essa coisa mesmo e não vamos vê-la tão cedo — respondeu Quidel

– É mesmo, Nita. Sorte dele que ele usou um "transportador do sol", Acheris não gostam de vermelho e nem de sol — continuou o loiro

– Okay, mas tente ser mais cuidadoso depois e não tente fazer nada sem nós — falou a morena, Nita

– Tudo bem, vou ser mais cuidadoso, mas você sabe que eu posso fazer isso sozinho mesmo

– Quidel, isso não foi um pedido, foi uma ordem — Nita falou com firmeza

Achei que aquela era a oportunidade perfeita para sair de fininho, aquelas pessoas eram loucas mesmo, não queria que eles me pegassem. Infelizmente estar numa floresta não ajudou e acabei pisando num galho solto que fez um barulho bem alto (pelo menos foi o que eu achei).

Imediatamente eles moveram as armas pra mim: a Nita estava com uma balestra, Quidel estava com uma espécie de adaga com duas lâminas e o Wayra estava com algum tipo de disco.

Eu paralisei no mesmo instante e coloquei as mãos pra cima como sinal de rendição. Quando viram quem eu era relaxaram, não o suficiente para abaixarem as armas.

– Quem é você e o que faz aqui? — perguntou Nita com firmeza

– E-e-eu estava... — olhei pro chão procurando o que dizer — eu vi o Acheri e ele estava atrás de mim, se você não tivesse acabado com ele, nem sei o que teria acontecido — falei pro Quidel

– Sorte sua, se não ele teria te rasgado inteira, talvez sobrasse alguma coisa — zombou Quidel

– Espera aí, como você conseguiu ver o Acheri em sua forma normal, ou melhor, como você consegue nos ver? — perguntou Wayra

– O que? Como eu não poderia ver vocês? Isso seria... — mas parei ao ver que quando piscava os olhos lentamente suas imagens tremulavam

– Você não deveria estar aqui, fale agora quem é você ou faremos pior que o Acheri — Nita se pronunciou, acho que ela não estava brincando

– Sou Shania, Shania Namid. Eu só estava...passeando pelo floresta com meu amigo, Scott, quando aquela coisa apareceu e...pegou ele — respondi e fiquei triste por não ter feito nada

– Sinto muito te dizer isso, mas ele está morto, bem morto e eu acho que você já percebeu isso. Então porque você não esquece sobre o que aconteceu e volta pra casa tranquilamente — falou Quidel

– Não! Eu não vou me esquecer sobre isso, aquela coisa matou o Scott, temos que falar com polícia sobre isso, avisar aos outros — falei desesperada

Tudo o que eles fizeram foram rir. Eu comecei a sentir um gosto ruim na boca e achei que eu deveria ter ido embora enquanto o monstro atacava o Quidel.

– E porque você acha que eles acreditariam em você? — perguntou Nita

– Porque...porque...eu vi...e se acontecer de novo com mais alguém...eu... — respondi amargurada

– Olha, garota, sabemos bem o que fazer e não vai acontecer nada. É melhor você ir pra casa e esquecer o que aconteceu aqui, talvez você fique melhor assim — falou Wayra com um sorriso de lado

– Lembre-se você não viu nada — firmou Nita

Eu só pude assentir com a cabeça e comecei a andar devagar pelo caminho de volta, não antes de ouvir uma coisa que me deixou preocupada:

– Vamos deixa-la ir assim, sem mais nem menos? — falou Quidel

– Não, quando chegar o momento certo, ela vai voltar e estaremos aguardando. Senti que ela é diferente dos "Nativos" normais.

Comecei a apertar o passo e tentei evitar o caminho normal para não precisar responder nada. Logo cheguei em casa e me joguei na cama, me troquei e chequei o celular, nenhuma mensagem da Neena. Eu não conseguia deixar de pensar no que aconteceu e do que eles indagavam como se eu fosse de outro mundo. O monstro havia me chamado de "Menina-Sem-Pais", não entendi isso porque eu tinha pais que amava muito e os garotos haviam dito que eu era "diferente dos nativos normais", o que isso queria dizer?

Apenas tentei dormir, demorou um tempo, porque toda vez que eu fechava os olhos me lembrava de Scott. Mesmo o tendo conhecido a pouco tempo, ele não merecia um destino assim e isso me atormentava, porque eu não pude fazer nada. Eu era medrosa e a Iris tinha razão mesmo em me chamar de "bebê-chorão", do mesmo modo que aqueles garotos me trataram como uma "garotinha". O que eu faria agora? Esqueceria ou buscava por respostas?

Foi com esses pensamentos que eu adormeci normalmente, sem sonhos.

***

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Notas finais
Só mais uma coisa que eu esqueci de dizer... PARA ME SEGUIREM NO INSTAGRAM: @ColoranaDias - para mais informações e fotos
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.