O Anoitecer na Rua Himmel
1 Único
Notas iniciais
~ não, a história original não acaba assim, mas bem que poderia.
*.*
*.*
Mas não é essa a questão. A questão toda está mais relacionada com um homem escondido no porão do número 33 da Rua Himmel. Um homem doente, um casal sempre a discutir, e ela, a pequena ladra de livros, sempre preocupada com o estranho em sua casa. E é bem verdade que no inicio a idéia de ter alguém estranho em casa a assustava, mas depois – depois de descobrir um pouco mais sobre ele e sobre ela mesma – as coisas mudaram de figura. E ela seria capaz de qualquer coisa para não vê-lo ir embora também. Enquanto nossa pequena ladra de livros fazia tanto quanto podia para manter seu adorável estranho acordado, enquanto lia para ele livros e mais livros, este continuava lutando. Max lutava para continuar acordado, para não desapontar a menina ao seu lado, para derrotar o Führer de vez e, com mais força do que acreditava ser capaz, lutava para manter-me longe daquela casinha pequena e fria. Mas era impossível ficar longe dali por muito tempo. Eu precisava levá-lo comigo, mas o que aconteceria a pequena Liesel? Seria ela capaz de suportar outra perda como aquela? Já havia levado seu irmão, o Führer levara sua mãe; não poderia fazer aquilo de novo. Mas, ao contrário do que imaginam, a guerra é como um novo chefe, que exige de você mais do que é capaz de fazer. Como se não bastassem as pilhas de corpos para cuidar – sem nem me ter recuperado dos estragos feitos por Stalim –, ainda tinha de dar um jeito naquela situação. Tinha de levar a alma de Max embora, custasse o que custasse, custasse a quem custasse. E custaria demais a Liesel. Sabia disso porque depois das minhas rondas diárias sempre ficava observando aquela família, de um canto onde nenhum deles pudesse me perceber ali. Mas ela sabia. Liesel sabia que eu estava lá. Sabia que eu o levaria, mais cedo ou mais tarde. Sabia que também não a levaria desta vez. Mas ela queria ser mais rápida, queria me passar a perna de novo. E enquanto lia para Max ela maquinava um plano para dar um jeito em mim. Liesel não sabia ao certo o que faria, nem como faria. Mas faria alguma coisa. Ela não deixaria a Morte ou o Führer tirar dela a pessoa de quem mais gostava. E não deixou. Uns dias depois, ao chegar da ronda diária, deparei-me com uma cena que não esquecerei jamais. Havia uma garotinha magrela, um homem doente, um homem e uma mulher chorando. E não havia mais nada. Liesel tinha conseguido de novo. Se não a podia levar, iria por si só. E então não se separaria dele nunca mais. E apesar de não passar de uma menina que roubava livros de pouco mais de treze anos de idade – pouca experiência, mas muita história para contar –, não me espantei tanto quanto imaginei que me espantaria com o que ela fez. Naquele dia, quando fui ao escritório do chefe prestar contas do serviço do dia que se encerrara, encontrei a ladra de livros andando junto ao irmão, a mãe e ao Max. Os três caminhavam tranqüilamente por sobre as nuvens. E, ao contrário do que presumi, o chefe não ficou de todo decepcionado quando viu os quatro por ali. E estava tudo bem de novo. Pelo menos por enquanto. Só até a próxima a guerra, ou até a próxima menininha magrela que rouba livros cruzar meu caminho. Mas essa já é uma outra história. Uma história a ser escrita.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
Fale com o autor