O Ano em que Hogwarts recebeu a Nova Geração
1 Boas vindas
Notas iniciais
Com o cabelo ligeiramente bagunçado o rapaz se afastou com um olhar satisfeito para a jovem corada à sua frente. Os lábios de batom borrado denunciavam os momentos de êxtase. Entre os malões e gaiolas daquele vagão esquecido os dois voltavam a se beijar sem pudor, não se importavam com o protesto silencioso das corujas daquele ano. O rapaz começava a desvencilhar-se da jaqueta quando a porta foi subitamente escancarada para dar lugar a uma monitora-chefe visivelmente aborrecida.
- James Sirius Potter! – Ela exclamou enquanto lançava um olhar furioso ao casal separando-se de imediato. A garota levou as mãos até a boca, seu olhar assustado transfigurou-se em constrangimento quando identificou a monitora. O rapaz coçou a nuca um pouco embaraçado enquanto tentava alinhar a camiseta amassada.
- Qual é Lucy, essa viagem demora demais, só estávamos nos divertindo um pouco. – Ele desviou o olhar quando a recém-chegada rolou os olhos e bufou algo desconexo fazendo sinal para que os dois saíssem dali.
- Você sabe muito bem que eu não posso mais encobrir suas furadas, James. – Lucy Weasley soltou com um tom irritadiço enquanto dava passagem ao setimanista e à quintanista da Grifinória. Ela lançou um olhar especialmente desapontado à garota que seguia encabulada os passos malandros de James Potter. – Essa é ótima, o ano sequer começou e já serei obrigada a retirar 10 pontos de cada um por estarem enfurnados no vagão de malas fazendo... Fazendo sabe-se lá o quê. – Ela concluiu decidida quando foi barrada pelo primo indignado que cruzava os braços em sua frente.
- Ah, você só faz isso porque não é a sua preciosa Corvinal. – Ele respondeu em uma encenação exagerada da prima em seus monólogos sobre a superioridade ravina. A grifina abafou o riso mesmo sob o olhar de repreensão de Lucy fazendo com que James assumisse sua típica postura piadista. – Pronto priminha, você pode voltar a decorar todas as normas bruxas sobre convivência social do século XIII, já estamos dando linha.
- Cheio destas expressões trouxas. – Lucy respondeu enfadada enquanto via o casal afastar-se entre risos, aparentemente esquecidos da timidez anterior. – Você anda convivendo muito com o vovô.
Ela sabia que não adiantaria revidar as provocações de James Potter e vislumbrou o rapaz enlaçando furtivamente a jovem loira pela cintura antes de sumirem pelo corredor abarrotado de estudantes. Com um balançar de seus curtos cabelos ruivos e um olhar desaprovador por baixo dos óculos, Lucy entrou na cabine dos monitores, conhecia alguém que não gostaria nada de ouvir aquela história.
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- Pô, mas rápido assim? – O rapaz com pele acobreada riu debochado quando viu o companheiro de Casa entrar desapontado na cabine.
- Se eu fosse você tiraria esse sorrisinho do rosto Fred, a bitolada da Lucy descobriu nosso lance do último vagão. – James se jogou em uma poltrona enquanto o companheiro o mirava estarrecido.
- Como assim descobriu? Não é possível... Espera aí. – O rapaz passou os dedos entre os cabelos encaracolados quando entrou em um choque de realidade para logo depois cair no riso. – E ela pegou vocês no flagra? Caramba, eu não quero estar por perto quando a Rox aparecer por a...
Pela segunda vez naquele dia a porta foi escancarada por uma jovem enfurecida, James Potter, já não mais surpreso pela presença da morena o olhando com ar de censura, se acostumara com aquele hábito desde criança.
- James Sirius Potter! – A garota berrou em uma repetição irracional da prima mais velha.
- Qual é o problema de vocês com essas portas? – O grifino murmurou enquanto se ajeitava. Aquela cabine sempre foi refúgio dos dois amigos e James fazia questão de ocupar todo o assento de forma desleixada, o tênise jeans surrados apoiados na janela. Todo aquele ar malandro, evidentemente herdado do avô paterno, mesclado ao corpo definido pelo quadribol, lhe garantia um estoque de oportunidades quando o quesito era o sexo oposto.
- O senhor poderia por obséquio me explicar o que estava fazendo com a minha melhor amiga no último vagão? – Ela colocava as mãos na cintura em um ato impaciente.
- Você anda convivendo muito com os zonzóbulos do Lorcan, Rox. Eu estava apenas dando algumas aulas particulares para a Izzy. – James respondeu com um risinho compartilhado com Fred. A garota se aproximou ameaçadoramente e apontou um dedo acusador para o rapaz, ela não gostava nem um pouco daquela brincadeira.
- Escute aqui James Potter. Você pode ser meu primo, mas não posso garantir que vá conseguir urinar em pé se você ousar, ousar, escolher Elizabeth Wood para ser seu brinquedinho do próximo final de semana. Eu não aguento mais ouvir todos os dormitórios femininos reclamando de como você adora se divertir e dar o fora. Tudo o que eu menos preciso é da minha melhor amiga choramingando por sua causa no ano dos meus NOMs. – A garota tomou fôlego antes de dedicar seu olhar mais duro ao primo que fingia não se importar. Os irmãos Weasley compartilhavam do mesmo bom humor de George, mas, quando irritada, Roxanne demonstrava toda sua herança sanguínea. Ela fez questão de acrescentar em tom de ameaça. – Espera só o professor Neville sonhar que você também andou se encontrando com a Alice ano passado.
Quando James estufou o peito e pareceu extremamente surpreso pela audácia da prima, Fred resolveu que seria mais prudente intervir antes que ele pensasse em revidar a coragem grifina da irmã.
- Pega leve Rox, você sabe que é assim desde o quarto ano e só piorou depois que Jay virou capitão do time. Das masmorras à torre de astronomia as garotas suspiram pelo grande James Potter, o duelista conquistador. – Fred soltou um riso zombador enquanto a irmã o fuzilava com o olhar e o amigo rolava os olhos indiferentes à brincadeira recorrente.
- E você não é muito diferente né, Fred. Até hoje preciso ouvir as abobrinhas daquela lufana tentando me convencer a contar seus segredos e a Sophie sempre me enche perguntando por que você não aparece mais. Enquanto estão rolando pelo último vagão conversar não parece uma necessidade, até que elas encontram a irmãzinha aqui e me acham com cara de coruja.
- E você anda sabendo demais sobre esse último vagão hein, Rox. – James provocou com um sorriso trapaceiro nos lábios. Os olhos escuros de Roxanne pareceram faiscar quando ela agarrou inconscientemente uma mecha encaracolada demonstrando incômodo com a insinuação. James gargalhou com o sermão morrendo na garganta da prima mais nova enquanto Fred trocava olhares significativos com a irmã.
- Espera aí, Roxanne pode me explicar essa história. – Fred ainda tentou, mas já era tarde e a jovem sumia apressada entre os estudantes do corredor depois de lançar um olhar mortal ao primo.
- Esse mundo bruxo é mesmo muito pequeno! Eu não posso fazer nada sem que metade de Hogwarts fique sabendo ou um berrador da minha mãe apareça no dia seguinte. – James resmungou quando a paz finalmente pareceu reinar naquela cabine.
- Cara, não é o mundo bruxo que é muito pequeno. Nossa família é que é muito grande. – Fred respondeu tentando recompor-se do choque de imaginar sua irmã atrelada a um garoto qualquer.
Na cabine ao lado quatro jovens viajavam alheios ao que ocorria próximo dali. Albus Severus Potter tentava concentrar-se em seu novo livro de Feitiços quando foi interrompido por mais uma pergunta insistente de Lily.
- E como é que a comida aparece do nada na mesa, Alb? – A garota balançava as pernas inquietas tentando apaziguar a ansiedade de conhecer Hogwarts.
O garoto revirou seus olhos verdes em um gesto claro de impaciência com a irmã.
- Sinceramente Lily, você já ouviu falar de magia? – Ele respondeu mal humorado.
Desde que a irmã mais nova recebera a carta, Albus era bombardeado por milhares de dúvidas que surgiam de acordo com o nível de nervosismo da caçula. Agora, longe dos olhares de repreensão dos pais, ele se permitia dar algumas respostas atravessadas à pequena que se remexia no assento da frente.
- Não seja mal educado, Albus. – Rose deixou seu livro de lado para o olhar com o cenho franzido. – A cozinha possui mesas idênticas às do Salão Principal, Lily, a comida é simplesmente colocada nas mesas da cozinha e esta aparece magicamente no Salão Principal. – Ela respondeu dando um sorriso tranquilizador para a prima que a agradecia fascinada.
Hugo se esqueceu de mastigar as fartas guloseimas para olhar a irmã com uma expressão de tédio.
- Fala sério Rose, você decorou aquele livro todo? – O garoto mais novo perguntou sem se importar se os outros viajantes reparariam em sua boca lambuzada de doce.
- Qual livro? – Lily perguntou entusiasmada enquanto refazia pela terceira vez sua trança ruiva.
- “Hogwarts, uma História”, mamãe já tentou ler para mim, mas papai sempre sussurra que é desnecessário. – O pequeno Hugo respondeu brincalhão sem conseguir esconder o tom nostálgico ao pensar no longo tempo que passaria longe dos pais pela primeira vez.
Rose lançou um olhar aborrecido ao irmão antes de se retirar para vestir o uniforme levando consigo uma estupefata Lilian Potter pela mão. Hugo Weasley aproveitou a ausência da irmã para então demonstrar sua insegurança, com as mãos remexendo-se inquietas sobre a pilha de Sapos de Chocolate ele tentou abordar Albus timidamente.
- Alb? – O primo mais velho não respondeu, fingindo focar em um feitiço muito difícil.
Albus não conseguia entender o porquê de Lily e Hugo sempre correrem para ele quando tinham alguma pergunta ingênua em mente. Ele desconfiava que tivesse algo relacionado ao terrorismo zombeteiro de James e à enciclopédia ambulante de Rose, então resolveu relevar e, com um suspiro derrotado, lembrou-se de quando era um novato assustado também.
- O quê?
- Como é que você conversou com o Chapéu Seletor mesmo? – Ele balbuciou um pouco nervoso. Depois que sua irmã fora selecionada para a Corvinal, ele sentia a pressão oculta do pai para se tornar um grifino, ele próprio não conseguia esconder a aflição ao imaginar-se um sonserino. Albus soltou o ar exasperado, ele já havia relatado aquilo no mínimo três vezes para o primo mais novo.
- É só mentalizar a sua Casa de preferência, Hugo.
- E ele conversa com a gente dentro da nossa cabeça? – O mais novo perguntou incrédulo como se aquela fosse a primeira vez que tocassem no assunto.
- É, Hugo, dentro da nossa cabeça. – Albus voltava a folhear o livro tentando ignorar a vontade de assustar o mais novo com algum gracejo típico de James Potter.
A porta se entreabriu dando espaço para um rosto gorducho. A garota tinha uma expressão assustada quando buscou os olhos de Hugo com uma ansiedade atípica.
- Posso me sentar aqui?
- Augusta! Você sabe que sim. – O mais novo respondeu sorridente enquanto dava lugar para a jovem de cabelos lisos sentar-se ao seu lado. – O quê aconteceu com a cabine da Alice?
- Ah... – Ela pareceu um pouco envergonhada. – Eu estou um pouco nervosa sabe e a Alice anda me contando coisas que ela não dizia na frente do papai. É verdade que, além do Chapéu Seletor, a diretora McGonagall aplica uma série de testes para saber se somos aptos? Alice me contou que ano passado dois primeiranistas tiveram que voltar no Expresso de Hogwarts por não conseguirem realizar um feitiço simples no primeiro dia.
Hugo olhou boquiaberto para Albus, seus olhos azuis em um misto de medo e confusão. O moreno disfarçou a vontade de gargalhar perante os dois mais novos, enfim alguém havia encontrado um jeito de se livrar das cascatas de dúvidas dos novatos. Aquele era um preço que os irmãos mais velhos vinham pagando desde que Hogwarts fora fundada. Perante o silêncio do primo, Hugo tomou fôlego e passou os dedos no cabelo vermelho vivo que tanto combinava com o de Lily.
- Olha Augusta, mamãe e Rose nunca me disseram nada sobre isso. Apesar de que... – Ele olhou ainda mais assustado para Albus que ignorava drasticamente a conversa à frente. – Elas teriam passado de primeira.
A porta abriu-se novamente e os dois primeiranistas sobressaltaram-se quando um Detonador-Chamariz entrou na cabine fazendo estardalhaço. Era um típico Sortilégio Weasley e Albus suspirou aborrecido quando se levantou e chutou o objeto para o corredor antes que o ambiente fosse tomado pela sua tão conhecida fumaça negra. O rapaz reconheceu de imediato as duas cabeleiras loiras que tentavam abafar o riso de suas cabines enquanto os estudantes se afastavam esbaforidos do pequeno objeto prestes a explodir.
- Fala sério Alb, só estamos tentando acostumar nossos queridos primeiranistas à vida com o Pirraça. – Um dos gêmeos gritou de sua cabine quando a fumaça preencheu o corredor sob as exclamações dos alunos.
Albus voltava risonho para seu lugar quando a porta foi aberta e fechada em um movimento rápido, uma garota loira com pequenas sardas no rosto entrara tossindo.
- Ai, sai pra lá Albus. – Ela resmungou tentando recompor-se quando esbarrou com o garoto no meio do caminho. – O Lorcan e o Lysander ainda me pagam.
- Isso aqui virou uma reunião de família? – Albus comentou a contragosto dando espaço para que a garota pudesse se sentar. Os novatos riam descontraidamente e pareciam ter esquecido, por pelo menos um momento, o nervosismo anterior.
- Viu quem é a nova monitora de sua preciosa Casa, Albinho? – A garota loira comentou com um ar de superioridade forçada enquanto estufava o peito para que sua insígnia reluzisse no fraco sol de setembro.
- Ah, conta outra Dominique. – Albus respondeu incrédulo tentando não dar muita importância àquele fato. – De quem você roubou essa insígnia? – A garota ainda deu um curto riso sarcástico antes de mostrar confiante a carta que recebera algumas semanas atrás.
- Hum, deixe-me ver. Dominique Fleur Weasley, seus lindos cabelos dourados, olhos cor do mar, inteligência sagaz e humor refinado lhe concederam o título de monitora da Casa Sonserina. – Ela leu em um falso tom de importância enquanto passava as mãos nos cabelos sedosos que tanto lembravam sua mãe.
- Francamente, eu pensei que Hogwarts selecionasse melhor seus monitores. – Albus provocou com um sorriso típico sonserino.
Há quatro anos, quando seus olhos foram escondidos pelo Chapéu Seletor, ele repensara tudo o que seu pai havia dito. Chegou até mesmo a trocar meia dúzia de frases com o objeto que se remexia inquieto em sua cabeça, quando decidiu que aquela antiga rixa precisava acabar e aceitou de bom grado sua seleção. Levantou-se cambaleante sob os olhares atordoados dos estudantes da Grifinória e rumou quase confiante para a mesa sonserina. Inicialmente fora difícil esquivar-se das piadas insinuantes de James, mas, com o tempo, tudo havia se ajustado e aquele já não era mais um fato relevante na família. Seu segundo nome favorecera sua aceitação entre os sonserinos que agora já não exibiam mais aquele brilho esnobe como nos tempos de seu pai. Já Dominique, ao contrário de sua irmã mais velha, era uma sonserina nata. Orgulhosa e obstinada, ela se preparava para rebater em alto e bom tom a provocação do garoto quando Rose e Lily retornaram devidamente uniformizadas, afastando com a mão os resquícios da fumaça do corredor.
- Oi Domi! – Rose exclamou assim que vislumbrou a prima em posição de ataque. A ruiva mais velha aproximou-se entusiasmada para analisar a insígnia de monitora fazendo com que a loira lançasse um olhar vitorioso para o companheiro de Casa. – Ela é linda. Não vejo a hora de chegar ao quinto ano, Merlin queira que eu seja monitora também. – Ela declarou enquanto suspirava sonhadora.
- Sua sorte é não ser do mesmo ano que a Lucy. Considerando que vocês duas são umas ratas de biblioteca, o cérebro da diretora pifaria e pela primeira vez na história de Hogwarts duas garotas seriam monitoras. – Hugo comentou despreocupado arrancando risos dos outros estudantes na cabine.
- Já pensou em qual vestido usar no casamento do ano, Rose? – Dominique achou prudente comentar antes que a prima engatasse mais uma discussão entediante com o irmão mais novo. – Sabe quem é que o Teddy e a Vic fizeram questão de convidar né. – A loira soltou com um olhar maldoso.
- Vê se eu tenho cara de quem fica bisbilhotando a lista de convidados alheia. – Rose respondeu mal humorada desviando o olhar para Albus que a fitava por cima do livro com uma sobrancelha erguida. Os mais novos trocaram olhares de desconfiança entre si e decidiram que seria mais proveitoso sair à procura do carrinho de doces do que ter de presenciar mais um relato nojento sobre namoricos às escondidas.
- Ah fala sério Rose, madame Malkin está com uma coleção ótima este ano e vamos arrumar esse seu cabelo. Descobri uma poção alisadora que, por Merlin, daria um jeito até mesmo em Leonard Jordan.
Albus e Rose rolaram os olhos em um movimento sincronizado. Há anos Dominique tentava enfiar à força um pouco de vaidade na personalidade despreocupada de Rose Weasley. A primogênita de Hermione Granger em muito lembrava sua mãe, preferia dedicar horas de seu dia em uma biblioteca ao invés de testar produtos mirabolantes dignos de Gilderoy Lockart como as outras garotas. Apesar das falhas insinuações de Dominique, a jovem Weasley possuía uma beleza natural, os olhos cor de mel combinando com os cabelos acobreados em cascatas de cachos que a prima teimava em tentar alinhar. Até mesmo um atônito Hugo já fora vítima dos testes estéticos da prima mais velha, o cabelo crespo do garoto ficara dias cheirando a ovos de Agougueiro.
Um barulho de explosão vindo da cabine da frente interrompera a pequena discussão que estava prestes a acontecer entre os primos. Várias cabeças curiosas apareceram nas janelas procurando a origem do infortúnio até que uma conhecida voz gritou brincalhona.
- Bom trabalho, Finnigan. – James recolheu seus desarrumados cabelos castanhos antes de vislumbrar um envergonhado terceiranista da Grifinória receber os aplausos e assovios de seus companheiros de Casa.
O Expresso de Hogwarts começava a reduzir a velocidade quando os primeiranistas voltaram alarmados para seus lugares, a expressão assustada parecia ter petrificado em seus rostos. Albus, Rose e Dominique fizeram questão de sair primeiro antes que os mais novos grudassem em suas capas em uma vã tentativa de reduzir a ansiedade. Quando o grupo inspirou o ar fresco de Hogsmead, Albus foi mais uma vez sufocado pelo abraço do meio-gigante.
- Albus, eu já te falei o quanto você se parece com o seu pai? – Hagrid nunca conseguia esconder a emoção ao mirar o garoto que levava o nome do antigo diretor e a aparência de Harry Potter.
- Já sim Hagrid, todos os dias desde que eu tenho 11 anos. – O garoto respondeu ofegante enquanto tentava inutilmente organizar seus rebeldes cabelos negros, tão parecidos com os do pai.
- Oras, mas veja o que temos aqui. Não vai me dizer que a hora de Hugo e Lilian já chegou. – Hagrid balbuciou enquanto via os dois primeiranistas encolherem-se atrás dos mais velhos. Não que se sentissem assustados pela presença de Hagrid, já o haviam visto algumas vezes na Toca e a excursões de férias com a família bruxa tinham proporcionado visões mais aterrorizadores do que um homem sorridente maior do que o normal. Mas naquela noite fria, quando enfim seriam selecionados para suas Casas, com a descarga de adrenalina em suas veias, sentiam-se alarmados até mesmo com o voar de uma borboleta.
– E você? – Ele indicou Augusta com um olhar sorridente, desde que se encarregara de buscar as crianças na estação de Hogsmead, Hagrid se especializara em deduzir seus sobrenomes considerando que um dia também buscara seus pais. – Olhar mais amedrontado do que o normal, bochechas redondas, cabelos lisos e castanhos. Você deve ser a caçula Longbottom, estou certo? – Quando a garota acenou rapidamente com a cabeça ele concluiu com um sorriso jovial que contrastava com os anos marcados em sua pele. – Diga à sua irmã que fiquei muito orgulhoso ao saber que ela é a nova capitã da Lufa-lufa, aquele Zacarias Smith não tem 1% do mérito dela. – Ele parou bruscamente quando se deu conta de que falara demais. – Bom, vamos andando, vamos andando.
Os garotos mais novos desprenderam-se dos outros timidamente, Rose gesticulava tentando encorajá-los enquanto Albus e Dominique abafavam o riso ao vê-los tão temerosos. Um grupo de ravinos passou fazendo arruaça, ostentando nos ombros suas vassouras de nova geração. Dominique rolou os olhos ao identificar os loiros cabelos do quartanista que ria entre seus amigos.
- Papai já falou para você parar de se exibir com essa vassoura, Louis. – O garoto aumentou ainda mais o sorriso quando viu a irmã cruzar os braços impaciente.
- Oras, oras. Alguém ainda está triste porque acabamos com o sonho da perfeita Sonserina ganhar a Taça de Quadribol ano passado. – O grupo riu descaradamente enquanto Dominique ficava com as bochechas vermelhas de raiva. – Fica tranquila Domi, este ano vamos pegar leve com vocês.
Albus segurou o braço da prima antes que ela avançasse no apanhador da Corvinal que, coincidentemente, era seu irmão. O garoto encenava os passos da vitória de sua Casa sobre a Sonserina quando perceberam que estavam atrasados.
- Deixa pra lá Domi, não vale a pena começar o ano com uma detenção. – Ao contrário de todos em sua casa, Albus Severus não se importava com os placares de quadribol, aquilo intrigava o pai, mas parecia um deleite para Hermione Granger.
O grupo distanciou-se com suas vassouras ainda rindo de Louis que imitava o tique nervoso do batedor sonserino, os dois primos resolveram que era melhor irem andando também. De longe avistaram um amontoado de estudantes exaltados que gritavam palavras desconexas, aproximaram-se cautelosos tentando entender algo no meio do tumulto de sonserinos e grifinos. Afastaram um grupo de secundaristas e foram surpreendidos pela cena quase habitual de dois estudantes atracando-se de modo trouxa pelo chão. Albus rolou os olhos irritado quando percebeu que o sonserino que deixara a varinha de lado para agarrar o grifino pela gola era Scorpius Malfoy. Dominique parecia encantada pelo espetáculo, James sempre dissera que a expressão trouxa “adorar ver o circo pegar fogo” havia sido criada para a garota. Ela foi lembrada de suas obrigações como monitora quando Albus saiu precipitado para apartar a briga que começava a ficar séria.
- Vocês andam cheirando fumaça de poção? – Ela berrou enquanto sacava a varinha de suas vestes. – Vamos parar com essa zorra aí, acham que estão no Beco Diagonal? Agora sou monitora, queridinhos, e não quero ouvir um pio.
Os dois garotos separaram-se a contragosto ainda murmurando injúrias. Albus puxou pelo braço o jovem pálido de cabelos platinados, normalmente impecáveis, que agora grudavam na testa.
- Você ficou louco Scorpius? – Ele sussurrou enquanto arrastava o companheiro de Casa pra longe do outro rapaz que era escoltado pelos estudantes da Grifinória.
- O que foi dessa vez, hein? – Dominique aproximou-se eufórica lançando um olhar convencido para uma quintanista que não acreditara nos boatos de que ela era a nova monitora.
- Não vai me falar que eles estão te enchendo o saco de novo por causa daquela história de comensais. – Albus comentou atordoado.
O silêncio pairou por um momento quando o sonserino ainda ofegante assentiu amargurado. Dominique tomou ar e os dois garotos retraíram-se em uma dor premeditada, esperando por um sermão digno de Lucy Weasley.
- E desde quando você esqueceu todas aquelas azarações que eu te ensinei? – Os três gargalharam descontraídos, Dominique definitivamente era o oposto da prima mais velha.
Desde o segundo ano Albus Severus se afeiçoara do garoto que caminhava solitário entre as aulas. Scorpius lembrava seu pai apenas fisicamente, embora mostrasse resquícios do orgulho Malfoy quando afrontado, os anos duros que passara sob a sombra dos erros de seus antepassados moldaram um jovem silencioso e contido. Após a queda de Voldemort, as drásticas mudanças no mundo bruxo atingiram também o Colégio de Magia e Bruxaria de Hogwarts. A antiga rixa entre sonserinos e grifinos ainda existia como um hábito secular, no entanto, a antiquada presunção da Sonserina em exaltar os sangues puros já não era evidente. Alguns poucos ainda insistiam no assunto, mas, no geral, o velho preconceito de sangue era motivo de vergonha e os familiares de antigos comensais preferiam esconder sua origem a enfrentar os olhares enviesados.
Inicialmente, Albus e Scorpius olhavam-se estranho, dividiam quarto e aulas, mas conversavam somente o necessário, seguindo inconscientemente uma briga que não era deles. O jovem Potter simplesmente ignorara todas as histórias de como seus pais e tios viviam trombando com Draco e seus comparsas quando decidiu oferecer-se como dupla de Scorpius em uma entediante aula de Herbologia. Neville Longbottom, absorto em sua paixão de lecionar tal disciplina, sequer notou quando os dois estudantes descobriram o quanto tinham em comum. Ron Weasley não conseguiu disfarçar a surpresa e aborrecimento quando os dois garotos despediram-se entusiasmados na plataforma 9 ¾. Após o fim da guerra, Draco Malfoy e Harry Potter tratavam-se com um respeito mútuo silencioso, a expressão em seus rostos fora indecifrável quando vislumbraram seus meninos descendo juntos do Expresso de Hogwarts. Aquilo certamente facilitara a aceitação da amizade entre os dois sonserinos. James era mais ácido, bombardeava os sonserinos com piadas, mas, como tudo naquela família, o novo companheiro fora bem aceito entre os integrantes do que chamavam Máfia da Nova Geração.
Os três sonserinos embarcaram em uma carruagem qualquer e rumaram a mais um período letivo debatendo novas técnicas para ganhar a Taça daquele ano. Com membros em todas as Casas, a numerosa família e agregados passara a antiga disputa colegial a um novo nível, para desespero de Molly e Arthur Weasley, as provocações chegavam até mesmo aos almoços na Toca. Todos pareciam querer provar as qualidades de suas Casas, mas, quando algo acontecia, esqueciam-se completamente das cores de suas gravatas para unirem-se a favor uns dos outros. Dominique e Scorpius ainda não haviam engolido a vitória da Corvinal no quadribol e a Taça das Casas no Salão Comunal da Lufa-lufa desde o ano anterior. Com a aposentadoria da professora Sprout, Teddy Lupin assumira o cargo de chefe de sua Casa e, como inauguração de seu posto, esforçara-se ao máximo para conquistar a Taça que há muito não era deles. Seus desregrados cabelos azuis só ficaram mais vibrantes quando ele anunciara o casamento com a primogênita de Bill Weasley.
Durante a discussão acirrada os jovens sequer viram o tempo passar e logo os estudantes aglomeravam-se na entrada do Salão Principal, procurando por espaço para rumarem até suas mesas. Albus sorriu ao ver a prima Roxanne puxando a artilheira da Grifinória pelo braço em uma típica cena de repreensão, Izzy Wood virava os olhos entediados enquanto a amiga continuava com o discurso. A diretora McGonagall passou entre os alunos que se acotovelavam com ar de desaprovação, seus olhos crisparam em advertência quando topou com James Potter, Fred Weasley, Leonard Jordan, Lorcan e Lysander Lovegood rindo sorrateiros de algo que ela, provavelmente, descobriria mais tarde. Ela apelidara os cinco amigos como Novos Marotos e frequentemente era obrigada a aplicar-lhes intragáveis detenções. Ela nunca admitiria para ninguém, mas, secretamente, sorria saudosista ao ver que a essência dos antigos Marotos misturada à ousadia dos gêmeos Weasley continuava ali, dentro daqueles estudantes impossíveis.
Aos poucos os alunos encontravam seus lugares habituais. Albus acomodou-se tranquilo entre Scorpius e outros dois companheiros de quarto, Dominique exibia seu ar orgulhoso enquanto sentava-se ao lado do elegante monitor da Sonserina. Não muito distante dali, Rose era ladeada pelos risonhos gêmeos Lovegood, Lucy sentava-se entre os setimanistas, mas não deixava de lançar olhares de censura aos travessos alunos do time de quadribol, onde Louis encontrava-se ansioso pelo jantar. Entre os estudantes da Grifinória o falatório era divertido enquanto James Potter e Fred Weasley encenavam mais uma proposta de trote aos novatos, Roxanne, sentada entre Izzy Wood e Silas Finnigan, lançava um olhar emburrado ao primo mais velho. Na mesa da Lufa-lufa, Alice Longbottom ria descontraída de algum gracejo de Leonard Jordan e ambos acenavam para um terceiranista moreno de cabelos negros, filho de uma das gêmeas Patil.
A algazarra no Salão Principal acabou imediatamente quando a grande porta abriu-se dando passagem para os curtos passos do professor Flitwick, atrás dele o grupo de estudantes do primeiro ano caminhava lentamente. Os garotos mais novos murmuravam deslumbrados enquanto tentavam captar cada detalhe do Salão. Os irmãos Potter trocaram olhares desafiadores quando viram a pequena Lilian passar de mãos dadas com Augusta, há alguns dias eles apostaram para onde a caçula seria selecionada. Rose sorriu genuinamente quando percebeu que o irmão mais novo tinha uma pitada de chocolate na bochecha. O ar de fascínio dos primeiranistas deu lugar à teimosa ansiedade quando chegaram à frente do banquinho com três pernas. O diminuto professor de feitiços segurava o Chapéu Seletor enquanto a diretora pronunciava os cuidados e regras daquele ano em Hogwarts. Os apelidados Novos Marotos buscaram os olhos risonhos uns dos outros quando McGonagall anunciou que durante as festas do Colégio o uso dos jardins era proibido. Depois de mais algumas dúzias de palavras proferidas, Flitwick abria sem cerimônias a imensa lista de nomes em sua mão.
- Brown, Ferdinand. — Um garoto magricela subiu ao pequeno banco e a primeira criança daquele ano foi recebida pelos aplausos entusiasmados da Corvinal.
- Diggory, Nancy. – Um pequeno rebuliço tomou conta do Salão, nada comparado ao dia em que Harry Potter ou seus filhos foram selecionados, mas grande parte da mesa grifina e todos da Lufa-lufa conheciam a história por trás daquele sobrenome. A menina alta com joelhos pontudos, provavelmente prima de segundo grau do memorável Cedrico, sentou-se nervosa. A mesa lufana quase explodiu em comemorações quando o Chapéu Seletor anunciou em bom tom sua nova Casa.
- Filch, Philip. – Os sussurros não cessaram enquanto o garoto de ombros largos e sobrancelhas grossas lançou uma carranca ao Salão. Ninguém sabia ao certo seu grau de parentesco com o rabugento zelador das histórias de seus pais, mas acharam que era melhor não tocar no assunto quando o garoto abriu um sorriso malicioso ao ser selecionado para a Sonserina.
Aos poucos as crianças eram chamadas, aproximando o momento em que Hugo, Lily e Augusta seriam convocados. Quando o sobrenome Longbottom ressoou pelo Salão, Augusta oscilou o olhar entre o pai na mesa dos professores e a irmã não muito distante. O chapéu sequer tocou em seus cabelos para então anunciar que sua Casa seria Lufa-lufa. A garota suspirou feliz, tinha receio de que fosse enviada a qualquer outra, temia que fosse se sentir solitária até mesmo na Grifinória, onde seu pai era chefe. A pequena foi acolhida calorosamente pela irmã e seus novos companheiros de Casa.
Mais alguns garotos tímidos, meninas decididas e tropeções ansiosos, o sobrenome Potter pairava no ar causando seus tradicionais murmúrios de admiração e apostas sussurradas. A diretora fez vista grossa às moedas que corriam quase imperceptíveis pelas mãos ocultas de estudantes alegres. Lily Potter secou as mãos nervosamente na capa primeiranista, ainda pôde vislumbrar seus irmãos trocando olhares provocadores antes de seus próprios olhos serem ocultos. O Chapéu revirou duvidoso sobre sua cabeça, questionando mentalmente todas as qualidades da menina. Quando, enfim, proclamou “Grifinória” os aplausos foram tão efusivos que a própria diretora deixou escapar um sorriso de satisfação. Quando chegou sofregamente até a mesa, a garota teve seus cabelos bagunçados por um caloroso cafuné de James e Fred, foi abraçada inúmeras vezes, ela secretamente sabia que toda aquela comemoração também se devia a algumas apostas ganhas sobre os sonserinos.
Hugo Weasley ficara mais pálido do que o normal ao sentir a pressão que aquilo significava, alguns sobrenomes depois, quando o seu próprio foi anunciado, assumira uma expressão ainda mais abobalhada com todos aqueles rostos o olhando em expectativa. Estava disposto a debater horas com o Chapéu Seletor caso ele se opusesse a acatar sua preferência, mas, aparentemente, ele era um grifinório nato. O próprio objeto mágico riu da insegurança do garoto, anunciando calorosamente sua Casa. Hugo nunca se sentira tão aliviado em sua vida, talvez tivesse sentido algo próximo no dia em que finalmente se livrou do cheiro de ovos de Agougueiro, mas a sensação de caminhar sorridente para a mesa grifina era estonteante. Foi recebido com tanta veemência quanto Lily e acenou eufórico para a irmã na mesa ao lado, a jovem sorria com os olhos marejados, nunca fora segredo seu lado sentimental. O jantar transcorreu sem mais delongas. Dominique ainda ria de um contrariado Albus quando os garotos foram instruídos a irem para os dormitórios.
- Qual é Albus, até eu já sabia que Lily seria da Grifinória. Desde pequena ela tem talento para a impulsividade, lembra quando essa doida pulou no lago de lama para salvar aquele cachorro atolado? – O garoto apenas murmurou algo de mal-humor. – Agora, com licença, preciso tratar das minhas obrigações como monitora.
Dominique arrumou o nó na gravata e saiu ostensivamente da mesa, agrupou alguns primeiranistas perdidos e tratou de apresenta-los rapidamente para o garoto que também levava a insígnia de monitor. Albus interrompeu a humilhante tarefa de contar as moedas que entregaria para o irmão, para cutucar Scorpius ao seu lado.
- Observe bem essa cena, meu caro. Não é todo dia que vemos uma Dominique tão prestativa e atenciosa.
- Oras, mas isso tudo tem um nome. Nosso digníssimo monitor sonserino Nathan Zabini. – Os dois gargalharam descontraídos enquanto rumavam para as masmorras.
Do outro lado do Salão uma esbaforida Roxanne tentava conter os entusiasmados primeiranistas. Fred, James e agora Silas Finnigan pareciam não se importar com os protestos da monitora e continuavam a encorajar os novatos grifinos a assinarem um duvidoso atestado de assentimento. O tempo de experiência com aqueles garotos a fazia se arrepiar com a mínima ideia do que aquilo poderia significar. Ano passado achara tudo muito divertido, mas, agora que ostentava aquela insígnia e a lembrança do sorriso de sua mãe ao vê-la usando-a pela primeira vez, fazia com que tudo aquilo pesasse sobre seus ombros. Até mesmo Lilian e Hugo se apressaram em colocar seus nomes entre tantos outros. O monitor grifino fazia vista grossa em uma das extremidades do tumulto, assegurando que nenhum professor se aproximasse demais, Roxanne o olhou incrédula.
- Miguel Creevey. – O garoto se virou assustado. – Dá pra me dar uma mãozinha aqui?
- Roxanne, você sabe que não vamos pará-los. Tratando-se da Grifinória, o primeiro ensinamento do monitor-chefe é que devemos patrulhar para que não nos peguem. Portanto, se quiser manter essa bonitinha aqui é melhor me ajudar – O garoto balançou os cabelos cor de palha e voltou a atenção para a agitação de estudantes que saia do Salão. Roxanne suspirou cansada e com um balançar de ombros juntou-se ao rapaz.
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- Fred Weasley! – Roxanne exclamou assim que atravessou o quadro da mulher gorda com os novatos em seu encalço. – Isso é porque você não foi monitor, agora quer tirar esse direito de mim. – Ela balbuciou com a voz embargada ao encontrar o Salão Comunal repleto de cervejas amanteigadas, whiskies de fogo, tubos de bebidas coloridas que ela nunca vira na vida e uma enorme faixa de boas vindas aos primeiranistas.
- Relaxa irmãzinha. Ninguém aqui quer te prejudicar, você até parece a Lucy falando assim. Nenhuma criança irá consumir bebida alcóolica. – Aquele comentário pareceu desanimar alguns secundaristas que olhavam ansiosos a novidade.
- Fala sério. Como vocês conseguem? Como organizam essas coisas no primeiro dia de aula?
- Elfos domésticos minha querida. – James respondeu risonho enquanto se servia de uma cerveja amanteigada.
- Deixa a diretora sonhar com isso. – Roxanne respondeu tentando manter o desapontamento na voz, sem conseguir esconder o entusiasmo daquela ideia marota. Sabia que os garotos escondiam estoques de bebidas em algum lugar e que provavelmente Monstro estava por trás daquilo tudo. – Onde estão os monitores-chefes?
- Alex Thomas e Joane McMillian? É claro que eles deram o fora quando souberam o que ia rolar, devem estar patrulhando as masmorras. – James respondeu com um tom maldoso, como se soubesse que aquela patrulha envolvia algo a mais.
Depois de todas as garantias de feitiços silenciadores, Roxanne se rendeu. A garota tomou o copo de um secundarista que tentava se servir de whisky e sorveu a primeira coisa que encontrou. Jogou-se em uma poltrona confortável e deixou-se levar pelos risos de seus companheiros de Casa. Izzy Wood juntou-se a ela minutos depois ainda gargalhando de um primeiranista cobaia que flutuava inchado pelo Salão Comunal. Silas Finnigan servia doces explosivos a todos os garotos que encontrasse e Miguel Creevey esquecia-se de suas obrigações como monitor ao lambuzar uma garota com tintas refrescantes. Lilian e Hugo riam descontraídos enquanto James colocava um chapéu com os dizeres “Cuidado, Primeiranista Perigoso!” em suas cabeças. Alguns quartanistas ensinavam as regras de quadribol com encenações divertidas para um grupo de novatos nascidos trouxas. Garotas cochichavam empolgadas em volta dos setimanistas fanfarrões e todos no Salão Comunal estavam ocupados demais para reparar que a entrada acabava de abrir sozinha, exceto Roxanne.
A garota pulou de sua poltrona já com a varinha na mão e uma desculpa razoavelmente plausível na garganta. Ela não se considerava uma monitora tão rígida quanto Lucy, mas também não se permitia ser tão desleixada quanto Dominique, não suportaria ver o desapontamento da mãe ao saber que havia perdido seu posto. Cogitou até mesmo dizer que estava sob a maldição Imperius por permitir toda aquela algazarra bem debaixo do nariz da diretora. A garota estava começando a se desesperar quando três cabeças se revelaram em sua frente. Roxanne soltou todo o ar de seus pulmões.
- Ai meu pé, Scorpious, você cresceu demais!
- Você é que é muito baixinha.
- Gente olha a cara da Roxanne, até parece que viu um troll. — Dominique, Scorpious e Albus gargalharam enquanto desvencilhavam-se da Capa da Invisibilidade.
- Seus malucos, eu quase tenho um ataque do coração. A propósito como é que vocês ainda cabem aí embaixo? – Roxanne exclamou aliviada correndo para fechar a abertura do quadro.
- Pois é, da próxima vez pretendo transfigurar estes dois em ratazanas, assim fica mais fácil. – Dominique resmungou enquanto acotovelava os dois rapazes sorridentes.
- Quando você tiver capacidade para isso. – Albus provocou em tom de brincadeira preparando-se para se servir.
- Aí Alb, cadê aquele meu casaco? – Albus jogou a Capa dobrada para James. – E aquele meu pergaminho perdido? – O mais novo estendeu o Mapa do Maroto em branco para o irmão. – Esta será a maior excursão noturna de Hogwarts. – James anunciou empolgado enquanto se assegurava que tudo estava em ordem em seus bolsos.
- Rose disse que estaria pronta em vinte minutos. – Scorpius soltou sem pensar e logo depois disfarçou, admirando nervosamente seu relógio mágico.
Os irmãos Potter o olharam com ar desconfiado, buscaram Hugo com o canto dos olhos e abafaram um riso maroto. Scorpius inventou uma desculpa qualquer e saiu para conversar com Dominique.
- Bom, vou nessa. – James despediu-se de Albus com um soco amistoso no ombro e acenou para Fred rindo das duas primeiranistas arroxeadas que o amigo acabara de pintar.
- Boa sorte, Jay. – Izzy soltou assim que o rapaz passou matreiro ao lado da poltrona em que estava com Roxanne.
- Valeu, Izzy. – Ele respondeu com o rosto meio afogueado. Aquela era uma visão rara e Roxanne ergueu uma sobrancelha perante aquilo.
- Boa sorte para quê? – Mas James já havia atravessado o quadro com seu corpo oculto pela Capa.
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Algum tempo depois, quando Albus e Scorpius mantinham certo grau alcóolico e Izzy ria descontroladamente de algo que Dominique debochara, a entrada do quadro abrira-se novamente para um espaço vazio. Roxanne começava a se perguntar se a Senhora Gorda não cogitava a ideia de loucura com todas aquelas senhas pronunciadas do além. Ela observou cautelosa a entrada do Salão Comunal esperando que um corpo oculto se materializasse bem ali, mas nada aconteceu. Todos os estudantes estavam embriagados demais ou entretidos demais em pintar e treinar feitiços nos primeiranistas. Roxanne levantou-se cambaleando até o quadro, por um segundo ouviu apenas o silêncio mágico do túnel de entrada, para logo depois ser empurrada para o lado pelo o que pareceu uma dezena de mãos e vozes estridentes. Risos incontroláveis circundaram a garota e então ela pôde vislumbrar aqueles rostos esbaforidos. Lorcan e Lysander entraram eufóricos primeiro com o Mapa entreaberto, Leonard Jordan puxava Alice e uma desnorteada Augusta pelas mãos, James descobriu a Capa para revelar uma ofegante Rose e Louis sorridente.
- Meu Merlin, bendita hora em que aceitei ser monitora.
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