O Anjo e a Íris
1 O Dom da Criação e o Pôr-do-Sol
Notas iniciais
''Numa dessas manhãs
Você acordará cantando
E assim levantará suas asas
E alcançará o céu''
—Ella Flitizgerald
O Anjo observava aquele pintor dar vida a tela branca que ansiava por cores. Aos poucos, ela começava a ganhar vida. Primeiro, a cor laranja se misturava com o amarelo, formando um céu luminoso de fim de tarde. Depois, o azul do mar ia preenchendo o branco da tela, as cores se harmonizavam entre si, assim como a natureza. O Anjo contemplou a pintura de uma das coisas que ele mais admirava no mundo dos humanos: O pôr-do-sol.
Ver aquilo sempre enchia de felicidade o coração daquele anjo. Ele havia concedido ao jovem pintor o dom de criar, lhe fez um artista de várias facetas, mas por enquanto a única habilidade que ele sabia dominar era a de pintar. Com o tempo, ele descobriria as outras que possuía dentro de si. O jovem pintor havia terminado o seu quadro e o colocou em um canto de seu ateliê que tinha respingos de tinta por todos os lados. Cores e mais cores, respingos de uma obra feita pela natureza de seu dom.
O jovem pintor olhava para sua obra e sorria, transbordava orgulho. Era tudo o que tinha, tudo o que sabia fazer, era o sonho que fazia morada dentro dele. Deveria expressar-se através de pinturas até o dia de sua morte, quando sucumbiria com a certeza de que deixou o mundo um pouco mais colorido.
O Anjo sabia o que a vida havia reservado para o jovem pintor e aquele pôr-do-sol radiante na tela era a prova viva de que seu trabalho escolhendo com paciência o dom para conceder a um humano recém-nascido, valia muito a pena.
O Anjo admirou mais uma vez o quadro antes de ir, abriu suas asas e voou pela janela do quarto com a certeza de que o Jovem pintor seria reconhecido pelo mundo, e que faria dele um lugar melhor, fazendo tragédias se tornarem poesia em tela branca.
O Anjo voava pelos céus, invisível aos humanos, junto com o vento. Em seu coração transbordava uma mistura de felicidade e orgulho. Voava livre com a certeza de que era isso que o mundo precisava...
Artistas.
Voava em direção a torre de comando, para voltar a vigília de observar as crianças que acabavam de nascer para o mundo.
Algumas delas seriam médicas, ou professores, ou talvez qualquer outra coisa que o Anjo odiava ter que colocar dentro delas. Eram sonhos vazios, reféns daquela cidade melancólica e de melancolia por ali já bastava o próprio anjo quando o assunto era ''dar um dom nobre as pessoas''. Para os outros anjos da vigília, ser artista não era algo nobre, era sinônimo de ganância, sofrimento e dificuldade. Mas o Anjo via beleza em coisas que os outros não viam. Para ele, do sofrimento vinha a arte, as melhores sempre vinham da dor.
Então, qual era o problema se a próxima criança a nascer tivesse o dom de criar?
Chegou a torre de comando e voltou para sua posição de observar. Muitos e muitos telescópios o cercavam, tinha que estar sempre atento a tudo.
— A próxima criança que nascer, será minha. E, sem sombras de dúvidas, será uma artista -Dizia o Anjo, para os outros que estavam na torre de comando.
Uma mulher-anjo que também fazia sua vigília por ali, ao invés de observar nascimentos, observava o anjo criador da arte na terra. Tinha algo nele que a intrigava. Talvez em outra vida ele tivesse sido um artista, quem sabe. Adorava conversar sobre os humanos com ele todo o pôr-do-sol. Ele adorava os pores-do-sol pois dizia que se sentia renovado e inspirado a dar o dom de criar aos bebês que nasciam a todo o instante no mundo.
O Anjo se encontrava com os olhos voltados para um telescópio, até que sentiu uma mão morna tocar seu ombro, fazendo-o sentir arrepios pelo corpo. A mulher-anjo tinha esse efeito sobre ele.
— Acho melhor você parar de dar o dom de criar a essas crianças. Sabe que tem alguns colegas por aqui que não gostam muito de arte, não sabe? – Disse a mulher-anjo a ele, que a olhava com um sorriso de orgulho estampado em seu rosto.
— Eu não consigo entender o porque de tanta repulsa. Eu presencio milagres todos os dias, e esses milagres foram dados por mim. Os humanos gostam de fugir da realidade. Eu crio aqueles que correrão contra a multidão, aqueles que quebrarão algumas regras e aqueles que passarão exemplos para gerações. Eu coloco o dom do milagre no mundo, deveriam me agradecer. – O Anjo disse para a mulher celestial, que tinha em seu rosto uma expressão de dúvida, como se ele estivesse esquecendo de citar alguma coisa em suas palavras.
— Não está se esquecendo de nada?— Perguntou a mulher-anjo a ele, que a olhava confuso. – Edgar Allan Poe acabou em miséria, Van Gogh e Dali nem se fala. Alguns conseguiram lidar com o fato de serem diferentes; outros nem tanto. Ainda mais no mundo de hoje em que estamos, acho melhor você procurar outros dons para conceder.
—Eu achei que você me entendia mais do ninguém por aqui, mas percebo que estou errado. – Disse o Anjo, com um pouco de tristeza em sua voz. — Será que você não pode tentar ser um ''pouquinho'' otimista e ver o quanto eles contribuíram para o mundo?
— A questão não é ''o quanto eles contribuíram para o mundo'' E sim o fato desse dom algumas das vezes causar sofrimento, até mesmo suicídio...Kurt Cobain, por exemplo. –Disse a mulher-anjo, revirando os olhos.
O Anjo suspirou. Estava cansado daquela discussão. Estava decidido, a próxima criança que nascesse teria o dom de criar.
De repente, um choro invadiu a sala de vigília. Naquela noite, se encontrava somente o Anjo e a mulher celestial na vigília. Ao ouvir o choro, eles se entreolharam. O Anjo colocou um dos olhos novamente no telescópio. Sentiu a dor da mãe da criança a parindo, um choro agudo.
Era uma menina.
— Olha só, é uma menina!— Exclamou o Anjo.
— E qual é o nome dela?—Perguntou a mulher-anjo.
O Anjo retirou o olho do telescópio na sala de vigília e sorriu. Em seguida, proferiu o nome da menina que acabara de nascer a mulher-anjo:
— Íris.
— É um belo nome. –Respondeu ela. –E então, tem certeza que quer dar o dom de criar a esta menina?
—Alguma coisa aqui dentro de mim me diz que essa garota irá fazer grandes feitos no seu futuro. Irá me encher de orgulho e me preencher de felicidade. Preciso dar o dom a esta criança, tenho certeza de que ela irá brilhar como uma dessas estrelas no céu. –Disse o Anjo, com seu tipico olhar sonhador.
o Anjo foi até a sacada da sala de vigília e ali abriu as suas asas. Se concentrou e fechou os olhos, sentiu o vento enterrar grãos de poeira em sua pele e em suas asas pontiagudas. Começou a pensar no pôr-do-sol, a pensar na natureza, a pensar em todas as coisas que o deixavam enaltecido. A natureza o regia, e era da natureza que o dom de criar aparecia. Era da natureza que vinha a inspiração de todo o artista e era dali que ele tirava sua inspiração para conceder. A Arte estava ali, em cada folha que voava, em cada árvore que nascia, em cada grão que na terra germinava. Sentia tudo e em uma fração de segundos, o Anjo fez o tempo na terra parar. Nenhum humano percebeu, mas o milagre acontecia bem ali.
E assim, o dom da criação divina foi concedido a pequena Íris, que tinha agora dentro de si um sonho, bastava agora a ela descobrir.
O Anjo fechou suas asas e ajoelhou na sacada. Respirou fundo enquanto tentava procurar o ar que lhe faltava devido ao turbilhão de sentimentos que sentiu em seu peito ao conceder o dom a pequena Íris. Mas tudo aquilo valia a pena, era como sentir a essência da natureza correr em seu sangue. Levantou-se do chão e se dirigiu de volta para a sala de vigília, onde a mulher-anjo o olhava, admirada.
—Como é sentir a essência da natureza correr no sangue? – Perguntou a mulher-anjo a ele, que sentava em sua cadeira, visivelmente exausto.
— Aprenda a conceder o dom da criação. Assim você irá sentir a natureza correndo dentro de você como as águas do oceano, agitado. O caos irá te tomar e você irá querer sentir isso outras vezes. Não sei explicar com clareza, apenas concedendo para entender.—Disse o Anjo a mulher-anjo, que apenas assentiu e voltou-se para sua posição na sala de vigília.
A mulher começou a pensar como seria a vida da garotinha Íris dali para frente. Alguma coisa dizia a ela que Íris não conseguiria lidar com aquele dom, mas era tarde demais. Agora o destino estaria encarregado de cuidar dela, e o Anjo também.
E então, o milagre havia nascido. Mais um artista no mundo para o deixar mais bonito. Íris era a estrela, o sol e a lua que o Anjo não via a hora de ver em ação.
Mas o que o Anjo não sabia era que nem tudo era lindo como o pôr-do-sol.
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