O Anjo

6 VI - Alma Gêmea


As almas ignóbeis acreditam que a sua metade é um encaixe perfeito e é, efectivamente, o que todos procuram. Mas, uma alma gémea verdadeira, é um espelho, a única pessoa que consegue reflectir tudo o que te impede de seguir em frente, o amâgo que te chama á atenção para que possas modificar a tua própria existência. Uma alma gémea na verdadeira acepção da palavra, será, provavelmente, a pessoa mais importante que alguma vez terás a oportunidade e o privilégio de conhecer, porque derruba as muralhas emocionais que construiste em teu redor e acorda-te de rompante dessa irrealidade em que te encontravas perdido. Mas viver para sempre com essa metade da tua alma? Nunca. Seria demasiado doloroso. As almas gémeas surgem na tua vida apenas para revelar um novo aspecto de ti a ti mesmo e depois abandonam-te. O único objectivo de uma alma gémea é atordoar-te, sacudir ligeiramente as impurezas do teu ego, demonstrar-te os obstáculos e vícios que estás destinado a enfrentar, estilhaçar o teu coração para que novas experiências possam aí penetrar, desesperar-te a ponto de sentires a drástica necessidade de transformar irremediavalmente a tua vida... E partir, deixar-te neste abandono imediato para que possas retomar a tua existência de forma catártica, renascendo das cinzas.

Por entre inúmeras citações que se iam ocultando ao virar da página, esta efervesceu e agitou-me o coração: "És agora apenas uma fotografia ao lado da minha insónia. Uma memória que me fala sobretudo, como todas as memórias, daquilo que não existiu. Nesta forografia te esqueço. Meticulosamente, de cada vez que me esforço por reter-te e começo a inventar-te. Tudo em ti tem asas, agora — o teu riso, os teus passos. Até nas poucas frases que de ti recordo há um restolhar de penas. E deslizo por essa solidão demasiado humana, ..." — E no tão pouco de meia dúzia de linhas, tu avivaste-me a alma, e bagunçaste-me o coração — a força da tua memória.

Eu mato tudo em que toco, se é que podemos falar metaforicamente. Já chamei ao amor de suicídio demasiadas vezes. Acho que acabo por me perder nas mais intrínsecas vontades dos outros e perco as poucas que tenho. Quando não tenho vontade de nada e todo o desejo que sinto são personificações minhas em que essas sim quero querer. Este é um desses momentos em que não quero nada em concreto. Não sei se pela imprudência, felicidade ou demasiada apatia. Não tenho vontades minhas porque não quero que nada seja meu. Não quero ser senhora de ninguém e só me dou com espíritos sem vontade porque não corro o risco de que me queiram também. Mas isto não é de agora. Tu sabes do que eu gosto. Gosto do desprendimento e de tudo o que não conheço, gosto das falhas e das saudades. Gosto do desconhecido, do estranho, da excentricidade de viver sem nada. Da clareza de nada ter. Nem amor nem dinheiro. Nem sorte ao jogo embora muita vontade de jogar. Dos vícios. Da morte das coisas com que sonho. Acho que o mundo é tão mutante que eu tenho de o ser também porque se há coisa que gosto é do mundano, do vulgar, da beleza das ruas por onde passo todos os dias, da particularidade das pessoas que me rodeiam. Mas eu sou a mesma que disse que gosto do que não tenho nem conheço, não é? Pois não me ligues. Eu já matei muitas vezes o amor e continuo sem saber porquê. Se por falta de quem me ensinou a matar, se por nunca me terem ensinado a amar. Esta é uma das minhas loucuras. Não aceites nada de mim. Eu não sei o que quero. Só sei do que eu gosto. E se soubesses, sabes que te diria que já não és tu. São de todos, em todos, um pouco.

Consigo ser injusta, cruel até, se assim se pode dizer.

Sei que não serve de atenuante, mas a paixão tem esta manía insuportável de matar os sentidos que nos ligam à realidade, e “razão” ou “racionalidade” parecem ser palavras que não existem no seu dicionário.

Fico com a sensação que cada vez te oiço menos, pelo menos não tanto como devia, ou como eu queria que fosse. Se calhar até não é verdade. Se calhar falas tanto comigo como antes, ou até fales um pouco menos, apenas e só por causa das vicissitudes da vida que raramente corre como queremos.

O que sei é que não falas tanto como eu queria, porque adoro ouvir-te falar, adoro o som magnífico que essas benditas cordas vocais produzem e as conversas que tenho contigo parecem fábulas envoltas num manto de perfeição que me deixam normalmente com um sorriso de felicidade extrema por partilhares esses momentos comigo.

E cada palavra que sai dessa tua linda boca sabe a bálsamo, soa a contentamento e conforto para todos os males que me deitam abaixo.

Já não falas tanto como antes, ou pelo menos tanto quanto eu gostava de te ouvir... eu sei que sou injusta e parcial, porque quero sempre mais.

Creio que, por vezes, o que mais desejas é a única coisa que não podes ter. Quero que saibas que sempre tive alma sincera quando disse que iria ( e de certo modo, fi-lo) sacrificar qualquer coisa — tudo- por ti, porque tu e eu e nós e o que é nosso, o nosso para sempre, significam tudo isto para mim. O desejo, a luxúria, desgasta-nos, deixa-nos despedaçados; destrói existências completas. Mas sabes, por mais dificil que querer algo possa ser, acredito que os que sofrem mais são aqueles que não sabem o que querem ou, pior ainda, não fazem o que é preciso para alcançar o objecto do seu desejo. Da melhor maneira possível, tu devastaste-me completamente, porque, sabes, eu apaixonei-me por ti, sempre com o pressentimento, no fundo do meu amâgo, que havia uma chance mínima de ficar contigo durante aquele "para sempre". A definição de loucura, a epítome de insanidade, mas seguindo o principio que amar e ganhar é a melhor coisa, amar e perder, a segunda melhor — porque ao menos eu amei-te de uma forma inultrapassável e nunca poderá ser replicada, completa e totalmente, incondicionalmente e sem limites, com uma profundidade que nem os mais talentosos poetas foram capazes de compreender ou sequer descrever. Sentirei, decerto, a falta de reiterar o quanto significas para mim, que é nada menos que o mundo. Sentirei saudade de descobrir novas e variadas maneiras de expressar os meus sentimentos que são numerosos, profundos e consumidores. Sentirei falta de dizer-te quão bonito, inteligente, maravilhoso, atraente e completo tu és. Sentirei a falta de descrever a perfeição que é cada um dos teus cantinhos especiais — e experienciá-los centimetro a centimetro, a cada toque, a cada beijo, por um vida inteira. Sempre encontrarás maneiras de chegar ao meu coração, mas tenho ainda esperança que um dia o sabor do teu nome que soa a beleza e tormento, sorrisos e paz interior seja apenas mais um conjunto de letras sem sentido algum, mas duvido. Quero que saibas que sempre que sentir saudades tuas, fecharei os olhos e verei a tua face — estarás sempre lá.E, aconteça o que acontecer, eu sempre amar-te-ei mesmo que nunca chegues a acreditar nestas minhas palavras ou na força dos meus sentimentos. Ainda que tenha sempre esperança e o desejo de que um dia me procures e finalmente pronuncies " Sou teu, todo teu, para sempre", também esperarei por um dia em que não necessite de ti desta forma tão avassaladora, cada minuto de cada dia e cada segundo entre eles. És a personificação de amor, além de todos os sentimentos que possam existir, e sempre serás dono e senhor do meu coração por inteiro — todo e cada fragmento dele.

Enterraste-me nesta cidade escura e sombria por entre palavras repletas de veneno que eu jurei nunca mais voltar a escutar. Prometi a todas as almas que por mim passavam que não voltaria a sucumbir a esta necessidade de te ter, de ser completamente tua mesmo sem seres um por cento sequer meu. Janelas fechadas, ruas desertas, rostos vazios, e o meu coração de ti cheio. Preenchido por raiva, suor, mágoa, palavras acutilantes que ocuparam grande parte do espaço. Estás nesse lado enquanto eu permaneço neste. Seguro nas minhas mãos os teus vocábulos que ferem como punhais e que me rasgam o ser. Fingiria se dissesse que não te amo como desde o primeiro dia, mas serei forte, mais do que alguma vez tu conseguiste ser. Não voltarei a permitir que a saudade arranhe as arestas de mim nem que implore por um vislumbre das tuas feições. Esses olhos azuis não serão arma capaz de fazer -me ceder a uma tentação que nos devasta de cada vez que nos consume e que nos exausta a capacidade de discernir o que somos. Longe um do outro, as palavras não serão instrumentos mortais de uma sede de vingança, nem eu sentirei lágrimas fluirem através de mim com tanta frequência. O medo acumula-se em mim, é certo, mas não posso continuar a usufruir de um amor que não é meu, nem usar o teu toque para acalmar os meus receios. Tenho que permitir-me libertar desses pensamentos e deixar que este amor adquira outra forma, outra cor, outra simbologia... qualquer conteúdo possível menos tu.