O Anjo

2 II - Angústia Negra


Ela tentou, durante horas a fio, descobrir alguma peculiaridade naquela alma fútil que ele, sem razão alguma, venerava. Percorreu com os dedos repletos de mágoa, infindáveis e descabidas fotos, tentando encontrar os resquícios de beleza que ele nela admirava. Encontrou, frequentemente, rasgos de vulgaridade latentes nas reduzidas peças de vestuário, na maquilhagem exacerbada e nos olhares ostentativos de uma falta de auto-preservação vísivel. Percorreu mais uma vez as palavras que lera naquela noite que lhe partira o coração. A sua alma calejada nunca fora de desistir facilmente e, sentia na profundidade do seu fragmentado íntimo, ser exequível encontrar um motivo que explicasse o que existia naquela sua ausência de venustidade que minguava na sua própria essência. Analisou cada poro de fealdade, recordou quase como se voltasse a ouvir, aqueles acordes melosos de uma voz que violenta os tímpanos de forma rude e quase agreste, deparou-se vezes sem conta com a exiguidade de um bom senso em todos os aspectos do vocábulo. No entanto, por mais que esquadrinhasse e desconstruísse aquela figura pouco carismática que o objecto dos seus afectos parecia preferir á sua privativa fragilizada e hesitante alma, todas as explicações pareciam-lhe quedar-se muito áquem de todas as teorias lógicas e plausíveis, afastando equações e justificações que acalentassem um coração repleto de perguntas sem resposta, escondido atrás de demasiadas mentiras e obsoletas verdades que de nada lhe serviriam. O seu pobre coração continuava partido e receoso de confiar novamente em palavras desprovidas de sentido e preferências irreais e absurdas, considerando a apatia de personalidade constante naquele estranho cerne. Por fim, vencida pelo cansaço físico mas sobretudo emocional, rendeu-se á angústia negra e profunda que lhe carcomia o interior na última semana ... Não encontrava um sentido para dar a esta forma de vida e, embalada pela fatiga de mais um dia de desconfianças, receios e dúvidas pouco absurdas, sussurrou ao coração que necessitava de tempo; sabendo perfeitamente que no dia seguinte recomeçaria tudo novamente.

Não sei deixar de amar, embora nunca ame aquilo que devo. Perco-me sempre por caminhos errantes — penso que a vida é feita de pequenos desencontros. Conseguirei amar o que me espera quando largar tudo o que me prende. Pudessem meus olhos tristes contar histórias... e conseguir explicar tudo o que eu tanto temo. Alturas há em que me perco um pouco, aí me ocorre que nada mais devo temer — a minha vida ainda está por escrever. Não quero que se acabe nunca, não ditarei o seu fim enquanto sentir que as minhas esperas não são em vão.

Guardei pedaços de amor entre os dedos, numa vã e inútil tentativa de entregar-te alguns destes mesmos fragmentos quando nos reencontrássemos. Escondi, no fundo da minha alma, sabendo que nenhum ser se lembraria de procurar dentro de mim, todos os sentimentos que as palavras não poderiam jamais descrever. Enxuguei, contrariada, na ausência das tuas mãos que me amparassem o rosto, lágrimas salgadas que se libertaram do meu interior sem o meu consentimento. Refugiei-me na minha solidão, atormentada constantemente por uma saudade arrasadora ,agarrando-me ás memórias que me consolam parcialmente, tentando suportar o passar de cada enervante segundo que estou longe dos teus braços, lugar que considero o encaixe perfeito para o meu coração; enquanto tento ignorar os sinais que se apresentam diante dos meus olhos. As minhas tentativas de reter o amor enclausurado nas minhas mãos revelaram-se infrutíferas e as tuas demonstrações de afecto cada vez mais escassas. Terminava os dias a duvidar incansavelmente do amor que clamavas guardar dentro de ti, á medida que o meu escapulia-se por entre os dedos de uma só mão. O cansaço foi tomando conta de mim até ao instante em que transpôs o nível físico e invadiu o foro emocional. Em fase quase terminal, saturada e esgotada psicologicamente, deixei escorrer uma última lágrima perante os teus olhos, abrindo, simultaneamente, a mão e deixando escapar os últimos pedaços do mesmo sentimento que me carcomia o ânimo, o coração e o peito...

Ande yo caliente

Y ríase la gente.

Traten otros del gobierno

Del mundo y sus monarquías,

Mientras gobiernum mis días

mantequillas y pan tierno...

Ande yo caliente...

– Luis de Gongóra

O registo de alguns momentos que me ficaram para a vida. É bom relembrar um passado ainda presente — apenas alguns meses depois, percebi que sentia saudade. Falharam-me as palavras, por alguns instantes, e quero acreditar que a sua ausência se deve ao amor que deixo transbordar do coração. Talvez diga tudo, não me atrevo a acrescentar nada. Não por hoje.

(Re) Escreve (-me) quando me encontrares, e não te esqueças de curar as feridas que trago no peito. Se os dias não me forem suaves, tenta trazer alguma serenidade à minha vida, que tão pouco iluminada se encontra. Vem, em breve. Custa-me respirar um ar que não é respirável, que não é sequer partilhado com ninguém. Não me deixes a sós com o mundo, sejas tu quem fores.

A saudade que me aperta e molesta o peito relembra-me constantemente o quão forte ainda bate o meu coração por ti. Penso que na profundidade do teu íntimo sempre soubeste da existência deste amor. Desde que tinha quinze anos e desnudamos os sentires sobre a sombra das árvores enquanto aprendiamos a ser seres humanos e a apaixonarmo-nos. Tentei demasiadas vezes deixar-te partir e encontrar alguém que me fizesse sentir da mesma maneira, mergulhada nesta intensidade de sentimentos avassaladores e incompreensíveis, mas não existe alma que me faça sentir da mesma maneira assolapada e igualmente assustadora. Estar junto a ti torna a minha alma mais leve — não só volto a sentir como se tivesse quinze anos novamente, mas também que nunca me sentirei tão feliz e completa como quando estou contigo. Ter-te-ia seguido sempre e para qualquer lugar e sabias perfeitamente disso mas só agora disseste-me que era o que desejavas. Tive medo ao ouvir essas palavras. Medo de quanto ainda te amo, medo de não seres a pessoa por quem estou apaixonada, medo que não me correspondas esse sentimento, medo que me voltes a magoar e principalmente, medo do que significaria tentar contigo. Gostava que pudéssemos regressar á sombra das árvores quando tinhamos quinze anos, que a vida não fosse tão complicada, que pudéssemos entregarmo-nos a um amor doce e devastador sem o receio dos últimos sete anos a nos assombrar o coração e os pensamentos. Foste real ou apenas uma fantasia da minha mente? Julgo que nunca saberei — e é disso que mais medo tenho.

Escolheste abandonar o conforto dos meus abraços, o teu lugar seguro nos meus braços no que penso ter sido uma decisão reflectida e demorada. Argumentaste com as frias palavras que até hoje recordo com o sabor agridoce da desilusão entranhado nos meus lábios. Quase juro que nunca pensaste ser possível ser abrigada por outro peito e no quanto essa visão seria dolorosa para o teu coração. Nunca equacionaste ser perfeitamente normal haver uma alma capaz de assumir o amor que sempre negaste... mas a verdade é que ele corresponde aos meus sentires. Não entendo, portanto, após a tua ponderada despedida, lamentares um coração perdido e despedaçado e chorares por te sentires desse modo quando escolheste sentir-te assim. Peço-te que reflictas e cesses as palavras quando a vontade de chorar irromper pelo teu peito porque não tens, de maneira alguma, o direito de chorares por mim. Deveria ser fácil para ti seguir em frente, esquecer o que fomos e o que eu senti por ti; o que fiz após o teu abandono deveria ser-te irrelevante. Seguiste o teu caminho, decidi seguir o meu sem olhar para trás. Estou cansada das tuas constantes investidas ao meu coração, aliás, tu foste o primeiro a desistir de nós e de tudo o que poderíamos ter sido. De cada vez que a tua presença se impõe na minha vida, tudo torna-se muito mais complicado. Deixei-te partir porque era o teu desejo, apenas deixei de esperar por ti porque era o que tu querias... que te deixasse ir. Por isso mesmo, imploro-te: permite-me seguir em frente, sem as tuas palavras, sem os teus remorsos, sem os teus lamentos sem fim. Afinal, quem acredita ainda em meias verdades e palavras que nunca se concretizam em ações? Já há muito que deixei de acreditar em ti e sobretudo, em nós. Não tens, de todo, o direito de chorar por mim...